SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 6

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 19 de agosto de 2014

A escola dos meus sonhos

Por Frei Betto
Teólogo e Escritor

Na escola de meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, conhecer mecânica de automóvel e de geladeira, e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra.

Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim, aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões subterrâneas que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.

Não há temas tabus. Todas as situações-limites da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a física, nas corridas da Fórmula 1 e pesquisas do supertelescópio Hubble; a química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a história, na violência de policiais a cidadãos, para mostrar os antecedentes na relação colonizadores-índios, senhores-escravos, Exército-Canudos etc.

Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de biologia e de educação física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a história do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e de dança, e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas.

Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo; o pai-de-santo do candomblé; o padre do catolicismo; o médium do espiritismo; o pastor do protestantismo; o guru do budismo etc. Se for católica, promove retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja.

Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazerem periódicos treinamentos e cursos de capacitação, e só são admitidos se, além da competência, comungam com os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido sobre o que são democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.

Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto, adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente; a visão de felicidade; a relação animador-platéia; os tabus e preconceitos reforçados etc. Em suma, não se fecha os olhos à realidade; muda-se a ótica de encará-la.

Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e um mês por ano setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.

Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil os alunos traziam à classe toda a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar.

Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e recursos.

É mais importante educar que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que a ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito, e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.

Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para poderem se manter. Pois é a escola de uma sociedade onde educação não é privilégio, mas direito universal e, o acesso a ela, dever obrigatório.

Texto reproduzido do site do autor, onde podem ser encontrados outros artigos: http://www.freibetto.org/index.php/artigos/14-artigos/25-a-escola-dos-meus-sonhos.

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Duas pessoas, duas verdades

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Duas pessoas.

- Bah, hoje começa o horário eleitoral. Que bosta. Que chatice...
- Nada a ver, meu. Eu vou tentar ver todos que puder. Quero informação.
- Ah, por favor.
- Qual foi?
- As eleições são um jogo de cartas marcadas. Todos os candidatos que podem ganhar são financiados pelas mesmas grandes corporações. Além disso, o fato é que o poder econômico concentrado é o substrato da sociedade capitalista. Temos alguns direitos políticos, alguns direitos civis e religiosos até. Mas a civilização ocidental, com essa ideia de produzir mais e mais, já destruiu vários mundos com a colonização e não acabou com a exploração do trabalho. Agora tá destruindo a si mesma, à custa de quem põe a mão na massa.
- Pois é. Não discordo. Só que a eleição tá aí, batendo na porta. Sei que fazemos micropolíticas no cotidiano, mas a política institucional tem alguns efeitos na vida das pessoas. Alguns efeitos ela tem. Quero saber como se posicionam os candidatos em polêmicas como a taxação das grandes fortunas, o aborto, as drogas, a desmilitarização das polícias, os médicos estrangeiros, as ações afirmativas, o casamento homossexual, a regulação das mídias e etc. Além dos projetos sobre política econômica, saúde e educação. A vida de muitas pessoas está em jogo.

Duas verdades.

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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ontologias, epistemologias e metodologias nas Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A professora de Sociologia Política da European University Institute, Donatella Della Porta, em conjunto com Michael Keating, professor de Ciência Política da University of Aberdeen, apresenta duas tabelas que tentam congregar uma tipologia acerca das possibilidades ontológicas, epistemológicas e metodológicas nas Ciências Sociais. Ainda que a tentativa gere muitas controvérsias, vale analisar e problematizar o material, que ajuda a pensar questões subjacentes ao fazer científico.

How many ontologies and epistemologies?

How many methodologies in the social sciences?

Tabelas disponíveis em: DELLA PORTA, Donatella; KEATING, Michael. Approaches and Methodologies in the Social Sciences: A pluralist perspective. New York: Cambridge, 2008. Páginas 23 e 32.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Mapa das desigualdades de renda no mundo globalizado

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A desigualdade de renda ou de rendimentos, indicador bastante conhecido das desigualdades econômicas, pode ser medida pelo Coeficiente de Gini. Com base nessas evidências, o mapa abaixo demonstra a incidência das desigualdades de renda no mundo globalizado. Os países com maior desigualdade estão marcados nas cores escuras (preto, vermelho escuro e vermelho). Localizam-se, de modo geral, na América Latina e na África. O mapa está contido no CIA World Factbook 2009.

Imagem reproduzida de http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/32/Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg/1280px-Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg.png

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Saudosa maloca

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Fazia tempo que não rolava um samba por lá. Naquela noite, a lua cheia clareava as ruas da cidade. Três amigos observavam atônitos os escombros que tomavam conta da quebrada. De repente, dois levantaram, resmungando e entrebatendo-se.

- Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí, a procurar. Rir pra não chorar.

- Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.

O terceiro, extenuado na sarjeta, sentenciou baixinho, quase calado, num misto de desolação e nostalgia:

- Saudosa maloca... Maloca querida! Din Din Donde nóis passemo os dias feliz de nossas vida.

Nas camisas que vestiam, produzidas com esperança, uma verdade gritava em silêncio, impressa em letras tristes nos tecidos desgastados: “Quando morar é um privilégio, ocupar é um dever”.

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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Do desânimo à reflexão

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na volta às aulas, em meio ao desânimo quase geral, uma conversa ganha relevo:

- Acho que o melhor a fazer é largar tudo, juntar o que sobrar de dinheiro e fundar ou se mudar para uma comunidade alternativa. Integrar a natureza e esquecer todas as tretas da cidade grande. Deixar de consumir o que nos consome.

- Pois é. Até entendo essa postura, ela se associa bem ao nosso tempo. Algo como “procure fazer a sua felicidade que o resto todo será feliz”. Uma filosofia que beira o utilitarismo, sem nomeá-lo. Também tenho a vontade de baixar o ritmo, ficar mais perto do mar, botar o pé na grama e respirar um ar mais puro.

- Então, é disso que eu tô falando!

- É, mas a minha vontade é a minha vontade. Que pode até se consolidar, numa cidade em que essas características existam. Não posso e não quero, entretanto, eximir-me da minha parcela de responsabilidade para com os grandes problemas do mundo. O destino dos outros cruza o meu e o teu destino. Não consigo isolar-me e satisfazer-me com a minha felicidade somente. Por isso escolhi ser professor. Para construir saberes coletivos sobre o mundo, sobre a vida dos seres humanos e, assim, tentar contribuir com um mundo menos desigual, injusto e opressivo. Para que todos nós possamos sonhar.

Do desânimo à reflexão. Da reflexão ao retorno às atividades profissionais.

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

XVIII ISA World Congress of Sociology


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na semana de 13 a 19 de julho, em Yokohama, no Japão, ocorreu o XVIII Congresso Mundial de Sociologia da Associação Internacional de Sociologia (ISA). Esteve presente um paper relacionado à minha dissertação de Mestrado Acadêmico, apresentado pela minha orientadora, agora de Doutorado, a Professora Drª Marília Patta Ramos, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS. O trabalho, intitulado The Impact Of Cultural Capital On Students’ Performances In Brazil, fez parteXVIII ISA World Congress of Sociology do Research Committee on Sociology of Education (RC04). Segue abaixo o resumo da apresentação, que também pode ser visualizado no documento Book of Abstracts, na página 795.

The main goal of this study is to verify the effect of cultural capital on students’ performances through an official test applied by the Brazilian government (Prova Brasil), the students are part of the Brazilian Elementary to High School Evaluation System (SAEB). The data set used is from the year of 2003 and involves 52.434 students. The standard test is applied every other year in the fields of mathematics and Portuguese. Along with the test a questionnaire is applied to identify students’ demographic characteristics as well as their families’ profile. The research question is: what is the impact of cultural capital on students’ performances in the SAEB test controlling for their demographic characteristics and relations with other students and their teachers? The theoretical background is based on James Coleman (1997), Pierre Bourdieu (1982, 1998) and Basil Bernstein (1997). Among Brazilian scholars the study includes the ideas of Nelson Silva and Carlos Hasenbalg (2000) and Maria Ligia Barbosa (2009). The study model has as the dependent variable the students’ grades in the SAEB test and the cultural capital as the main independent variable along with the control variables. Descriptive analyses are used as well as regression models to obtain the effect of the independent variables on the dependent variable. The preliminary and main results show that there is significant association between levels of cultural capital and students’ performances in the SAEB test. Specifically, there is a significant and positive correlation between parents’ education, ownership of computer, access to the internet and newspaper reading with the performances in the SAEB test.

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