SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Elias, liberdade individual e relações sociais


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A ideia de "liberdades individuais", para mais ou para menos, é um dos fundamentos das sociedades modernas. Na vida real, a perspectiva da garantia dos direitos individuais para as minorias de poder acaba violada em amplos aspectos. Isso coexiste com a retórica do mercado como bastião da liberdade. Para alguns, qualquer influência da sociedade na economia, via Estado, seria uma afronta à soberania dos indivíduos. Forja-se um caldeirão fervendo de apologia ao livre mercado e, tudo junto e misturado, adesão ao conservadorismo moral.

Certa vez, uma badalada representante política desse ultraliberalismo na economia disse a seguinte frase: "não existe essa coisa de sociedade; o que existe são os indivíduos e suas famílias". Esse genuíno preceito individualista tem pautado com força o debate político brasileiro. Ele projeta as realizações de cada pessoa suplantando a importância das relações que estabelecemos uns com os outros. É como se um amontoado de pedras soltas pudesse ser considerado uma casa.

O sociólogo alemão Norbert Elias ensina que, ao espaço objetivo das relações sociais, das relações cotidianas entre indivíduos, podemos dar o nome de "sociedade". Não se trata de pensar que o todo conforma a parte, ou a sociedade conforma o indivíduo. A questão é entender que somos, individualmente, produzidos na interdependência com outras muitas pessoas, no contexto de estruturas sociais que atravessam a vida individual e coletiva.

Uma sociedade pode ser vista como uma rede de tecido. Nessa rede, vários fios individuais se ligam uns aos outros, mas a totalidade da rede e a forma que cada fio assume não podem ser entendidas como resultado de um fio exclusivo ou mesmo de todos eles, se pensados individualmente. Para entender a rede, precisamos entender a maneira como se ligam os fios, a interdependência entre eles. Suas ligações dão formato a uma estrutura de tensões influenciada por cada um dos fios, de modo diferenciado conforme a localização e a função de cada fio para a totalidade da rede. Um fio individual pode ser modificado diante de alterações na estrutura das tensões e da própria rede como um todo. Porém, a rede segue sendo fruto de uma ligação entre fios individuais, cada fio constituindo uma unidade em si, com singularidade no interior da totalidade da rede.

Quais indivíduos queremos ser? Qual sociedade queremos para viver? De alguma forma, precisamos resgatar a noção prática de que nossa individualidade tem que ser garantida, mas pra isso depende da garantia das demais. Não é mais possível banalizar tanta desigualdade, tanta opressão e injustiça. A combinação entre liberdade absoluta aos interesses de mercado (uma "sociedade de mercado" e não mais uma economia de mercado regulada pelos interesses da sociedade), os variados fundamentalismos étnicos, morais e religiosos do tempo presente e um suporte tecnológico jamais visto pode gerar diferentes "absolutismos do século XXI", estruturas de relações e tensões bem distantes do ideal de uma sociedade aberta, democrática e plural.

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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Conflitos no Brasil: disposições e moralidade


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Todos os dias, querendo ou não, temos algum tipo de obrigação que nos faz correr atrás de alguma coisa. Em geral, precisamos trabalhar para ter acesso a bens e recursos escassos. Podemos dizer que o capital econômico é uma espécie de “trunfo” nos “jogos sociais” cotidianos. Comer bem, viajar, ter conforto em casa, poder desfrutar de práticas esportivas e culturais, todas são atividades que, mais ou menos, estão ligadas a níveis mínimos de satisfação do capital econômico. Renda e patrimônio possibilitam o desenvolvimento de uma vida bastante autônoma e com muitos privilégios. A vida na pobreza é o inverso. O Brasil é um país muito desigual quanto à distribuição do capital econômico. Uma pequena classe de pessoas concentra volumes altíssimos de riqueza material, e uma enorme parcela da população vive à míngua.

Se apenas o capital econômico importasse, bastaria desconcentrá-lo, distribuí-lo melhor. Isso é fundamental e precisa ser feito, mas não é o único “trunfo” disponível. É o caso de lembrar aquelas ocasiões em que conhecemos pessoas com muita grana e pouco acesso a bens culturais. Em sociedades complexas como a nossa, cujo fluxo de informação e conhecimento é muito intenso, rápido e especializado, o capital cultural emerge como um “trunfo” tão importante e objetivo quanto o econômico. O capital cultural se define pela familiaridade com a cultura dominante, no nosso caso com a leitura e a escrita, a música, as artes plásticas e cênicas, a literatura e a filosofia. Esse capital se manifesta de três formas entrelaçadas: uma forma objetiva, através da posse de bens culturais, como quadros, discos, livros e etc.; uma forma institucionalizada, que é representada pela alta escolaridade, a posse de “títulos acadêmicos”; e uma forma incorporada, que se manifesta na familiaridade que a pessoa demonstra em meios culturais como teatros, museus, quanto ao conhecimento dos grandes filmes e diretores, dos grandes romancistas e teóricos.

A forma incorporada do capital cultural é determinante nas nossas vidas e, muitas vezes, passa completamente despercebida. Incorporar a cultura dominante significa mediar a objetividade do mundo exterior com a produção da nossa individualidade. Isso formata a maneira como iremos agir diante das diferentes situações que enfrentamos desde crianças, disposições duráveis mais ou menos abertas, que nos fazem agir desse ou daquele jeito. Essas disposições têm íntimas relações com o volume e o tipo de capitais que possuímos, revelando prováveis homologias entre condições de existência e práticas culturais. As lutas simbólicas são reconfigurações das lutas sociais objetivas que classificam e desclassificam as pessoas de acordo com as “regras do jogo”, nas quais os “trunfos” entram em cena e instrumentalizam as disputas.

Duas perguntas se impõem: quais as regras do “jogo” e por qual razão, muitas vezes, as classes vulneráveis (com menor acesso aos capitais) defendem “valores” que favorecem as classes abastadas? As regras do “jogo”, na verdade, revelam o conteúdo moral que compõe as sociedades modernas. Nossos valores morais derivam, ao menos em parte, da transformação ocorrida no cristianismo desde a Reforma Protestante. A ideia dominante de “dignidade” repousa sob o cidadão que carrega e executa a ética do trabalho produtivo, que organiza o presente planejando o futuro, que racionaliza suas tarefas e atividades, que é autocentrado e controla as suas emoções. Essa “dignidade” se associa ao que poderíamos chamar de um “consenso transclassista” que operacionaliza nossas concepções morais. Cobramos uns dos outros que não sejamos “vadios” (esforço e dedicação levariam ao mérito), que nos organizemos, que nos controlemos, justificando isso tudo porque assim se fortaleceria a igualdade formal entre todos e, ao mesmo tempo, a possibilidade de sermos nós mesmos, enquanto indivíduos autônomos.

Só que o consenso moral que nos atravessa culpabiliza o indivíduo por fracassos que têm raízes relacionais e coletivas, martelando na tecla da meritocracia sem que a igualdade formal seja efetivada na prática, o que não deixa de ser contraditório. Assim, ficam nebulosas as relações de desigualdade entre cada um de nós, sobretudo no tipo e no volume dos “trunfos” que uns possuem muito mais do que os outros. A posse e a incorporação precária desses “trunfos” fragiliza o desenvolvimento das disposições exigidas para a vida nas modernas sociedades ocidentais. Cobra-se um tipo específico de dignidade do vizinho ou do cidadão comum, sob o manto da “lei que é igual para todos”, mas negligencia-se que a dinâmica social e as nossas ações produzem e reproduzem o tempo inteiro as mesmas segregações e privilégios. A combinação entre disposições precárias para a competição social (vinculadas à ausência de recursos básicos) e um consenso moral que se apoia numa igualdade formal não efetivada parece constituir um dos nossos mais graves problemas. 

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Resistir ao ódio

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na última quinta-feira, voltava da universidade em que trabalho, num ônibus de linha, junto com alunos e alunas. Cansado, consegui um banco para sentar, apesar de o coletivo partir bastante cheio do campus. No meio da viagem, dois rapazes sentados no banco à minha frente se mostravam um meme qualquer. Eram dois homens, brancos, entre os 30 e 40 anos. Olhavam rindo para alguns alunos localizados na parte da frente do ônibus, que conversavam alto sobre os textos que haviam lido na semana. Olhavam rindo e cochichavam alguma coisa.

De relance, sem querer, vi a frase final que estampava o meme no celular de um dos dois homens brancos: era o sobrenome de um pré-candidato à Presidência da República, cuja plataforma mobiliza o ódio contra negros, homossexuais, defensores dos direitos humanos e etc. Ao lado desse sobrenome, havia “2018 neles!”. A cena seguiu por mais algum tempo: olhavam para os estudantes de humanas, para o meme e gargalhavam e cochichavam. Aquilo me deixou nauseado, profundamente incomodado. Lembrei alguns alunos que passaram pelas minhas aulas, nas diferentes instituições que lecionei. Lembrei aqueles que faziam piadas grosseiras contra mulheres, gays e negros, e como se deixavam seduzir pela retórica do ódio, pela simbologia nazifascista e seus derivados.

Parece que caminhamos para uma nova encruzilhada histórica, porque tudo indica que estavam certos pensadores como Adorno e Foucault, por exemplo, quando alertavam para a persistência da semente fascista no “capitalismo democrático” ou na “pós-modernidade”. De fato, com fanáticos de extrema-direita, organizados em movimentos terroristas, o diálogo precisa dar lugar à resistência. Porém, com jovens que a tudo querem “zoar”, muitas vezes imersos em condições de vida degradantes, o diálogo paciente, a conversa atenta, a apresentação de outros caminhos e símbolos, todo um trabalho de base pode ajudar a quebrar a reprodução da barbárie. Mesmo assim, se a exploração do trabalho seguir na toada neoliberal e a vida perder de vez qualquer sentido, vai ser difícil superar o “inverno” que já é realidade.

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Fim de ciclo: Doutor em Sociologia


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia 17 de julho de 2017, na UFRGS, defendi a minha tese de doutorado em Sociologia, intitulada “Classes sociais e desempenho educacional no Brasil”. Pouco antes do veredito final da banca examinadora, considerando o trabalho aprovado e me atribuindo o título de doutor em Sociologia, um filme de 12 anos e meio passou pela minha cabeça, da primeira aula na graduação ao desfecho da pós. Na verdade, esse filme vai mais longe. Lembrei o moleque introspectivo que via os pais estudando nas horas vagas do trabalho, batalhando tardiamente para completar um curso superior. Lembrei o adolescente envergonhado, para o qual a escola era um baita problema, e ao mesmo tempo o ponto de encontro diário com a única coisa que fazia sentido: os amigos. Lembrei o jovem adulto que se dava conta de que o Jornalismo não era a sua praia, mas que dali poderia tirar bons ensinamentos. Lembrei o dia em que passei no vestibular para uma universidade federal, um sonho que jamais havia sonhado. Lembrei o jovem adulto encantado com as Ciências Sociais, lendo texto atrás de texto, juntando trocados para comprar livros e sedento pelas pesquisas e teorias que se lhe apresentavam. Lembrei o meu primeiro dia de aula como professor, na querida Barra do Ribeiro, completamente inseguro, mas cheio de vontade de fazer acontecer. Lembrei a proposta da minha querida orientadora, Prof. Dra. Marília Patta Ramos, na época em que entrei no mestrado, com o desafio de me dedicar a uma formação metodológica rigorosa. Lembrei muitas outras coisas. As alegrias. O amor. As festas. Os colegas. Os bons professores. Algumas aulas. Os amigos. A galera nada a ver. Os almoços e jantas no RU. As tristezas e sofrimentos. O antigo prédio de aulas do IFCH, assaltado pelo imperialismo da Letras. A antiga Toca e os embates no Fla-Flu. O CV. O Gnomos e a Estufa. A Hora Feliz. Cheguei até a lembrar das Catacumbas! Diante de tantas lembranças, diante do encerramento de um longo ciclo de 12 anos e meio, naqueles corredores do Campus do Vale, naquele lugar em que vivi tantas emoções e cresci tanto, fui me dando conta de que foi ali mesmo que comecei a gostar de estudar. Isso pode não ser tudo, mas para mim foi um divisor de águas, transformou a minha vida. E é por isso que continuo acreditando que a educação pública, gratuita e de qualidade não pode ser um privilégio para meia dúzia. A UFRGS vai me deixar saudades, mas a luta continua para que muitos outros e outras tenham acesso a oportunidades que possam transformar vidas.

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sexta-feira, 30 de junho de 2017

A greve e as classes sociais


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A greve é uma manifestação ligada à divisão da sociedade em classes sociais. O conceito de classes sociais é central para a Sociologia. Venho estudando a temática há seis anos. Podemos pensar as classes sociais, pelo menos, de quatro maneiras: negar completamente a sua existência e/ou importância; defini-las desde a posição ocupada no mundo do trabalho; pensá-las a partir da situação econômica em dado mercado, com o foco na capacidade de consumo; e, por fim, pensar classe com a percepção de que possuímos acessos desiguais a recursos econômicos e culturais e isso conforma nossas práticas.

Negar a existência e/ou a importância das clivagens de classe tornou-se um argumento comum na segunda metade do século XX. Autores chamados de “pós-modernos” ou “pós-estruturalistas” passaram a defender que as pessoas não seriam mais condicionadas pelas identidades coletivas, como o pertencimento de classe. Nossas principais orientações, gostos ou escolhas políticas, seriam frutos de identificações fluidas, sem vinculações à narrativas estruturais, mas adaptadas ao crescente processo de “individuação”. Afora as interessantes discussões que essa perspectiva suscita, o fato é que ela não corresponde à realidade. Diversas investigações sociológicas indicam a relevância dos aspectos de classe na vida contemporânea.

Os fundamentos da noção de classe estão na obra de Marx. Nessa ótica, a produção da vida material antecede o pensamento, sendo a vida concreta a base das sociedades humanas. Os indivíduos ocupariam diferentes posições nas relações de trabalho. No capitalismo, aqueles que possuem os meios de produção (fábricas, máquinas, terras, etc.) exploram a força de trabalho daqueles que não possuem outra coisa senão a sua própria força de trabalho. A luta concreta entre as diferentes classes, com posições desiguais nas relações produtivas, seria o mecanismo primeiro de reprodução ou transformação social. Os trabalhadores, ao perceberem a exploração sofrida, passariam a disseminar uma “consciência de classe”, mobilizando-se politicamente e buscando, no limite, o fim da sua exploração e da divisão em classes sociais. A ação coletiva dos trabalhadores libertaria a humanidade.

Mais recentemente, dada a complexificação da vida em sociedade, as análises de classe avançaram. Inspirados em Marx, mas também em Weber, muitos sociólogos viram que, de fato, permanecem as desigualdades econômicas em diferentes grupos sociais e isso gera desvantagens e privilégios na competição pela sobrevivência. Porém, existiriam muitas “frações de classe” (como as classes médias), associadas ora ao lugar ocupado nas relações trabalhistas, ora às distintas capacidades de consumo. Os neoweberianos, sobretudo, demonstram a relevância das dessemelhantes posições econômicas entre as classes, mas não entendem que essas dessemelhanças formatam preferências políticas, julgamentos morais ou hábitos de consumo. Não haveria uma relação automática entre o pertencimento de classe e essas práticas individuais.

É na matriz derivada da obra de Pierre Bourdieu que podemos ver a noção de classe social atendendo melhor aos pressupostos da atualidade. O sociólogo francês percebeu que as pessoas estão espalhadas pelo espaço social de acordo com a propriedade e o volume de diferentes tipos de capitais, principalmente o econômico e o cultural. Os capitais são “trunfos” para a competição nos diferentes campos da vida coletiva. Agentes (pessoas, dotadas de agência) com maiores volumes de capital econômico e cultural conquistariam e reproduziriam as suas posições dominantes no espaço social. O ponto chave na obra de Bourdieu é a forma como a posição relativa de classe produz ações e percepções de mundo. Através de um mecanismo gerador de práticas (chamado de “habitus”), as estruturas sociais e as propriedades atuantes (capitais) tornam-se incorporadas em cada um de nós, conformando nossas práticas e a exteriorização da nossa individualidade, numa relação sincrônica e diacrônica. Assim, a posição relativa de classe, sempre com fronteiras instáveis e em constante disputa, produziria homologias entre o maior ou menor acesso aos capitais e os gostos, as preferências políticas, alimentares, esportivas e etc. A classe social segue conformando as práticas culturais, e as lutas simbólicas operam o tempo inteiro para legitimar ou desestabilizar a distribuição dos capitais no espaço social.

Se olharmos para os dados da PNAD 2017, fica claro que a imensa maioria dos cidadãos brasileiros vive da renda do seu trabalho. A maioria não é "patrão" – nem se incluirmos os “por conta própria”, como denomina o IBGE. Se observarmos os estratos de renda, a grande maioria possui baixo acesso ao consumo. Se, ainda, atentarmos para o acesso à escolaridade elevada ou ao acesso a bens culturais distintivos, também a imensa maioria fica de fora do jogo. As reformas tocadas goela abaixo no Congresso são defendidas com unhas e dentes pelas classes privilegiadas econômica e culturalmente. Por esta razão, a greve segue um instrumento importante de manifestação política, ainda mais num momento como esse.

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