SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 8

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Paranoia como projeto político

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A gente vive pedindo mais saúde, educação e segurança. Contudo, hoje, se vamos à luta por mais recursos para a educação pública, somos comunistas. Se vamos à luta por mais recursos para o SUS, somos comunistas. Se vamos à luta por uma outra política de segurança, voltada para a cidadania e os direitos humanos, somos comunistas.

A gente vive pedindo uma reforma política. Porém, se apoiamos e vamos à luta com os estudantes que ocupam centenas de escolas pelo país todo, somos comunistas. Se vamos à luta com os corajosos secundaristas, que querem reinventar a democracia, solapar o seu caráter oligárquico dominante, construir organizações horizontais e incentivar o protagonismo e a participação, somos comunistas. Esquerda e igualdade são termos achatados na expressão "comunismo" e, de imediato, criminalizados.

É impressionante. Qualquer rejeição ao racismo, ao machismo, à misoginia, à homofobia e qualquer tentativa de fortalecer proteções sociais para os trabalhadores e as classes populares, logo é taxada de comunista. Que diabos. O fantasma da Guerra Fria, recriado e requentado num contexto bastante diferente, ainda segue como falácia na boca dos que querem manter tudo como sempre esteve. Nada mais do que uma forma de tentar criminalizar quem busca mais igualdade e liberdade para todos.

Isso me faz lembrar do personagem Ira Ringold, protagonista do livro “Casei com um comunista”, do genial estadunidense Philip Roth. Ira, comunista, e seu irmão, professor de literatura inglesa, incentivador do pensamento crítico, sofrem todas as consequências da perseguição política do macartismo nos EUA, logo após o fim da Segunda Guerra. Suas vidas são devastadas pela intolerância política, enquanto escândalos e mais escândalos envolvendo governantes não merecem maiores atenções.

Uma ideia de Ira Ringold não me sai da cabeça. Mesmo sendo um personagem controverso, ele acerta quando diz que, para muitos dos que nos governam, o problema do país não é a forma como tratamos os trabalhadores, os negros, as mulheres, os homossexuais, os deficientes, os jovens, não é o abismo de oportunidades entre ricos e pobres. O problema, para eles, são os poucos comunistas que ainda existem. Não dá pra acreditar, mas essa paranoia segue por aí. Só dá pra acreditar se percebermos que a paranoia, na real, é um projeto político e ideológico.

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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Entre o passado e o futuro

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um dia depois do outro, observamos o retrocesso. Nem são as tenebrosas transações dos velhos oligarcas que mais me deixam perplexo. A Ponte para a Idade Média ganha força nas ações já tomadas e nas que estão por vir. Dois lemas alardeados, de fato, resumem bem o retorno ao passado: "não pense em crise, trabalhe" e "ordem e progresso".

Trabalhar é importante e necessário para a sobrevivência da maioria dos humanos. Pensar, ampliar horizontes, fazer associações e criar o diferente e o alternativo, por sua vez, são atitudes tão relevantes quanto trabalhar. Sobretudo num país em que mais da metade das pessoas trabalha e quase nada recebe, num país em que a desigualdade de oportunidades deveria envergonhar a todos nós. Pensar pode ser uma forma de se abrir para o possível, e a partir disso, preparar o terreno para mais conhecimentos e menos fanatismos. Para mudar a vida prática.

Sem incentivar o pensamento e focada na ordem e no progresso, nossa sociedade tem muito pouco a ganhar. Reparando bem, a ordem atual das coisas exclui multidões, violenta multidões e favorece, quase sempre, os mesmos favorecidos. O incômodo e a descrença numa democracia procedimental e oligárquica me parece se expressar no protagonismo das juventudes pelo mundo e nas suas ocupações das ruas e espaços públicos. Jovens pessoas que pensam e agem. Que querem fazer o novo e não se curvam ao fatalismo dos que gerem o Estado e o mercado. Que querem democracia com liberdade e igualdade.

Professores em greve, secundaristas ocupando escolas, enfim, todos aqueles que constroem hoje o amanhã, pensando e agindo, rejeitam o passado que os oligarcas querem impor sem sequer passar pelo crivo eleitoral. Nesses eu boto fé. Com esses eu quero somar. Porque a ordem e o progresso para meia dúzia, sem pensamento, tendem a exterminar a nossa própria humanidade. Disso acho que estamos fartos.

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terça-feira, 3 de maio de 2016

O silêncio de Complexo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O impeachment avançava. Simplória, professora de matemática numa escola particular, não conseguia acreditar no que acontecia no seu país. Ela olhava para aquele que insistia em chamar de marido, um bancário chamado Complexo, e não conseguia crer no êxtase que tomava conta do rapaz. Destituir a Presidente considerada comunista era o objetivo da vida dele, era por isso que ele babava enquanto falava sobre o assunto.

No dia em que a Câmara dos Deputados votou a continuidade do processo de impedimento, Simplória notou que Complexo dava um passo atrás nas suas convicções. A cada voto dos ilustres representantes do povo, totalmente vazios de conteúdo, Complexo franzia a testa e fazia um ar de quem não gostava de alguma coisa. Simplória havia se calado, mantinha-se em estado de observação. Seria a consciência do rapaz que resolvera acordar? Seria uma súbita dor de barriga? Um surto de equilíbrio e bom-senso?

Semanas se passavam e aquilo que Complexo e os fanáticos pelo impeachment pregavam não acontecia, ou seja, a ideia de que “vamos derrubar a Presidente e depois todos os outros ladrões” estava cada vez mais longe da realidade. As velhas oligarquias, antes aliadas do governo que agora não servia mais, tramavam e sorriam sedentas pelo poder que se aproximava. Não havia mais panelaços em prédios chiques ou carreatas de veículos importados. Complexo não berrava mais nos seus intervalos para o cigarro e o café. Os fanáticos pelo impeachment silenciavam.

Todos os dias, Simplória fazia questão de mostrar para Complexo o teor dos acontecimentos que se sucediam, e como esse silêncio estava carregado de venenos. O leilão dos Ministérios do “novo” governo, antes mesmo da derrubada da Presidente eleita com 54 milhões de votos, já estava a pleno vapor. Um autoritário para a Segurança; um pastor para a Ciência e Tecnologia; um apologista do mercado para comandar a economia do Estado; assim se esboçava o traçado do “novo governo”. Assembleias de estudantes eram barradas pela Justiça. Universidades eram caladas. Professores eram limitados na abordagem de temas polêmicos. Juízes para calar a tudo e a todos, menos para julgar o colarinho branco das velhas oligarquias. O deleite dos oligarcas era claro como um dia de Sol sem nuvens no céu. O presente cheirava a tempestade e, de mansinho, a tormenta vinha chegando.

Sob o silêncio de Complexo, Simplória levantava a cabeça e vibrava com a esperança que vinha lá de dentro de si mesma, mas que também vinha das ruas e da diversidade que compõe a vida em sociedade. Esperança que vinha de escolas ocupadas por estudantes que não aceitariam mais o desmonte da educação pública e as Máfias das Merendas. Esperança em forma de auto-organização, de solidariedade e luta coletiva, de cantos e cartazes. Ela sabia que esse barulho o silêncio de Complexo e da sua horda de fanáticos não calaria sem resistência.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Nunca interditar o debate

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Não tá fácil ser professor. O mais recente ataque ao ofício parece uma perseguição estilo Idade Média. Em vários estados e municípios do país, multiplicam-se projetos de lei que limitam debates em aula sobre temas “políticos, morais e religiosos”, prevendo punições graves contra professores que descumprirem a orientação. Professores de Sociologia vêm sendo demitidos por aí, em função dos seus posicionamentos particulares. Isso é muito sério e perigoso.

Sob a alegação de que a educação deve ser “neutra” e determinados temas cabem apenas à família conversar com os jovens, sofismas muito questionáveis, passo a passo vai se construindo um cenário de censura que, ao invés de fortalecer a democracia, pode ajudar a minar o seu terreno. Reduzir o espaço de diálogo sobre assuntos fundamentais da vida em sociedade e impor o medo aos profissionais da educação são características típicas do autoritarismo e de suas variantes.

Na prática, cria-se uma espécie de mordaça aos docentes das Ciências Humanas. Fico imaginando como um professor de História, de Sociologia ou de Filosofia pode deixar de abordar pautas “políticas, morais e religiosas” nas suas aulas. Como isso pode ser possível? São pautas inerentes a essas matérias, e a exposição e confrontação de ideias e argumentos antagônicos é um exercício necessário para o ato de pensar e para o próprio conhecimento.

Se a moda da mordaça se espalhar pelas salas de aula brasileiras, atente-se para o fato de que não apenas os professores considerados de esquerda poderão estar em apuros. Sim, porque por trás de ideias retrógradas como essas está a sanha por eliminar o pensamento de esquerda, entendido como hegemônico - outra coisa muito questionável. Só que aqueles que babam contra a esquerda não percebem que o veneno do autoritarismo pode trazê-los problemas também.

Como? Partindo da concepção dos projetos, em que os estudantes ou pais que se sentirem afrontados pelo tratamento em aula de alguma temática “política, moral ou religiosa” devem dedurar o professor, está aberta a caça às bruxas. E se um estudante de esquerda, oriundo de família de esquerda, dedurar o seu professor que apresentou a trajetória do liberalismo e do capitalismo? E se um estudante ateu ou agnóstico dedurar o seu professor, tendo em vista que ele apresentou a trajetória do cristianismo ortodoxo nos últimos vários séculos?

Estes projetos beiram ao absurdo, na medida em que constrangem qualquer debate sério e limitam a capacidade de articulação do pensamento, sem a qual o conhecimento perde as suas bases. Que os currículos devem apresentar as diferentes tradições políticas e ideológicas, as diferentes religiões e diferentes perspectivas morais me parece bastante importante. Dar espaço para os estudantes se posicionarem, com critérios de civilidade e respeito, é um aprendizado prático para a vida em sociedade, tão cheia de diferenças. Não dá é pra calar professores e estudantes.

Max Weber, sociólogo alemão, referia-se à ética da responsabilidade como linha de conduta docente. Projetos como “Escola Livre” ou “Escola Sem Partido”, mascarados de ética da responsabilidade, propõem o silenciamento. Não tenho dúvidas de que estudantes não são “militantes em potencial que eu devo cooptar”, seja para a esquerda ou para a direita. Só que agir com responsabilidade, o que sempre procuro fazer, não é a mesma coisa que interditar o debate.

Se eu sou professor porque acredito na luta contra a barbárie, contra o ódio desmedido e a banalização da violência, porque quero fomentar o pensamento enquanto possibilidade e ajudar a construir oportunidades para todos, construir uma sociedade menos desigual, a imposição da mordaça acaba com o meu ofício. No fundo, dizendo proteger a diversidade de argumentos, com esses projetos a liberdade vai cedendo espaço ao completo obscurantismo.

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sábado, 23 de abril de 2016

PET em Debate: Por que ser professor(a)?


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

PET em Debate - Por que ser professor(a)?
Foto: Grupo Práxis - PET Conexões de Saberes (UFFS - Erechim).


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No dia 13 de abril, no Auditório do Bloco A da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim, participei de um intenso e recompensador debate sobre a profissão docente. O evento, proporcionado pelo Grupo Práxis - PET Conexões de Saberes, com a tutoria do Prof. Dr. Thiago Ingrassia Pereira, contou com ótimo público e propôs a seguinte questão: por que ser professor(a)?

Em conjunto com o Prof. Dr. Dilermando Cattaneo, docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), campus Litoral Norte, tentei delimitar possibilidades de respostas para a indagação do evento. Basicamente, meus argumentos giraram em torno da ideia de que lecionar é um ofício importante, na busca por uma sociedade com menos ódio e aberta ao pensamento como atividade preparatória para o conhecimento.


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terça-feira, 19 de abril de 2016

Tristes páginas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Por vezes, gosto de pensar na vida de cada um de nós como um livro. Deve ser porque gosto muito de livros. Se tudo der certo, e o meu livro tiver mais uns 20 anos de páginas, fico curioso para saber o que estará escrito sobre o domingo passado, 17 de abril de 2016.

Confusão, dúvidas e conflitos estarão presentes. A iniciativa de tirar uma Presidente da República, eleita com mais de 54 milhões de votos, em virtude de "pedaladas fiscais", vai ter um bom espaço. Mas não vão estar lá os parlamentares que detalharam o crime na tribuna, argumentaram com esmero o seu voto. Isso não aconteceu. De certo, lá estará escrito: "era um momento em que parte da população aderia ao lema de que os fins justificam os meios, e derrubar o partido no poder era o fim maior".

Ora, só isso não basta para preencher as páginas atuais do livro das nossas vidas. Vai ter que estar lá o absurdo de um parlamentar, eleito numa democracia, enxovalhando a própria democracia, elogiando um sujeito acusado de mil corrupções e defendendo a tortura de pessoas alheias. Os seus millhares de seguidores não serão absolvidos, mancharão as linhas dos nossos dias, estarão presentes como resquícios da barbárie. Tristes páginas serão essas, marcadas por dias difíceis, mas também por dias de resistência ao ódio e ao impulso de destruição.

Quero ter a chance de ler as páginas seguintes com mais alegria. Que os episódios narrados sejam de novos rumos, de bem menos desigualdades, bem menos violência institucionalizada contra mulheres, negros, pobres e homossexuais, trabalhadores e trabalhadoras. Com mais oportunidades e respeito. Cabe a nós a escrita dessas páginas.
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