SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 11

América do Sul, Brasil,

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Não há de ser inutilmente, Aldir


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia 4 de maio de 2009, iniciei a aventura de ser professor. Quis o destino que hoje, 11 anos depois, um vírus mortal levasse o gigante Aldir Blanc.

Em todos esses anos, busquei na docência a defesa e o aprofundamento da democracia. Uma forma de fomentar para todos a liberdade, a igualdade e a dignidade de um mestre-sala.

Falhei muitas vezes. Incontáveis tardes me caíram como um viaduto. A sala de aula é casa de marimbondo, e tem gente aí que acha que aprender é contravenção.

De uns anos pra cá, tudo piorou. Os corpos estendidos no chão do Brasil que o Brazil não conhece, ou os tantos que partiram num rabo de foguete, entre cantos e chibatas, viram-se outra vez diante da brutalidade dos torturadores e seus asseclas.

Sentindo um frio na alma, te convido a dançar, Esperança Equilibrista. O tempo corre e o suor escorre, e a gente não pode entregar o país ao nosso passado mais sombrio. A ciranda do povo não pode desistir.

Só assim, sem se entregar, é que essa dor assim pungente, não há de ser inutilmente. São professores como eu, pais de santo, passistas, flagelados, balconistas, palhaços ou boias-frias...

Não importa quem somos, não podemos nos entregar ao porão e aos genocidas. Cantemos alto, porque se eu contar o que pode um cavaquinho, os "homi num vai crer": "Glória, a todas as lutas inglórias, que através da nossa história, não esquecemos jamais!".
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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Agradecer

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Em casa, agradecer tem sido a minha pauta diária. Amanheço agradecendo ao amor da Kambili, essa peluda sempre tão presente e carinhosa.

No café da manhã, agradeço aos meus familiares mais próximos, por todo o amor e cuidado que me dedicam.

Enquanto me preparo para leituras e afazeres, sou grato pela educação que tive, da escola ao doutorado, e por nunca ter me faltado um lar, comida e algum lazer.

Quando a atenção dispersa, penso no carinho das pessoas. Bate uma gratidão enorme pelo amor que vivi durante 13 anos, e por todos os amigos/amores que a vida me deu há muito ou pouco tempo.

Chego ao fim do dia grato demais pelo Sol, pela praia e pelo mar, a bola pro alto, os lugares que conheci, os livros que ouvi, os discos que li, os alunos com os quais tanto aprendi.

Se o país em que vivo tá cheio de gente defendendo o lucro acima da vida, sem sequer cogitar que a sociedade (via Estado) deve amparar quem precisa, eu sou grato por não estar entre essa galera.

E aí, quando vejo a lua e as estrelas, só consigo sorrir. Até aqui, sou um privilegiado. Sorrindo, posso agradecer amanhã quando acordar outra vez.
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quinta-feira, 23 de abril de 2020

A metáfora (macabra) da modernidade


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

As pessoas estão morrendo isoladas, para não contagiar seus entes queridos. Será a metáfora (macabra) perfeita do individualismo ocidental moderno?

O arranjo que mistura liberalismo econômico dogmático com conservadorismo moral vai se sustentar?

Vamos entender de vez que muitas coisas simplesmente não são mercadorias, pois a nossa vida e bem-estar geral dependem delas?

O aprofundamento das desigualdades e do caos social vai nos fazer buscar mais democracia, não só votar, ou baixaremos a cabeça aos autoritarismos de ocasião?

Vamos conseguir superar o egoísmo narcisista, no caminho da cooperação e da solidariedade entre os diferentes, ou essa crise resultará em mais nacionalismos e xenofobia?
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segunda-feira, 6 de abril de 2020

É para isso que serve a Sociologia?


Por Karen Kendrick*
Albertus Magnus College

Nesse momento, planejo uma aula para meus estudantes sobre como o capitalismo e a globalização criaram as condições para a pandemia do COVID-19. Estou fazendo isso porque a universidade em que trabalho me pediu para migrar minhas aulas para plataformas online pelo resto do semestre. Tendo em vista quem eu sou e o que ensino, decidi que vou pedir para os alunos estudarem sociologia durante a pandemia, só tenho uma escolha. Tenho que ensiná-los sobre como sociólogos pensam a respeito de pandemias.

Então pensei em começar da mesma forma que inicio meu curso de Sociologia da Saúde e da Doença. Na primeira aula introduzo o estudo da epidemiologia - uma palavra bonita que significa os padrões de saúde e doença entre populações humanas [1]. Direi algumas coisas sobre como os seres humanos tinham uma expectativa de vida muito mais curta que atualmente e como vimos alguns períodos de aumento dessas taxas, mas a grande mudança na expectativa de vida dos humanos veio entre 1900–1930 durante a transição epidemiológica. A expectativa de vida para homens brancos nos EUA passou de 47 para 60 anos e para homens negros de 33–48. Por um longo tempo nos parabenizamos por esse aumento, devido à melhoria dos sistemas sanitários e de esgoto, e estes foram muito importantes. Mas os fatores mais importantes na transição epidemiológica foram uma melhoria generalizada nas condições nutricionais e de vida - ar limpo e abrigo. Comer bem e não viver amontoado em moradias precárias nas cidades industrializadas ou vilas de camponeses melhorou nossos sistemas imunológicos e reduziu a quantidade de pragas e influenza que espalhamos entre nós.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Manifesto: Diretrizes e medidas de combate à pandemia do corona vírus e para a recuperação da economia (UFRGS)


Professores da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS lançam manifesto com 32 sugestões de diretrizes e medidas de combate à pandemia do corona vírus e para a recuperação da economia. Os professores destacam as medidas contundentes que vêm sendo adotadas nos países em que a pandemia atingiu níveis mais graves e chamam a atenção para a necessidade de o Brasil seguir os mesmo passos, abandonando a timidez e mobilizando amplos recursos dos setores público e privado no imediato combate à crise. Não é hora para inação. O manifesto inclui medidas imediatas para suporte ao setor da saúde, medidas de sustentação do emprego e da renda no curto prazo enquanto durar a pandemia, medidas para assegurar disponibilidade de serviços de utilidade pública e habitação enquanto durar a pandemia, medidas de apoio a empresas fortemente atingidas pela pandemia e de garantia do abastecimento dos bens de primeira necessidade e medidas para recuperação e sustentação da economia.


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terça-feira, 24 de março de 2020

Cientistas Sociais e o coronavírus


Por Rodrigo Toniol
Antropologia UNICAMP


Boletim n. 1 da Associação Nacional de
Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS)

A pandemia do Corona colocou nas nossas conversas cotidianas pelo menos três tópicos: questões biológicas sobre a dinâmica do vírus, a gestão política em tempos de epidemia e o crescente e generalizado pânico das populações. Sobre esses temas e, principalmente, sobre a articulação entre eles, as ciências sociais têm se dedicado há décadas. Somente nos últimos anos podemos recuperar os trabalhos sobre Zica, ebola, aids, malária e SARS. Pesquisas que receberam financiamento, que foram conduzidas com rigor e que agora nos ajudam a entender o momento que vivemos e também a imaginar algumas saídas para reduzir o impacto que o Corona terá em nossas vidas.

Pensando nisso, reunimos uma breve bibliografia de textos que abordam o tema das epidemias, do contágio e do controle de doenças a partir de uma perspectiva das Ciências Sociais. Ao longo dos próximos dias incluiremos novas referências, que permanecerão disoníveis no link abaixo.

Com relação ao COVID-19, especificamente, houve uma uma resposta rápida por parte do site “somatosphere”, que publicou no dia 06/03 um fórum de debates que reuniu historiadores, cientistas políticos, sociólogos e antropólogos dispostos a refletir sobre os impactos dessa nova pandemia.

Este também é um momento oportuno para revisitarmos o blog da antropóloga Soraya Fleischer (UnB), que junto com seu grupo de pesquisa, apresenta histórias das pessoas que continuam vivendo os impactos da epidemia do Zica Virus. O Zica também foi tema da produção audiovisual de Debora Diniz, cujo curta metragem nos permite chegar mais perto dos dramas e dilemas de ser afetado por uma epidemia.

Como já temos percebido, os efeitos do Corona estão muito além de ser contagiado ou não. As ciências sociais nos ajudam a perceber como as epidemias nos afetaram ao longo da história e como o debate sobre as formas de reagir a ela sempre envolvem questões que extrapolam o agente biológico. Essa também é a hora de olharmos para o conhecimento produzido pelas Ciências Sociais.