SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O filme Pro Dia Nascer Feliz à luz de algumas categorias Sociológicas

         Bernardo Caprara
        Sociólogo e Professor
O cinema brasileiro tem levantado questões pertinentes à realidade da nação, pelo menos no que concerne à sua história mais recente. O filme Pro Dia Nascer Feliz, produzido em 2006 e dirigido por João Jardim, apresenta o cotidiano de alguns adolescentes, distanciados pela localização geográfica, mas também por situações sociais e econômicas distintas. Este ensaio pretende abstrair algumas categorias Sociológicas acerca da educação e diluí-las no quadro da realidade social explicitado pela referida obra.

O Brasil do século XXI pode ser descrito como um país em que vigora um sistema político estável, sob o ponto de vista das instituições democráticas, do voto universal e do revezamento no poder. Por outro lado, também pode ser visto através da desigualdade social. Os ricos desfrutam dos benefícios do acúmulo do capital ou renda, enquanto os pobres se aglomeram em favelas e ocupam os piores postos de trabalho. A partir desse cenário construído pelas frases anteriores, e que aparece, em larga medida, nas histórias Imagem retirada do sítio http://www.thaifeijo.com.br/wp-content/uploads/2010/01/pro-dia-nascer-feliz.jpgretratadas pelos personagens da película Pro Dia Nascer Feliz, utiliza-se como ferramentas argumentativas algumas das pontuações oriundas das ideias de Karl Marx e Antonio Gramsci, além de Pierre Bourdieu.

As relações de assalariamento, nas quais o indivíduo que possui somente sua força de trabalho para vender ao mercado está submetido ao oferecimento de vagas por parte dos capitalistas, fincaram suas raízes por aqui após a abolição da escravatura, embora alguns traços deste novo modelo de organização já existissem em períodos anteriores. Na concepção que delimita o fim do modo de produção escravista-colonial, alcunha essa elaborada por Caio Prado Junior, houve um despejo numa sociedade historicamente racista de milhares de negros ex-escravos, que passaram a demandar locais de trabalho.

A competição que a Primeira República incorporou, sob os moldes do capitalismo, da urbanização crescente e da industrialização, expôs as fraquezas das tradições escravistas, visto que o fim destas relações acompanhou uma nova onda de exclusão. Os políticos da época não pensaram duas vezes: trataram de incentivar as imigrações européias, essenciais para a disseminação de mão-de-obra qualificada, ao mesmo tempo em que forjaram uma tentativa de subjugar os libertos ao desemprego. Além disso, a ideologia dominante na época encontrou seus pares mais difundidos no racismo científico.

Há uma origem histórica de exclusão racial nos corredores da sociedade brasileira. No entanto, não apenas tais aspectos estão reproduzidos na atualidade. Ainda acreditando na existência de um racismo estruturado neste país, imerso no mito da democracia racial, as questões de cunho sócio-econômico conduzem o fio argumentativo a conclusões mais relevantes. É aí que as sentenças de Marx fazem algum sentido, ao passo em que se tornam plausíveis versões analíticas que dialoguem por intermédio da luta de classes, do modo de produção capitalista, do assalariamento e da extração de mais-valia. Nessa via caminham algumas das categorias marxistas centrais. Mas o que tudo isso tem a ver com a educação e o filme de João Jardim?

O leitor poderá se posicionar em duas extremidades: de um lado, aqueles que não acreditam em nada daquilo que foi exposto anteriormente; de outro, os fiéis seguidores da doutrina marxista. Para o autor dessas linhas, que se considera um aventureiro nas empreitadas intelectuais, a saída reside numa avaliação dialética, capaz de entender, pelo menos, as possibilidades de utilização de conceitos desde a polarização recém descrita. Não obstante, as cenas de Pro Dia Nascer Feliz escancaram aquilo que é sabido há bastante tempo. Não é preciso muito esforço para ver que as escolas públicas não constituem o alvo principal dos investimentos, seja no governo que for, enquanto as grandes escolas privadas, destinadas a uma elite hegemônica financeira e culturalmente (na linha de Gramsci) continuam a alocar seus clientes nas melhores posições sociais.

Entretanto, a Sociologia contemporânea aprofundou os debates, e a figura de Pierre Bourdieu centralizou uma gama variada de atenções no último quarto do século XX. A escola, na sua perspectiva, organiza-se e sistematiza-se para reproduzir o arbitrário cultural das classes dominantes, porque estipula determinados conteúdos para serem inseridos nos currículos. Além dos currículos, o próprio sistema de ensino, o professor, suas ações e a autoridade pedagógica estão condicionados a reproduzir os interesses dos grupos dominantes. Quando a observação atenta para as escolas que propiciam a seus clientes aulas de reforço, aprendizado de línguas estrangeiras desde cedo, esportes em horários alternativos, vivência com plataformas informatizadas e outras regalias, logicamente percebe-se a iniciação para futuros empresários, médicos, advogados e engenheiros. Se for possível atentar para os colégios públicos, em sua maioria esmagadora desprovidos de recursos básicos, com professores desqualificados e muitas vezes preconceituosos, será intuitivo prever que aqueles que dali saírem encontrarão emprego com remunerações inferiores e baixo status. Guardados os determinismos, por aí Bourdieu envereda numa linha de interpretação complexa sobre as relações entre o capital cultural e o desempenho dos estudantes.

Um ponto fundamental a ser discutido está concentrado na atuação do professor. Em Paulo Freire, está colocada a proposta de uma leitura de mundo que permita uma nova educação para os educadores, mas também para os demais segmentos envolvidos nos processos de aprendizagem. Seria, noutras palavras, a procura de que pais, educadores e alunos passassem a se perceber como detentores de cultura, de saberes e conhecimentos diferenciados. Em paralelo, surge a imperativa reflexão crítica sobre a prática e a teoria docentes, sendo que ambas podem fracassar ou alcançar êxito, embora tenha de ser evidenciado que educar não é transmitir conhecimento. Freire sugere, ainda, que o educador democrático precisa manter-se atento para as armadilhas que os vícios ideológicos dominantes espalham indiscriminadamente.

A percepção das categorias esboçadas neste ensaio quer abrir algumas portas para a tentativa de uma compreensão aproximada dos aspectos mais visíveis da realidade escolar brasileira. Sem dúvidas, a obra audiovisual Pro Dia Nascer Feliz pauta novamente uma polêmica acirrada, na qual as opiniões divergem e se contrapõem, mas a reflexão contínua possui lugar central no embate por uma escola de maior qualidade e um futuro mais digno para muitas pessoas.

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