SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 8

América do Sul, Brasil,
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sábado, 20 de agosto de 2016

Em defesa da educação pública

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Tive um pesadelo numa noite qualquer. Paralisado, olhava para os lados e não acreditava no que via. As pessoas se divertiam vendo jogos na televisão ou caçando bonequinhos no seu telefone, e isso até me deixava aliviado, no início. Diversão e lazer é importante, afinal. Porém, segundos depois, eu procurava o meu emprego e não mais encontrava. Logo, outros colegas e alguns estudantes estavam por perto e também pareciam nervosos. Todos procuravam as suas escolas e universidades públicas. Ninguém achava. 

No desespero, parei para pensar. Aquilo não poderia ser possível. Todos os dados e pesquisas que demonstravam a maior qualidade das universidades e escolas federais, na comparação com as privadas, não adiantaram para evitar que elas desaparecessem do mapa. Nem o fato de que na última década as escolas e universidades federais, sempre mais bem classificadas nos rankings de avaliação da educação formal, atenderam em grande parte das suas vagas estudantes das classes populares, nem isso tinha adiantado para manter as instituições públicas em funcionamento.

Que pesadelo cruel. Aos poucos, os governos foram minguando os recursos e sucateando as instituições. Não tiveram vontade política para aplicar a fórmula de sucesso das redes federais nas redes estaduais e municipais. A população, vidrada nos seus smartphones e televisores tela-plana, seguia inerte, mesmo que abandonasse de vez o sonho de estudar em escolas e universidades de qualidade e gratuitas. Alguns se matavam por meia dúzia de bolsas em instituições particulares, cada vez mais suntuosas e milionárias. Poucos conseguiam. Era tudo muito apavorante. Educação tinha se tornado, de uma vez por todas, apenas uma mercadoria.

Precisava acordar desse pesadelo. Mas não conseguia. Em vez de priorizar investimentos com o dinheiro de todos para a educação, esse dinheiro ia sei lá para onde. Precisava acordar daquela tragédia em forma de sonho. No meio de uma gritaria, acho que um protesto, acabei acordando. Ufa, que alívio. Lavei o rosto, tomei um café e fui me informar sobre os últimos acontecimentos. Minha espinha gelou. Era mesmo um pesadelo tudo aquilo? Já nem sabia mais.

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Desigualdades e educação formal


Caprara, palestra IF Farroupilha (Panambi)

Na manhã do dia 16 de agosto de 2016, estive no Instituto Federal Farroupilha, campus Panambi, para participar do evento ComViver 2016 - Das possibilidades de viver a alteridade. O evento, pensado para estimular os debates e reflexões sobre desigualdade e diversidade entre os servidores do campus, contou com diversas atividades. Numa delas, apresentei a palestra "Desigualdades e instituições educacionais no século XXI", refletindo sobre as relações entre as variadas dimensões das desigualdades encontradas no nosso tempo e a educação formal. Retornar ao Instituto, no qual vivi pouco mais de seis meses muito importantes para a minha trajetória profissional, foi uma honra e uma imensa alegria. A minha fala pode ser acessada no link abaixo.


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terça-feira, 26 de julho de 2016

Lutas simbólicas no século XXI


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A violência explícita das ideias e dos discursos de Trumps, Bolsonaros ou Le Pens, no fundo, esconde um argumento tão preocupante quanto a sua carcaça. Por trás da gritaria e da simplificação, parece haver uma perspectiva de que “eu e o meu grupo” merecemos uma vida digna e “vocês, os vagabundos”, não se esforçam e não servem para nada.

Não à toa, os “outros” são sempre categorias que remetem às populações em desvantagem na competição pela sobrevivência: os negros, as mulheres, os estrangeiros, os homossexuais e assim por diante. Justificar e legitimar através da atividade simbólica (ideias, argumentos, etc.) o acesso desigual a bens e recursos escassos mostra-se importante para manter as coisas como elas estão na atualidade.

O que pode ajudar a explicar a adesão crescente a essa pauta que fratura a humanidade entre pessoas merecedoras de dignidade e aquelas para as quais só resta o ódio e o desprezo? Penso que os trabalhos de Jessé Souza, polêmico sociólogo brasileiro, oferecem articulações interessantes para esse desafio¹. Não me refiro às críticas do autor às tradições da intelectualidade brasileira, que considero secundárias na sua obra. Acredito que o mais promissor se encontra na tentativa de entender como uma espécie de “ideologia espontânea” das modernas sociedades capitalistas consegue se “fixar” nas instituições e nos indivíduos em pleno século XXI; como esse ideário logra êxito em legitimar sociedades cada vez mais desiguais e excludentes?

Em primeiro lugar, é preciso reconstruir uma “hermenêutica da moralidade moderna”, isto é, estabelecer um processo interpretativo e histórico sobre como chegamos, hoje, a acreditar que determinadas ações são corretas e outras não. Estamos constantemente avaliando uns aos outros e a nós mesmos a partir de uma hierarquia valorativa não percebida. Agimos assim porque seguir ou não uma regra social e moral é, sobretudo, uma prática incorporada. Charles Taylor, filósofo canadense, diz que a identidade do sujeito moderno é constituída pelo “self”, o “eu”, dividido na busca pela dignidade, pela autenticidade e pela mobilização religiosa. O que me interessa aqui é o “princípio da dignidade” que nos conforma. Digno é aquele indivíduo fruto da Reforma Protestante, que relega os seus desejos e abraça uma economia moral calculista, voltada ao pensamento prospectivo, ao autocontrole e ao trabalho produtivo, elementos que justificam a autoestima individual e o reconhecimento social.

Se Taylor está certo em caracterizar o “conteúdo moral” que compõe as hierarquias dos julgamentos que tecemos uns sobre os outros todos os dias, falta entender como essas hierarquias se traduzem nas instituições e nas práticas individuais. No pensamento de Michel Foucault, filósofo francês, a categoria “poder disciplinar” surge dos estudos sobre as novas formas de punição nas sociedades modernas. A punição em praça pública dá lugar, no âmbito institucional, à punição discreta e atomizada. O poder disciplinar não está apenas nos mecanismos de punição, mas transforma os modos de produzir a legitimidade do ordenamento social. O indivíduo moderno se encontra constituído por essas novas “técnicas do poder”. O poder disciplinar faculta a classificação dos indivíduos e o cálculo da força de trabalho, arrolando os corpos numa “rede de relações hierárquicas”. As formatações institucionais da modernidade atualizam o princípio da dignidade descrito por Taylor. Só será recompensado pelo reconhecimento das outras pessoas aquele sujeito que incorporar o autocontrole, a disciplina e o pensamento prospectivo.

Resta investigar como esse poder disciplinar se incorpora nos indivíduos e condiciona o sentido objetivo da ação das instituições sobre a individualidade das pessoas. O conceito de habitus, de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, permite analisar as formas como a hierarquia valorativa inarticulada, pormenorizada por Taylor e prescrita por Foucault como elemento central do poder disciplinar nas instituições modernas, capacita-se a “tornar-se corpo” nas pessoas, o que a leva a um automatismo pré-reflexivo. A noção de habitus é capaz de revelar como um sistema de estruturas cognitivas que nos motiva nas ações práticas, um sistema de disposições duráveis inscritas desde as primeiras socializações, organiza e condiciona previamente nossas possibilidades, liberdades, limites e oportunidades. A vida social consciente precisa de uma vida social inconsciente, precisa de um agregado não-dito de competências linguísticas e culturais que autoriza a vida social consciente e, em paralelo, a dinâmica pré-reflexiva do cotidiano.

Dessa forma, com a hierarquia valorativa descrita por Taylor, o poder disciplinar de Foucault e o habitus de Bourdieu, Jessé Souza articula um debate promissor para pensarmos as lutas simbólicas de classificação e desclassificação no nosso tempo². Entender o que faz com que uma multidão de pessoas tenha coragem de berrar e agredir outras pessoas, considerando-se mais merecedora de dignidade e "boa vida" que "os outros, os vagabundos”, pode passar por uma agenda de pesquisa nessa trilha. Talvez isso possa nos ajudar a construir um futuro em que a dignidade não seja um privilégio usufruído por uma parcela cada vez menor de habitantes do planeta.

Notas

¹ Destaco, sobretudo, duas obras: “A construção social da subcidadania” (BH, Editora da UFMG, 2012) e “A tolice da inteligência brasileira” (SP, Leya, 2015), essa última com o foco na “Parte III”.

² Por óbvio, este debate exige muito mais fôlego do que este pequeno texto apresenta. Além disso, o aprofundamento de pesquisas sociológicas com amplo tratamento teórico de dados empíricos pode fazer crescer bastante a compreensão dos referidos fenômenos.

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sábado, 23 de julho de 2016

Entre o peso, a leveza e o equilíbrio


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, diz a sentinela enquanto Hamlet encontra o fantasma de seu falecido pai. “Há algo de podre na sociedade brasileira”, eu penso enquanto um raio de Sol me abraça em pleno inverno e as páginas de William Shakespeare fazem meu coração disparar. Assim é a literatura. Afeta os nossos horizontes e nos faz abrir a caixa de ferramentas da imaginação (e da crítica social, talvez?).

Alguns dos livros que andei lendo, neste semestre, fomentaram reflexões sobre o momento conturbado do Brasil. “Submissão”, do francês Michel Houellebecq, cutucou meus pensamentos já em janeiro. Fez-me refletir sobre todas as pequenas submissões às quais nós vamos cedendo no cotidiano. Coisas que parecem pequenas, como achar normal trabalhar um milhão de horas semanais e quase não ter vida, achar normal opressões e desigualdades, ou mesmo, como no livro, ir passo a passo se submetendo a uma “cultura alheia” que vai se impondo e dominando as nossas vidas.

Depois, foi a vez de me deparar com a formação religiosa extremamente endurecida, marcante nas personagens de Chimamanda Adichie, em “Hibisco Roxo”. A ânsia de mergulhar na vastidão deste mundo e na sua veia dionisíaca enfrenta o universo de experiências deixadas para trás por uma moral conservadora até o talo. A sanha religiosa do “chefe de família” narrado pela nigeriana contrasta com as práticas de violência física punitiva a qualquer ato "diferente" dos filhos e com diversas contradições entre o que as pessoas são e o que uma doutrina religiosa totalizadora acredita que as pessoas deveriam ser. A cara do Brasil e dos asseclas fundamentalistas, alguém diria.

“Casei com um comunista”, do estadunidense Philip Roth, mostra bem o teor da velha perseguição ao outro político, à ideologia rival transformada em inimigo interno. Demonstra uma senil caçada institucional ao comunismo, muito atual no cenário brasileiro contemporâneo – por incrível que isso possa parecer. Ora, vamos nos submetendo cotidianamente a uma vida estranha e desumana, em que a “vida em si” fica em segundo plano; vamos convivendo e sendo afetados por fundamentalismos variados, sobretudo religiosos, que não se sustentam no confronto entre doutrina e prática, mas fazem grandes estragos na dinâmica social; e vamos, também, observando cada vez mais qualquer coisa que não seja a “tradição do homem de bem e suas propriedades” ser colocada na prateleira da monstruosidade comunista. Ira Ringold, personagem de Roth, hora dessas pode aparecer, com outra roupagem, numa condução coercitiva sob os holofotes das grandes empresas de comunicação.

O texto que me desestabilizou mais, “Os Mandarins”, de Simone de Beauvoir, é uma autêntica “pedrada existencialista”. Um grupo de intelectuais de grande porte se debate na França do pós-Segunda Guerra sobre o seu papel nos rumos políticos do planeta. Como os antigos funcionários públicos chineses, a impressão inconsciente é que os habitantes do “mundo do conhecimento” vão perdendo, dia após dia, o seu lugar de influência nas arenas políticas e, portanto, na definição do futuro da vida em sociedade. A angústia e a melancolia de pessoas que tem muito a dizer, e poucos que as escutem, prenunciam uma era dominada por uma racionalidade instrumental, ao mesmo tempo em que feita de chavões e apelos publicitários. Hoje, os memes, as aparentes verdades simplificadoras e a violência como resposta primeira tendem a reinar onde o conhecimento é mais do que desvalorizado.

Por fim, Milan Kundera resume o meu sentimento nesse semestre que termina. “A insustentável leveza do ser” me jogou, de cabeça, no conflito entre o peso e a leveza no arrastar do tempo que vai passando, como numa espiral entre o velho e o novo, conquistas e atrasos. O evidente peso do contexto político nacional, de usurpação do poder e acirramento da barbárie, de ataques reiterados a direitos constitucionais e liberdades individuais, interage sem parar com a leveza dos avanços micropolíticos de igualdade e solidariedade que, sim, renovam-se por toda a parte. Mas, atenção, Kundera nos desperta: pode o peso se fazer leve, por vezes, e a leveza pesar tanto quanto o peso. Acho que a gente segue tentando descobrir onde vive o equilíbrio.

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domingo, 10 de julho de 2016

Max Weber, classes e situação de classe


As "classes" não são comunidades no sentido aqui adotado, mas representam apenas fundamentos possíveis (e freqüentes) de uma ação social. Falamos de uma "classe" quando 1) uma pluralidade de pessoas tem em comum um componente causal específico de suas oportunidades de vida, na medida em que 2) este componente está representado, exclusivamente, por interesses econômicos, de posse de bens e aquisitivos, e isto 3) em condições determinadas pelo mercado de bens ou de trabalho ("situação de classe"). É o fato econômico mais elementar que o modo como está distribuído o poder de disposição sobre a propriedade material, dentro de uma pluralidade de pessoas que se encontram e competem no mercado visando à troca, cria já por si mesmo oportunidades de vida específicas. Segundo a lei da utilidade marginal, exclui os não-possuidores da participação na concorrência quando se trata de bens de alto valor, em favor dos possuidores, e monopoliza para estes, de fato, a aquisição desses bens. Abarca, em circunstâncias de resto iguais, as oportunidades lucrativas na troca para todos aqueles que, abastecidos de bens, não dependem, sem mais, da troca e aumenta, pelo menos em geral, seu poder na luta de preços contra aqueles que, sem propriedade, não podem oferecer nada além de seus serviços em forma de trabalho ou de produtos do trabalho próprio e estão obrigados a vendê-los a qualquer preço, para garantir a mera existência. Monopoliza para os possuidores a possibilidade de transferir a propriedade da esfera do aproveitamento como "patrimônio" para a esfera do emprego como "capital" - isto é, a função de empresário e todas as oportunidades de participação direta ou indireta no lucro do capital. Tudo isso ocorre dentro da esfera de vigência das puras condições de mercado. A "propriedade" e a "falta de propriedade" são, portanto, as categorias fundamentais de todas as situações de classe, quer se efetivem na luta de preços, quer na luta de concorrência. Dentro destas últimas, as situações de classe diferenciam-se conforme a natureza da propriedade aproveitável para fins aquisitivos, por um lado, e dos serviços que podem ser oferecidos no mercado, por outro. A propriedade de edifícios habitacionais, a de oficinas, armazéns ou lojas, a de terras aproveitáveis para a agricultura e, dentro desta, a propriedade grande ou pequena (diferença quantitativa que eventualmente traz conseqüências qualitativas), a propriedade de minas, gado, pessoas (escravos), o poder de disposição sobre instrumentos de produção móveis e meios de aquisição de todas as espécies, sobretudo dinheiro ou objetos que, com facilidade específica, podem ser convertidos a cada momento em dinheiro, sobre produtos de trabalho próprio ou alheio, diferente segundo o grau em que o produto está pronto para o consumo, sobre monopólios de qualquer espécie - todos estes fatores variados diferenciam as situações de classe dos possuidores, do mesmo modo que o "sentido" que dão e podem dar ao aproveitamento de sua propriedade, sobretudo a propriedade que vale dinheiro, isto é, conforme pertençam, por exemplo, à classe dos rentistas ou à dos empresários. E do mesmo modo diferenciam-se consideravelmente entre si os agentes, sem haveres da oferta de serviços, conforme as diferenças entre estes serviços e também conforme o modo de convertê-los em ganhos, seja numa relação contínua com o mesmo comprador, seja caso por caso. Mas sempre vale para o conceito de classe que a oportunidade no mercado é o condicionador comum do destino dos indivíduos. Nesse sentido, a "situação de classe" significa, em última instância, a "situação no mercado". Constitui apenas uma fase preliminar da autêntica formação de "classes" aquele efeito da propriedade sem mais, puramente como tal, que, entre os povos criadores de gado, sujeita o não-possuidor, como escravo ou servo, ao poder do proprietário de gado. Mas, certamente, surge nesse caso, no empréstimo de gado e na crueza do direito de dívidas dessas comunidades, pela primeira vez, a mera "propriedade", como tal, como determinante do destino do indivíduo, em forte contraste com as comunidades agrárias baseadas no trabalho. A relação credor-devedor tornou-se um fundamento de "situações de classe" somente nas cidades, onde se desenvolveu um "mercado de crédito" - ainda que muito primitivo - com taxas de juros, que aumentavam de acordo com a necessidade, e com uma monopolização efetiva dos empréstimos por parte de uma plutocracia. Com isso, iniciam-se as "lutas de classes". Por outro lado, uma pluralidade de pessoas - cujo destino não está determinado pela oportunidade de uma valorização própria de bens ou trabalho no mercado, como, por exemplo, os escravos - não constitui, no sentido técnico, uma "classe" (mas um "estamento").

WEBER, Max. Economia e Sociedade: volume 2. São Paulo: Editora da UNB, 2004. Páginas 176-77.
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