SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 8

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Sérgio Buarque de Holanda: raízes do Brasil



O objetivo de Raízes do Brasil, dentro do leque de questões que mobilizou o debate intelectual nos anos 30, é o de tentar compreender a sociedade brasileira a partir da questão da existência ou não de um "tipo próprio de cultura". Entretanto, antes de procurar definir este tipo, caberia investigar até que ponto ainda nos encontramos dentro dos padrões legados pela colonização ibérica, "(...) único esforço bem sucedido, e em larga escala, de transplantação de uma cultura européia para uma zona tropical e subtropical" (Holanda, 1936, p. 3).

O livro é aberto com a discussão sobre as sociedades ibéricas. Estas são analisadas a partir de sua posição geográfica nas fronteiras da Europa, intermediárias entre a Europa e a África e zonas de transição do continente. Uma posição limítrofe que será de grande importância para a compreensão do lugar específico ocupado pela cultura de tais sociedades no interior do chamado "europeísmo".

A característica principal deste tipo de mentalidade foi, segundo Sérgio Buarque de Holanda, o desenvolvimento extremado da "cultura da personalidade", que se definia pelo valor dado à autonomia do homem e à ausência de qualquer tipo de dependência; uma espécie de "individualismo radical" que produz uma situação de luta e competição constantes na busca da auto-superação e acréscimo de prestígio pessoal. Outro aspecto de interesse foi a ausência, quase geral, do princípio de hierarquia, enfraquecendo as formas de organização que tinham por base a solidariedade e a ordenação. "Em terra onde todos são barões não é possível um acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida." (Holanda, 1936, p. 5).

Nestes termos, a cultura da personalidade é obstáculo a qualquer forma de associação que tenha por base os interesses. A possibilidade de união se dá muito mais através dos sentimentos, e são estes que forjam o único tipo de disciplina possível nessa situação: a obediência cega. Esta, na medida em que não se estrutura sobre qualquer tipo de contrato ou lealdade tradicional, é a única que pode existir num ambiente cujo apelo emocional é intenso, e onde o exercício constante da força apresenta-se como necessidade.

REFERÊNCIA

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Interregno

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Dias difíceis. Incertezas predominam. A tensão se alastra de vez. Na cafeteria, nem o café desce redondo. Ao meu lado, uma mesa repleta de homens. Velhos, brancos, bem alimentados, ostentando anéis dourados, sapatos lustrados e sorrisos marotos. Observo. Eles gritam em êxtase:

- Agora vai. Chega de vagabundo ou pobretão no poder. Bando de safado corrupto, tudo comunista. Tem mais é que apanhar na rua mesmo, principalmente as putinhas que ficam gritando “golpe”. Piranhas, isso é falta de rola!

Respiro fundo. Nas ruas, o pau tá comendo. A violência urbana cresce. Protestos também. O policiamento não dá conta da violência urbana. Dá conta, e com muita força, de reprimir protestos de esquerda. Nos domingos de verde e amarelo, só selfie e sorrisos, mesmo se os “de bem”, trajados de CBF, agredirem um ciclista de bike vermelha ou um gaiato qualquer usando barba ou vestindo a cor do capeta.

Nos meios de comunicação oligopolizados, a pauta é clara. Criminalizar os movimentos e o pensamento de esquerda. Atribuir à esquerda o fracasso da civilização ocidental capitalista. Atribuir à esquerda todos os males do mundo. E, por óbvio, fomentar a repressão. A roda do autoritarismo gira à brasileira. Pega o medo, o desespero, o caos, e bota nas costas da Polícia uma tarefa que não é dela: organizar a vida social e fazer política prática anti-esquerda.

Uma parte considerável da juventude simplesmente não cai mais nessa. A conta não fecha. O Brasil é extremamente injusto e desigual. Sim, o mérito e o talento devem ser recompensados. Mas não há mérito e talento que alcancem um lugar ao Sol sem equidade de oportunidades. Não há mérito e talento que se destaquem sem que haja isonomia nas relações políticas e nas oportunidades de acesso aos bens e recursos escassos. As exceções confirmam as regras. Para muitos, está claro que a conta não fecha. Vidas das periferias vão e vêm em condições subumanas, passando em branco na sua existência, acumulando ódios e mais ódios porque os desejos que se vende a todos quase nunca se tornam a sua realidade.

Na rodoviária, observo o pessoal da limpeza, os vigias, os atendentes das lojas, os cozinheiros, os garçons, os motoristas de ônibus, os vendedores de passagens. Dialogamos sobre o mundo. Ninguém desconhece o que acontece no país. Todos sabem que a política está em frangalhos. Mais uma vez, a conta não fecha. Quem me vende o prensado e o café de todas as semanas é taxativo:

- Isso tudo em Brasília... Professor, o senhor sabe, isso é briga deles. Nós, que saímos às cinco da manhã de casa e voltamos às onze da noite, ano após ano, vamos continuar nos fodendo. Política é isso aí, eles roubam e fodem o povo.

Escuto. Sinto. Preocupo-me em duas frentes. Primeiro, com o projeto de governo que vem aí, e que não venceu eleições. Chegou ao poder através de um rito aparentemente legal, mas com conteúdo muito discutível - para dizer o mínimo. Um projeto de desmonte dos direitos trabalhistas, de repressão e autoritarismo, de congelamento nos investimentos em saúde e educação, de privatizações a todo custo e onde quer que seja. Um projeto de poder que, tudo indica, não vai largar o osso com rapidez. Um projeto que de democrático só tem a propaganda de si próprio.

No fundo, preocupa mais ainda o que aprendi com as lições do professor Luiz Eduardo Soares, ainda nos protestos de 2013: se trocamos uma crítica política da situação que vivemos, por uma crítica generalizada à política em si, o abismo chega cada vez mais perto. Aqueles que observam “bestializados”, conforme expressão do professor José Murilo de Carvalho, às oligarquias que se engalfinham pelo poder institucional, cada vez mais parecem desacreditar a política enquanto negociação e organização da vida coletiva. Aí mora o risco de adesão total e irrestrita a messiânicos autoritários e pretensamente apolíticos.

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sábado, 20 de agosto de 2016

Em defesa da educação pública

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Tive um pesadelo numa noite qualquer. Paralisado, olhava para os lados e não acreditava no que via. As pessoas se divertiam vendo jogos na televisão ou caçando bonequinhos no seu telefone, e isso até me deixava aliviado, no início. Diversão e lazer é importante, afinal. Porém, segundos depois, eu procurava o meu emprego e não mais encontrava. Logo, outros colegas e alguns estudantes estavam por perto e também pareciam nervosos. Todos procuravam as suas escolas e universidades públicas. Ninguém achava. 

No desespero, parei para pensar. Aquilo não poderia ser possível. Todos os dados e pesquisas que demonstravam a maior qualidade das universidades e escolas federais, na comparação com as privadas, não adiantaram para evitar que elas desaparecessem do mapa. Nem o fato de que na última década as escolas e universidades federais, sempre mais bem classificadas nos rankings de avaliação da educação formal, atenderam em grande parte das suas vagas estudantes das classes populares, nem isso tinha adiantado para manter as instituições públicas em funcionamento.

Que pesadelo cruel. Aos poucos, os governos foram minguando os recursos e sucateando as instituições. Não tiveram vontade política para aplicar a fórmula de sucesso das redes federais nas redes estaduais e municipais. A população, vidrada nos seus smartphones e televisores tela-plana, seguia inerte, mesmo que abandonasse de vez o sonho de estudar em escolas e universidades de qualidade e gratuitas. Alguns se matavam por meia dúzia de bolsas em instituições particulares, cada vez mais suntuosas e milionárias. Poucos conseguiam. Era tudo muito apavorante. Educação tinha se tornado, de uma vez por todas, apenas uma mercadoria.

Precisava acordar desse pesadelo. Mas não conseguia. Em vez de priorizar investimentos com o dinheiro de todos para a educação, esse dinheiro ia sei lá para onde. Precisava acordar daquela tragédia em forma de sonho. No meio de uma gritaria, acho que um protesto, acabei acordando. Ufa, que alívio. Lavei o rosto, tomei um café e fui me informar sobre os últimos acontecimentos. Minha espinha gelou. Era mesmo um pesadelo tudo aquilo? Já nem sabia mais.

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Desigualdades e educação formal


Fala da Professora Ana Rita Kraemer da Fonseca, no Instituto Federal Farroupilha, campus Panambi

Na manhã do dia 16 de agosto de 2016, estive no Instituto Federal Farroupilha, campus Panambi, para participar do evento ComViver 2016 - Das possibilidades de viver a alteridade. O evento, pensado para estimular os debates e reflexões sobre desigualdade, diversidade e inclusão, reuniu os servidores do campus, além de contar com diversas atividades. Numa delas, apresentei a palestra "Desigualdades e instituições educacionais no século XXI", refletindo sobre as relações entre as variadas dimensões das desigualdades encontradas no nosso tempo e a educação formal. Retornar ao IF Farroupilha, no qual vivi pouco mais de seis meses muito importantes para a minha trajetória profissional, foi uma honra e uma imensa alegria. A minha fala pode ser acessada no link abaixo.


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terça-feira, 26 de julho de 2016

Lutas simbólicas no século XXI


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A violência explícita das ideias e dos discursos de Trumps, Bolsonaros ou Le Pens, no fundo, esconde um argumento tão preocupante quanto a sua carcaça. Por trás da gritaria e da simplificação, parece haver uma perspectiva de que “eu e o meu grupo” merecemos uma vida digna e “vocês, os vagabundos”, não se esforçam e não servem para nada.

Não à toa, os “outros” são sempre categorias que remetem às populações em desvantagem na competição pela sobrevivência: os negros, as mulheres, os estrangeiros, os homossexuais e assim por diante. Justificar e legitimar através da atividade simbólica (ideias, argumentos, etc.) o acesso desigual a bens e recursos escassos mostra-se importante para manter as coisas como elas estão na atualidade.

O que pode ajudar a explicar a adesão crescente a essa pauta que fratura a humanidade entre pessoas merecedoras de dignidade e aquelas para as quais só resta o ódio e o desprezo? Penso que os trabalhos de Jessé Souza, polêmico sociólogo brasileiro, oferecem articulações interessantes para esse desafio¹. Não me refiro às críticas do autor às tradições da intelectualidade brasileira, que considero secundárias na sua obra. Acredito que o mais promissor se encontra na tentativa de entender como uma espécie de “ideologia espontânea” das modernas sociedades capitalistas consegue se “fixar” nas instituições e nos indivíduos em pleno século XXI; como esse ideário logra êxito em legitimar sociedades cada vez mais desiguais e excludentes?

Em primeiro lugar, é preciso reconstruir uma “hermenêutica da moralidade moderna”, isto é, estabelecer um processo interpretativo e histórico sobre como chegamos, hoje, a acreditar que determinadas ações são corretas e outras não. Estamos constantemente avaliando uns aos outros e a nós mesmos a partir de uma hierarquia valorativa não percebida. Agimos assim porque seguir ou não uma regra social e moral é, sobretudo, uma prática incorporada. Charles Taylor, filósofo canadense, diz que a identidade do sujeito moderno é constituída pelo “self”, o “eu”, dividido na busca pela dignidade, pela autenticidade e pela mobilização religiosa. O que me interessa aqui é o “princípio da dignidade” que nos conforma. Digno é aquele indivíduo fruto da Reforma Protestante, que relega os seus desejos e abraça uma economia moral calculista, voltada ao pensamento prospectivo, ao autocontrole e ao trabalho produtivo, elementos que justificam a autoestima individual e o reconhecimento social.

Se Taylor está certo em caracterizar o “conteúdo moral” que compõe as hierarquias dos julgamentos que tecemos uns sobre os outros todos os dias, falta entender como essas hierarquias se traduzem nas instituições e nas práticas individuais. No pensamento de Michel Foucault, filósofo francês, a categoria “poder disciplinar” surge dos estudos sobre as novas formas de punição nas sociedades modernas. A punição em praça pública dá lugar, no âmbito institucional, à punição discreta e atomizada. O poder disciplinar não está apenas nos mecanismos de punição, mas transforma os modos de produzir a legitimidade do ordenamento social. O indivíduo moderno se encontra constituído por essas novas “técnicas do poder”. O poder disciplinar faculta a classificação dos indivíduos e o cálculo da força de trabalho, arrolando os corpos numa “rede de relações hierárquicas”. As formatações institucionais da modernidade atualizam o princípio da dignidade descrito por Taylor. Só será recompensado pelo reconhecimento das outras pessoas aquele sujeito que incorporar o autocontrole, a disciplina e o pensamento prospectivo.

Resta investigar como esse poder disciplinar se incorpora nos indivíduos e condiciona o sentido objetivo da ação das instituições sobre a individualidade das pessoas. O conceito de habitus, de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, permite analisar as formas como a hierarquia valorativa inarticulada, pormenorizada por Taylor e prescrita por Foucault como elemento central do poder disciplinar nas instituições modernas, capacita-se a “tornar-se corpo” nas pessoas, o que a leva a um automatismo pré-reflexivo. A noção de habitus é capaz de revelar como um sistema de estruturas cognitivas que nos motiva nas ações práticas, um sistema de disposições duráveis inscritas desde as primeiras socializações, organiza e condiciona previamente nossas possibilidades, liberdades, limites e oportunidades. A vida social consciente precisa de uma vida social inconsciente, precisa de um agregado não-dito de competências linguísticas e culturais que autoriza a vida social consciente e, em paralelo, a dinâmica pré-reflexiva do cotidiano.

Dessa forma, com a hierarquia valorativa descrita por Taylor, o poder disciplinar de Foucault e o habitus de Bourdieu, Jessé Souza articula um debate promissor para pensarmos as lutas simbólicas de classificação e desclassificação no nosso tempo². Entender o que faz com que uma multidão de pessoas tenha coragem de berrar e agredir outras pessoas, considerando-se mais merecedora de dignidade e "boa vida" que "os outros, os vagabundos”, pode passar por uma agenda de pesquisa nessa trilha. Talvez isso possa nos ajudar a construir um futuro em que a dignidade não seja um privilégio usufruído por uma parcela cada vez menor de habitantes do planeta.

Notas

¹ Destaco, sobretudo, duas obras: “A construção social da subcidadania” (BH, Editora da UFMG, 2012) e “A tolice da inteligência brasileira” (SP, Leya, 2015), essa última com o foco na “Parte III”.

² Por óbvio, este debate exige muito mais fôlego do que este pequeno texto apresenta. Além disso, o aprofundamento de pesquisas sociológicas com amplo tratamento teórico de dados empíricos pode fazer crescer bastante a compreensão dos referidos fenômenos.

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