SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 6

América do Sul, Brasil,
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sábado, 20 de dezembro de 2014

Muda, vai

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um dia ele foi parado na rua por um estranho.

- Muda, vai.

Aquilo ficou na cabeça. Mudar?

O tempo passou. E essa ideia também.

Porém, a ideia estava por aí.

Para ele, enfim, pouco mudava.

Então, um dia, um sonho virou realidade.

Com ele, uma mudança. Radical. Forte.

Aí ele entendeu. Mudar não é um problema. O problema é o que fica pra trás.

Sozinho, entendeu. Só entendeu.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Paradoxo viajante

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sempre que venho ao nordeste, um paradoxo me consome.

Salta aos olhos a boniteza das gentes, dos lugares, do clima, das culturas, da diversidade e da própria vivência.

Amarga muito, a despeito das mudanças da última década, a miséria humana, as desigualdades e as opressões.

O nordeste é, para mim, a expressão profunda do Brasil. Quente, envolvente, alegre, bonito, desigual e contraditório.

Um lugar irresistível. Um lugar de vidas vivas e em movimento.

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Aquele abraço, Escola Técnica Estadual Senador Ernesto Dornelles

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Querida Escola Técnica Ernesto Dornelles; queridos colegas de trabalho; querido PIBID e queridos Pibidianos; queridos e inesquecíveis estudantes:

Não sei o que me fez chegar à educação. Sei que sempre tive muitas oportunidades na vida. Nas Ciências Sociais, porém, as coisas nunca foram tão fáceis. Sei que não faço o estilo dos dominantes no campo científico da minha área. Calças largas, dificuldade de distanciamento das ruas, uma certa desconfiança do ascetismo acadêmico. Até o boné que usei durante um tempo incomodava os meus pares. A minha fala, inundada pela fala cotidiana, ainda incomoda. Enfim, acho que cheguei à educação para não ficar preso num conto de fadas.

1 QUERIDA ESCOLA TÉCNICA ERNESTO DORNELLES

Era uma manhã de calor. Parei em frente à escola, lá em 2012, e fiquei paralisado. Fui consumido pelo medo, pela ansiedade. Não sabia como seria mais uma inserção num novo local de trabalho, com novas relações e novos desafios. Demorei a entrar.

De lá para cá, o Ernesto se tornou um lugar inesquecível na minha trajetória. Ali, nas salas de aula, nos corredores, em todos os locais do prédio centenário, fiz muitos amigos e cresci demais como professor. Se na Barra do Ribeiro eu me tornei professor, no Ernesto eu aprendi muito sobre a docência e ganhei a certeza momentânea de que este é o meu ofício.

Em todos os lugares que passo, com todas as pessoas que falo, nunca deixo de ressaltar a qualidade das atividades que se desenvolvem na escola. Isso não significa ignorar ou minimizar os problemas. Isso não significa tapar o sol com a peneira. Significa, somente, dar os créditos e valorizar uma coisa que sinto no fundo mais profundo das minhas ideias e sentidos.

O Ernesto é, sim, uma grande escola. E nele está a demonstração de que a escola pública pode ser de qualidade. Que a escola pública pode ter grandes profissionais, grandes projetos, enfrentar as dificuldades estruturais com força e determinação. Tenho muito orgulho desses dois anos que tanto me marcaram nas bandas da Praça da Bronze.

O Centro Histórico de Porto Alegre, minha querida cidade, aquela que jamais experimentei ficar longe, nunca mais será o mesmo para os meus olhos. Sempre que eu sentir a brisa do Guaíba ou tomar um mate no Gasômetro, o Ernesto surgirá na memória e me deixará arrepiado, trazendo lembranças intensas que guardo no peito com muito carinho.

2 QUERIDOS COLEGAS DE TRABALHO

Uma escola é feita de pessoas. Muitas vezes nos esquecemos disso. Mas isso não pode ser esquecido. É verdade que o rodo cotidiano, o peso das estruturas sociais injustas e desiguais, tudo isso acaba soterrando a humanidade dos professores e dos funcionários de escola. É verdade, também, que mesmo assim essa humanidade sempre vem à tona.

Não vou nomear a todos, mas gostaria de agradecer profundamente a todos os colegas de trabalho. Professores e funcionários, sem vocês a minha passagem pelo Ernesto não teria nenhuma parte do brilho que tem para mim. Esse brilho que sinto não é meu. Ele foi construído com vocês, com divergências, sinergias, erros, acertos, amizades e coexistências. Muito obrigado pela parceria.

Preciso e quero falar de algumas pessoas especiais. Como não nomear as meninas-mulheres espetaculares que me aguentaram nesses dois anos na divisão do ensino de sociologia? Impossível! Cris, Ivete e Nina: vocês são foda! Desculpem a linguagem, mas vocês são especiais, vocês foram a melhor parceria que já tive nessa minha pequena experiência docente envolvendo a sociologia. Que orgulho e que saudade eu já tenho de vocês. Não vai ser fácil deixar de trocar uma ideia, dar risadas e pensar trabalhos e atividades em conjunto com vocês. Sentirei muitas saudades. Muitas mesmo.

Raquel, Davi, Neto, Milton, Margareth e todos os demais: muito obrigado pelo aprendizado que me proporcionaram. Deixo as minhas sinceras desculpas pelos fracassos, pelas insuficiências, pelos insucessos, pelas minhas falhas, defeitos e por tudo aquilo que não consegui aprender e pôr em prática com vocês. Um beijo grande no coração, de um ex-colega que tanto vos admira.

3 QUERIDO PIBID E QUERIDOS PIBIDIANOS

Nesses dois anos de Ernesto, tive a maravilhosa oportunidade de supervisionar um dos projetos mais valiosos da educação básica brasileira na atualidade. Supervisionar o PIBID Ciências Sociais UFRGS no Ernesto não foi uma tarefa, foi um orgulho, uma alegria, um baú de amizades, experiências e aprendizados.

De tudo, as pessoas são sempre o mais importante. Quando cheguei, num turbilhão de acontecimentos, não previ que tais pessoas seriam tão importantes para mim. Rafael Barros, Marcela, Bruna, Gui Maltez, Gui Soares, Gui Rodrigues, Marco Plá, Juan, Juliano, Adriana e Cássio: vocês são lindos, vocês são pessoas incríveis, profissionais (sim, profissionais!) da educação que fazem e farão toda a diferença nesse mundo cruel. Pra cima deles, gurizada! Tô com vocês sempre, pro que der e vier, longe ou perto. Obrigado por tudo. Desculpem, vocês também, todas as minhas incapacidades e as diversas aulas lamentáveis que vocês tiveram que participar.

Deixo um beijo e um agradecimento especial ao Gui Rodrigues e ao Juliano: irmãos, obrigado pela fidelidade. Não vem ao caso detalhar o que sinto, mas muito obrigado pela fidelidade. Vocês sabem do que estou falando. Nunca vou me esquecer disso.

Obrigado ao PIBID Ciências Sociais UFRGS, pela oportunidade de supervisão nesses dois anos, pelo aprendizado, pelas oficinas, por tudo. Obrigado a todos os Pibidianos que comigo dividiram o seu tempo. Vocês me fizeram uma pessoa melhor. Vocês me fizeram um professor melhor. Meu carinho por vocês não cabe em palavras.

4 QUERIDOS E INESQUECÍVEIS ESTUDANTES

Pois é. Não existe escola sem estudantes. E mesmo assim muita gente esquece disso! Porra, gurizada... não deixem que a galera esqueça disso! Vocês, queridos e inesquecíveis estudantes, todos vocês que compartilharam seu tempo e sua vida comigo nesses dois anos, são e sempre serão o coração da escola. Enquanto vocês estiverem na escola, vocês continuarão sendo os protagonistas.

Nesses dois anos, vocês me ensinaram muito. Vocês trouxeram experiências, vivências, alegrias, tristezas e muitas emoções para a sala de aula. E era isso mesmo que eu queria, isso que eu sempre desejo que esteja presente na sala de aula. Saio do Ernesto apaixonado por vocês, levando um pouco de vocês comigo para qualquer lugar.

Vocês, queridos e queridas, renovaram a minha fé na educação. Renovaram a minha fé na espécie humana, cheia de inacabamentos e inconsistências, mas cheia de bonitezas e sentimentos. Vocês, inclusive aqueles que pouco gostaram de mim, que pouco se envolveram na sociologia que propus, deixaram um tantinho das vossas personalidades incrustrado nesse aventureiro professor.

Desejo e torço para que vocês sigam a melhor caminhada possível. Desejo e torço para que os seus sonhos se realizem, para que vocês tenham forças para lutar por eles. Torço para que vocês não abaixem a cabeça, enfrentem as desigualdades, lutem pelas oportunidades que vocês merecem, sim! Busquem as oportunidades e, se conseguirem, não esqueçam aqueles que não as têm. Sejam agentes ativos das suas próprias oportunidades e dos seus próprios sonhos, mas sejam agentes ativos da construção de oportunidades e realização de sonhos para todos.

Tentei deixar com vocês a melhor parte de mim. Sei que isso não é muito, mas espero que tenha sido, pelo menos, intenso e alegre. Hoje, eu só sou quem eu sou também por causa de vocês. Obrigado por brilharem tanto na minha estrada. Muito obrigado. Tâmo junto!

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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Um bocadinho de tristeza

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A vida é uma loucura. Diz o poeta: “Fazer o quê, se é assim, vida louca, cabulosa!”.

Ontem e hoje. Hoje e amanhã. Idas e vindas. Encontros e despedidas. Convicções e arrependimentos. Sucessos e fracassos. Erros e acertos. Pessoas do agora. Pessoas do sempre. Isso pra falar só dos detalhes.

Tem também uma pá de outras coisas muito mais loucas, muito mais complexas. A gente planeja, sonha, bota o coração e, olha aí, acontece. Por completo. Pela metade. Com mais sacrifícios ali na frente. Ou nunca acontece mesmo. A vida pode ser dura. É. Bate na gente. Nos outros. Bate na trave. Bate na trave e entra. Vai vendo...

No fim, há vários fins. O fim é um baita desafio. Se o caminho teve alegria, se foi intenso, inevitavelmente caberá um bocado de saudade e tristeza. Difícil, mas que fique uma saudosa lembrança e só um bocadinho de tristeza.

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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Natureza e cultura: os “genes da violência”


Por Fernando de Gonçalves
Sociólogo pela UFRGS
Do blog
Sociedade dos Indivíduos

Nos últimos dias, a divulgação de uma pesquisa sobre a descoberta de genes que poderiam estar associados com a violência despertou uma série de temores, que iam desde a eugenia à volta das teorias lombrosianas, passando pelas acusações de darwinismo social. Minha ideia nesta breve postagem é mostrar que esses temores não deveriam se sustentar.

Não devemos pensar no comportamento violento como algo recente, fruto do capitalismo, do Estado ou da modernidade, muito menos como um padrão patológico. A evolução biológica selecionou não aqueles organismos mais violentos e fortes, como uma leitura superficial da teoria da evolução poderia levar a crer, mas sim aqueles que conseguiam equilibrar padrões de violência e de não violência. Como Dawkins nos mostra em O Gene Egoísta, animais fazem uso da violência para uma série de coisas vitais que proporcionam sua perpetuação, desde conseguir alimento, se defender para não virar alimento e disputar parceiros sexuais. Ocorre, porém, que ao contrário de pedras e da maioria das plantas, o animal é um ser que vai revidar à violência quando atacado. Assim, um organismo “programado” para atacar sob quaisquer circunstância, acabaria sendo eliminado pela seleção natural, visto que se colocaria em subsequentes situações de confronto. Dawkins cita uma série de experimentos com modelos computacionais – com o auxílio da teoria dos jogos – que descreviam diferentes organismos com diferentes estratégias em reação à violência, desde organismos pacifistas, que nunca atacavam  e sempre buscavam a cooperação (mesmo depois de atacados) a organismos beligerantes, que atacavam sob qualquer circunstância. Em praticamente todos os modelos, os organismos “vencedores” eram aqueles com estratégias do tipo “olho por olho, dente por dente”: nunca ataque primeiro, seja forte o suficiente para resistir a um primeiro ataque, ataque quem lhe atacou antes e coopere com quem cooperou com você na rodada anterior. No mundo real, isso pode significar que tanto organismos ingênuos (que sempre escolheriam a cooperação) e organismos beligerantes (que sempre atacariam) não conseguiram passar seus genes adiante e, portanto, foram eliminados pelo processo de seleção natural. Esse fluxo pode dar pistas sobre como o padrão de violência em animais pode ter evoluído até nossos ancestrais primatas e desvendar as “causas profundas” das propensões à violência que fariam parte do genoma de todos os seres humanos.


Continuar leitura…

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A disputa pela verdade nacional

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Passadas as eleições, a política ficou. Cheia de ódio, mas ficou. Há, pelo menos, quatro tipos-ideais de discursos que tentam dizer qual é a verdade sobre a sociedade brasileira. Primeiro, os mais radicais.

1) O Brasil é uma ditadura comunista em curso, metendo a mão na liberdade das pessoas. Vai virar Cuba e não podemos deixar isso acontecer. Os militares precisam agir. As políticas sociais do governo demonstram isso e a corrupção também. Fomentam a alegria dos vagabundos, das putas e dos gays. A democracia é uma farsa. Lobão é o líder redentor e a revista Veja o bastião da liberdade de imprensa. Ordem já!

2) As políticas sociais do governo são assistencialistas e não mudam a estrutura política e econômica do país. Há um crescimento do consumo das classes populares, mas não uma diminuição das desigualdades, pois os ricos estão cada vez mais ricos. O Estado brasileiro é autoritário e o governo reeleito não tocou na fonte desse autoritarismo em 12 anos. Pelo contrário, aprofundou esse cenário, como junho de 2013 demonstrou. Não há avanços significativos. A democracia é uma farsa. É preciso derrubar ou reconstruir o sistema.

Ambos os discursos batem no PT, de maneiras muito distintas, é óbvio. O PT é o epicentro da disputa pela verdade nacional. Vamos aos moderados.

3) O PT está desorganizando a economia e incentivando mecanismos institucionais autoritários. Não consegue pensar na combinação entre livre mercado e políticas sociais, porque está mergulhado em ideologias ultrapassadas. Está aparelhando o Estado e minando a democracia. A alternância do poder é necessária, mas não se deve pensar em golpe. A via da política institucional deve ser mantida e fortalecida, o que não impede denúncias e críticas ao PT. O PT é o alvo, pois os radicais pró-militares são minorias ridicularizadas pela nação. Prega-se um Estado mínimo e eficiente, com políticas sociais.

4) O Estado brasileiro vem sendo saqueado há séculos. O PT não modificou o modus operandi da política brasileira, apenas criou e fortaleceu políticas sociais importantes, que fizeram as classes populares darem um salto no que tange às oportunidades de ascensão social. É preciso pressionar o PT para que essas conquistas sejam aprofundadas, para que a democracia seja aprofundada. É preciso rejeitar os vícios autoritários do PT e estimular uma maior participação popular, consolidando as vias institucionais. É preciso combater os golpistas e sustentar os procedimentos democráticos como ponto de partida para um aprofundamento do combate às desigualdades e em prol dos direitos humanos. Essas pressões têm mais chances de ocorrer com o PT no governo do que com os demais partidos da ordem.

A coisa é mais complexa, eu sei. Mas esses argumentos estão por aí. Entrelaçados ou separados. E então, como pensar a realidade brasileira? Há mais perigo com o PT instrumentalizando o Estado com seu viés dito estalinista? Há mais perigo no saudosismo das ditaduras militares, cada vez mais presente? Não há perigo, há de se disputar os rumos numa democracia que já está consolidada?

As hipóteses de resposta, de minha parte, ficam para outra ocasião.

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