SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 8

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Educação para além de estereótipos


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Quando me deparo com projetos sem pé nem cabeça, como os “Escola Sem Partido” da vida, lembro o meu primeiro dia como professor. Era uma turma de EJA, e a minha responsabilidade era lecionar História. Naqueles dias, em 2009, comecei a experimentar o que viria a ser a única coisa que me vejo fazendo profissionalmente: ser professor.

Dois anos depois, ao terminar a graduação em Ciências Sociais, conhecendo por dentro a realidade das escolas da rede estadual, havia algo que eu precisava entender melhor. Sim, porque mesmo com a experiência vivida e algum acúmulo de leituras variadas, para saber mais é preciso procurar saber mais. Para entender melhor alguma coisa da vida social, um jeito interessante pode ser estudar a fundo, investigar com rigor. A pergunta que não me saía da cabeça acabou orientando os meus estudos de pós-graduação, ainda em curso: qual é o papel da escola frente às desigualdades sociais e como os jovens de diferentes classes sociais se relacionam com a escola?

Para além da precarização do trabalho do professor e de todos os demais problemas cotidianos, que não são poucos, passei a observar os estudantes. Eles são o coração de uma instituição de ensino. É para eles, com e por eles que a sala de aula existe. Observar não apenas como eles se portam e se relacionam nos estabelecimentos educacionais, mas o que eles trazem dos demais espaços que eles frequentam e das demais socializações que lhes fazem ser quem eles são. Desse olhar mais cuidadoso surgiu um sentimento de que os jovens que vivem o mundo das periferias, da vulnerabilidade social, repleta de violências físicas e não-físicas, o mundo da pobreza material e cultural, vão se tornando jovens que enfrentam a escolarização com maiores dificuldades do que os demais.

Do chão da escola, do concreto, voltei para a abstração. Afinal, é tarefa das Ciências Sociais ajudar a entender as sociedades humanas. Pode parecer estranho, nesses tempos em que três parágrafos de leitura são taxados de “textão”, mas a humanidade produziu, através da Filosofia e das Ciências Humanas, muito conhecimento e muitos debates capazes de iluminar as nossas dúvidas. Encontrei, então, o argumento de que a escola tem se mostrado uma via auxiliar para a reprodução e a legitimação das desigualdades sociais, sobretudo servindo como um mecanismo de seleção entre os grupos que, dotados de maiores acessos a bens culturais considerados legítimos, transitam pela escolarização com muita facilidade. Depois, certificados pelos títulos acadêmicos, os jovens das classes médias e altas justificam-se por ocuparem os espaços de poder que ocupam na vida social, sob o véu do “mérito de cada um”.

É verdade que vi e li muito mais coisas, estudando sobre a pergunta que me (des)norteava. A própria prática docente, ao longo de quase seis anos, em três Escolas Estaduais e um Instituto Federal, mostrou-me por diversas ocasiões que não se tratava apenas de reproduzir desigualdades a dinâmica no interior daqueles muros. Havia e há muito mais numa sala de aula. Ali se encontra toda uma variedade de acontecimentos possíveis. Inclusive momentos que adicionam aos estudantes saberes e conhecimentos, aumentando as chances na competição pela sobrevivência. É possível abrir janelas, construir novos horizontes e novas oportunidades para aqueles que não nasceram tendo oportunidades.

Com 11 anos de Ciências Sociais e sete de docência, não é que alguns preguiçosos, porque não gostam do pensamento e, menos ainda, do conhecimento, jogam na minha cara e na cara dos meus colegas professores projetos que afirmam a existência de uma “doutrinação esquerdista-comunista-marxista-ciclista-vegetariana-gayzista-acrescente-aqui-qualquer-blasfêmia” nas escolas brasileiras? Isso significa que as complexas indagações da Filosofia e das Ciências Humanas sobre a educação formal não servem pra nada, o nosso problema educacional é que os professores são membros de partidos políticos ou defendem uma determinada ideologia política.

Engraçado isso. Todos aqueles colegas de sala dos professores, que diziam que o Fulaninho não merecia nem a merenda, que a veadagem do Siclaninho era uma vergonha e a sem-vergonhice daquela putinha da sétima série merecia apanhar de cinta, todos são doutrinadores esquerdistas. Os mesmos que votaram no rapaz que mandou os professores buscarem pisos numa loja de materiais de construção são esquerdistas disfarçados. São guerrilheiros comunistas todos os muitos e as muitas que não fazem greve para não perder o “Vale a Pena Ver de Novo”, o “Casos de Família” ou o “Brasil Alerta”, que não se consideram parte da classe trabalhadora, e/ou que gostariam de fazer qualquer coisa da vida, menos ser professor.

Preocupante isso tudo. E, por outro lado, estimulante – para quem não tem preguiça de esticar a racionalidade e fazer perguntas sobre as certezas aparentemente certas. Daí me vem a vontade de pesquisar mais a fundo o assunto. Se o que venho fazendo é analisar quem são e como são os estudantes que se dão bem na escola, que atingem os desempenhos necessários para avançar, para fazer uma faculdade, e como a escola está dentro dessa disputa por bens e recursos escassos constante nas sociedades modernas, falta entender uma espécie de conteúdo moral, feito de hierarquias morais que constitui as pessoas que fazem a educação acontecer na prática. O que as pessoas que habitam o ambiente escolar consideram certo ou errado? O que os professores consideram certo ou errado, quais são os valores que os orientam e que fazem deles quem são?

Se isso virar um projeto de pesquisa, será possível produzir algum conhecimento sobre a realidade da educação brasileira, se afastando das vulgaridades estereotipadas que habitam alguns mentecaptos espalhados por aí. Pode ser possível acrescentar elementos para que os responsáveis por criar, implementar e incrementar as políticas públicas educacionais compreendam melhor estes aspectos sobre escolas, professores e estudantes. Pode ser possível, enfim, colaborar com quem verdadeiramente dedica a sua vida a construir outra educação, outras aprendizagens e, sem nenhuma dúvida, uma sociedade com mais liberdade e mais oportunidades para todos.

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quarta-feira, 8 de junho de 2016

A lenda do boxe Muhammad Ali


Imagem retirada do sítio http://iml.jou.ufl.edu/projects/Spring05/Shaffer/main_ali.jpgEstadunidense de Kentucky, Ali recusou-se a lutar no Vietnã


Muhammed Ali começou a se tornar um grande lutador de boxe vencendo as Olimpíadas de 1960. Em 1964, conquistou o título de Campeão Mundial dos Pesos Pesados profissionalmente, derrotando Sonny Liston. Os Estados Unidos enfrentavam acontecimentos políticos de bastante importância na década, marcada pelo combate ao racismo e pelas lutas em prol dos direitos civis. A resistência negra era liderada por ícones como Malcom X e o movimento dos Panteras Negras.

Cassius Clay, seu nome de batismo, converteu-se e tornou-se muçulmano. Passou, então, a ser chamado de Muhammad Ali. Em 1967, foi convocado ao serviço militar para a Guerra do Vietnã, mas negou-se a participar do conflito. Numa das maravilhosas e inteligentes frases desferidas por Ali durante sua vida, já que suas lutas eram carregadas de discursos antes e depois, ele afirmou que não iria guerrear com os vietkongs, pois nenhum deles o havia chamado de crioulo (nigger) em sua vida.

Assim, o "democrático" governo de Lyndon Johnson vetou Ali de praticar o boxe profissional e impetrou ação judicial pedindo a sua prisão por cinco anos. Seu título de Campeão Mundial de Pesos Pesados foi excluído.

Muhammad Ali, como gostava e exigia ser chamado, sempre ressaltando que Cassius Clay representava um nome oprimido, escravizado, um passado de tormentas para os descendentes de africanos, brigou com a justiça dos EUA até ser liberado para praticar o esporte que era o seu ofício. Desafiou o então campeão mundial da sua categoria e acabou perdendo para Joe Frazier.

Em 1974, Don King, magnata dos empresários do boxe estadunidense, organizou uma luta entre George Foreman e Muhammad Ali, em solo africano, em Kinshasa, no Zaire (atual República Democrática do Congo). Na véspera, Foreman alegou lesão e adiou o embate.

Ali nocauteou Foreman após vários assaltos dominados por seu oponente, e retomou o tão merecido título de Campeão Mundial de Pesos Pesados no boxe profissional. Não há como não considerá-lo o maior boxeador de todos os tempos, trata-se de uma verdade quase intocável.

Por fim, mais importante do que o atleta, é a figura humana de Clay/Ali, independente de como o chamem. O fato é que a rejeição completa do racismo sofrido na pele, as posições políticas declaradas e sua atuação profissional significam um exemplo de resistência aos parâmetros de desigualdade que compunham – e, em parte, ainda compõem – as sociedades ocidentais capitalistas contemporâneas.

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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Paranoia como projeto político

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A gente vive pedindo mais saúde, educação e segurança. Contudo, hoje, se vamos à luta por mais recursos para a educação pública, somos comunistas. Se vamos à luta por mais recursos para o SUS, somos comunistas. Se vamos à luta por uma outra política de segurança, voltada para a cidadania e os direitos humanos, somos comunistas.

A gente vive pedindo uma reforma política. Porém, se apoiamos e vamos à luta com os estudantes que ocupam centenas de escolas pelo país todo, somos comunistas. Se vamos à luta com os corajosos secundaristas, que querem reinventar a democracia, solapar o seu caráter oligárquico dominante, construir organizações horizontais e incentivar o protagonismo e a participação, somos comunistas. Esquerda e igualdade são termos achatados na expressão "comunismo" e, de imediato, criminalizados.

É impressionante. Qualquer rejeição ao racismo, ao machismo, à misoginia, à homofobia e qualquer tentativa de fortalecer proteções sociais para os trabalhadores e as classes populares, logo é taxada de comunista. Que diabos. O fantasma da Guerra Fria, recriado e requentado num contexto bastante diferente, ainda segue como falácia na boca dos que querem manter tudo como sempre esteve. Nada mais do que uma forma de tentar criminalizar quem busca mais igualdade e liberdade para todos.

Isso me faz lembrar do personagem Ira Ringold, protagonista do livro “Casei com um comunista”, do genial estadunidense Philip Roth. Ira, comunista, e seu irmão, professor de literatura inglesa, incentivador do pensamento crítico, sofrem todas as consequências da perseguição política do macartismo nos EUA, logo após o fim da Segunda Guerra. Suas vidas são devastadas pela intolerância política, enquanto escândalos e mais escândalos envolvendo governantes não merecem maiores atenções.

Uma ideia de Ira Ringold não me sai da cabeça. Mesmo sendo um personagem controverso, ele acerta quando diz que, para muitos dos que nos governam, o problema do país não é a forma como tratamos os trabalhadores, os negros, as mulheres, os homossexuais, os deficientes, os jovens, não é o abismo de oportunidades entre ricos e pobres. O problema, para eles, são os poucos comunistas que ainda existem. Não dá pra acreditar, mas essa paranoia segue por aí. Só dá pra acreditar se percebermos que a paranoia, na real, é um projeto político e ideológico.

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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Entre o passado e o futuro

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um dia depois do outro, observamos o retrocesso. Nem são as tenebrosas transações dos velhos oligarcas que mais me deixam perplexo. A Ponte para a Idade Média ganha força nas ações já tomadas e nas que estão por vir. Dois lemas alardeados, de fato, resumem bem o retorno ao passado: "não pense em crise, trabalhe" e "ordem e progresso".

Trabalhar é importante e necessário para a sobrevivência da maioria dos humanos. Pensar, ampliar horizontes, fazer associações e criar o diferente e o alternativo, por sua vez, são atitudes tão relevantes quanto trabalhar. Sobretudo num país em que mais da metade das pessoas trabalha e quase nada recebe, num país em que a desigualdade de oportunidades deveria envergonhar a todos nós. Pensar pode ser uma forma de se abrir para o possível, e a partir disso, preparar o terreno para mais conhecimentos e menos fanatismos. Para mudar a vida prática.

Sem incentivar o pensamento e focada na ordem e no progresso, nossa sociedade tem muito pouco a ganhar. Reparando bem, a ordem atual das coisas exclui multidões, violenta multidões e favorece, quase sempre, os mesmos favorecidos. O incômodo e a descrença numa democracia procedimental e oligárquica me parece se expressar no protagonismo das juventudes pelo mundo e nas suas ocupações das ruas e espaços públicos. Jovens pessoas que pensam e agem. Que querem fazer o novo e não se curvam ao fatalismo dos que gerem o Estado e o mercado. Que querem democracia com liberdade e igualdade.

Professores em greve, secundaristas ocupando escolas, enfim, todos aqueles que constroem hoje o amanhã, pensando e agindo, rejeitam o passado que os oligarcas querem impor sem sequer passar pelo crivo eleitoral. Nesses eu boto fé. Com esses eu quero somar. Porque a ordem e o progresso para meia dúzia, sem pensamento, tendem a exterminar a nossa própria humanidade. Disso acho que estamos fartos.

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terça-feira, 3 de maio de 2016

O silêncio de Complexo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O impeachment avançava. Simplória, professora de matemática numa escola particular, não conseguia acreditar no que acontecia no seu país. Ela olhava para aquele que insistia em chamar de marido, um bancário chamado Complexo, e não conseguia crer no êxtase que tomava conta do rapaz. Destituir a Presidente considerada comunista era o objetivo da vida dele, era por isso que ele babava enquanto falava sobre o assunto.

No dia em que a Câmara dos Deputados votou a continuidade do processo de impedimento, Simplória notou que Complexo dava um passo atrás nas suas convicções. A cada voto dos ilustres representantes do povo, totalmente vazios de conteúdo, Complexo franzia a testa e fazia um ar de quem não gostava de alguma coisa. Simplória havia se calado, mantinha-se em estado de observação. Seria a consciência do rapaz que resolvera acordar? Seria uma súbita dor de barriga? Um surto de equilíbrio e bom-senso?

Semanas se passavam e aquilo que Complexo e os fanáticos pelo impeachment pregavam não acontecia, ou seja, a ideia de que “vamos derrubar a Presidente e depois todos os outros ladrões” estava cada vez mais longe da realidade. As velhas oligarquias, antes aliadas do governo que agora não servia mais, tramavam e sorriam sedentas pelo poder que se aproximava. Não havia mais panelaços em prédios chiques ou carreatas de veículos importados. Complexo não berrava mais nos seus intervalos para o cigarro e o café. Os fanáticos pelo impeachment silenciavam.

Todos os dias, Simplória fazia questão de mostrar para Complexo o teor dos acontecimentos que se sucediam, e como esse silêncio estava carregado de venenos. O leilão dos Ministérios do “novo” governo, antes mesmo da derrubada da Presidente eleita com 54 milhões de votos, já estava a pleno vapor. Um autoritário para a Segurança; um pastor para a Ciência e Tecnologia; um apologista do mercado para comandar a economia do Estado; assim se esboçava o traçado do “novo governo”. Assembleias de estudantes eram barradas pela Justiça. Universidades eram caladas. Professores eram limitados na abordagem de temas polêmicos. Juízes para calar a tudo e a todos, menos para julgar o colarinho branco das velhas oligarquias. O deleite dos oligarcas era claro como um dia de Sol sem nuvens no céu. O presente cheirava a tempestade e, de mansinho, a tormenta vinha chegando.

Sob o silêncio de Complexo, Simplória levantava a cabeça e vibrava com a esperança que vinha lá de dentro de si mesma, mas que também vinha das ruas e da diversidade que compõe a vida em sociedade. Esperança que vinha de escolas ocupadas por estudantes que não aceitariam mais o desmonte da educação pública e as Máfias das Merendas. Esperança em forma de auto-organização, de solidariedade e luta coletiva, de cantos e cartazes. Ela sabia que esse barulho o silêncio de Complexo e da sua horda de fanáticos não calaria sem resistência.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Nunca interditar o debate

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Não tá fácil ser professor. O mais recente ataque ao ofício parece uma perseguição estilo Idade Média. Em vários estados e municípios do país, multiplicam-se projetos de lei que limitam debates em aula sobre temas “políticos, morais e religiosos”, prevendo punições graves contra professores que descumprirem a orientação. Professores de Sociologia vêm sendo demitidos por aí, em função dos seus posicionamentos particulares. Isso é muito sério e perigoso.

Sob a alegação de que a educação deve ser “neutra” e determinados temas cabem apenas à família conversar com os jovens, sofismas muito questionáveis, passo a passo vai se construindo um cenário de censura que, ao invés de fortalecer a democracia, pode ajudar a minar o seu terreno. Reduzir o espaço de diálogo sobre assuntos fundamentais da vida em sociedade e impor o medo aos profissionais da educação são características típicas do autoritarismo e de suas variantes.

Na prática, cria-se uma espécie de mordaça aos docentes das Ciências Humanas. Fico imaginando como um professor de História, de Sociologia ou de Filosofia pode deixar de abordar pautas “políticas, morais e religiosas” nas suas aulas. Como isso pode ser possível? São pautas inerentes a essas matérias, e a exposição e confrontação de ideias e argumentos antagônicos é um exercício necessário para o ato de pensar e para o próprio conhecimento.

Se a moda da mordaça se espalhar pelas salas de aula brasileiras, atente-se para o fato de que não apenas os professores considerados de esquerda poderão estar em apuros. Sim, porque por trás de ideias retrógradas como essas está a sanha por eliminar o pensamento de esquerda, entendido como hegemônico - outra coisa muito questionável. Só que aqueles que babam contra a esquerda não percebem que o veneno do autoritarismo pode trazê-los problemas também.

Como? Partindo da concepção dos projetos, em que os estudantes ou pais que se sentirem afrontados pelo tratamento em aula de alguma temática “política, moral ou religiosa” devem dedurar o professor, está aberta a caça às bruxas. E se um estudante de esquerda, oriundo de família de esquerda, dedurar o seu professor que apresentou a trajetória do liberalismo e do capitalismo? E se um estudante ateu ou agnóstico dedurar o seu professor, tendo em vista que ele apresentou a trajetória do cristianismo ortodoxo nos últimos vários séculos?

Estes projetos beiram ao absurdo, na medida em que constrangem qualquer debate sério e limitam a capacidade de articulação do pensamento, sem a qual o conhecimento perde as suas bases. Que os currículos devem apresentar as diferentes tradições políticas e ideológicas, as diferentes religiões e diferentes perspectivas morais me parece bastante importante. Dar espaço para os estudantes se posicionarem, com critérios de civilidade e respeito, é um aprendizado prático para a vida em sociedade, tão cheia de diferenças. Não dá é pra calar professores e estudantes.

Max Weber, sociólogo alemão, referia-se à ética da responsabilidade como linha de conduta docente. Projetos como “Escola Livre” ou “Escola Sem Partido”, mascarados de ética da responsabilidade, propõem o silenciamento. Não tenho dúvidas de que estudantes não são “militantes em potencial que eu devo cooptar”, seja para a esquerda ou para a direita. Só que agir com responsabilidade, o que sempre procuro fazer, não é a mesma coisa que interditar o debate.

Se eu sou professor porque acredito na luta contra a barbárie, contra o ódio desmedido e a banalização da violência, porque quero fomentar o pensamento enquanto possibilidade e ajudar a construir oportunidades para todos, construir uma sociedade menos desigual, a imposição da mordaça acaba com o meu ofício. No fundo, dizendo proteger a diversidade de argumentos, com esses projetos a liberdade vai cedendo espaço ao completo obscurantismo.

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