SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 7

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 2 de julho de 2015

O "crime do raciocínio"

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Lamentável. Ações e reações. Sem diálogo.

- O Congresso Nacional deu um golpe bizarro ontem, colocou em votação algo votado um dia antes, num ato claramente inconstitucional.
- Petista!
- É muita desigualdade de oportunidades nesse país, isso acaba com as chances de sucesso da ideia do mérito.
- Vai pra Cuba!
- O Estado precisa lidar racionalmente com a segurança pública, fazer justiça e não propor vingança.
- Leva pra casa!
- As minas tem medo de serem estupradas quando veem um homem na rua, caminhando atrás delas.
- Feminazi!
- A educação pode ajudar a formar pessoas que amem os conhecimentos, sejam solidárias, cooperativas e capazes de pensar relacionalmente.
- Doutrinador marxista!

Na ação, o "crime do raciocínio", como diria um rap antigo do Face da Morte. Na reação, o louvor ao simplismo e a ignorância.

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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Efeitos reversos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Tudo parece indicar que as consequências da redução da maioridade penal tendem a ser semelhantes a uma narrativa que percebi de camarote, ontem, cortando o cabelo.

- Tu viu esse cliente que saiu agora?
- Sim.
- A filha dele tá cada vez pior na escola.
- E ele já tentou ajudar, participar da vida escolar dela e tudo mais?
- Teve uma vez, um tempo atrás, que inclusive ele veio aqui e disse que tava com o coração apertado.
- Por quê?
- Porque ela tava começando a ir mal no colégio, aí ele teve que dar uma tunda de cinta nela pra botar ela nos eixos.
- E agora...
- Pois é. Nem assim adiantou. Agora ela, além de ir mal no colégio, parece que tá com outros problemas que ele não quis contar. Graves parece.

Efeito reverso. Jogar jovens em presídios tem tudo pra ser uma calamidade. Uma calamidade que responde a um pensamento da pior espécie de senso comum, que tem preguiça de pensar e refletir, mas que tem sede de ações impulsivas.

Acabará ou diminuirá a violência? Tenderá a aumentar. Jovens fazem o que querem e não tem punição? Tem, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a partir da chamada idade infracional, com penas de restrição de liberdade e tudo. Sairão da cadeia pessoas melhores? As taxas de retorno ao sistema prisional das cadeias de adultos são bastante maiores do que os das instituições que aplicam medidas socioeducativas a adolescentes. E por aí vai.

Triste mesmo é ver que o obscurantismo do Congresso Nacional, pautado pela bancada da bala, do boi e da bíblia (na sua vertente menos humanista), dá as cartas e convence muita gente. Embaralha ideias e ajuda a confundir vingança com justiça.

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Em defesa do PIBID

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Durante as eleições presidenciais do ano passado, o debate político esteve ferrenho no país. A despeito de todo o ódio e ignorância, algumas pautas concretas estiveram em jogo. É o caso da educação. Muitos diziam que a vitória da continuidade governista deveria prosseguir e ampliar alguns avanços no âmbito educacional – inclusive eu.

De lá para cá, essa expectativa foi se transformando, passo a passo, numa triste ilusão. Dá para dizer que a primeira das cartadas mais do que lamentáveis originou-se na indicação de um Ministro da Fazenda cujos princípios econômicos remetem ao ideário badalado na campanha pela oposição. Agora, não bastasse o obscurantismo do Congresso Nacional e a inércia do governo, além dos sequentes tiros no pé, os projetos educacionais sob as rédeas da União parecem entrar numa rota bastante preocupante.

Noticia-se que os cortes de recursos, efeito do ajuste fiscal para o andar de baixo, atingem em cheio o Ministério da Educação. Informações de bastidores têm dado conta de que um dos programas mais relevantes da educação básica nacional dos últimos tempos, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), receberá um duro golpe das tesouras fazendárias. Mais do que o PIBID, se concretizado o contingenciamento de verbas, quem sofrerá as consequências será o setor mais vulnerável do sistema de ensino brasileiro: a educação pública de larga escala.

Atuei por dois anos como Professor Supervisor do PIBID na escola estadual em que trabalhava. O programa, feito para introduzir os estudantes das licenciaturas na escolarização, antes mesmo da realização dos seus estágios obrigatórios, deu uma nova cara às relações entre universidade e escola. A chegada dos licenciandos no ambiente escolar, no chão da sala de aula, tanto desestabilizou o lugar desconfortável das agruras do ensino público, quanto desestabilizou o pedestal ocupado pela universidade na formação de professores.

Quando uso o termo desestabilizou, refiro-me ao aspecto de ajudar a tirar o caráter imobilizado de ambos os locais. É óbvio que o PIBID tem muitas limitações e que não realizou e nem jamais realizará as mudanças que precisam ocorrer nas escolas e nas universidades. Só que o PIBID, dia após dia, começou a erigir pontes promissoras entre as instituições que podem ser consideradas como parentes próximos. Essas pontes, instáveis que ainda o são, ampliam o espectro de abrangência de uma das pontas fundamentais da aprendizagem, que é a formação de professores. Vão além e ampliam o espectro de possibilidades das próprias instituições de ensino básico, que passam a fomentar e a receber projetos interdisciplinares, interinstitucionais e com benefícios para os seus próprios cotidianos.

Eu desejo com todas as minhas forças que o PIBID, ao invés de minguar e perder importância, caminhando para a sua desintegração, seja tratado com a devida relevância e centralize ainda mais atenções, mais recursos, planos e atinja ainda mais escolas e universidades. Desejo que os estudantes e licenciandos tenham mais chances de se relacionar com o programa. O assalto ao seu funcionamento será uma perda incalculável para o desenvolvimento da formação docente brasileira. E o pior é que é mais fácil acreditar que isso ocorra do que o inverso.

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segunda-feira, 15 de junho de 2015

A vida é desafio

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Não esqueço aquele dia. Depois de muitas aulas, de intenso trabalho, eu estava desanimado. Na época, ia e voltava pedalando do trampo pra casa. O sinal fechou. Olhei para o lado e vi dois jovens, numa espécie de dueto-rap-poesia. Cada um completava a frase do outro.

- Eu vejo o rico que teme perder a fortuna.
- Enquanto o mano desempregado, viciado, se afunda.
- Falo do enfermo, irmão, falo do são, então...
- Falo da rua que pra esse louco mundão!
- Que o caminho da cura pode ser a doença.
- Que o caminho do perdão às vezes é a sentença.
- Desavença, treta e falsa união.
- A ambição como um véu que cega os irmãos.
- Que nem um carro guiado na estrada da vida.
- Sem farol, no deserto das trevas perdidas.
- Eu fui orgia, ego louco, mas hoje ando sóbrio.
- Guardo o revólver quando você me fala em ódio.
- Eu vejo o corpo, a mente, a alma, o espírito.
- Ouço o refém e o que diz lá no canto lírico.
- Falo do cérebro e do coração.
- Vejo egoísmo, preconceito de irmão pra irmão.
- A vida não é o problema, é batalha, é desafio.
- Cada obstáculo é uma lição, eu anuncio.

Eles me viram atento às suas falas. Segundos depois, completei:

- É isso aí, você não pode parar. Esperar o tempo ruim vir te abraçar. Acreditar que sonhar sempre é preciso... É o que mantém os irmãos vivos!

Sorrimos todos. Num encontro tão inusitado, uma velha letra dos Racionais MC’s uniu pessoas que sequer se conheciam. Ao menos por um instante. Na rua e para a rua.

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terça-feira, 2 de junho de 2015

Complexo e Simplória

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Eu e o turno da manhã não nos damos bem. Naquele amanhecer eu estava com o pé virado. Sonolento, saí para tomar um café e tentar melhorar o humor. Na padaria, observava as mesas ao redor. Numa delas, oito pessoas bem vestidas discutiam alguma coisa. Não gostei. Quis largar fora. Quando ia pagar a conta, escutei uma parte do diálogo, proferida por uma moça:

- O Complexo vê comunismo em poste!

Resolvi ficar. Peguei um jornaleco qualquer, certifiquei-me de que dele não jorrava sangue e fingi que degustava o material.

- Sim, e tu, Simplória! Sempre quer complicar tudo! Acho que até comunista é...

Não acreditava no que ouvia. Tinha diante de mim um debate entre um homem chamado Complexo e uma mulher chamada Simplória. Um debate sobre comunismo! Senti que ficaria vermelho, mas tentei disfarçar, para que ninguém desconfiasse que eu guardava uma foice e um martelo na mochila.

- Ah, Complexo... vai te catar! Pô, todos os dias nessa mesa eu te mostro o que acontece no país. O Congresso acaba de colocar na Constituição o financiamento empresarial para as campanhas políticas. Tu trabalha num banco privado, que lucra bilhões! Teu salário é uma merreca! Teu patrão não tá nem aí pra ti, meu!

- E daí. Tô me referindo aos ideais. As ideias são todas comunistas aqui na Lulalândia! Só não vê quem é cego. Os caras tão fazendo a revolução cultural, quando tu menos esperar tu vai ser obrigada a pensar que nem os caras.

- Claro, Complexo. Afinal, todos os dias a gente vê uma campanha na mídia, nos outdoors, enfim, na cultura inclusive, pedindo a coletivização dos meios de produção... Vou te dizer, de complexo tu só tem o nome.

O clima era tenso. Lento, eu permanecia chocado com o embate entre duas pessoas cujos nomes eram tão característicos. Complexo e Simplória, diante das suas falas, não davam nenhum sentido aos seus nomes. De repente, todos se levantaram. Complexo e Simplória, num lindo gesto, saíram de mãos dadas. Surtei. Surtei duas vezes. Respirei fundo e sorri. Sorri pelo casal. Sentado, já sem o jornaleco por perto, finquei posição: Complexo era simplório, Simplória era complexa.

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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Se o ódio dominar, quem vai sobrar?


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Quando eu tinha 12 anos, um acontecimento mudou a minha vida. No Gigantinho, presente na final do Mundial de Futebol de Salão, acompanhava eufórico aquele Inter x Barcelona. Tá, mas esse não é um relato esportivo.

No decorrer da peleia, visualizei um jornalista que me dava asco. Não havia motivos muito concretos, apenas a presunção de que ele torcia para o rival. Com ele na mira, disparei em alto e bom tom, letra por letra e na esperança de que o profissional não me achasse no meio do povão: "Fulano fdp!!!".

Foi horrível. Não somente ele me viu, como apontou para mim imediatamente. Por um instante, achei que o adulto da situação agiria como uma criança, reagindo com ódio e violência. Ao identificar aquele fedelho magrelo e esquisito como o sujeito que havia proferido a agressão verbal, um tom de tristeza tomou conta do seu semblante. Sem falar nada, ele abriu os braços e esboçou uma feição de abatimento, desesperança e incredulidade.

Hoje, aquela expressão do ainda jornalista esportivo retrata o que sinto perante o ódio, a intolerância e a violência que acometem as redes sociais e os comentários nos portais da internet. Só consigo pensar na lição que comecei a aprender aquele dia: quando o ódio dominar, pode não sobrar ninguém.

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quinta-feira, 21 de maio de 2015

O que é comunismo?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No Brasil atual, alguns grupos de pessoas têm defendido a tese de que estamos vivendo no comunismo ou, pelo menos, caminhando para um regime comunista. A tese é bastante absurda, mas tem se espalhado por aí. Vejamos o que diz o sociólogo e professor Allan Johnson (1997, p. 46), da Universidade de Wesleyan, em Middletown, Connecticut, Estados Unidos.

(…) Da forma descrita por Karl Marx, comunismo é um modo de produção no qual os meios de produção e virtualmente todos os demais aspectos da vida social são controlados pelos que deles participam mais diretamente, isto é, pelos trabalhadores, membros da comunidade, e assim por diante. A vida das pessoas é organizada menos em torno da cobiça, competição e medo do que da satisfação de necessidades humanas autênticas, cooperação e compartilhamento. A base material da comunidade é a capacidade de produzir abundância de bens. A base social inclui ausência geral de propriedade econômica privada, divisões de classe social, desigualdades em riqueza e poder e instituições opressivas, como o Estado.

Marx imaginava o comunismo como o resultado inevitável do socialismo, o qual acreditava que seria consequência de transformações revolucionárias das sociedades capitalistas industriais. Após a derrubada do capitalismo, o Estado governaria em benefício dos trabalhadores e asseguraria que não haveria contra-revolução capitalista. Com a passagem do tempo, contudo, o Estado perderia sua razão de ser, uma vez que o controle dos ritmos da vida social seria cada vez mais concentrado no nível local, entre os mais diretamente envolvidos. O Estado, acreditava Marx, simplesmente murcharia.

Uma vez que não houve revoluções socialistas em sociedades industriais avançadas, tampouco houve sociedades comunistas segundo o modelo marxista, embora muitas sociedades socialistas tenham sido erroneamente rotuladas como tal (sobretudo porque, embora na prática fossem socialistas, sua ideologia era comunista). O mais perto que a experiência humana chegou do comunismo foi entre as sociedades tribais, em especial entre as que se entregavam principalmente à coleta de alimentos como meio de subsistência. Resta a ser visto se o comunismo pode ser implantado em sociedades industriais avançadas.

Referência

JOHNSON, Allan. Dicionário de Sociologia: Guia Prático da Linguagem Sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

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