SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Reconstruir uma razão crítica

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O ano mal começou e o tempo continua voando. Coisas da vida. Olho pela sacada a correria na cidade e fico pensativo: “pra onde vai essa porra toda?”. Não tem como saber com exatidão. Não dá pra prever o limite e as consequências da ofensiva autoritária e conservadora que toma conta do país. Parece haver um movimento global nessa direção. Num piscar de olhos, penso o quanto tenho sorte por ter conseguido criar um conjunto de relações com pessoas que me mostram, no cotidiano, todas as bonitezas da vida.

Quando volto a pensar no que está em jogo hoje, por vezes me vêm à cabeça a questão da “razão” nos conflitos políticos, sociais e morais. Será que viramos bestas irracionais? Se é fato que convivemos dia após dia com os problemas que nos afetam, desde a deterioração aprofundada da natureza, até múltiplas violências, opressões e desigualdades, cabe perguntar por qual motivo não usamos a razão para deixar as coisas melhores? Por que o projeto das sociedades organizadas racionalmente segue em crise e, para alguns, beira ao inevitável colapso? Como alguém pode justificar a barbárie com um pretenso uso da razão?

Na Filosofia e nas Ciências Sociais, coexistem distintos caminhos para discutir esse tema. Noutros textos percorri alguns deles¹. Em geral, existem os apologistas da razão a qualquer custo. Existem outros que a desconstroem sem piedade. E têm os que tentam reconstruir as reflexões sobre a razão com uma abordagem crítica e pluralista. Por aí, uma linha que me instiga vê a razão em duas dimensões: a razão objetiva e a razão subjetiva. A razão objetiva se manifesta de duas maneiras. A primeira está presente como uma estrutura que coordena a vida das pessoas em relação a um fim último definido de modo racional. A segunda se reflete no pensamento enquanto forma de compreensão dessa estrutura que atua na realidade. Já a razão subjetiva é simplesmente uma função de coordenação entre meios e fins. Os fins são definidos pela razão objetiva, e a potencial junção das duas dimensões completaria a ideia de “razão”.

Quase um profeta, Max Horkheimer, filósofo do movimento conhecido como Escola de Frankfurt, propõe ambas as categorias numa obra cada vez mais atual, publicada em 1947, no calor do final da Segunda Guerra². “O eclipse da razão” parte da premissa de que o triunfo das modernas sociedades capitalistas (e sua dominação de classe, colonialista e patriarcal) fez com que a razão subjetiva tomasse conta da razão objetiva. Com isso, a razão teria se transformado em mero instrumento, somente um mecanismo de seleção de meios eficientes para determinados fins relativos aos interesses dos indivíduos.

Isso significa que teríamos perdido a capacidade coletiva de buscar um fim último, cujos horizontes fossem refletidos e pensados crítica e racionalmente. Nessas sociedades, a razão passa a ser entendida pelas pessoas como um operador prático relacionado aos seus interesses particulares, reificando a si mesma a tal ponto que ela pode vir a expressar apenas a autopreservação do indivíduo. A supremacia exclusiva da razão subjetiva teria aberto as portas ao nazifascismo e demarcado a crueldade extrema e o genocídio racista no contexto de uma civilização que pregava a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

Quando penso no que vai dar essa porra toda, ao contrário de desconstruir a razão, namorar a irracionalidade ou sobrevalorizar a experiência por si só, penso que um dos pontos importantes para entender os nossos tempos passa por reconstruir o sentido da razão e como ele se atualiza nas relações sociais. Para isso, abrir o debate a perspectivas que ultrapassem a tradição ocidental pode ser um bom começo, caminhando para uma racionalidade mais “cosmopolita”. Aliás, a razão precisa ter um caráter crítico, no intuito de fomentar a qualidade cívica do debate público e democrático sobre o bem-estar coletivo e a liberdade, fundado em argumentos, razões e motivos.

O problema, diria o sábio, é combinar tudo isso com o outro time. A conclusão mais perigosa acerca de uma sociedade cujos membros agem conforme uma racionalidade que só opera distinguindo meios e fins pessoais, num espaço social marcado pela violência e pelas desigualdades, acaba apontando para uma escalada da barbárie. Podemos chamar também de uma escalada do autoritarismo e da opressão. Os cínicos, por sua vez, poderão chamar de “A escalada do homem de bem” ou “A escalada dos homens de bens”. Faria pouca diferença.

Notas 

¹ Uma das “lentes” que acredito promissora para pensar a atualidade encontra-se na articulação teórica de Jessé Souza, unindo a teoria das lutas simbólicas (Pierre Bourdieu) com uma hermenêutica da moralidade moderna (Charles Taylor). 

² O livro “O eclipse da razão” (1947) se situa entre dois outros textos de Horkheimer sobre o mesmo assunto. “O fim da razão” (1941) ensaia a noção de que a razão vai se tornando um mero instrumento de coordenação entre meios e fins pessoais, até que não haja mais lugar para a razão, a não ser a autoconservação individual. Depois, o autor supera essa abordagem com a tipologia da dupla dimensão: razão objetiva e razão subjetiva. Em “Dialética do esclarecimento” (1947), Horkheimer e Theodor W. Adorno avançam nesse debate, chegando ao conceito de “razão instrumental”.

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sábado, 24 de dezembro de 2016

Michael Sandel e a sociedade de mercado

Estaríamos passando de uma economia de mercado a uma sociedade de mercado?

Frase de Sérgio Vaz

A apologia irreflexiva da economia de mercado pode estar nos transformando em sociedades de mercado. Não apenas a produção e circulação de bens materiais, mas praticamente todas as relações nas sociedades humanas podem se tornar relações de compra e venda. Em sociedades muito desiguais, ricos e pobres, pessoas de diferentes origens sociais e estilos de vida podem passar a ter cada vez menos espaços de compartilhamento de experiências. Perde o ideal democrático, pois se não tivermos mais espaços de convivência e negociação das nossas diferenças, o caminho fica livre para o ódio e a intolerância. Essas provocações de Michael Sandel (veja o vídeo no TED), filósofo e professor de Harvard, ajudam a nos fazer pensar no caminho que estamos trilhando enquanto civilização humana. Quem sabe a gente não faz diferente?

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

"Estadofobia" x "Estadolatria"

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A “Estadofobia” de boa parte dos governantes atuais e dos meios de comunicação de massa, na verdade, esconde uma “Estadolatria” indiscutível. O mantra de reduzir e reduzir e reduzir o Estado, a qualquer preço, mascara uma visão de Estado que, na prática, prevê um Estado bastante forte e atuante.

Ora, os governos atuais pretendem reduzir o lado mais “democrático” do Estado, o seu “braço esquerdo”. Ciência, educação, saúde, cultura, meio ambiente e outras pautas que foram incorporadas pelo poder público através de muita luta popular, sobretudo durante o século XX, na busca por expandir para toda a população os serviços básicos que conformam a dignidade humana, passam a ser descartáveis e direcionadas para o mercado - e, portanto, acessíveis para quem puder pagar.

Por outro lado, o monopólio da violência física, dos instrumentos de “justiça” e da máquina administrativa responsável por recolher os tributos da população, em geral, pouco ou nada entram no debate. De fato, por vezes, policiais também acabam pagando o pato da austeridade-para-alguns, tão na moda neste mar de lama chamado 2016. Ainda assim, repressão pesada, vigilância e coerção não correm riscos quando chega a tesoura do pessoal da teoria econômica ortodoxa. Auxílio-moradia a juízes, privilégios de desembargadores, isenções fiscais às grandes corporações, enfim, nada disso importa.

Forja-se uma “Estadofobia” para alguns, ou melhor, para as funções que ajudam a ampliar os horizontes da sociedade, ajudam a estimular a emancipação humana, e uma “Estadolatria” para a regulação e o controle, para o embrutecimento e a segurança das grandes propriedades. Nessa toada, a “Estadofobia”, por incrível que pareça, sequer propõe a garantia legal e real de direitos individuais contra o poder do Estado. Segue o Estado controlando o casamento das pessoas, as substâncias que elas utilizam, suas gestações e, não é de se duvidar para o futuro-presente próximo, o que as pessoas pensam e falam.

A “Estadofobia” de hoje fomenta o inverso daquilo que poderia equilibrar as oportunidades de uma vida digna, considerando o complicado contexto das modernas sociedades capitalistas. Em vez de (a) garantir as liberdades individuais, retirando-se de um jogo que não é seu (b) regular os conflitos entre capital e trabalho, dando suporte para a imensa massa de trabalhadores não ficar a mercê somente dos interesses das oligarquias e grandes corporações (c) incentivando a ciência, o micro, o pequeno e o médio empreendedor, a cultura, o cooperativismo, projetos sustentáveis e educação e saúde para todos, é exatamente o oposto que vira a “solução mágica” a ser aplicada goela abaixo.

Desse jeito, logo estaremos diante de uma “Estadolatria” às avessas dos ideais democráticos, pelo menos os mais utópicos: um Estado cada vez mais regulador, controlador, vigilante, repressor e cobrador de impostos. O resto o mercado absorverá e quem não puder pagar que se vire. A democracia, sobrevivendo por aparelhos, parece só precisar de um empurrão para ir às cucuias de uma vez por todas, em pleno século XXI.

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sábado, 3 de dezembro de 2016

Contra a corrupção

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O atual sistema político apanha de todos os lados. Desde o impeachment-golpe, a esquerda tem tomado as ruas. Em todos os atos que estive presente, deu pra notar, no mínimo, uma diferença entre aqueles que pedem a volta do PT e os defensores de eleições gerais imediatas. Mais recentemente, a possibilidade de congelamento dos gastos da União por duas décadas abrandou as diferenças.

Hoje, o sistema político está em frangalhos. No próximo domingo, os movimentos que canalizaram as ruas contra o PT, meses atrás, estarão nas ruas outra vez. Mesmo com notícias de divergências entre os grupos organizadores, são esperadas milhares e milhares de pessoas nas manifestações. 

O mote dos protestos de domingo é a corrupção. Cresci vendo a esquerda dar porrada na corrupção. Hoje, contudo, em função de mil fatores, a pauta de combate à corrupção é entendida por parte da esquerda como subterfúgio da direita fascista para encher as ruas e defender suas bizarrices ultraconservadoras. Isso não deixa de ser verdade, mas aí parece residir uma armadilha complicada, algo que pode ajudar a explicar a dificuldade da esquerda em dialogar com a população em geral.

Ora, se está surgindo a brecha para desestabilizar de uma vez por todas um sistema político que não dá nenhum sinal de garantir os direitos e trabalhar para melhorar a vida da maioria dos brasileiros, não seria a hora de participar (à esquerda, por óbvio) da panela de pressão? Não se abre uma chance interessante para buscar barrar a PEC 55 e as anomalias do governo do RS, por exemplo? Tática e estratégia não seriam as palavras da vez?

Não tenho respostas e tampouco sou linha de frente no engajamento político. Entretanto, a melancolia que se abateu sobre muitos de nós parece um grave estado paralisante, bem como o reforço ao imaginário de que o PT ainda é a força motriz da esquerda - mesmo que todos os dias a prática desminta a "imagem". Fica difícil defender o PT e criticar a corrupção, nesse momento.

É claro que não é simples somar pautas de direitos e mais democracia em atos tomados por pedidos de intervenção militar e selfies com as forças de repressão. Mas o que não se pode perder de vista é que o mote da corrupção mobiliza muitos "cidadãos médios", que não necessariamente se alinham com a direita*. Há uma multidão insatisfeita, e o pior dos cenários é ver essa massa guiada somente pelos movimentos autoritários e ignóbeis. Se os que estão pela redução das desigualdades e pelos direitos democráticos não encontrarem uma via de aproximação com essa insatisfação, tudo indica que o futuro próximo nos reservará mais desigualdade e autoritarismo.

* Uma pesquisa em São Paulo mostrou questões relevantes sobre valores e concepções políticas da população em geral. Vale uma olhada atenta: http://gpopai.usp.br/pesquisa/relatorio.html

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Dos escombros

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Tragédias têm o potencial de despertar sentimentos. Solidariedade, consternação e empatia são bons exemplos. Ocorre que na "sociedade do espetáculo", no espírito acelerado dos dias atuais, isso passa muito rápido. Tão rápido que, por vezes, os sentimentos de comunhão e construção nem saem de um estado embrionário.

Vai vendo... Tragédias poderiam nos lembrar que o serviço público atende aos mais necessitados, e que, portanto, não podemos arbitrariamente congelar o orçamento da União por duas décadas e não faz sentido algum culpar os servidores pelas mazelas do país; poderiam nos lembrar que a corrupção deve ser combatida e que o Parlamento serve para negociar os diferentes interesses dos diferentes grupos sociais, não para legislar em causa própria; que a Justiça deve fazer justiça, não vingança, e que um Estado com um Judiciário intocável e superpoderoso arrebenta com a democracia e os direitos individuais. 

Horas depois da tragédia, a vida parece seguir o curso do ódio e da capacidade de fazer daquilo que a tragédia poderia despertar (empatia e solidariedade) apenas mais um suspiro de utopia num horizonte distópico. Seja com o dirigente de futebol falando merda, com parte de torcidas ironizando a morte do ídolo rival (salve Fernandão!), com o político que tira o seu da reta, o magistrado que ameaça ou o simples internauta que queria ver o petista ou o tucano dentro de um avião em pedaços.

No entanto, ainda assim, o suspiro da utopia, que a tragédia pode fazer atravessar as nossas sombras, ajuda a lembrar que nem tudo tá perdido. Dos escombros algo distinto pode ganhar vida. O que vai emergir desse Brasil em convulsão parece estar em aberto. Só não dá pra ser uma besta ainda mais autoritária e desigual.

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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Artigo: Capital cultural e desempenho escolar no Brasil a partir do Saeb 2003

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

http://www.hrpub.org/journals/article_info.php?aid=5261

Venho argumentando faz algum tempo que uma parte importante dos problemas da educação passa pela socialização dos jovens fora da escola. É um pouco do que está presente no artigo em anexo (clique na imagem acima para acessar), que publiquei esse mês, no Universal Journal of Educational Research. Como está em inglês e, em geral, trabalhos científicos são lidos por poucas pessoas, abaixo faço um breve resumo do estudo e dos argumentos.

O artigo é decorrência da minha dissertação de Mestrado Acadêmico. A discussão gira em torno dos recursos culturais acessados pelos estudantes e o impacto deles no desempenho escolar. Trabalhei com uma base de dados acerca de estudantes do 3º ano do Ensino Médio, em todo o Brasil, no ano de 2003. Através do uso da estatística, foi possível mensurar a influência de diferentes elementos no desempenho acadêmico dos educandos brasileiros. 

Em suma, cabe dizer que os jovens que tendem a conseguir altos rendimentos escolares têm acesso a bens culturais como livros, possuem hábitos culturais como a frequência ao cinema e uma família com escolaridade elevada. Eles se situam numa classe social em que não precisam trabalhar enquanto estudam e têm acesso a bens duráveis relativamente escassos. Ter a cor da pele branca ou estudar em escolas particulares ou federais remete a outros aspectos que possuem impacto relevante nas notas.

Alguém pode perguntar: e todos os aspectos pedagógicos, escolares, emocionais e etc., não são levados em consideração? E tudo aquilo que a estatística não dá conta? As avaliações educacionais em larga escala não são problemáticas? Sem dúvidas, essas são questões muito importantes. Ocorre que, num trabalho de pesquisa sociológica, é preciso “recortar” a realidade e analisar alguns pontos dela. A abordagem quantitativa não dá conta das relações no nível das motivações e subjetividades. Ela nos ajuda a entender regularidades e tendências. Nesse caso, foi o objetivo que me propus a cumprir - com todas as limitações inerentes.

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