SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Nietzsche x Lenin


Era uma tarde fria de domingo na capital Moscou, as paredes gélidas de um galpão localizado na periferia da cidade ecoavam os sussurros de centenas de pessoas. Eram operários, camponeses, trabalhadores assalariados do setor de serviços. Os patrões encontravam-se aquecidos nos mais belos palácios construídos pela tradição czarista, talvez desfrutando os benefícios da propriedade do capital nas mãos de poucos, talvez planejando demissões em bloco.

Um debate profundo e eloqüente, quase agressivo de ambas as partes, cativava os indivíduos ali presentes e prendia suas atenções, dispersas em alguns momentos apenas para que vociferassem baixinho suaves palavras, perspicazes comentários. De um lado, um atrevido alemão, herdeiro de idealizações complexas, porém de extrema validez, sedimentadas em argumentações organizadas e intrigantes. De outro, eis o representante da casa, um russo capaz de praticar a oratória de maneira quase sofística, dotado de uma bagagem teórica consistente e inebriante, um verdadeiro líder.

Em determinado momento, as discussões se centraram em um ponto específico, no qual o processo dialético parecia não mais se estender, gerando na massa alarmada e ansiosa constantes dúvidas. Reproduzo abaixo o trecho principal, na íntegra, para que tirem suas próprias conclusões...

Nietzsche: Meu caro Lenin, falas em qualificar uma vanguarda, eleita quem sabe neste recinto, oriunda das massas trabalhadoras. Pois bem. Digo-lhe que tal vanguarda, aonde quer que sua semente seja enterrada, não passará de uma ilusão, não concretizará sequer o tão sonhado processo revolucionário em busca da utopia socialista. Mas não digo apenas acerca do socialismo. Afirmo não haver a possibilidade de transformarmos a vida humana, se adotarmos como metodologia (ou como nosso “telos”) as concepções vanguardistas, e deixarmos para trás a superação de toda a moralidade criada pelo homem através da história. Espero que vós, moribundo crente na vontade de verdade, não interprete as questões do mundo real como o fazem os tradicionais filósofos – mesmo que o rótulo não o seja apropriado. Explico-lhe para que entenda, de maneira a tentar retirá-lo das obscuridades que o permeiam. Todo o impulso inicial das peculiaridades humanas nada mais é do que o impulso de dominar, a vontade de poder. Agora floresce a tacanha questão: quem criou o bem? O que é o mal? Gradualmente foi se revelando para mim os espinhos impostos pela singularidade a serviço de alguém, perdurando por entre os séculos e exacerbando os conflitos entre os nossos desejos e esta tal de moral. É necessário que criemos os nossos próprios valores, que possamos trabalhar nossa própria singularidade. Sem sucesso, estaremos submissos a uma específica “moral de rebanho”, tanto na orientação de uma vanguarda revolucionária quanto nas crenças absurdas alimentadas pela dominação religiosa. Ó rude L., espero que, mediante minhas conclusões, possas clarear o seu legado teórico e posicionar-te adequadamente.

Lenin: Camarada Nietzsche. Infelizmente para as elites, a virtuosidade de minha argumentação ultrapassa vossas críticas, adentrando a uma visão ampla da complexidade social que fundamenta a vida humana. Em primeiro lugar, vige a importância de deixar claro que o homem assim o é, pois vive em coletivo, portanto se caracteriza como fruto de sua vida social. A história escrita é, com efeito, a história da luta de classes diametralmente opostas, em constante disputa de interesses. Conquanto tal afirmação se aproxime de algumas especificidades do vosso discurso, trata-lo-ei de desmistificá-lo rapidamente. Creio que a correlação de vossa análise não desce do âmbito superestrutural, ou seja, se fundamenta vigorosamente nos aspectos ideológicos, fato que me faz considerar-te um idealista, bem aos moldes do velho Hegel, ou do novo Feuerbach. Não paras em nenhum instante para compreender que a base de qualquer organização coletiva humana estará sempre, sem variações, alicerçada na produção dos meios de sobrevivência, através da força de trabalho dos homens concretos, reais, no processo de transformação da natureza, para a satisfação das necessidades incontestáveis da espécie humana. Doravante os percalços ali se encontram, na base produtiva, na maneira em que a exploração dos homens se reproduz em escala cada vez maior. Mas algo ainda está ausente deste caldo, para que a burguesia, enquanto classe detentora dos meios produtivos na atual fase do capitalismo, se legitime sólida e quase imbatível – quase. Com a dominação da esfera econômica, aos poucos se trabalha a dominação no setor político, nas relações cotidianas, até se chegar a um ponto em que se naturalizam as condições de exploração, as condições de subordinação de uma classe sobre outra. Nesse contexto – chamado pelo velho Marx de superestrutura – se desenvolvem diversas relações de dominação, entre elas uma em essência, a relação moral, ponto em que concordo de passagem com vossas palavras. Contudo, em hipótese alguma se deve depositar na questão da moral uma barreira para a formação de uma vanguarda revolucionária. Se trabalharmos a idéia desta conferência, isto é, a ruptura com a sistemática capitalista, estaremos caminhando na direção de elaborarmos uma vanguarda sólida, vinculada se possível ao núcleo de trabalhadores, originária se possível dos mesmos trabalhadores. A vanguarda cumprirá o papel de encabeçar a grande massa de trabalhadores no processo revolucionário, trazendo-as para a distribuição das rendas, das terras, a diminuição das horas de trabalho e todas as efetivas atitudes de um novo Estado socialista. Pois bem, meu caro 

A tarde fria se foi, mas o debate permanece.

OBS.: Este texto foi escrito como prova final da disciplina de Introdução ao Pensamento Filosófico, no meu primeiro semestre da graduação (na época Bacharelado) em Ciências Sociais, na UFRGS. Foi uma ótima disciplina, ministrada pelo prof. Jefferson Pereira de Almeida. O texto não reflete nenhuma opinião minha da atualidade (editado em 2017).