SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 11

América do Sul, Brasil,
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sábado, 15 de junho de 2019

Justiça caolha

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Enquanto eu lia as primeiras conversas nada republicanas entre nossas autoridades judiciais, uma verdadeira balbúrdia ocorria no busão que me levava ao trabalho.

Nem a visão da estátua da liberdade estilo "falsiane" foi capaz de acalmar os ânimos: havia uma poltrona molhada e parecia mijo.

Até tirei os fones de ouvido. Ao meu lado, o acusador derramava sua tese. Dizia que, se havia um homem com um cão no veículo (e havia), eles eram os culpados pela poltrona pretensamente mijada.

O homem com o cão negava a autoria do delito. Declarava não haver provas contra si e seu simpático animal.

O ônibus parou numa das 78 estações. O juiz - o piloto - foi avisado do quiprocó. O clima de tensão crescia no ar.

Logo, grupos de apoiadores estavam formados. E raivosos. E cada vez mais numerosos. O busão ardia.

Os apoiadores da acusação gritavam palavras de ordem contra cães em transportes coletivos.

Os apoiadores do acusado afirmavam não haver provas, apenas teorias, ilações que se passavam por evidências.

Na parada seguinte, o motorista deu o veredito: o rapaz com o cão teria que sentar na poltrona molhada/mijada.

O rebuliço virou um caos. Os apoiadores da acusação babavam e vibravam. Nos apoiadores do acusado via-se a cólera de quem se sente injustiçado.

Contrariados, o homem e seu cachorro sentaram na poltrona da discórdia. A viagem seguiu, assim como eles seguiam defendendo a sua inocência.

Na parada seguinte, um garoto que olhava tudo com atenção, desconfiado de todos, pediu a palavra. Dizia ter visto e gravado uma conversa entre o juiz e o acusador. Nela, o piloto defendia o veto de cães em viagens rodoviárias.

Porém, não era só isso. O juiz e o acusador seriam velhos conhecidos, e o segundo teria lembrado o primeiro de que era preciso ser contra cachorros viajantes para mudar o país. De quebra, alcançaria um cargo melhor na empresa.

Já não consigo descrever o que se tornou minha ida ao trabalho. Ninguém confiava mais em ninguém. Era mesmo um faroeste - caboclo, canarinho e canino.

No fim, ainda bem que ninguém estava armado. Ah, e a justiça? Essa mais parecia uma jararaca caolha, ou só agia como a carrocinha mesmo.

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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O método sociológico em Marx


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O materialismo histórico e dialético proposto por Karl Marx está associado a uma concepção de realidade, de mundo e da vida em sociedade. Ao entrar em contato com os problemas sociais da Alemanha, Marx começa a desenvolver uma concepção materialista, procurando entender os problemas concretos das vidas das pessoas.

Os estudos de Marx provinham do método de pesquisa e pensamento de Friedrich Hegel, com o seu modelo idealista orientado pela lógica dialética. Para Hegel, o pensamento metafísico se pautava pela tendência a perceber os conceitos de modo estático, separados uns dos outros, com a definição isolada do sujeito e do objeto. Contrapondo a metafísica, Hegel define o desenrolar da história humana não como um fio dotado de continuidade e linearidade, mas como um devir formado por uma tríade localizada no mundo das ideias: uma afirmação (tese), uma negação (contradição, antítese) e a negação da negação (síntese).

Essa perspectiva se associa ao conceito de “dialética”, retirado da filosofia pré-socrática, sobretudo no “embate” entre Heráclito e Parmênides. Enquanto o primeiro sustentava que tudo está em constate movimento e transformação (“o rio que nos banhamos nunca é o mesmo, nem mesmo nós somos”), o segundo defendia a tese de que o movimento e a transformação constituem apenas um mundo de aparências, sendo a “essência” algo imutável.

Marx adere à leitura dialética da história, seguindo sua leitura de Hegel. Contudo, em contato com as teorias materialistas, sobretudo de Ludwig Feuerbach, passa a ser influenciado pela abordagem que não vê nas ideias (idealismo, como em Hegel) o eixo articulador das atividades humanas, mas no mundo material o seu foco principal. Trata-se de uma inversão da dialética hegeliana, priorizando a matéria antes das ideias, o que acaba definindo o “materialismo histórico e dialético” como o método analítico marxiano.

O materialismo histórico e dialético fundamenta-se no método dialético de Hegel, salientando não o mundo das ideias, mas mundo material. Marx entende que, na produção social da sua existência, os seres humanos tecem relações específicas que são independentes das suas vontades particulares, mas dizem respeito a relações de produção material. Essas relações de produção, em conjunto, conformam a estrutura econômica das sociedades, a base sob a qual se ergue a superestrutura jurídica, política, religiosa e etc, que correspondem a determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida concreta, material, condiciona o desenvolvimento da vida em sociedade, da vida política e intelectual como um todo. Marx deixa claro que, no se esquema analítico, não é a consciência dos homens que define a sua vida social, mas a sua vida social que define a sua consciência.

É preciso, também, fazer uma distinção entre o método de exposição formal e o método de pesquisa, em Marx. A pesquisa necessita captar detalhadamente a matéria, analisar suas diferentes formas de evolução e investigar as suas íntimas relações. Terminado esse trabalho minucioso de pesquisa, torna-se possível expor adequadamente o movimento do real. A exposição deve espelhar em forma de ideias o que acontece na vida material, na vida concreta dos seres humanos em sociedade, num determinado momento histórico e nas suas relações com o passado.

Dessa forma, o percurso do método de pesquisa é mais amplo, mais detalhado, sendo que o método de exposição expressa uma síntese da análise concreta, que pode ser apresentada, inclusive, em sequência diferente de como foi aplicado o método de pesquisa. Isso porque o método de exposição das conclusões de qualquer estudo deve primar por apresentar os resultados de maneira pormenorizada, fazendo com que estes resultados sejam claramente compreendidos por outras pessoas.

No materialismo histórico e dialético, entender a realidade social demanda analisar, pelo pensamento, um conjunto amplo de relações, particularidades, detalhes que compõem uma totalidade. Se o objeto de análise do pensamento é mantido isolado, ele se torna imobilizado no próprio pensamento, convertendo-se numa mera abstração metafísica. Contudo, a abstração é uma fase intermediária, pois, partindo de um mundo concreto e o levando até o nível da abstração, fica possível chegar a um concreto mais complexo, capaz de captar o que é verdadeiramente importante. Sem passar pela abstração, o concreto é apenas superficial, vinculado apenas às aparências.

O principal trabalho de pesquisa de Marx, a crítica rigorosa do capital, mostra-se como um exemplo evidente do uso do materialismo histórico e dialético, na busca por revelar a dinâmica da produção e da transformação do ser social produzido pelas relações de produção capitalistas. O método marxiano procura partir do real, do concreto, do olhar caótico sobre um todo desorganizado; depois, analisando com maior precisão, utilizando dos recursos da abstração, procura delimitar conceitos cada vez mais simples; por fim, do concreto permeado por abstrações, bastante detalhado, procura iluminar as determinações do fenômeno em estudo de maneira simples e objetiva. 

Referências

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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quinta-feira, 23 de maio de 2019

O método sociológico em Durkheim


 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A obra de Émile Durkheim deve ser pensada em contato com o período histórico em que estava inserida: a III República Francesa, cuja principal “obsessão” era unir a nação, superar incertezas políticas e resolver a “questão social” por meios pacíficos e através do direito. Diante disso, Durkheim ficou conhecido como um dos fundadores da Sociologia, pois participou da sua institucionalização enquanto disciplina acadêmica É nesse contexto que Durkheim elabora o que ele chama de “regras do método sociológico”.

A Sociologia durkheimiana é a ciência dos fatos sociais. Os fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir, fixas ou não, que exercem coerções exteriores sobre os indivíduos. Podemos pensar no direito, de imediato, como um fato social por excelência, tendo em vista que as leis constrangem as pessoas a segui-las, agindo de maneira coercitiva sobre os indivíduos. Porém, Durkheim ressalta que não apenas o direito, mas outros diversos fenômenos sociais guiam nossas práticas, quase como sistemas de regras invisíveis, como o modo de se vestir, de consumir, de pensar e etc.

A tarefa principal do sociólogo é destacar e analisar esses comportamentos que se traduzem em regularidades determinadas socialmente. Em outras palavras, cabe ao sociólogo observar e explicar os fatos sociais (e sua causalidade) com o apoio de categorias e instrumentos científicos. Os fatos sociais são, portanto, o objeto próprio e específico da Sociologia.

Na esteira da lógica científica, a primeira consideração a ser feita no trabalho sociológico é a necessidade de tratar os fatos sociais como “coisas”. No entanto, é preciso atenção nesse ponto. Isso não significa que os fatos sociais devam ser reduzidos a fatos naturais. Para Durkheim, tratar os fatos sociais como “coisas” equivale ao tratamento dado pelos cientistas naturais sobre seus objetos de estudo, isto é, observar “de fora” o seu objeto de investigação científica. O sociólogo deve saber se colocar à distância dos fatos sociais que pretende analisar, e manter sempre a busca pela maior objetividade possível nas suas análises.

Ocorre que temos aí uma complicação para uma ciência que trata de fenômenos nos quais os próprios cientistas estão mergulhados – os sociólogos habitam o mundo social. Por isso, Durkheim defende que é imperativo “afastar sistematicamente as prenoções” que possuímos da vida em sociedade, no decurso do trabalho sociológico. É fundamental rejeitar as chamadas “falsas evidências” que a nossa experiência sensível com o mundo social nos lega cotidianamente. O social não é e não pode ser visto pelo sociológo como algo transparente e inteligível de imediato. Essa é uma primeira característica essencial do método sociológico durkheimiano.

Um segundo ponto relevante diz respeito ao desiderato que compete ao sociólogo no percurso de construção dos seus objetos de estudo, a regra de isolar e definir com precisão aguçada a categoria de fatos que se propõe a pesquisar. Numa analogia com a biologia médica, o autor separa o que se considera “normal” do que se considera “patológico”. O fato social “normal” tem relação com um tipo social determinado, numa fase determinada de seu desenvolvimento e que se produz na média das sociedades do mesmo tipo, numa fase específica da sua evolução. O crime, por exemplo, é um fato social normal, pois não se conhece sociedades sem a existência de crimes.

É primordial, ainda, um terceiro ponto metodológico em Durkheim. Fugindo de especulações que, para o autor, não mereceriam sequer uma hora de seus esforços de pesquisa, é preciso explicar os fatos sociais por fatos sociais anteriores, e não por elementos biológicos, psicológicos e etc. O sociólogo tem de priorizar o “método das variações concomitantes”, que consiste na comparação das variações respectivas das variáveis estudadas. O conjunto de regras metodológicas pensado por Durkheim fornecem as bases do que poderíamos chamar de racionalismo positivista.

Referências

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

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quinta-feira, 16 de maio de 2019

O leitor e os insetos

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Diante do ataque à educação no Brasil, lembrei uma viagem de ônibus que fiz com uma galera bem diversa. Tinha gente de classe média, classes populares, negros, brancos, mulheres, enfim, uma gurizada heterogênea.

Lá pelas tantas, quando a empolgação parecia ter baixado e a rapaziada parecia se encaminhar para um breve descanso, alguém apontou sem dó, nem piedade: “Olha ali, tem um leitor no bus!!!”.

Foi aquele rebuliço. Todo mundo folgando no rapaz. “Um leitor, pqp!!!!”. “Vai ler na casa do car..., rapá!”. “Ui, ui, ui, olha ali, todo leitorzinho!”.

A relação das pessoas com o conhecimento, sobretudo em países com acesso muito desigual, como o Brasil, tende a ser bastante estranha e contraditória.

De um lado, muitas famílias focam nos estudos a única possibilidade de ascensão social. De outro, muitas vezes o malandro costuma ser aquele que se dá bem na escola ou na universidade sem estudar ou se esforçar.

Óbvio que a arrogância intelectual é o outro polo do problema. Tenho convicção que as pessoas e instituições que trabalham com conhecimento precisam sair de suas bolhas e botar a cara no mundo. Além, é claro, de não reproduzir preconceitos linguísticos ou se achar o centro do universo.

Porém, destruir as principais instituições de ensino e pesquisa de uma nação não colabora para democratizar o conhecimento. Tem mais a ver com ressentimento, ódio ideológico e interesses econômicos das instituições privadas de educação do que outra coisa.

Trabalhar para não confundir “cônjuge” com “conje”, “rusgas” com “rugas” ou Franz Kafka com um “Kafta” imaginário, não me parece arrogância. Assim como apenas isso não resolve nossos problemas sociais.

Só não dá pra vangloriar a ignorância e achar que o paraíso nos espera. Ou muitos de nós seguirão dormindo como humanos e "acordando" como insetos.

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