SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Cinco parágrafos em defesa do professor

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Este texto foi publicado também no
Observatório da Imprensa, edição 503


e também no sítio do CPERS

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Não foi possível ficarmos calados frente à coluna publicada no jornal Zero Hora de domingo (7/9 – Educação para quem?), cujo objetivo parecia ser, ao menos em algum nível, problematizar a educação brasileira. O economista Gustavo Ioschpe, já carimbado em ensaio pertinente ao especial da revista Veja sobre o ensino (22/8), disserta em cinco parágrafos aquilo que considera um viés equivocado de abordagem acerca de um conjunto de incompetências do sistema escolar, além de apontar o caminho mais correto de análise sobre os fenômenos congruentes.

A rigor, não estamos aqui tentando atuar numa espécie de “ombudsman” da mídia impressa gaúcha, apesar de cumprirmos, de certa forma, este papel de fundamental importância ao crescimento qualitativo dos nossos meios de comunicação de massa. Por outro lado, a motivação maior deste texto está centrada numa defesa da educação, laica, transformadora, na qual a produção e circulação de conhecimentos e saberes possam ser demarcadas em valiosos atributos. Para tanto, acreditamos necessária nessa trajetória engajada e complexa, desafiante, a defesa do professor enquanto profissional da educação, sujeito humano direcionado ao ensinar/aprender nos sentidos mais amplos; a defesa de quem sobrevive no mundo através da rotina de sala de aula.

Sendo um mecanismo de suma relevância na estrutura da educação de um Estado democrático, estes docentes merecem respeito, mais do que isso merecem que suas reivindicações sejam atendidas, negociadas, pensadas, ditas e re-ditas. A tarefa de empenhar uma reflexão nesse sentido será encarada logo adiante, prezados leitores. Seguem, portanto, cinco respostas aos argumentos de Ioschpe, posicionadas e assumidas, em favor de um protagonismo do professorado nacional.

Ioschpe, parágrafo 1 - Quando se fala em educação no Brasil, freqüentemente se ignora ou menospreza aquele que deveria ser o principal ator do processo, o objetivo de todas as políticas públicas e o foco de todas as nossas atenções: o aluno. Ouve-se repetidamente que devemos resgatar a dignidade do magistério, pagar melhor os professores, escolher melhores diretores, arrumar as escolas, disponibilizar computadores com banda larga a todos os alunos etc. É raro alguém falar que devemos resgatar a dignidade dos alunos, condenados a uma vida de ignorância e subempregos por conta de uma educação de péssima qualidade, ou questionar se a constante indisciplina e o desinteresse do alunado não são uma conseqüência das aulas chatas que ele recebe, ao invés de um defeito de caráter do próprio aluno ou da sociedade que o cerca.

Resposta, parágrafo 1 – No decorrer do curso de licenciatura em Ciências Sociais, pela UFRGS, poucas vezes presenciamos colegas ou professores menosprezando “aquele que deveria ser o principal ator do processo, o objetivo de todas as políticas públicas e o foco de todas as nossas atenções: o aluno”. De todo o modo, num sistema formado por diversos agentes conectados, como é o sistema escolar, com certeza o estudante é um foco primordial. No entanto, nem todas as políticas públicas, tampouco o único foco de nossas atenções deve estar voltado apenas e exclusivamente a um dos sujeitos do processo, importantíssimo, mas constituinte de um todo. Sem dúvidas, a formação de turmas de alunos legendadas pelo sucesso acadêmico é de imperativa preocupação, malgrado o intento final dependa de uma série de fatores emaranhados na construção desse resultado. Sem vontade alguma de sermos estruturalistas, ainda que nem a sua extrema oposição, quando investigamos um colégio e tentamos ser um pouco razoáveis em nossas perspectivas de qualidade, pensamos em: boas salas de aula, com utensílios capazes de tornar o clima agradável para um ambiente letivo, tanto em termos de temperatura e iluminação, quanto de recursos didáticos de áudio-visual, via de exemplo; uma biblioteca com alguns computadores, dotada de uma coleção de livros, pode ser mediana, com disponibilidade para retirada por mais de um usuário a cada obra, além de um funcionário atendente e um bibliotecário; banheiros limpos, dispondo de papel higiênico, sabonete e espelho, o que demanda uma equipe de funcionários para cumprir a função da limpeza; um setor pedagógico, no qual profissionais da área, juntamente com psicólogo(s), e quem sabe, numa utopia empolgante, um médico pediatra; professores qualificados, que pesquisem e não apenas lecionem, leiam, possam comprar livros, tenham acesso ao conhecimento espalhado pela web, estejam capacitados financeiramente a participar de congressos, seminários, simpósios, etc, mas que também saibam lecionar, gostem do que fazem, vejam nos seus alunos o seu motivo de ser enquanto profissional. Eis alguns tópicos que pensamos quando desenhamos, na imaginação repentina, uma boa escola. Concordo que devemos resgatar a dignidade dos nossos estudantes, mas como fazê-lo? Será que numa escola imaginária como a recém descrita a dignidade não seria um valor sobressalente, já que sobrepostas às dificuldades sistêmicas?

Ioschpe, Parágrafo 2Quero crer que esse direcionamento acontece, na maioria dos casos, não por maldade, mas por se acreditar em uma premissa equivocada: aquela segundo a qual tudo que é bom para o professor, para o diretor e para uma escola é bom para o aluno e que, portanto, aquilo que beneficia o professor, diretor ou escola acabará por indiretamente beneficiar o aluno. Talvez isso seja uma herança de uma visão paternalista da escola, que seria um segundo lar para a criança, e os professores seus pais temporários. A popularização, no Brasil, da chamada pedagogia do afeto contribui para esse sentimentalismo. Ocorre que desde o trabalho do biólogo Robert Trivers, na década de 70, se sabe que há interesses conflitantes entre os pais e sua prole, que já surgem mesmo antes do nascimento – o feto quer mais nutrientes do que seria saudável para a mãe oferecer, por exemplo. Depois do nascimento, os genes que a criança herda do pai ativam uma maior demanda pelo leite materno na criança. Quando um bebê tem uma rara alteração genética que lhe dá duas cópias maternas de uma parte do cromossomo 15 (síndrome Prader-Willi), ele mama menos e chora mais fraco quando está com fome. Se esse conflito é normal mesmo no seio familiar, não deveria causar espanto que professores, diretores e alunos tenham interesses divergentes.

Resposta, parágrafo 2 – Não se trata de identificar que tudo aquilo que é bom para o corpo docente vai, direto e reto, ser bom para o aluno. Não concebemos a relação tão simplória e maniqueísta. Entretanto, o indivíduo professor carrega um corpo humano, este repleto de necessidades biológicas, de obrigatória alimentação e de cuidados cotidianos. Ele precisa comer, beber, dormir, tomar banho, se vestir, pagar contas, se movimentar pela cidade, enfim, coisas que o cidadão normal deveria ter o direito de fazer com segurança e estabilidade no tempo. Não se esqueçam, caros leitores, aqui sempre estamos nos referindo ao aluno como peça chave na dinâmica do sistema escolar. Mas como os alunos, os professores também são seres humanos, e também possuem essencial papel na mesma dinâmica. Portanto, ouvir as reivindicações do professorado, negociá-las, melhorar a situação desses sujeitos, proporcioná-los dignidades não existentes no cenário atual... não há nada de absurdo nesse ponto de vista, pelo contrário. Sobre a referência ao especialista biólogo, nada falaremos com profundidade, pois desconhecemos a área. Não obstante, o fato de professores, discípulos, direção, faxineiros, e todas as demais partes envolvidas no sistema escolar demandarem interesses distintos pouco ou nada acrescenta. Sob a forma dos seus discursos próprios enquanto atores sociais inseridos em um campo[1] de disputa, ou sob a lente de uma própria compreensão investigativa exterior, razoavelmente problematizante, tal assertiva surge como base de averiguação pertinente, porém de rápida percepção. Mais uma frase apenas: não sabemos até que ponto depositar nas costas de uma teoria biológica a relação social derivada dos protagonistas envolvidos no campo escolar impulsiona tanta riqueza em significado comparativo, ou quiçá metafórico.

Ioschpe, parágrafo 3Muitos dos fatores que a literatura empírica revela serem importantes para o aprendizado de uma criança são desfavoráveis aos anseios comumente manifestados pelo magistério, e muitos dos itens pedidos constantemente por educadores não têm efeito sobre a aprendizagem dos alunos. O absenteísmo do professor e a utilização do tempo de aula para a realização de exercícios ou de cópia de textos do quadro-negro são fatores que facilitam a vida do professor e prejudicam o aprendizado da criança, por exemplo. O uso constante de dever de casa e avaliações para medir o conhecimento do aluno sobrecarrega o tempo do professor, mas é muito positivo para o aprendizado das crianças. Ao mesmo tempo, fatores que são usualmente apontados como benéficos – maior salário aos professores, salas de aulas menores, professores com mestrado – não se mostram positivos para o aprendizado dos alunos.

Resposta, parágrafo 3 – Estamos curiosos. Quais são os fatores que a literatura empírica aponta como desfavoráveis aos anseios do magistério. Desfavoráveis? Se os itens citados por educadores como necessários ao processo de aprendizagem não servem, quem estaria autorizado a dizer o que serve e o que não serve para o melhor desenvolvimento dessa dinâmica? Professores ganham pouco dinheiro, são pessoas, têm demandas, contas, etc. Não conseguimos encontrar o elo da afirmação que defende a idéia de que melhores salários para professores não ajudam numa satisfação dos mesmos, refletida de alguma forma no ambiente e no desempenho profissional. Pessoas com uma vida financeira estável e o mínimo de conforto não tenderiam a trabalhar melhor do que pessoas estressadas, sempre “correndo atrás da máquina”, com dificuldades de manutenção dos gastos básicos? Salas com menos estudantes, com um contato maior entre professores e alunos, conhecimento mútuo, mais atenção aos nossos filhos, tudo isso não é positivo ao ensino?

Ioschpe, parágrafo 4Uma das fontes do nosso atraso educacional é o fato de a maioria das nossas políticas públicas identificar como finalidade aquilo que na verdade é apenas um meio. Falamos de escolas bonitas, diretores treinados, professores diplomados como se isso fosse o objetivo do ensino. Não é. O objetivo é que o aluno aprenda. Se depois de todos os malabarismos e esforços o aluno continua patinando, então todo o trabalho não valeu nada. O aprendizado do aluno deveria ser o objetivo e o teste de toda ação do setor.

Resposta, parágrafo 4 – Sem responder ao questionamento sobre o objetivo do ensino, comentaremos apenas o fato de que, se os meios não correrem bem, se o percurso até alcançar o fim ideal não transcorrer de maneira qualificada, com pessoas qualificadas, o resultado não será positivo. Para seguir nos objetivos educacionais do senhor Ioschpe, o aluno só aprenderá se esse caminho for atravessado e entrecruzado por profissionais qualificados, motivados, satisfeitos, em todas as partes que constituem o “setor”. Observação final: lembramos que a educação pública não é uma mercadoria que está a venda no mercado financeiro, não é um produto a ser comprado ou vendido. A educação de qualidade para a concretização de uma República democrática tem de passar pelo conceito de direito da população, mesmo que oferecida por iniciativa de escolas particulares, senão não fará nenhum sentido. Portanto não adianta apenas importarmos teses e divagações do campo empresarial para a educação e sentarmos em nossas poltronas com um ar esperançoso: pronto, assinamos a fórmula do sucesso. Não, definitivamente não basta.

Ioschpe, Parágrafo 5O Ministério da Educação deu um passo positivo nesse sentido ao instituir, no seu Plano de Desenvolvimento da Educação, um sistema de metas de aprendizagem que devem ser cumpridas por cada município. Pecou, porém, ao não instituir punição nenhuma a quem não as alcançar. Como já escrevera Hobbes em 1651: os acordos, sem a espada, não são nada além de palavras.

Resposta, parágrafo 5 – Citar Hobbes, pensador contratualista, situado no contexto da queda do absolutismo europeu, nos parece, no mínimo, anacrônico. Na linha de Hobbes, o poder dos soberanos deveria ser absoluto, sem limites. O Estado não poderia ser contestado, “porque já foi mostrado que nada que o soberano representante faça a um súdito pode, sob qualquer pretexto, ser propriamente chamado de injustiça ou injúria”[2]. Hoje, depois de um período turbulento de muito sofrer, controlado pelos militares organizados no poder, vivemos sob uma democracia representativa (representação proporcional), as listas de ordenação interna dos partidos são abertas, e o voto é obrigatório a todos os cidadãos[3]. Enfim, uma República na sua acepção mais moderna, talvez – ou quem sabe um pouquinho disso apenas, o mínimo de democracia. Em realidade, Hobbes não figuraria na nossa lista adequada para interferir na problemática do campo educacional, visto o momento histórico vigente.


Autoria: Bernardo Caprara



[1] No sentido de campos para Pierre Bourdieu.
[2] HOBBES, Thomas. Leviatã. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Abril Cultural, 1974. Páginas 134-135.
[3] Para mais informações sobre a dinâmica política do Brasil atual, sugiro o muito didático material do professor Jairo Nicolau, intitulado “Sistemas Eleitorais” (cf. NICOLAU, Jairo. Sistemas Eleitorais. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004).

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A polêmica na UFRGS e a superficialidade do jornal Zero Hora

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do Observatório da Imprensa (edição 501)
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A Universidade Federal do Rio Grande do Sul tem se caracterizado, através da sua história, como um espaço de debates e de permanente indagação relacionados aos rumos da sociedade contemporânea. Foi assim com a criação do Campus do Vale, próximo a cidade vizinha de Viamão, quando os militares que dirigiam o país – conforme contam alguns professores – destinaram para esta localidade de distância extremada naquele momento alguns dos cursos que mais argüiam contra a ditadura. Está sendo assim, nestes últimos anos, no que concerne às eleições para o Diretório Central dos Estudantes, às ações afirmativas, ao REUNI, etc.

Pois é nesse contexto que uma parede (sim, uma parede) toma conta das polêmicas que circundam, de tempos em tempos, nossa universidade. Ao entrar no Campus do Vale, aquele mesmo, próximo a Viamão, no qual estão alocados diversos departamentos de ensino e pesquisa, damos de cara com o prédio que abriga as salas de aula do curso de Letras. A parede frontal do edifício das Letras (recinto que outrora era dividido com o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) encontrava-se pichada, com algumas citações, descascada, além de servir de mural para cartazes políticos ou não. De fato, não se tratava de uma visão esteticamente bonita. Não era, todavia, desagradável para os olhos alheios; tratava-se apenas de uma parede.

Há cerca de três ou quatro meses, um grupo de alunos ligado ao Diretório Central dos Estudantes tomou uma iniciativa própria, sem autorização prévia da direção universitária, e reformulou a mencionada parede que dá acesso ao Campus do Vale. No lugar da tinta descascada, das frases soltas e perdidas, dos cartazes e do fundo “branco”, os estudantes pintaram um grande painel, no estilo graffiti, ostentando os seguintes dizeres: “Para que(m) serve o teu conhecimento?”. Estaria por vir a mais nova polêmica.

Pano de fundo: debate ideológico

Outro grupo de estudantes tratou de acionar a Secretaria de Assuntos Estudantis para reclamar o fato de a pintura não ter sido autorizada, e portanto constituir crime de depredação do patrimônio público. De imediato, a SAE arquivou o processo, justificando que aquele espaço estava historicamente ligado às reivindicações e proposições filosóficas dos graduandos, o que de certa forma representa a realidade.

Olhando de fora, sem muita profundidade, parece que estamos diante de um crime e de uma falta de respeito às autoridades, um atentado à autonomia da Universidade Pública. Sob os aspectos legais, sem dúvidas, trata-se de uma atitude pouco aconselhável, na medida em que poderia gerar (e acabou gerando) represálias por parte de quem se sentisse agredido (?) pelo acontecimento. Mas a história não é tão simples assim, tampouco somente de aspectos legais pulsa a vida acadêmica na UFRGS, muito pelo contrário.

O papel do conhecimento científico está na berlinda, digamos assim, há bastante tempo. Inúmeros pensadores fixaram suas atenções naquilo que poderíamos chamar de “conhecimento do conhecimento”, ou epistemologia. A professora do Departamento de Sociologia da UFRGS, Eva Machado Barbosa, conta um pouco dessa trajetória:

A questão do conhecimento de segunda ordem, ou do conhecimento do conhecimento, na expressão de Morin (1987), se fez presente no ocidente, de maneira explícita, pelo menos a partir da lógica aristotélica [...] Com o surgimento da ciência na Idade Moderna, ou melhor, com a diferenciação do conhecimento científico a partir da matriz filosófica original, a questão do conhecimento de segunda ordem, como lógica, gnoseologia, teoria do conhecimento, filosofia da ciência, epistemologia – ou que outro nome ainda se queira dar a esse domínio – tornou-se cada vez mais central, alcançando momentos de auge em obras de pensadores como Descartes, Locke, Hume, Kant e Hegel [BARBOSA, Eva Machado. Conhecendo o conhecimento: questões lógicas e teóricas na crítica da ciência e da razão. In: Cadernos de Sociologia, Porto Alegre, vol. 10 (Teoria Social: Desafios de uma Nova Era), p. 11].

Podemos observar, nesse sentido, que não é de hoje que os sujeitos humanos se debruçam sobre as questões que envolvem o conhecimento. Desde Karl Popper e os critérios de refutação e/ou testabilidade; passando por Gaston Bachelard e sua tentativa de psicanalisar o conhecimento; até chegar em Pierre Bourdieu e a necessidade da chamada vigilância epistemológica, perdura um caminho tortuoso, de rupturas e continuidades, de muitas discussões e interpretações distintas.

No episódio que polariza a universidade, o que está por trás de toda a discussão acerca da pintura da parede são diferentes posições ideológicas, posturas políticas frente ao papel do conhecimento científico construído nas suas entranhas. Para que ou para quem ele deve servir? Para nada, para alguns, para todos, para ninguém? Devemos nos questionar sobre isso?

Mesmo que alguns teóricos pós-modernos tenham decretado o fim das ideologias, do trabalho e da verdade enquanto conceito, na prática, a disputa política e ideológica está presente na rotina diária, visível ou disfarçada, mas presente. Os autores do painel que originou a polêmica defendem sem ruídos um projeto de ensino superior mais popular, voltado para a aproximação com a comunidade e que não apenas privilegie o mercado e o empreendedorismo, mas também procure democratizar o acesso ao saber e a crítica social, fatos ainda muito distantes no que tange à nossa instituição. Por outro lado, seria bastante ingenuidade, amigos leitores, pensarmos que a motivação da pessoa que moveu o processo para a retirada do graffiti em voga esteja vinculada apenas a uma espécie de “legalismo patriótico”, ainda mais se atentarmos para o fato de que tal indivíduo é membro de um movimento específico de atuação contrária às cotas raciais, via de exemplo. Não esqueçamos, porém, que nada impede que optemos pela ingenuidade, desde que possamos identificá-la...

Zero Hora e a desinformação

Tudo o que foi relatado até agora ganhou destaque no maior veículo de comunicação impresso do Rio Grande do Sul. Façamos uma pergunta clara: qual seria o papel deste jornal, para que pudesse cumprir uma função informativa de qualidade?

Independente da possível resposta, Zero Hora trabalhou sua cobertura até o momento em que escrevemos (sábado, 30 de agosto) enfatizando a questão legal dos acontecimentos. Para nosso juízo, é imperativo que tal cobertura abordasse esse viés, na medida em que não devemos esquecer, num piscar de olhos, a existência das legislações vigentes. Neste primeiro comentário, ponto para Zero Hora e seus jornalistas.

No entanto, com o intuito de situar seus consumidores de maneira mais inteligente, Zero Hora investigaria profundamente o pano de fundo citado acima, isto é, o debate ideológico que a própria inscrição polêmica levanta. Ao contrário disso, até agora o impresso mantém uma postura “legalista”, sem explicar o teor dos movimentos políticos que disputam a supremacia nesse conflito, seus projetos e perspectivas.

Ao saber da pintura, o estudante de Ciências Contábeis Anderson Gonçalves, 35 anos, integrante do Movimento Estudantil Liberdade (MEL), abriu processo administrativo junto à universidade para saber se a parede havia sido cedida aos alunos. No documento, ele classificou o ato como vandalismo, identificou um dos responsáveis e pediu a punição do grupo [Zero Hora, 26 de agosto de 2008, p. 44].

Nesse caso, para que a mídia pudesse ser minimamente isenta, comprometida com a sociedade, Zero Hora arcaria com sua responsabilidade e esboçaria uma tentativa (pelo menos) de contextualizar a “questão quente” movimentada por detrás de uma pendência estéril. Para fugir dos grilhões de um assunto vago, qual seja, a legalidade ou não da pintura, a retomada sintética das concepções políticas daqueles que pintaram o painel e daqueles que se opuseram a ele, mas também os respectivos significados que ambos os grupos atribuem ao conhecimento científico e suas “utilidades” promoveriam um nível de qualidade superior ao tradicional periódico.

Numa época em que o jornalismo consiste, ao fim e ao cabo, em um tipo de indústria que fabrica a desinformação, a busca pela profundidade poderia ajudar a salvá-lo do pior. Entretanto, talvez seja mais fácil vender informações superficiais, ao passo em que a profundidade aqui requisitada poderia desestabilizar alguns pilares edificantes na atualidade daquilo que Gramsci [Cf. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere: Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. Volume 2. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.] alcunhou “aparelhos privados de hegemonia”.

Anexos (endereços para visitar as matérias de Zero Hora, realizadas até o dia 30/08/08, disponíveis durante 30 dias na internet)

26 de agosto de 2008, “Parede pintada gera processo na UFRGS”

27 de agosto de 2008, “Diretor critica decisão da UFRGS que liberou grafite”

27 de agosto de 2008, “’Fui muito ingênua’, diz autora”

28 de agosto de 2008, “Mais tinta na parede da controvérsia”

Autoria: Bernardo Caprara


terça-feira, 19 de agosto de 2008

O especial de VEJA sobre a educação brasileira: uma neutralidade inventada

                 
                  Bernardo Caprara
                   Sociólogo e Jornalista
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"A reportagem que se vai ler pretende chamar a atenção [...] e contribuir para que pais, professores, educadores e autoridades acordem para a dura realidade cuja reversão vai exigir mais do que todos estão fazendo atualmente – mesmo os que, como é o caso especial dos pais, acreditam estar cumprindo exemplarmente sua função." (Veja, 20/8/2008, página 74).

O trecho acima, se desprovido da origem em que foi publicado, poderia apresentar uma sentença contundente acerca da situação educacional brasileira. Não restam dúvidas de que o ensino no Brasil é defasado e está longe de alcançar índices sequer razoáveis. Com efeito, a matéria especial da revista Veja, datada de 20 de agosto de 2008, indica os verdadeiros, neutros e reais motivos para o baixo nível das escolas no país:

A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar público e particular. É algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus encomendada por Veja Imagem retirada do sítio http://3.bp.blogspot.com/_uOHeXb46nqA/SLSmE4M1_cI/AAAAAAAAAFw/PRhJQoYNGhA/s1600-h/capa+veja+15+de+agosto.jpg[Veja, 20 de agosto de 2008, p. 77]

Abaixo de uma gigantesca figura, contendo à sua esquerda uma montagem com uma foice-caneta e um martelo-lápis (em referência ao símbolo máximo soviético, a foice e o martelo), e à sua direita algumas fotos de Lula da Silva, Che Guevara, Lênin e Hugo Chávez, encontra-se perdido, num emaranhado de estranhas afirmações e pitorescos adjetivos, o pequeno texto acima. Logo após, Karl Marx é reduzido a um "senhor que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 77]. Paulo Freire, por sua vez, é o "autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 82].

"Hoje, invadimos culturas"

Através das teses consubstanciadas pelas jornalistas Mônica Weinberg e Camila Pereira, a revista Veja deixa transparecer sua orientação teórica, embora não aponte que isso seja algo evidentemente estabelecido. A defesa do livre mercado e do achatamento do Estado, enquanto agente pensador da economia; o incentivo ao empreendedorismo, às iniciativas empresariais que buscam sempre o maior lucro; a adoção dos processos privatizantes de antigas empresas estatais; enfim, toda essa gama de perspectivas sobre a organização dos indivíduos em sociedade constitui o padrão argumentativo explícito na linha editorial do impresso. No entanto, não há, em lugar algum de suas páginas, tampouco em referências de seus "especialistas", a imagem esclarecedora dos seus pontos de vista, descritos na ciência social contemporânea como neoliberalismo.

Afinal, quando a educação se insere nessa história? É o que será tratado a adiante, caro leitor. A revista Veja, definida no espectro ideológico atual, vinculada ao neoliberalismo, disfarçando-o para os seus consumidores, está intrincada numa sociedade específica, localizada no final do século 20 e início do 21. Tal sociedade, por sua vez, advém de um período em que as novas tecnologias da comunicação adentraram fortemente o dinamismo cotidiano das pessoas, passando a cumprir um papel de alta importância nas suas trajetórias. As modificações nos meios de comunicação de massa enquadraram-se no bojo da economia neoliberal, ou seja, adaptaram-se com facilidade à vitória dos preceitos de Hayek [Cf. HAYEK, Friedrich. O caminho da servidão. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1987] – para citar somente um dos propagadores dessa teoria.

O Estado, anteriormente financiador de uma série de direitos dos trabalhadores, no seu modelo "bem-estar social" ou não, vai perdendo esses atributos de maneira compulsiva, sob a justificativa de endividamento interno e externo, mas também devido às pressões dos mega-grupos empresariais. Marshal McLuhan, empolgado com aquilo que vivenciamos atualmente, postula sem rodeios sua idéia sobre a apropriação totalizante das esferas materiais e simbólicas da vida coletiva pelo mercado:

"Esta é a época de transição da era comercial, quando a produção e distribuição de utilidades absorvia o engenho dos homens. Passamos hoje da produção de mercadorias empacotadas para o empacotamento da informação. Anteriormente, invadíamos [os Estados Unidos] os mercados estrangeiros com utilidades. Hoje, invadimos culturas inteiras com informação enlatada, diversão e idéias" [MCLUHAN, Marshal. "Visão, som e fúria". In: LIMA, L. Costa (org.). Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 145].

Os limites suportáveis da natureza

O cenário apresentado (visto das nossas janelas todos os dias) é tido pela maioria dos intelectuais, tanto de posição política de esquerda, centro ou direita, como vigorante nos últimos ventos históricos, mesmo que alguns queiram exterminá-lo e outros desejem sua aplicação por completo.

Voltemos para a edição 2074, número 33 do quadragésimo primeiro ano de existência da revista Veja. O quadro ilustrativo que se inicia na página 78 e termina na 84, ancorado nas concepções de dois economistas, dois historiadores e um filósofo [quais sejam, respectivamente: Maílson da Nóbrega e Sérgio Vale; Roberto Romano; Marco Antonio Villa e Octaciano Nogueira], traz um bom demonstrativo da perspectiva teórica amparada pela revista. De fato, desconhecemos os três "especialistas"; não detemos elementos para analisá-los sob a égide das teorias que defendem, ou que simplesmente consideram mais apropriadas para a compreensão da realidade empírica. Todavia, seus comentários relacionados às seguintes passagens de livros didáticos, expostas no referido box, encaminham facilmente o norte ideológico que esses autores seguem.

Para muitos estudiosos, o modelo de desenvolvimento capitalista, baseado em inovações tecnológicas, na busca do lucro e no aumento contínuo dos níveis de consumo, precisa ser substituído por outro, que leve em consideração os limites suportáveis da natureza e da própria vida. [Espaço e Vivência, livro didático de Geografia, Atual Editora, p. 43]

"Ensino é tarefa ‘desimportante’"

Ao que comentam, fatidicamente (e com neutralidade):

"Se há alguma esperança de poluir menos a natureza, ela está na criatividade e no ritmo de inovações propiciadas pela economia de mercado" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 84].

Nota-se, em princípio, que o livro gerador do comentário "especializado" não está engajado em uma visão específica, malgrado inclusive não fale abertamente nos pressupostos e alcunhas referentes aos discursos contrários à economia de mercado. De todo modo, a revista bate, nua e crua, na tecla de uma verdade neutra, absoluta, imparcial: apenas a economia de mercado poderá salvar a natureza! Mas não sejam conspiratórios, caros leitores. Não há nisso nada de militância, nada de defesa de qualquer postura frente ao mundo. Pelo contrário, trata-se de um discurso neutro – o que levaria Michel Foucault a remoer-se em sua cova.

Por intermédio desse viés de neutralidade é que o impresso em questão procura costurar aquilo que seria o dever de um professor brasileiro, pelo menos no que concerne ao desenrolar da coluna de Gustavo Ioschpe. Esse cidadão, que acredito não freqüentar rotineiramente as salas de aulas nas periferias do país, combate as reivindicações da categoria docente e propõe uma abordagem distinta em relação à ineficiência do ensino nacional:

"Quando se discutem as razões pelas quais nosso sistema escolar não consegue ensinar a maioria dos alunos a ler e a escrever ou a realizar operações aritméticas simples, muitos supostos fatores vêm à baila: o salário dos professores, a condição da infra-estrutura das escolas, o descaso da sociedade etc. [...] Seguimos ignorando um problema mais crucial: o ensino acadêmico é percebido pelos nossos professores como uma tarefa desimportante no processo educacional. Quando instado, em pesquisa da Unesco, a apontar as finalidades mais importantes da educação, o professorado brasileiro disse o seguinte: com 72% dos votos, a campeã foi ‘formar cidadãos conscientes’. A segunda mais lembrada foi ‘desenvolver a criatividade e o espírito crítico’ (60,5%). Lá atrás, na rabeira, apareceram ‘proporcionar conhecimentos básicos’ (8,9%) e ‘transmitir conhecimentos atualizados e relevantes’ (17%)" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 87].

Nossos juízos definirão

Entendemos, portanto, que os professores, dotados de toda uma estrutura material e simbólica no mínimo razoável, falham no seu desempenho profissional porque pretendem que seus alunos sejam pessoas conscientes e críticas. Seja essa a noção aproximada da realidade diária do sistema, seja ela uma falácia, a questão que se coloca debruçada sobre o comentário do colunista é outra: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação no Brasil (LDB, lei número 9.394/1996) prevê que os mestres procurem incentivar a consciência e o pensamento crítico nos seus discípulos. O artigo 35, da quarta seção, que dispõe sobre o Ensino Médio, atribui a finalidade, dentre outras, do "aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico". Indo além, o artigo 36 da mesma seção disserta sobre o currículo, também do Ensino Médio, ressaltando que ele destacará a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania.

Portanto, se os professores realmente correspondem ao que disseram para a pesquisa citada por Ioschpe, eles estão seguindo os passos da "carta maior" da educação nacional. Se corretos ou não, professores e LDB, serão nossos juízos próprios que definirão, optando por esta ou aquela postura teórica, embora tais afirmativas pouco ou nada caracterizem por completo os marcos de alguma linha argumentativa, no viés da ciência social.

Com o "vencer na vida"?

A reportagem de Veja sobre o ensino brasileiro pode ser sintetizada em algumas linhas. O conjunto dos textos e imagens estacionados entre as páginas 72 e 87, entrecruzado com anúncios comerciais, pretende montar o quebra-cabeças do baixo índice de qualidade na educação, e para isso utiliza os seguintes argumentos:

** o cerne da questão está na ideologia predominante entre o corpo docente, pois eles impõem uma doutrina esquerdista em sala de aula;

** no reverso disso, deveriam sempre adotar uma postura neutra, apenas transmitir os conteúdos e preparar as crianças para o futuro, competitivo e empresarial;

** os livros didáticos, por sua vez, se traduzem em materiais ideológicos situados no campo da esquerda, e servem de apoio para professores mal-preparados que repetem chavões;

** em resumo, o sistema de ensino brasileiro, público e privado, é demasiadamente esquerdista.

Ora, pensemos a respeito. Ao entrarmos nos colégios de periferia, encontramos, em geral, grandes dificuldades estruturais, tanto no que se refere à manutenção, quanto ao próprio espaço físico e recursos destinados pelo Estado. Os grupos sociais que freqüentam tais ambientes, na maioria dos casos, possuem poucas oportunidades de "vencer na vida", no estilo empreendedor ao qual a Veja se refere constantemente. O que fazer?

"Chavões de esquerda"

Sem responder à provocação, basta encaminharmos o final deste ensaio. Ao mesmo tempo em que defende a neutralidade dos professores, algo que a epistemologia contemporânea praticamente descartou ao campo científico, o impresso atua de maneira a sustentar uma posição ideológica, o que não constitui, na nossa visão, algum problema em especial. A ferida reside justamente na ocultação que este veículo realiza, concernente aos pontos de vista teóricos que está engajado. Se na capa de Veja estivesse exposto, abaixo das manchetes e chamadas principais, o slogan "A sua revista neoliberal", ou então "Imprensa livre, mercado livre!", estaríamos um pouco mais satisfeitos. Se discordaríamos do conteúdo e/ou do relicário reflexivo que circunda a supremacia do laissez-faire pós-nazismo, isso é outra história. Entretanto, a revista seria honesta, clara, trataria de capacitar (à luz de alguns pensadores do próprio arcabouço intelectual que defende) seus consumidores com informações mais precisas.

De fato, o que a Veja faz atualmente é desinformar. Como estipula Marilena Chauí em um de seus escritos recentes, a grande mídia do século 21 propicia um status baixíssimo de conhecimento e os noticiários de rádio e televisão produzem como principal efeito um calvário de desinformação [CHAUI, Marilena. Simulacro e Poder: uma análise da mídia. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006, p. 45]. Contudo, para os responsáveis pelo impresso examinado, tudo que escrevemos aqui certamente não passará de "chavões de esquerda", "uma espécie de muleta, um recurso a que se recorre na falta de informação" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 80. Estes adjetivos supracitados referem-se ao motivo das práticas esquerdistas dos professores em sala de aula no Brasil].

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO TAMBÉM NO SÍTIO DO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA (edição 500). CLIQUE AQUI PARA ACESSÁ-LO.

 

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Malcom X (passagem de vídeo)

Recrutamento e carreiras legislativas em perspectiva comparada - BR 2006



O filme Pro Dia Nascer Feliz à luz de algumas categorias Sociológicas

         Bernardo Caprara
        Sociólogo e Professor
O cinema brasileiro tem levantado questões pertinentes à realidade da nação, pelo menos no que concerne à sua história mais recente. O filme Pro Dia Nascer Feliz, produzido em 2006 e dirigido por João Jardim, apresenta o cotidiano de alguns adolescentes, distanciados pela localização geográfica, mas também por situações sociais e econômicas distintas. Este ensaio pretende abstrair algumas categorias Sociológicas acerca da educação e diluí-las no quadro da realidade social explicitado pela referida obra.

O Brasil do século XXI pode ser descrito como um país em que vigora um sistema político estável, sob o ponto de vista das instituições democráticas, do voto universal e do revezamento no poder. Por outro lado, também pode ser visto através da desigualdade social. Os ricos desfrutam dos benefícios do acúmulo do capital ou renda, enquanto os pobres se aglomeram em favelas e ocupam os piores postos de trabalho. A partir desse cenário construído pelas frases anteriores, e que aparece, em larga medida, nas histórias Imagem retirada do sítio http://www.thaifeijo.com.br/wp-content/uploads/2010/01/pro-dia-nascer-feliz.jpgretratadas pelos personagens da película Pro Dia Nascer Feliz, utiliza-se como ferramentas argumentativas algumas das pontuações oriundas das ideias de Karl Marx e Antonio Gramsci, além de Pierre Bourdieu.

As relações de assalariamento, nas quais o indivíduo que possui somente sua força de trabalho para vender ao mercado está submetido ao oferecimento de vagas por parte dos capitalistas, fincaram suas raízes por aqui após a abolição da escravatura, embora alguns traços deste novo modelo de organização já existissem em períodos anteriores. Na concepção que delimita o fim do modo de produção escravista-colonial, alcunha essa elaborada por Caio Prado Junior, houve um despejo numa sociedade historicamente racista de milhares de negros ex-escravos, que passaram a demandar locais de trabalho.

A competição que a Primeira República incorporou, sob os moldes do capitalismo, da urbanização crescente e da industrialização, expôs as fraquezas das tradições escravistas, visto que o fim destas relações acompanhou uma nova onda de exclusão. Os políticos da época não pensaram duas vezes: trataram de incentivar as imigrações européias, essenciais para a disseminação de mão-de-obra qualificada, ao mesmo tempo em que forjaram uma tentativa de subjugar os libertos ao desemprego. Além disso, a ideologia dominante na época encontrou seus pares mais difundidos no racismo científico.

Há uma origem histórica de exclusão racial nos corredores da sociedade brasileira. No entanto, não apenas tais aspectos estão reproduzidos na atualidade. Ainda acreditando na existência de um racismo estruturado neste país, imerso no mito da democracia racial, as questões de cunho sócio-econômico conduzem o fio argumentativo a conclusões mais relevantes. É aí que as sentenças de Marx fazem algum sentido, ao passo em que se tornam plausíveis versões analíticas que dialoguem por intermédio da luta de classes, do modo de produção capitalista, do assalariamento e da extração de mais-valia. Nessa via caminham algumas das categorias marxistas centrais. Mas o que tudo isso tem a ver com a educação e o filme de João Jardim?

O leitor poderá se posicionar em duas extremidades: de um lado, aqueles que não acreditam em nada daquilo que foi exposto anteriormente; de outro, os fiéis seguidores da doutrina marxista. Para o autor dessas linhas, que se considera um aventureiro nas empreitadas intelectuais, a saída reside numa avaliação dialética, capaz de entender, pelo menos, as possibilidades de utilização de conceitos desde a polarização recém descrita. Não obstante, as cenas de Pro Dia Nascer Feliz escancaram aquilo que é sabido há bastante tempo. Não é preciso muito esforço para ver que as escolas públicas não constituem o alvo principal dos investimentos, seja no governo que for, enquanto as grandes escolas privadas, destinadas a uma elite hegemônica financeira e culturalmente (na linha de Gramsci) continuam a alocar seus clientes nas melhores posições sociais.

Entretanto, a Sociologia contemporânea aprofundou os debates, e a figura de Pierre Bourdieu centralizou uma gama variada de atenções no último quarto do século XX. A escola, na sua perspectiva, organiza-se e sistematiza-se para reproduzir o arbitrário cultural das classes dominantes, porque estipula determinados conteúdos para serem inseridos nos currículos. Além dos currículos, o próprio sistema de ensino, o professor, suas ações e a autoridade pedagógica estão condicionados a reproduzir os interesses dos grupos dominantes. Quando a observação atenta para as escolas que propiciam a seus clientes aulas de reforço, aprendizado de línguas estrangeiras desde cedo, esportes em horários alternativos, vivência com plataformas informatizadas e outras regalias, logicamente percebe-se a iniciação para futuros empresários, médicos, advogados e engenheiros. Se for possível atentar para os colégios públicos, em sua maioria esmagadora desprovidos de recursos básicos, com professores desqualificados e muitas vezes preconceituosos, será intuitivo prever que aqueles que dali saírem encontrarão emprego com remunerações inferiores e baixo status. Guardados os determinismos, por aí Bourdieu envereda numa linha de interpretação complexa sobre as relações entre o capital cultural e o desempenho dos estudantes.

Um ponto fundamental a ser discutido está concentrado na atuação do professor. Em Paulo Freire, está colocada a proposta de uma leitura de mundo que permita uma nova educação para os educadores, mas também para os demais segmentos envolvidos nos processos de aprendizagem. Seria, noutras palavras, a procura de que pais, educadores e alunos passassem a se perceber como detentores de cultura, de saberes e conhecimentos diferenciados. Em paralelo, surge a imperativa reflexão crítica sobre a prática e a teoria docentes, sendo que ambas podem fracassar ou alcançar êxito, embora tenha de ser evidenciado que educar não é transmitir conhecimento. Freire sugere, ainda, que o educador democrático precisa manter-se atento para as armadilhas que os vícios ideológicos dominantes espalham indiscriminadamente.

A percepção das categorias esboçadas neste ensaio quer abrir algumas portas para a tentativa de uma compreensão aproximada dos aspectos mais visíveis da realidade escolar brasileira. Sem dúvidas, a obra audiovisual Pro Dia Nascer Feliz pauta novamente uma polêmica acirrada, na qual as opiniões divergem e se contrapõem, mas a reflexão contínua possui lugar central no embate por uma escola de maior qualidade e um futuro mais digno para muitas pessoas.

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Nietzsche x Lenin


Era uma tarde fria de domingo na capital Moscou, as paredes gélidas de um galpão localizado na periferia da cidade ecoavam os sussurros de centenas de pessoas. Eram operários, camponeses, trabalhadores assalariados do setor de serviços. Os patrões encontravam-se aquecidos nos mais belos palácios construídos pela tradição czarista, talvez desfrutando os benefícios da propriedade do capital nas mãos de poucos, talvez planejando demissões em bloco.

Um debate profundo e eloqüente, quase agressivo de ambas as partes, cativava os indivíduos ali presentes e prendia suas atenções, dispersas em alguns momentos apenas para que vociferassem baixinho suaves palavras, perspicazes comentários. De um lado, um atrevido alemão, herdeiro de idealizações complexas, porém de extrema validez, sedimentadas em argumentações organizadas e intrigantes. De outro, eis o representante da casa, um russo capaz de praticar a oratória de maneira quase sofística, dotado de uma bagagem teórica consistente e inebriante, um verdadeiro líder.

Em determinado momento, as discussões se centraram em um ponto específico, no qual o processo dialético parecia não mais se estender, gerando na massa alarmada e ansiosa constantes dúvidas. Reproduzo abaixo o trecho principal, na íntegra, para que tirem suas próprias conclusões...

Nietzsche: Meu caro Lenin, falas em qualificar uma vanguarda, eleita quem sabe neste recinto, oriunda das massas trabalhadoras. Pois bem. Digo-lhe que tal vanguarda, aonde quer que sua semente seja enterrada, não passará de uma ilusão, não concretizará sequer o tão sonhado processo revolucionário em busca da utopia socialista. Mas não digo apenas acerca do socialismo. Afirmo não haver a possibilidade de transformarmos a vida humana, se adotarmos como metodologia (ou como nosso “telos”) as concepções vanguardistas, e deixarmos para trás a superação de toda a moralidade criada pelo homem através da história. Espero que vós, moribundo crente na vontade de verdade, não interprete as questões do mundo real como o fazem os tradicionais filósofos – mesmo que o rótulo não o seja apropriado. Explico-lhe para que entenda, de maneira a tentar retirá-lo das obscuridades que o permeiam. Todo o impulso inicial das peculiaridades humanas nada mais é do que o impulso de dominar, a vontade de poder. Agora floresce a tacanha questão: quem criou o bem? O que é o mal? Gradualmente foi se revelando para mim os espinhos impostos pela singularidade a serviço de alguém, perdurando por entre os séculos e exacerbando os conflitos entre os nossos desejos e esta tal de moral. É necessário que criemos os nossos próprios valores, que possamos trabalhar nossa própria singularidade. Sem sucesso, estaremos submissos a uma específica “moral de rebanho”, tanto na orientação de uma vanguarda revolucionária quanto nas crenças absurdas alimentadas pela dominação religiosa. Ó rude L., espero que, mediante minhas conclusões, possas clarear o seu legado teórico e posicionar-te adequadamente.

Lenin: Camarada Nietzsche. Infelizmente para as elites, a virtuosidade de minha argumentação ultrapassa vossas críticas, adentrando a uma visão ampla da complexidade social que fundamenta a vida humana. Em primeiro lugar, vige a importância de deixar claro que o homem assim o é, pois vive em coletivo, portanto se caracteriza como fruto de sua vida social. A história escrita é, com efeito, a história da luta de classes diametralmente opostas, em constante disputa de interesses. Conquanto tal afirmação se aproxime de algumas especificidades do vosso discurso, trata-lo-ei de desmistificá-lo rapidamente. Creio que a correlação de vossa análise não desce do âmbito superestrutural, ou seja, se fundamenta vigorosamente nos aspectos ideológicos, fato que me faz considerar-te um idealista, bem aos moldes do velho Hegel, ou do novo Feuerbach. Não paras em nenhum instante para compreender que a base de qualquer organização coletiva humana estará sempre, sem variações, alicerçada na produção dos meios de sobrevivência, através da força de trabalho dos homens concretos, reais, no processo de transformação da natureza, para a satisfação das necessidades incontestáveis da espécie humana. Doravante os percalços ali se encontram, na base produtiva, na maneira em que a exploração dos homens se reproduz em escala cada vez maior. Mas algo ainda está ausente deste caldo, para que a burguesia, enquanto classe detentora dos meios produtivos na atual fase do capitalismo, se legitime sólida e quase imbatível – quase. Com a dominação da esfera econômica, aos poucos se trabalha a dominação no setor político, nas relações cotidianas, até se chegar a um ponto em que se naturalizam as condições de exploração, as condições de subordinação de uma classe sobre outra. Nesse contexto – chamado pelo velho Marx de superestrutura – se desenvolvem diversas relações de dominação, entre elas uma em essência, a relação moral, ponto em que concordo de passagem com vossas palavras. Contudo, em hipótese alguma se deve depositar na questão da moral uma barreira para a formação de uma vanguarda revolucionária. Se trabalharmos a idéia desta conferência, isto é, a ruptura com a sistemática capitalista, estaremos caminhando na direção de elaborarmos uma vanguarda sólida, vinculada se possível ao núcleo de trabalhadores, originária se possível dos mesmos trabalhadores. A vanguarda cumprirá o papel de encabeçar a grande massa de trabalhadores no processo revolucionário, trazendo-as para a distribuição das rendas, das terras, a diminuição das horas de trabalho e todas as efetivas atitudes de um novo Estado socialista. Pois bem, meu caro 

A tarde fria se foi, mas o debate permanece.

OBS.: Este texto foi escrito como prova final da disciplina de Introdução ao Pensamento Filosófico, no meu primeiro semestre da graduação (na época Bacharelado) em Ciências Sociais, na UFRGS. Foi uma ótima disciplina, ministrada pelo prof. Jefferson Pereira de Almeida. O texto não reflete nenhuma opinião minha da atualidade (editado em 2017).