SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 6

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Natureza e cultura: os “genes da violência”


Por Fernando de Gonçalves
Sociólogo pela UFRGS
Do blog
Sociedade dos Indivíduos

Nos últimos dias, a divulgação de uma pesquisa sobre a descoberta de genes que poderiam estar associados com a violência despertou uma série de temores, que iam desde a eugenia à volta das teorias lombrosianas, passando pelas acusações de darwinismo social. Minha ideia nesta breve postagem é mostrar que esses temores não deveriam se sustentar.

Não devemos pensar no comportamento violento como algo recente, fruto do capitalismo, do Estado ou da modernidade, muito menos como um padrão patológico. A evolução biológica selecionou não aqueles organismos mais violentos e fortes, como uma leitura superficial da teoria da evolução poderia levar a crer, mas sim aqueles que conseguiam equilibrar padrões de violência e de não violência. Como Dawkins nos mostra em O Gene Egoísta, animais fazem uso da violência para uma série de coisas vitais que proporcionam sua perpetuação, desde conseguir alimento, se defender para não virar alimento e disputar parceiros sexuais. Ocorre, porém, que ao contrário de pedras e da maioria das plantas, o animal é um ser que vai revidar à violência quando atacado. Assim, um organismo “programado” para atacar sob quaisquer circunstância, acabaria sendo eliminado pela seleção natural, visto que se colocaria em subsequentes situações de confronto. Dawkins cita uma série de experimentos com modelos computacionais – com o auxílio da teoria dos jogos – que descreviam diferentes organismos com diferentes estratégias em reação à violência, desde organismos pacifistas, que nunca atacavam  e sempre buscavam a cooperação (mesmo depois de atacados) a organismos beligerantes, que atacavam sob qualquer circunstância. Em praticamente todos os modelos, os organismos “vencedores” eram aqueles com estratégias do tipo “olho por olho, dente por dente”: nunca ataque primeiro, seja forte o suficiente para resistir a um primeiro ataque, ataque quem lhe atacou antes e coopere com quem cooperou com você na rodada anterior. No mundo real, isso pode significar que tanto organismos ingênuos (que sempre escolheriam a cooperação) e organismos beligerantes (que sempre atacariam) não conseguiram passar seus genes adiante e, portanto, foram eliminados pelo processo de seleção natural. Esse fluxo pode dar pistas sobre como o padrão de violência em animais pode ter evoluído até nossos ancestrais primatas e desvendar as “causas profundas” das propensões à violência que fariam parte do genoma de todos os seres humanos.


Continuar leitura…

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A disputa pela verdade nacional

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Passadas as eleições, a política ficou. Cheia de ódio, mas ficou. Há, pelo menos, quatro tipos-ideais de discursos que tentam dizer qual é a verdade sobre a sociedade brasileira. Primeiro, os mais radicais.

1) O Brasil é uma ditadura comunista em curso, metendo a mão na liberdade das pessoas. Vai virar Cuba e não podemos deixar isso acontecer. Os militares precisam agir. As políticas sociais do governo demonstram isso e a corrupção também. Fomentam a alegria dos vagabundos, das putas e dos gays. A democracia é uma farsa. Lobão é o líder redentor e a revista Veja o bastião da liberdade de imprensa. Ordem já!

2) As políticas sociais do governo são assistencialistas e não mudam a estrutura política e econômica do país. Há um crescimento do consumo das classes populares, mas não uma diminuição das desigualdades, pois os ricos estão cada vez mais ricos. O Estado brasileiro é autoritário e o governo reeleito não tocou na fonte desse autoritarismo em 12 anos. Pelo contrário, aprofundou esse cenário, como junho de 2013 demonstrou. Não há avanços significativos. A democracia é uma farsa. É preciso derrubar ou reconstruir o sistema.

Ambos os discursos batem no PT, de maneiras muito distintas, é óbvio. O PT é o epicentro da disputa pela verdade nacional. Vamos aos moderados.

3) O PT está desorganizando a economia e incentivando mecanismos institucionais autoritários. Não consegue pensar na combinação entre livre mercado e políticas sociais, porque está mergulhado em ideologias ultrapassadas. Está aparelhando o Estado e minando a democracia. A alternância do poder é necessária, mas não se deve pensar em golpe. A via da política institucional deve ser mantida e fortalecida, o que não impede denúncias e críticas ao PT. O PT é o alvo, pois os radicais pró-militares são minorias ridicularizadas pela nação. Prega-se um Estado mínimo e eficiente, com políticas sociais.

4) O Estado brasileiro vem sendo saqueado há séculos. O PT não modificou o modus operandi da política brasileira, apenas criou e fortaleceu políticas sociais importantes, que fizeram as classes populares darem um salto no que tange às oportunidades de ascensão social. É preciso pressionar o PT para que essas conquistas sejam aprofundadas, para que a democracia seja aprofundada. É preciso rejeitar os vícios autoritários do PT e estimular uma maior participação popular, consolidando as vias institucionais. É preciso combater os golpistas e sustentar os procedimentos democráticos como ponto de partida para um aprofundamento do combate às desigualdades e em prol dos direitos humanos. Essas pressões têm mais chances de ocorrer com o PT no governo do que com os demais partidos da ordem.

A coisa é mais complexa, eu sei. Mas esses argumentos estão por aí. Entrelaçados ou separados. E então, como pensar a realidade brasileira? Há mais perigo com o PT instrumentalizando o Estado com seu viés dito estalinista? Há mais perigo no saudosismo das ditaduras militares, cada vez mais presente? Não há perigo, há de se disputar os rumos numa democracia que já está consolidada?

As hipóteses de resposta, de minha parte, ficam para outra ocasião.

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O fantasma de Zenão: Brasil ou Eléia?


Gabriel Torelly
Professor e Historiador

Sobre o voto nulo ou a abstenção, meu ponto seria o seguinte: não se trata de compreender a abstenção como terceirização de responsabilidades, mas como fonte de um enigma irredutível ao conflito entre dois termos (A x B). A abstenção seria um terceiro termo compreendido em si mesmo, no próprio interior da sua diferença. O Terceiro (a abstenção) seria senhor (a) da sua própria efetuação. Partindo dessa leitura, prefiro pensar o Terceiro como o espaço ideal ocupado por um numeral obscuro, ou como imagem plural que perde toda potência quando reduzida aos efeitos provocados no interior do jogo entre o Primeiro e o Segundo. Duas reduções comuns do Terceiro: esterilidade indiferente (Terceiro = Nada); figura desqualificada ou, no caso específico das eleições, “despolitizada”, que provoca efeitos diversos na relação entre o Primeiro e o Segundo (Terceiro = coisa qualificada negativamente).

Por outro lado, encarado enquanto numeral obscuro, o Terceiro pode ser entendido como espaço ideal de uma alteridade enigmática. Por que reduzir esse aspecto incerto e múltiplo da alteridade a uma interpretação que lhe retira/recusa toda dimensão qualitativa? No meu modo de ver, parece que perdemos possibilidades aí, limitando, ao invés de alargar, a perspectiva de análise. Enfim, a interpretação é livre; incontornáveis talvez sejam os golpes de linguagem totalizadores sobre os quais ela se constrói; o significado está em constante disputa. Mas também seria justo dizer que cada um é livre pra construir a moralidade do seu voto/conduta e preencher-lhes o significado de maneiras diferentes e nuançadas. São as nuances multiformes da abstenção o que se perde quando se faz delas um pálido reflexo da relação entre A e B.

O vocábulo abstenção pode ser sinônimo da ousadia sintática que procura deslizar para fora ou derivar até um espaço que se descole do paradigma agonizante (aparadigmático/neoparadigmático). Nesse caso, extrair o sentido do Terceiro do conflito ou da relação entre A e B pode ser um engodo intelectual e, mais profundamente, uma versão política da famosa batida de carteira epistemológica do outro. Na melhor das hipóteses, dizer que o voto nulo influi negativamente no cálculo das probabilidades duais é não dizer nada a seu respeito; na pior delas, significa ignorar um coeficiente diferencial, silenciando e anulando toda potência de significação situada fora de uma gramática política atualizada. Em todos os casos, policiar o sentido da abstenção é jogar o jogo do Estado, fazendo por ele o trabalho sujo de enquadramento e categorização – violento, injusto, indelicado. Mais inquietante do que se ver obrigado a escolher entre A e B é atualizar constantemente o espaço retórico no qual se move esse combate, simplesmente fácil demais para ser interessante.

A x B é a armadilha da soberania política contra a independência do bando. A x B funciona como uma moral que a um só tempo interioriza e infantiliza a expressão do Terceiro. Nesse jogo, o Terceiro é desde sempre o ingênuo, aquele que não sabe o que se passa ou não reconhece as consequências evidentes daquilo que faz. Exteriorizado em relação à razão eleitoral, internalizado como um pobre diabo carente de orientação e de consciência. O sanatório das abstenções é povoado por um conjunto de débeis com fraqueza de juízo. É preciso que alguém lhes corrija e lhes traga novamente para dentro da zona de comunicação ideosférica. O sentido precisa estar amarrado entre A e B, do contrário, o que vai ser? O que vai servir? Como antever o horizonte do desejo da persona votante?

Drogado pelos efeitos alucinógenos da democracia representativa, ele não pode conceber nenhum tipo de presença que esteja fora do seu estado. O crítico da abstenção pode parecer por vezes um estranho democrata às avessas. Forçando o jogo do sentido para o interior do campo que lhe favorece, para dentro da gramática política na qual ele encontra-se mergulhado, acaba por enfiar as pernas no autoritarismo. Pouco importa se ele foi drogado por Collor, Aécio, Dilma ou Itamar (ok, talvez importe, mas isso não é o essencial). O fato é que ele está drogado e os efeitos se manifestam no sistema de linguagem com o qual opera. O despotismo do Significante pode ser uma enfermidade mais severa do que uma opção eventual entre A e B. Não se trata de argumentar que a abstenção seja de alguma maneira revolucionária ou conservadora, mas de reconhecer-lhe o direito à sua própria discursividade.

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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Numa sala de aula qualquer

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia do professor, vem Mia Couto à cabeça: “No mundo que combato morro. No mundo por que luto nasço”.

Foi a Raquel Braun, linda professora aniversariante, quem deu a barbada há alguns dias, ao término de mais uma jornada de trabalho.

Ser professor é morrer todos os dias num mundo a ser combatido, individualista, desigual e opressivo. Árduo e pesado. Opressivo.

Também é nascer, um pouquinho que seja, em alguma fala ou olhar repentino, numa sala de aula qualquer. Na busca por uma educação de qualidade, pelos direitos humanos e por justiça social.

Sigamos!

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domingo, 5 de outubro de 2014

Dez notas eleitorais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Dez notas eleitorais, ainda no calor do momento:

1) Muita gente passa dois anos dizendo que odeia política. Na hora do vamos ver, vota e justifica: o cara é legal, ela é bonita, ele foi goleador, gosto dele, etc. Política? Zero.

2) A eleição presidencial tende a ser definida pelo eleitorado de Marina Silva. Os seus 22 milhões de votos irão para quem? Tudo indica que para o PSDB. Boa parte, pelo menos.

3) A nova política de Marina Silva é de direita? Marina vai chamar voto em Aécio? Se isso acontecer, o PT e todo o bloco da esquerda estavam certos. Levanta a mão quem já sabia...

4) Dilma teve a pior votação do PT desde a primeira vitória do partido. Ainda assim, Dilma venceu em 15 estados e Aécio em 10. A coisa vai esquentar. Detalhe: Dilma levou em Minas Gerais (que moral, hein Aécio?!).

5) As pesquisas eleitorais servem pra muito pouco. Erram demais. Felizmente.

6) A imprensa hegemônica está eufórica com a possibilidade de tirar o PT do governo federal. Baba por essa possibilidade. Chega a ser nojento.

7) Acredito que a disputa que pauta o país, do ponto de vista eleitoral, segue entre PT e anti-PT. Mesmo que não se possa dizer que é uma disputa entre esquerda e direita (e não se pode), alguns elementos da díade atuam nessa polarização.

8) As pessoas não entendem o papel do Legislativo e botam qualquer um lá. Teremos um bando de fascistas no Parlamento. Entendendo ou não as regras do jogo, a sociedade brasileira tem fortes traços conservadores. Como se faz visto para o Uruguai?

9) O Rio Grande do Sul é esquizofrênico. Retirou Ana Amélia da jogada. Botou Lazier. E pro Parlamento fez a festa do conservadorismo, mais uma vez. Saravá!

10) Em São Paulo, para se eleger, basta deixar claro: “vou acabar com a água, votem em mim!”. Só terminará o reinado do PSDB quando secar toda a água e houver o total extermínio da juventude pobre e negra? Salve-se quem puder.

Os próximos capítulos serão quentes. O Brasil não é para principiantes. Até o dia 26, será ainda menos. Cabe mais política e, sobretudo, informação.

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