SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 7

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 3 de março de 2015

O governo e o tiro no pé

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O governo enredou-se nas próprias escolhas. A opção pelo ajuste fiscal, cujo foco bate mais nos de baixo, considerando a hierarquia da sociedade brasileira, funciona como um tiro no pé. Tanto no âmbito discursivo, quanto na esfera da política institucional.

Nas eleições, defendi que os projetos do PSDB e do PT eram muito semelhantes. Como semelhantes, havia diferenças. Ainda acho que elas existem, mas parece que o governo faz questão de fazê-las desaparecer. Apostei que aquele era o momento de o governo e o PT enfrentarem o que há de pior no país. Ledo engano. Equívoco sério. Não enfrentaram. Perderam, talvez, a última chance.

O atual Ministro da Fazenda faz exatamente o que pedia a oposição e o que o governo dizia que não deveria ser feito. O “engraçado” é que o governo, agora, apanha da oposição por fazer o que a oposição dizia para ser feito. Sem falar naqueles que batem em qualquer governo, somente por ser governo. Ou naqueles que só consideram problema a corrupção. É o ônus de ser governo. Nada anormal.

Como sempre, sofrem mais os mais de baixo. Sofrem os que dependem dos serviços públicos, cada vez com menos recursos, em função da escolha por fazer bastante caixa para pagar os juros da dívida pública (superávit primário). Isso torna cada vez mais difícil apoiar o governo. Ainda considero o impeachment fora de contexto, mas os governistas precisam ficar espertos. O aumento dos custos na vida das pessoas e a redução dos recursos em serviços públicos fundamentais afetam diretamente o cotidiano social. A oposição tenta se fazer passar por uma alternativa, pela solução dos problemas. Convenhamos, a experiência dos seus governos (FHC, décadas em São Paulo e etc.) mostra que não é solução pra coisa alguma.

Detalhe: nada justifica o apoio ao crescimento dos valores e discursos conservadores, que surfam na onda da revolta nacional, sobretudo ancorados na corrupção endêmica da Petrobras – endêmica mesmo, vigente desde a sua fundação, provavelmente. Intolerância, ódio, linchamentos, racismo, homofobia, misoginia e todas as suas variantes fascistas não configuram oposição ao governo, mas, sim, oposição a qualquer tentativa de fazer da democracia algo real. Aí não dá pra querer.

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

“Guernica”, de Pablo Picasso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Guernica”, de Pablo Picasso, pintado em 1937, retrata a destruição e os horrores provocados pelo bombardeio da Alemanha nazista à cidade homônima, uma das localidades que simbolizavam a resistência republicana ao movimento fascista liderado pelo general Francisco Franco, na Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola. Conhecer o passado para melhorar o presente e o futuro.
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"Guernica", de Pablo Picasso. Fonte da imagem: WikiArt.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Uma sociologia viva

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sempre que começa uma nova temporada em sala de aula, como agora, pergunto-me com vigor: por que estudar? Por que estudar sociologia?

Pergunta difícil de responder. Para tentar, é preciso pensar com quem se dialoga. Com quais estudantes e com quais abordagens. Seja nos cursos técnicos integrados ao ensino médio, seja no trabalho com jovens e adultos, a proposta de ensino de sociologia a ser construída nesse ano cheio de desafios tem alguns pressupostos básicos.

Definir o que é conhecimento e quais as suas variantes faz-se imperativo. Há, pelo menos, duas formas fundamentais de conhecer o mundo: a experiência vivida (senso comum) e a investigação profunda (ciência).

Usualmente, considera-se o senso comum um antagonista da ciência. Pode até ser. Na prática pedagógica, entretanto, a intencionalidade para perseguir o conhecimento sociológico pode ser outra. Ciência e senso comum podem ser complementares. Ambos podem se transformar.

O senso comum, encharcado com elementos científicos provocados pelo professor, pode acrescentar ao seu caráter muitas vezes supersticioso e tradicional as interlocuções das pesquisas metódicas, cujas teorias e conceitos têm o potencial de bagunçar respostas prontas e imediatas.

A ciência, por sua vez, aceitando o contato e o relacionamento íntimo com o senso comum, com a experiência vivida, pode deixar o seu pedestal e passar a fazer sentido para uma quantidade maior de pessoas. Auxiliando a percepção coletiva de ideias menos rápidas e acabadas, menos naturalizantes, em prol de narrativas mais críticas, reflexivas e relacionais.

Fomentar uma sociologia viva. Que esteja nas bibliotecas, nos papers, nas pesquisas mais relevantes. Mas que esteja viva, sobretudo na dimensão do ensino, nos corações, corpos e mentes dos estudantes. Uma sociologia popular. Um baita desafio para a temporada que vai tomando forma.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Respeitemos as minas!

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No mundo ideal, não seria preciso dizer aos homens: nesse carnaval, respeitemos as minas. Não sejamos escrotos. Não aumentemos as estatísticas de violência.

Ah, mas o cara do rádio falou que o machismo não existe, que isso é coisa de feminazi neurótica. Esqueçamos os jornalistas. Em geral, eles sabem muito pouco. Almoçam ignorância e arrotam sabedoria. Falsa sabedoria. Desconfiemos sempre deles. Eles são funcionários com alma e ideias de patrões. Eles sabem de técnica, mas quase nada de conteúdo.

Não seria preciso dizer: não há roupa curta, olhar, beleza ou o que for que legitime um beijo forçado, uma violência ou qualquer ação não consentida. Carnaval é alegria, é festa. Não precisa ser opressão. Não deve. Pode ser numa relação duradoura, passageira, com ou sem compromisso: respeitemos as minas, respeitemos o consentimento.

Ah, isso vale para todos os dias. Como o mundo não é ideal, digamos juntos: respeitemos as minas! Não sejamos escrotos.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Na lama até as entranhas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Começa o telejornal mais assistido do país. O telespectador pensa alto:

- Cerca de 15 minutos com matérias sobre a corrupção numa das maiores empresas de petróleo do mundo. Mais de 15 minutos demonstrando como o partido no governo desde 2003 está envolvido de cabeça no pagamento de propinas e no superfaturamento de obras. Mais um partido da ordem.

Nesse tempo todo, nem uma palavra sequer sobre uma informação importante da delação premiada que embasou todas as denúncias aparece na tela. O telespectador, que leu o documento da delação, pensa alto outra vez:

- O operador em questão começou a receber propina desde 1997 ou 1998. Época em que o principal partido da oposição na atualidade comandava o país. E agora pagam uma de bastiões da honestidade. Só que não! O jogo é sujo e não começou hoje. Sem fazer relações e buscar a historicidade dos fatos, fica difícil uma informação de qualidade.

Irritado, finaliza seus pensamentos em alto e bom tom, a despeito da desinformação que consumiu daquela empresa de comunicação:

- Os partidos da ordem estão atolados na lama até as entranhas. A mídia hegemônica também.

 

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Desconfiar é preciso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há um texto do genial Eduardo Galeano em que a desconfiança é celebrada. A história é singela. Um professor conclama os estudantes a se manifestarem quando, após o mestre abrir um pote com perfume, eles sentirem o cheiro. Com o pote quase aberto, alguns já declaram a força do aroma. E assim todos o fazem. Até que alguns pedem que se abra a janela, pois o cheiro está forte demais.

O professor, calado, apenas observa. E logo conta aos educandos: o pote está cheio de água, não há perfume algum.

Tal historinha passa pela cabeça acompanhando os noticiários dos grandes meios de comunicação. Como se os que vestem as suas camisas dissessem: nestas telas, nestas páginas ou neste rádio está a informação imparcial e verdadeira. Ao acreditar, os apressados cometem um grave engano. O que há ali é uma versão, uma versão que interessa a uma determinada visão política. Um simulacro da vida real. Que, nesse caso, exala um forte cheiro de excremento - para ser gentil.

Desconfiar é preciso. Desconfiemos.

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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Cego com visão?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Aconteceu na rua. Daquelas lições cotidianas. Esperando o ônibus, duas pessoas conversavam sobre os problemas do país. Um cego e um rapaz com a visão perfeita. A parada estava repleta de trabalhadores. O sol ainda não anunciava o dia por completo. Afirmava o cego:

- Tem que ver o seguinte... É muita desigualdade. De dinheiro. De poder. Entre homens e mulheres. Entre orientações sexuais. Entre etnias. Entre profissões. Entre possibilidades. Tudo muito desigual.
- É, mas isso não é desculpa. Quem quer, corre atrás.
- Sim, tudo bem. É importante correr atrás. Certo. Mas as condições da corrida fazem diferença.
- O importante é correr atrás. Esse país é um lixo porque todo mundo quer tudo de mão beijada. Quem tem é porque correu atrás.

O cego suspirou, quase impaciente. Escutou um barulho de ônibus se aproximando.

- Eu não acredito num mundo em que as pessoas não corram atrás. Pelo contrário, acho que para acreditar que vale a pena a dedicação, algumas condições mais equitativas são o ponto de partida. Uma mulher com liberdade de ação e pensamento. Uma família pobre com boa escolarização. Enfim, pode me dizer qual é a linha desse ônibus que chegou?

Silêncio. Quando o veículo arrancou, uma moça atenta ao diálogo, quieta até então, acrescentou sabedoria àquele dia que recém iniciava.

- Ele já foi. Saiu rindo. Não era o seu ônibus, eu aviso quando chegar. Na boa, ainda dizem que o cego é o senhor…

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Desigualdade, violência e uma falsa rinha


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Seria engraçado, não fosse uma tragédia anunciada.

Na mesma semana em que o relatório da Oxfam (1) sobre o crescimento das desigualdades econômicas ganhou repercussão mundial, ocorre o grande evento dos ricaços do planeta, o Fórum em Davos. Deve estar uma delícia por lá. Por aqui, só a delícia do pau comendo e da labuta de sol a sol.

Na mesma semana, uma pá de gente aqui no Brasil baba por pena de morte, porrada e mais porrada, olho por olho e dente por dente. Pelo visto, o negócio é todo mundo acabar cego e sem dente. Quando é preto e pobre, tem que matar! Quando é branco e médico, mesmo envolvido na máfia das próteses ou entrando de costas nos hospitais públicos, reina o silêncio ensurdecedor. Dois pesos, duas medidas. Bonito.

O pessoal da sanha vingativa esquece algumas questões. Quem produz as armas? Quem produz as drogas? Quem comercializa as armas e as faz chegar nas mãos da população, em geral dos mais vulneráveis socialmente? Quem? Quem? Tem fábrica de armas na favela? Tem plantação de coca ou maconha em larga escala na periferia? Isso para listar só algumas inquietudes.

Ah, não adianta fugir. No fim, o debate (de ideias, por favor) termina onde começa, na velha e falsa rinha sociológica: o que move, no limite, a realidade social? A ação de cada um de nós ou as estruturas e os condicionamentos coletivos? O sujeito não produziu a arma, mas poderia escolher por não atirar. Verdade. Sem a arma, entretanto, ele não teria como atirar. É mesmo. E assim a roda gira e a falsa rinha subjaz – escondida – as rotinas alheias.

Resposta, prontinha e acabada, parece não existir. Mas pensar sobre pode ser interessante. O livre arbítrio pode não ser tão livre assim. Outros arbítrios podem influenciá-lo. Os de hoje. Os de ontem. A coerção coletiva, as instituições e as estruturas podem não ser tão pesadas. As de hoje. As de ontem.

Seria bom apenas pensar, não fosse o cotidiano marcado por tragédias anunciadas.

Notas

(1) O relatório da Oxfam está disponível em português. Vale a pena uma lida com atenção. Os seus dados e conclusões podem ser questionados, visto que, do ponto de vista metodológico, investigar a riqueza e a renda (aspectos econômicos) não é nada fácil e não se dá num contexto de consenso. De todo modo, o relatório vale a leitura.

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