SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 6

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 23 de abril de 2014

A observação como procedimento para as Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A variedade de métodos e de discussões metodológicas nas Ciências Sociais é um assunto bastante amplo. A tarefa de observar os fenômenos baseia, em alguma medida, o trabalho científico de todas as áreas do conhecimento. É sobre este possível enfoque de pesquisa que Jaccoud e Mayer tratam no texto “A observação direta e a pesquisa qualitativa”[1].

Para construir saberes, a observação surge como um dos primeiros passos a serem dados. A consequência dessa assertiva recai no fato de que a observação caracteriza-se tanto por uma relação quanto por um distanciamento entre sujeito e objeto de estudo, o que gera uma série de considerações teórico-metodológicas. Jaccoud e Mayer (2008, p. 255) definem a observação na linha de uma atividade na qual o investigador “observa pessoalmente e de maneira prolongada situações e comportamentos pelos quais se interessa, sem reduzir-se a conhecê-los somente por meio das categorias utilizadas por aqueles que vivem essas situações”.

Importa notar que os elementos que configuram a observação no escopo da ciência podem ser múltiplos. Os autores falam de uma técnica direta, concretizada no contato com os informantes; não-dirigida, em que a observação da realidade faz-se um objetivo terminal e o estudioso não interfere na situação em análise; e, também, qualitativa, com anotações e descrições que ampliam o entendimento de dada realidade.

O alcance obtido por este procedimento científico fomentou divergências, que debatem as relações do observador com o campo de investigação. Outros fatores, relacionados ao lugar ocupado pela observação no fazer de pesquisa, seus critérios de validação e confiança conquistada pelo estudo também são relevantes, além da seleção do local da incursão. Erigir as categorias de análise, em consonância com perspectivas teóricas, deriva na figura de um percalço a ser resolvido.

Pode-se dizer que, entre os séculos XVI e XVII, as delineações acerca dos atrelamentos entre sujeito e objeto referiam-se mais aos objetos e assentavam-se em torno do que seria observado. A partir daí, até o século XX, o cerne da questão difundia-se às voltas do sujeito, escapando do objeto de pesquisa e pensando, sobretudo, em como observar. No século XX, pautam-se reflexões que problematizam as formas de desvincular sujeitos e objetos, a fim de dar sentido aos trabalhos investigativos.

Agregaram-se à observação direta outras técnicas complementares, como o uso de documentos, entrevistas, questionários, etc. Tudo isso adicionou complexidade aos procedimentos, e a observação passou a ganhar significados de um tipo de coleta de dados e de um tipo de relação com os objetos-sujeitos pesquisados.

Não obstante, estão em jogo posturas epistemológicas. Jaccoud e Mayer (2008) dissertam sobre três modelos, o empírico-naturalista, o interpretativo-subjetivista e o construtivista. No primeiro, a observação é vista como uma abordagem, de caráter explicativo ou objetivo. Neste modelo o privilégio é da descrição da realidade, e não da sua explicação. Quando versam sobre o interpretativo-subjetivista, a ideia é captar significações emitidas pelas pessoas no decorrer dos seus atos, interpretando muito mais do que explicando e enfatizando uma dimensão subjetiva. Por último, o modelo construtivista revela-se um produto originado por um processo de construção, intrincando sujeito e objeto, as interações entre ambos.

Há de se ressaltar, ainda, toda a discussão referente aos aspectos éticos que perpassam a observação como procedimento, método ou abordagem científica. Uma inserção a campo de modo clandestino, por exemplo, é defendida por alguns teóricos e critica por outros, que elencam vantagens e desvantagens em não explicitar aos pesquisados o que está acontecendo naquelas interações. De fato, a criação de vínculos e compromissos entre os diversos envolvidos em pesquisas desse teor parece quase impossível de não ser concebida. Essa é uma polêmica veemente no que tange à observação para fins da ciência.

Fechando o texto, Jaccoud e Mayer (2008) fazem referência aos metodólogos, epistemólogos e pensadores que criticam as bases da ciência moderna e suas implicações sobre antagonismos como cultura e natureza, sujeito e objeto, afastamento e militância. Mostra-se legítimo incorporar essas considerações, na medida em que tais debates estão bastante em voga em algumas áreas do conhecimento. A antropologia simétrica de Bruno Latour[2] é um interessante exemplo dessa via de pensamento contemporâneo.


[1] JACCOUD, M.; MAYER, R.. A observação direta e a pesquisa qualitativa. In: POUPART, Jean et all. A pesquisa qualitativa; enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis: Vozes, 2008. pp. 254-294.

[2] Conferir a obra LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica. São Paulo: Editora 34, 2009. Nela, o autor defende um empreendimento metodológico que procure seguir nos atos, nos acontecimentos, os dizeres dos “nativos” sem percebê-los como “outros inferiorizados” no que concerne a uma cosmopolítica do conhecimento.

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terça-feira, 22 de abril de 2014

Complexas desigualdades

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Ora, pois. No dia 22 de abril de 1500 os portugueses aportavam pelas bandas tropicais. Alguém me questiona, do nada, enquanto tomo um café: “O que define o Brasil?”. Respondo: as desigualdades. Os seus efeitos estão no cotidiano. Resposta viciada de quem tem pensado e se debruçado sobre o conceito. Afinal, como entender com precisão os seus significados em tempos tão complexos?

As ideias acerca das desigualdades transitam entre outras categorias. Na tradição daqueles que se puseram a combatê-las, classes sociais e estratificação fundamentam as análises. Uns dizem que a renda define a vida social. Outros que a posição ocupada no mundo do trabalho, base da vida social, deve ser o alicerce de qualquer crítica. Sobra um embaralhamento compreensível, num cenário difícil de objetivar.

Uma visão relacional me parece mais lúcida para a atualidade. A renda, sobretudo, configura-se como um elemento central para pensar situações desiguais de sobrevivência. Isso é inegável. Sem ela, o consumo míngua. Mas ela não oferece tudo. Por si só, mostra-se restritiva demais, a ponto de obliterar a criação de indicadores fidedignos ao real. Mulheres, negros, homossexuais e os demais grupos minorizados em direitos podem ter grana. Mesmo assim, desigualdades podem persistir.

Resta muito a se dizer sobre classes sociais e estratificação, vale sublinhar. Isso fica para outra conversa. Agora, penso em direcionar os olhares para as desigualdades com o foco nas disparidades de capacidades básicas, responsáveis por fomentar o exercício de liberdades. Pensando relacionalmente contextos individuais e condições sociais. Sem, é claro, desintegrar diferenças ou homogeneizar quaisquer vidas humanas.

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

A triangulação metodológica como recurso do fazer sociológico

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

As Ciências Sociais se propõem a estudar profundamente as relações entre os seres humanos, a sua vida social. Para isso, discutir questões metodológicas acerca do fazer Sociológico é uma tarefa bastante interessante. Teresa Duarte, Doutoranda em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), de Lisboa, Portugal, desenvolve um bom debate no texto “A possibilidade da investigação a 3: reflexões sobre triangulação (metodológica)”[1].

Como fazer para incorporar diferentes métodos de investigação social no interior de um projeto de pesquisa? Como resolver os embates provenientes entre distintas abordagens relativas às práticas de pesquisa para as Ciências Sociais? Essas e outras indagações constituem, por si só, uma intervenção promissora do Sociólogo que se presta a pensar o real de modo a transitar nos caminhos do conhecimento científico. Sobretudo se for encaminhada uma reflexão sobre as dualidades que se colocam, num cenário restritivo, no qual prepondera a não aceitação da tentativa de uma compreensão de mais aspectos do objeto em estudo através de conexões metodológicas.

Na visão de Duarte (2009), perquirir a realidade social pode suscitar a combinação de metodologias orientadas por diferentes tradições competentes à ontologia, à epistemologia e à axiologia. A proposta oferece o conceito de “triangulação” como forma de tentar aproximar os polos entre, por exemplo, os modelos positivistas e construtivistas que indicam a melhor maneira de analisar as sociedades humanas.

Noutra face, estão em jogo as oposições entre os métodos quantitativos e os métodos qualitativos. Este é um ponto em que há um antagonismo considerado extremo, embora nada irreversível, que tende a deixar pouca margem de interlocução entre algo que teria possibilidade de ser visto como complementar.

Quando se fala na investigação quantitativa, o pesquisador apresenta o conhecimento teórico da sua área, apoiado pelos resultados empíricos que o precederam. A teoria está na frente do que vai ser analisado. Suas hipóteses dependem da teoria. São elaboradas com a maior independência à realidade concreta, sendo operacionalizadas e testadas nas suas relações com a empiria. As ferramentas de análise são previamente concebidas. Diz Duarte (2009, p. 6) que os fenômenos observados classificam-se “[...] em termos de frequência e distribuição; da análise de dados regressa-se às hipóteses procedendo-se à sua corroboração ou informação; um dos fins últimos consiste na generalização dos resultados para a população”. Há aqueles que decidem que o quantitativo descreve o positivismo, embora seja pouco acreditável tal reducionismo nas perspectivas atuais.

Por parte da abordagem qualitativa, ainda que a teoria seja fundamental no processo, cabe mais a afirmação que não a vê como um a priori sobre o real. Suas prerrogativas teóricas descobrem-se e formulam-se ao sabor das práticas de pesquisa, acompanhando as incursões a campo e construindo os dados a serem analisados. “Mais do que testar teorias, procura-se descobrir novas teorias empiricamente enraizadas; a selecção dos casos privilegia a sua importância para o tema em estudo ao invés da sua representatividade” (DUARTE, 2009, p. 7). A ideia é que a complexidade cresça à medida que a imersão do pesquisador se faça presente e intensa, captando sentidos e interpretando os significados sociais disponíveis para os seus objetivos. A escolha dos casos não deve ser planejada com demasiado rigor. O pesquisador configura o coração da pesquisa.

Duarte (2009) sugere a busca por práticas científicas que rompam com uma espécie de “guerra paradigmática”, por intermédio de categorias como “triangulação”, “métodos mistos”, “modelos mistos” ou “métodos múltiplos”. Foca-se, contudo, somente na triangulação desenhada pela “triangulação metodológica”, um pouco na linha de Denzin (1989), Cox e Hassard (2005). Métodos qualitativos e os quantitativos podem ser combinados de formas distintas numa mesma pesquisa.

Por fim, vale sublinhar que as possibilidades de uma triangulação metodológica de caráter pós-positivista, que não prescinda da abordagem qualitativa, tanto quanto da quantitativa, podem insinuar uma trajetória valiosa na busca pelas complexidades do real. Podem, portanto, ajudar a realizar aquilo que as Ciências Sociais se encarregam de fazer: investigar as profundezas das relações sociais, descobrindo as suas principais características e entrelaçamentos.


[1] CIES e-WORKING PAPER N. º 60/2009.

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terça-feira, 15 de abril de 2014

Não vai sobrar ninguém

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há algumas semanas, alguém me dizia com vigor: o ódio é transformador. Não gostei, não concordei, mas fiquei pensando nisso. Lá pelas tantas, ouvia um velho rap, daqueles das antigas mesmo.

- Quando o ódio dominar, não vai sobrar ninguém. O mal que você faz, reflete em mim também.

Respirava. Embora os conceitos de mal e bem demandassem substituição por outros mais precisos (opressões, dominações, etnocentrismo, desigualdades e por aí vai), a frase martelava insistentemente. Por causa das relações que propõe. Sobretudo por deixar evidente a evidência que remete ao fato de que eu e o mundo estamos numa íntima troca de experiências.

Há muito ódio nas quebradas, no asfalto, nos apartamentos. Há, também, ódios e ódios. Distingui-los parece uma tarefa importante. Ainda que eu não consiga vê-lo como um sentimento transformador. Por hora, outra canção tocava ao fundo, desta vez um samba clássico:

- O dia em que o morro descer e não for carnaval. Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final...

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