SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 11

América do Sul, Brasil,
PÁGINA INICIAL LEIA ANTES! SOBRE O EDITOR TEXTOS DO EDITOR BIBLIOTECA MATERIAIS DE AULAS

domingo, 7 de abril de 2019

Neoliberalismo e a nova razão do mundo


Por Felipe Queiroz
Ciência Política Unicamp

Publicado originalmente na França em 2009, logo após a eclosão da crise financeira global, A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (Dardot; Laval, 2016) apresenta uma profunda análise do neoliberalismo, mostrando como ele constitui, muito além de uma doutrina econômica ou ideologia, uma nova racionalidade de mundo, que estrutura e organiza tanto as ações dos governantes como a própria conduta dos governados. A obra faz uma genealogia do neoliberalismo para mostrar, por um lado, que ele não é uma simples continuidade do liberalismo clássico do século XVIII, do mesmo modo que não é seu extravio nem sua negação, e, por outro lado, para problematizá-lo a partir de suas vertentes e disputas internas, mostrando como ele passou de uma doutrina econômica para um “sistema normativo que ampliou sua influência ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida” (Dardot; Laval, 2016, p. 7). Nesse sentido, a obra busca fornecer subsídios à crítica ao neoliberalismo, na medida em que desfaz consensos e equívocos em torno dele.

A nova razão do mundo é o segundo livro publicado em conjunto pelos autores e resulta das investigações desenvolvidas no grupo de estudos e pesquisa que coordenam Question Marx. O primeiro livro derivado dos seminários Question Marx, Sauver Marx? Empire, multitude, travail immatériel (2007), faz uma crítica ao pensamento de alguns pós-marxistas, entre eles Michael Hardt e Antonio Negri, que entendem ser a autossuperação do capitalismo o resultado de suas próprias contradições internas e acatam a crença progressista segundo a qual todo passo dado pelo capitalismo é um avanço em direção ao momento de sua autossuperação. A nova razão do mundo se apresenta como continuidade dessa investigação, apontando como e porque “ainda não terminamos com o neoliberalismo”, quando muitos autores, no ápice da crise financeira internacional, como Joseph Stiglitz, anunciavam seu fim.

O livro está dividido basicamente em duas grandes partes: A refundação intelectual e A nova racionalidade. A primeira parte é, em certo sentido, uma tentativa de retomar o debate aberto por Michel Foucault nos cursos do Collège de France de 1977-1978 e 1978-1979, expostos respectivamente nos livros Segurança, Território, População e O nascimento da biopolítica, apontando como se forma o neoliberalismo, como nova racionalidade do capitalismo contemporâneo. O ponto de partida da investigação dos autores é a crise do liberalismo, ou crise da governamentalidade liberal, nos termos de Michel Foucault, que dura entre 1880 e 1930. O objetivo é mostrar que o neoliberalismo não é uma simples continuidade das ideias liberais, mas, antes, marca um rompimento com a versão dogmática do liberalismo, que via no laissez-faire uma verdade inalienável. Enquanto o liberalismo clássico passava por uma profunda crise, a Revolução Russa, o avanço do socialismo e a disseminação das ideias de esquerda por toda Europa ameaçavam os liberais, impondo-lhes a necessidade de reformulação teórica do liberalismo. É nessa conjuntura de crise política, econômica e teórica que surge a principal tentativa de refundação do liberalismo: o Colóquio Walter Lippmann, em 1938. A partir do Colóquio, duas grandes correntes de pensamento neoliberal surgirão: a corrente austro-americana, representada por Friedrich A. Hayek e Ludwig von Mises, e a corrente ordoliberal alemã, cujos principais expoentes foram Walter Eucken e Wilhelm Röpke.

.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Os livros resistem

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Talvez o meu objeto preferido seja o livro. Todos temos objetos que amamos. Uns amam seu telefone. Outros, suas roupas. Alguns amam raquetes, bolas, pranchas. Entre outras poucas coisas, gosto muito de livros.

O Brasil é ruim pra quem gosta de livros. Vários são caros. Duas das maiores redes de livrarias do país pedem socorro judicial, nesses tempos de armas e ódios. Grandes e pequenas editoras balançam. E a nação que só costuma "ler" best-seller, autoajuda ou "gurus fanáticos" não parece se importar muito.

A leitura é fundamental na minha vida. Embora desconfie que se esteja lendo muito pouco, até nas universidades, digo aos meus alunos que os livros são como janelas que podemos abrir e enxergar o mundo e nossa relação com ele. Abrindo essas janelas, podemos conhecer mais, podemos nos emocionar, embravecer, estimular e, sim, sonhar e agir.

Livros, em geral, são mercadorias. Assim, estão envoltos em relações de poder. As ofertas dependem das demandas. Em dias sombrios, censuras de todos os tipos costumam se abater sobre muitos deles. Diversos já foram queimados aos berros ensandecidos de pessoas que nunca sequer os leram. Nesses ocasos da História, os livros mais perniciosos costumam ser aqueles que revelam, denunciam e mobilizam contra a tirania, a injustiça e as dominações.

São esses os mais belos livros. Esses e aqueles que contam histórias que nos fazem entender ou romper nossos próprios desejos, que nos afetam e nos fazem compartilhar afetos. Que nos fazem rir e chorar. Penso que resistir à barbárie também é fomentar pequenas editoras e livrarias. Fomentar a troca e o empréstimo de livros significativos. Espalhar livros e utopias. Quem puder, que o faça - pois bem sabemos que os armamentistas, no fundo, temem as palavras.
.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Norbert Elias e o processo civilizador


O intelectual alemão Norbert Elias (saiba mais) transita por diversas áreas das ciências humanas e sociais. Pelo menos na história e na sociologia, seu espaço está garantido como um dos principais pensadores do século 20. Muitas das suas obras marcaram o pensamento social contemporâneo, mas foram, sobretudo, os dois volumes denominados “O processo civilizador” que deram um destaque bastante abrangente ao autor. Abaixo encontra-se uma resenha Norbert Elias [Imagem retirada do sítio http://politikon.fr/wp-content/uploads/2012/12/norbert-elias.jpg]sobre o primeiro dos dois livros, cuja elaboração foi realizada em conjunto por Bernardo Caprara e Janine Prandini Silveira.
.
Nem sempre garfos foram utilizados à mesa na sociedade ocidental. O lenço difundiu-se com vasta abrangência pelos estratos da sociedade somente por volta do século XVIII. Até então, como os indivíduos faziam para limpar bocas e narizes? E como eram suas condutas à mesa? Dessas e outras questões aparentemente irrelevantes, o sociólogo alemão Norbert Elias consegue extrair sentido ao abordá-las sob um enfoque analítico longitudinal, isto é, procurando o sentido das minúcias dos hábitos cotidianos da civilização ocidental no curso da história. O problema de que trata Elias em “O processo civilizador”, cuja primeira edição data de 1939, parte da percepção de que os indivíduos ocidentais nem sempre se comportaram da maneira que chamamos de “civilizada”. Por que aconteceu essa transformação nas condutas dos seres humanos? O que versa esse tal processo civilizador? Como ele acontece? Nesse livro, Elias nos fornece algumas respostas a essas questões.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A apologia e as formigas

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há alguns dias, algumas pessoas têm me dito que o problema maior do Brasil é a “apologia” da homossexualidade, do feminismo e da divisão da sociedade em “raças”.

Há alguns dias, formou-se uma rota de formigas, no pátio de casa. Lá vão elas, sem parar, pra lá e pra cá, organizadamente, carregando pedaços de folhas e flores enormes para o seu tamanho.

Apologia é um discurso que defende, justifica ou elogia alguma coisa. Os dois exemplos recorrentes do tal problema principal do país falavam sobre as manifestações em público de amor e carinho de pessoas do mesmo sexo e da liberdade corporal das mulheres.

Ora, essas pessoas não se importavam nem um pouco, quando perguntadas, a respeito da “apologia” da matança, da tortura e do autoritarismo, tão presente nos últimos tempos. Para isso, elas diziam: “é da boca pra fora, são brincadeiras”.

Quer dizer, então, que o amor e o carinho, a liberdade e autonomia das minas pra lidar com seu próprio corpo, a defesa e o elogio da cultura e da história negra, tudo isso são problemas sociais graves – mas a defesa e o elogio da morte de opositores e da violência como plataforma política são apenas bravatas engraçadinhas?

Acho que o vaivém das formigas, sobre o solo árido e pedregoso, de aparência tão insignificante, soa bem pedagógico: a tarefa é pesada, mas só com organização, disposição e persistência será possível cumpri-la.

Passo a passo, levando a semente para desarmar o ódio e construir uma sociedade que se paute pela comunhão, pela solidariedade, pela pluralidade, pela liberdade e igualdade para todos.

.

domingo, 18 de novembro de 2018

Norbert Elias e a sociedade dos indivíduos


Toda sociedade grande e complexa tem, na verdade, duas qualidades: é muito firme e muito elástica. Em seu interior, constamente se abre um espaço para as decisões individuais. Apresentam-se oportunidades que podem ser aproveitadas ou perdidas. Aparecem encruzilhadas em que as pessoas têm de fazer escolhas, e de suas escolhas, conforme sua posição social, pode depender seu destino pessoal imediato, ou o de uma família inteira, ou ainda, em certas situações, de nações inteiras ou de grupos dentro delas. Pode depender de suas escolhas que a resolução completa das tensões existentes ocorra na geração atual ou somente na seguinte. Delas pode depender a determinação de qual das pessoas ou grupos em confronto, dentro de um sistema particular de tensões, se tornará o executor das transformações para as quais as tensões estão impelindo, e de que lado e em que lugar se localizarão os centros das novas formas de integração rumo às quais se deslocam as mais antigas, em virtude, sempre, de suas tensões. Mas as oportunidades entre as quais a pessoa assim se vê forçada a optar não são, em si mesmas, criadas por essa pessoa. São prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua sociedade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela. E, seja qual for a oportunidade que ela aproveite, seu ato se entremeará com os de outras pessoas; desencadeará outras sequências de ações, cuja direção e resultado provisório não dependerão desse indivíduo, mas da distribuição do poder e da estrutura das tensões em toda essa rede humana móvel.
.
REFERÊNCIA
.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. Página 48.
.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Desamparados e febris

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um das coisas que fico pensando, agora que o ovo da serpente está eclodindo, é no gigantesco desamparo em que nos encontramos enquanto sociedade. Como parar de agir não é possível, agimos desamparados

Tirando quem legitima e/ou procura justificar assassinatos de opositores políticos, espancamento de homossexuais, mulheres e negros, que não me parece ser a maioria, muitos se sentem perdidos, desamparados, revoltados. Como ajudar para que esses não acabem nadando no esgoto do fascismo?

Pensando rápido com a psicanálise, nossas ações podem se orientar por uma “demanda” ou pelo “desejo”. Uma ação orientada por uma demanda tem o desamparo como ponto de chegada, porque procura no outro um reconhecimento, um amparo narcísico. Só que o outro pode sempre dar de ombros para a nossa demanda, o desamparo prosseguir, e a busca também.

A ação orientada pelo desejo tem o desamparo como ponto de partida. Percebendo o desamparo, os desejos recalcados no inconsciente nos movem, orientam os impulsos para a ação. Agimos e nem pensamos “por que faço isso?!”.

No cruzamento do desamparo como ponto de chegada e partida, tudo aquilo que a sociologia crítica vem dizendo há tempos sai do armário de muita gente. A verdade é que as condições de possibilidade do fascismo permaneceram por aí, década após década, brotando em meio a uma sociedade em que tudo seguia mercantilizado e a maioria excluída e humilhada.

Aí, a demanda por ser reconhecido pelo outro explode em adesão ao homem bruto e autoritário, quase num efeito manada, perfeitamente adequado a uma sociedade que nunca pagou suas contas com seus múltiplos passados e presentes de opressão.

Aí, o desejo recalcado no inconsciente, condicionado por violências diversas, humilhações, vergonhas e impotências, explode no agir desejoso de escolher um caminho perverso, um caminho que replique e multiplique as próprias mazelas num espelho sombrio.

Não acho que tenhamos 50 milhões de fascistas no Brasil. Então parece claro que há uma verdadeira máquina de guerrilha simbólica invadindo nossos desamparos e acessando nossas demandas e desejos mais escondidos, manipulando nossas pulsões de destruição.

Numa das sociedades mais violentas e desiguais do mundo, é urgente conseguir acessar o desamparo em nós mesmos e no vizinho, no colega de aula, no parceiro de trampo.

Para diminuir os efeitos da longa noite que se avizinha, vamos precisar, numa espécie de contra-máquina simbólica, tocar na nossa subjetividade mais íntima, em demandas e desejos que nos façam agir pela comunhão, pela igualdade, pela liberdade e pelo respeito.

.