SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 7

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 20 de março de 2015

Conto da esperança

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O ódio e a intolerância andam firmes por aí. Sentimentos sombrios. Mas eles não precisam perseverar. Naquele dia, eles perderam espaço para a esperança e a alegria. Era carnaval. Nos blocos do Rio de Janeiro, lotados de amizade, azaração e euforia, o ódio e a intolerância tentavam ganhar espaço.

Um Japa com sotaque e procedência dos pampas se divertia com algumas amigas cariocas e os demais parceiros gaúchos. Ele já havia evitado duas confusões. Queria ser feliz, não brigar. Na paz, seguiram para um bar na Gávea. Cerveja vai, cerveja vem, ele notou olhares enviesados de um sujeito bastante grande. Daqueles sujeitos que costumam ser chamados de Marreta, Muralha ou Montanha. Montanha, para os íntimos.

O Japa seguia na boa. Esperto, sentia o coração bater mais forte. Montanha se aproximava. Não parecia afeito a muitos amigos gaúchos. Montanha chegou, ali ao seu lado.

- Aí, vacilão?! Tô vendo que tu tá tirando alta onda nessa porra, mermão! Qual foi?!?!

O Japonês gaúcho gelou. Era a terceira confusão que se apresentava. Ele já não suportava mais. Estava no seu limite.

- Bah, cara. Foi mal. Eu não vou brigar. Tu é gigante, muito forte, tu vai me esmagar. Eu não vou brigar. Se tu quiser, pode me bater. Não vou reagir. Tô aqui serenão, curtindo com as gurias e com a gurizada. Pode me bater.

Montanha recuou, meio perplexo. Desistiu do massacre. O Japa dos pampas sorriu aliviado. Não queria confusão.

Quase uma hora depois, o clima era de tranquilidade. Até que outro rapaz, daqueles tipos que se acreditam malandros, mas são apenas uns manés, chegou perto do Japonês na fila do banheiro. O Japa suspirou. Chega. Dessa vez ia brigar. Foda-se. Ergueu a cabeça para ouvir o Mané.

- Aí, gaúcho arrombado?! Qual foi?! Tá me zoando?!

O Japonês enfrentou e chutou o balde.

- Zoando é o caralho, meu! Vai te foder!

No ínterim entre o pau começar a comer e a esperança evitar o ódio, Montanha tomou a cena outra vez. O Japa tremeu. Montanha olhou para o Mané e deu números finais ao confronto:

- Porra, brother... A parada é a seguinte: o gaúcho não briga. Ele tá na paz. Vaza. Você quer brigar. Eu também. Vamos brigar eu e você!

De cabeça baixa, o Mané caiu fora. Dali por diante, Montanha e Japa beberam juntos, sorriram e curtiram a noite numa boa.

Por vezes, seja assustadora, alta ou longínqua, agir com humildade pode fazer da montanha algo acessível. E afastar o ódio e a intolerância. Há esperança.

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segunda-feira, 16 de março de 2015

Por mais democracia

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sobre os protestos de ontem: dirijo-me aos amigos e conhecidos que exerceram o seu direito democrático de criticar o governo, a corrupção e até pedir a saída da presidente eleita há poucos meses. Ponto para a democracia. Manifestar-se é legítimo.

Porém, peço licença para compartilhar convosco uma preocupação. Vocês dividiram espaço com coisas muito bizarras e lamentáveis, coisas que vocês certamente não concordam. Nos seus próximos atos, não caiam na armadilha de defender ditaduras militares, o machismo, a homofobia, o racismo, o ódio ou a agressão ao seu semelhante de camisa vermelha.

Não caiam na armadilha de acreditar que vivemos numa ditadura comunista/esquerdista, com um liberal ortodoxo no Ministério da Fazenda; com eleições financiadas por empreiteiras e construtoras capitalistas; com um atuante imaginário meritocrático, individualista e apologista da competição feroz; com tantos direitos trabalhistas desrespeitados diuturnamente em prol do enriquecimento de uns cada vez mais poucos cidadãos; com uma mídia hegemônica reacionária e cheia de contas secretas na Suíça. Não, definitivamente o Brasil não vive uma ditadura comunista/esquerdista.

Leiam Paulo Freire, não arrotem seu nome por aí. Ele é um dos intelectuais brasileiros mais respeitados no campo da educação em todo o planeta, sobretudo nos países que vocês mais admiram. É só verificar. Buscar conhecimento e informação. Não repitam que a educação brasileira é dominada pelo marxismo, pelo gayzismo ou qualquer ismo considerado de esquerda. Ela não é. Muito pelo contrário, a educação formal brasileira reproduz o arbitrário cultural dominante, na sua maioria. Um ideário do ter, não do ser; do eu, não do nós; da vitória contra a derrota.

Desculpem os meus receios e medos postos a público. É que eu não gostaria de vê-los bradando ao lado de fascistas de qualquer estirpe. Lotem as ruas. Preparem-se bem e critiquem o PT por aquilo que ele deve ser criticado. Por Belo Monte. Pela corrupção endêmica que o partido hoje faz parte. Pelo prosseguimento das políticas de drogas e segurança pública autoritárias em vários aspectos. Por se aliar com partidos escrotos como o PP e o PMDB. Enfim, pautas não vos faltam e faltarão.

Não se unam aos que desprezam a democracia. Usem o seu direito democrático de manifestação para aprofundar a democracia, não ajudar a corroê-la. Eu não estarei lá, mas espero que esteja vivendo, trabalhando, dialogando, tomando uma cerveja e abraçando vocês como sempre, dispostos que estaremos a achar um caminho negociado para as nossas diferenças.

Por fim, quero deixar claro: o meu campo político não é o que estava nas ruas ontem. De certo, cada vez menos tem a ver com o PT. O meu campo político eu não sei definir, mas ele pauta-se pela busca da redução da concentração de riquezas, pelo fim das opressões, pelo exercício profundo da democracia e dos direitos humanos, pelo fomento de políticas sociais contundentes e de várias coisas que provavelmente seriam escorraçadas das ruas por alguns no dia de ontem. Espero que vocês não venham a estar entre eles.

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terça-feira, 10 de março de 2015

Novas gentes

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Como professor, um email de um estudante pedindo ajuda para estudar temas sociológicos.

Como estudante, uma cadeira iniciada com horizontes de boas interações e muito aprendizado.

Coisas que me fazem pensar que a educação formal pode deixar de ser, na sua maioria, um depósito de gentes ou uma fábrica de certificados.

Sem ser panaceia, o remédio para todos os problemas humanos. Longe disso. Apenas, quem sabe, sendo uma das raízes para o crescimento de novas gentes. Novas gentes que se compreendam melhor. Novas gentes que compreendam melhor o mundo em que vivem.

Hoje, o caminho é longo. Hoje, sonhar é preciso.

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terça-feira, 3 de março de 2015

O governo e o tiro no pé

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O governo enredou-se nas próprias escolhas. A opção pelo ajuste fiscal, cujo foco bate mais nos de baixo, considerando a hierarquia da sociedade brasileira, funciona como um tiro no pé. Tanto no âmbito discursivo, quanto na esfera da política institucional.

Nas eleições, defendi que os projetos do PSDB e do PT eram muito semelhantes. Como semelhantes, havia diferenças. Ainda acho que elas existem, mas parece que o governo faz questão de fazê-las desaparecer. Apostei que aquele era o momento de o governo e o PT enfrentarem o que há de pior no país. Ledo engano. Equívoco sério. Não enfrentaram. Perderam, talvez, a última chance.

O atual Ministro da Fazenda faz exatamente o que pedia a oposição e o que o governo dizia que não deveria ser feito. O “engraçado” é que o governo, agora, apanha da oposição por fazer o que a oposição dizia para ser feito. Sem falar naqueles que batem em qualquer governo, somente por ser governo. Ou naqueles que só consideram problema a corrupção. É o ônus de ser governo. Nada anormal.

Como sempre, sofrem mais os mais de baixo. Sofrem os que dependem dos serviços públicos, cada vez com menos recursos, em função da escolha por fazer bastante caixa para pagar os juros da dívida pública (superávit primário). Isso torna cada vez mais difícil apoiar o governo. Ainda considero o impeachment fora de contexto, mas os governistas precisam ficar espertos. O aumento dos custos na vida das pessoas e a redução dos recursos em serviços públicos fundamentais afetam diretamente o cotidiano social. A oposição tenta se fazer passar por uma alternativa, pela solução dos problemas. Convenhamos, a experiência dos seus governos (FHC, décadas em São Paulo e etc.) mostra que não é solução pra coisa alguma.

Detalhe: nada justifica o apoio ao crescimento dos valores e discursos conservadores, que surfam na onda da revolta nacional, sobretudo ancorados na corrupção endêmica da Petrobras – endêmica mesmo, vigente desde a sua fundação, provavelmente. Intolerância, ódio, linchamentos, racismo, homofobia, misoginia e todas as suas variantes fascistas não configuram oposição ao governo, mas, sim, oposição a qualquer tentativa de fazer da democracia algo real. Aí não dá pra querer.

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

“Guernica”, de Pablo Picasso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Guernica”, de Pablo Picasso, pintado em 1937, retrata a destruição e os horrores provocados pelo bombardeio da Alemanha nazista à cidade homônima, uma das localidades que simbolizavam a resistência republicana ao movimento fascista liderado pelo general Francisco Franco, na Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola. Conhecer o passado para melhorar o presente e o futuro.
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"Guernica", de Pablo Picasso. Fonte da imagem: WikiArt.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Uma sociologia viva

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sempre que começa uma nova temporada em sala de aula, como agora, pergunto-me com vigor: por que estudar? Por que estudar sociologia?

Pergunta difícil de responder. Para tentar, é preciso pensar com quem se dialoga. Com quais estudantes e com quais abordagens. Seja nos cursos técnicos integrados ao ensino médio, seja no trabalho com jovens e adultos, a proposta de ensino de sociologia a ser construída nesse ano cheio de desafios tem alguns pressupostos básicos.

Definir o que é conhecimento e quais as suas variantes faz-se imperativo. Há, pelo menos, duas formas fundamentais de conhecer o mundo: a experiência vivida (senso comum) e a investigação profunda (ciência).

Usualmente, considera-se o senso comum um antagonista da ciência. Pode até ser. Na prática pedagógica, entretanto, a intencionalidade para perseguir o conhecimento sociológico pode ser outra. Ciência e senso comum podem ser complementares. Ambos podem se transformar.

O senso comum, encharcado com elementos científicos provocados pelo professor, pode acrescentar ao seu caráter muitas vezes supersticioso e tradicional as interlocuções das pesquisas metódicas, cujas teorias e conceitos têm o potencial de bagunçar respostas prontas e imediatas.

A ciência, por sua vez, aceitando o contato e o relacionamento íntimo com o senso comum, com a experiência vivida, pode deixar o seu pedestal e passar a fazer sentido para uma quantidade maior de pessoas. Auxiliando a percepção coletiva de ideias menos rápidas e acabadas, menos naturalizantes, em prol de narrativas mais críticas, reflexivas e relacionais.

Fomentar uma sociologia viva. Que esteja nas bibliotecas, nos papers, nas pesquisas mais relevantes. Mas que esteja viva, sobretudo na dimensão do ensino, nos corações, corpos e mentes dos estudantes. Uma sociologia popular. Um baita desafio para a temporada que vai tomando forma.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Respeitemos as minas!

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No mundo ideal, não seria preciso dizer aos homens: nesse carnaval, respeitemos as minas. Não sejamos escrotos. Não aumentemos as estatísticas de violência.

Ah, mas o cara do rádio falou que o machismo não existe, que isso é coisa de feminazi neurótica. Esqueçamos os jornalistas. Em geral, eles sabem muito pouco. Almoçam ignorância e arrotam sabedoria. Falsa sabedoria. Desconfiemos sempre deles. Eles são funcionários com alma e ideias de patrões. Eles sabem de técnica, mas quase nada de conteúdo.

Não seria preciso dizer: não há roupa curta, olhar, beleza ou o que for que legitime um beijo forçado, uma violência ou qualquer ação não consentida. Carnaval é alegria, é festa. Não precisa ser opressão. Não deve. Pode ser numa relação duradoura, passageira, com ou sem compromisso: respeitemos as minas, respeitemos o consentimento.

Ah, isso vale para todos os dias. Como o mundo não é ideal, digamos juntos: respeitemos as minas! Não sejamos escrotos.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Na lama até as entranhas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Começa o telejornal mais assistido do país. O telespectador pensa alto:

- Cerca de 15 minutos com matérias sobre a corrupção numa das maiores empresas de petróleo do mundo. Mais de 15 minutos demonstrando como o partido no governo desde 2003 está envolvido de cabeça no pagamento de propinas e no superfaturamento de obras. Mais um partido da ordem.

Nesse tempo todo, nem uma palavra sequer sobre uma informação importante da delação premiada que embasou todas as denúncias aparece na tela. O telespectador, que leu o documento da delação, pensa alto outra vez:

- O operador em questão começou a receber propina desde 1997 ou 1998. Época em que o principal partido da oposição na atualidade comandava o país. E agora pagam uma de bastiões da honestidade. Só que não! O jogo é sujo e não começou hoje. Sem fazer relações e buscar a historicidade dos fatos, fica difícil uma informação de qualidade.

Irritado, finaliza seus pensamentos em alto e bom tom, a despeito da desinformação que consumiu daquela empresa de comunicação:

- Os partidos da ordem estão atolados na lama até as entranhas. A mídia hegemônica também.

 

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