SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
PÁGINA INICIAL LEIA ANTES! SOBRE O EDITOR TEXTOS DO EDITOR BIBLIOTECA MATERIAIS DE AULAS

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O especial de VEJA sobre a educação brasileira: uma neutralidade inventada

                 
                  Bernardo Caprara
                   Sociólogo e Jornalista
.
"A reportagem que se vai ler pretende chamar a atenção [...] e contribuir para que pais, professores, educadores e autoridades acordem para a dura realidade cuja reversão vai exigir mais do que todos estão fazendo atualmente – mesmo os que, como é o caso especial dos pais, acreditam estar cumprindo exemplarmente sua função." (Veja, 20/8/2008, página 74).

O trecho acima, se desprovido da origem em que foi publicado, poderia apresentar uma sentença contundente acerca da situação educacional brasileira. Não restam dúvidas de que o ensino no Brasil é defasado e está longe de alcançar índices sequer razoáveis. Com efeito, a matéria especial da revista Veja, datada de 20 de agosto de 2008, indica os verdadeiros, neutros e reais motivos para o baixo nível das escolas no país:

A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar público e particular. É algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus encomendada por Veja Imagem retirada do sítio http://3.bp.blogspot.com/_uOHeXb46nqA/SLSmE4M1_cI/AAAAAAAAAFw/PRhJQoYNGhA/s1600-h/capa+veja+15+de+agosto.jpg[Veja, 20 de agosto de 2008, p. 77]

Abaixo de uma gigantesca figura, contendo à sua esquerda uma montagem com uma foice-caneta e um martelo-lápis (em referência ao símbolo máximo soviético, a foice e o martelo), e à sua direita algumas fotos de Lula da Silva, Che Guevara, Lênin e Hugo Chávez, encontra-se perdido, num emaranhado de estranhas afirmações e pitorescos adjetivos, o pequeno texto acima. Logo após, Karl Marx é reduzido a um "senhor que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 77]. Paulo Freire, por sua vez, é o "autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 82].

"Hoje, invadimos culturas"

Através das teses consubstanciadas pelas jornalistas Mônica Weinberg e Camila Pereira, a revista Veja deixa transparecer sua orientação teórica, embora não aponte que isso seja algo evidentemente estabelecido. A defesa do livre mercado e do achatamento do Estado, enquanto agente pensador da economia; o incentivo ao empreendedorismo, às iniciativas empresariais que buscam sempre o maior lucro; a adoção dos processos privatizantes de antigas empresas estatais; enfim, toda essa gama de perspectivas sobre a organização dos indivíduos em sociedade constitui o padrão argumentativo explícito na linha editorial do impresso. No entanto, não há, em lugar algum de suas páginas, tampouco em referências de seus "especialistas", a imagem esclarecedora dos seus pontos de vista, descritos na ciência social contemporânea como neoliberalismo.

Afinal, quando a educação se insere nessa história? É o que será tratado a adiante, caro leitor. A revista Veja, definida no espectro ideológico atual, vinculada ao neoliberalismo, disfarçando-o para os seus consumidores, está intrincada numa sociedade específica, localizada no final do século 20 e início do 21. Tal sociedade, por sua vez, advém de um período em que as novas tecnologias da comunicação adentraram fortemente o dinamismo cotidiano das pessoas, passando a cumprir um papel de alta importância nas suas trajetórias. As modificações nos meios de comunicação de massa enquadraram-se no bojo da economia neoliberal, ou seja, adaptaram-se com facilidade à vitória dos preceitos de Hayek [Cf. HAYEK, Friedrich. O caminho da servidão. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1987] – para citar somente um dos propagadores dessa teoria.

O Estado, anteriormente financiador de uma série de direitos dos trabalhadores, no seu modelo "bem-estar social" ou não, vai perdendo esses atributos de maneira compulsiva, sob a justificativa de endividamento interno e externo, mas também devido às pressões dos mega-grupos empresariais. Marshal McLuhan, empolgado com aquilo que vivenciamos atualmente, postula sem rodeios sua idéia sobre a apropriação totalizante das esferas materiais e simbólicas da vida coletiva pelo mercado:

"Esta é a época de transição da era comercial, quando a produção e distribuição de utilidades absorvia o engenho dos homens. Passamos hoje da produção de mercadorias empacotadas para o empacotamento da informação. Anteriormente, invadíamos [os Estados Unidos] os mercados estrangeiros com utilidades. Hoje, invadimos culturas inteiras com informação enlatada, diversão e idéias" [MCLUHAN, Marshal. "Visão, som e fúria". In: LIMA, L. Costa (org.). Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 145].

Os limites suportáveis da natureza

O cenário apresentado (visto das nossas janelas todos os dias) é tido pela maioria dos intelectuais, tanto de posição política de esquerda, centro ou direita, como vigorante nos últimos ventos históricos, mesmo que alguns queiram exterminá-lo e outros desejem sua aplicação por completo.

Voltemos para a edição 2074, número 33 do quadragésimo primeiro ano de existência da revista Veja. O quadro ilustrativo que se inicia na página 78 e termina na 84, ancorado nas concepções de dois economistas, dois historiadores e um filósofo [quais sejam, respectivamente: Maílson da Nóbrega e Sérgio Vale; Roberto Romano; Marco Antonio Villa e Octaciano Nogueira], traz um bom demonstrativo da perspectiva teórica amparada pela revista. De fato, desconhecemos os três "especialistas"; não detemos elementos para analisá-los sob a égide das teorias que defendem, ou que simplesmente consideram mais apropriadas para a compreensão da realidade empírica. Todavia, seus comentários relacionados às seguintes passagens de livros didáticos, expostas no referido box, encaminham facilmente o norte ideológico que esses autores seguem.

Para muitos estudiosos, o modelo de desenvolvimento capitalista, baseado em inovações tecnológicas, na busca do lucro e no aumento contínuo dos níveis de consumo, precisa ser substituído por outro, que leve em consideração os limites suportáveis da natureza e da própria vida. [Espaço e Vivência, livro didático de Geografia, Atual Editora, p. 43]

"Ensino é tarefa ‘desimportante’"

Ao que comentam, fatidicamente (e com neutralidade):

"Se há alguma esperança de poluir menos a natureza, ela está na criatividade e no ritmo de inovações propiciadas pela economia de mercado" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 84].

Nota-se, em princípio, que o livro gerador do comentário "especializado" não está engajado em uma visão específica, malgrado inclusive não fale abertamente nos pressupostos e alcunhas referentes aos discursos contrários à economia de mercado. De todo modo, a revista bate, nua e crua, na tecla de uma verdade neutra, absoluta, imparcial: apenas a economia de mercado poderá salvar a natureza! Mas não sejam conspiratórios, caros leitores. Não há nisso nada de militância, nada de defesa de qualquer postura frente ao mundo. Pelo contrário, trata-se de um discurso neutro – o que levaria Michel Foucault a remoer-se em sua cova.

Por intermédio desse viés de neutralidade é que o impresso em questão procura costurar aquilo que seria o dever de um professor brasileiro, pelo menos no que concerne ao desenrolar da coluna de Gustavo Ioschpe. Esse cidadão, que acredito não freqüentar rotineiramente as salas de aulas nas periferias do país, combate as reivindicações da categoria docente e propõe uma abordagem distinta em relação à ineficiência do ensino nacional:

"Quando se discutem as razões pelas quais nosso sistema escolar não consegue ensinar a maioria dos alunos a ler e a escrever ou a realizar operações aritméticas simples, muitos supostos fatores vêm à baila: o salário dos professores, a condição da infra-estrutura das escolas, o descaso da sociedade etc. [...] Seguimos ignorando um problema mais crucial: o ensino acadêmico é percebido pelos nossos professores como uma tarefa desimportante no processo educacional. Quando instado, em pesquisa da Unesco, a apontar as finalidades mais importantes da educação, o professorado brasileiro disse o seguinte: com 72% dos votos, a campeã foi ‘formar cidadãos conscientes’. A segunda mais lembrada foi ‘desenvolver a criatividade e o espírito crítico’ (60,5%). Lá atrás, na rabeira, apareceram ‘proporcionar conhecimentos básicos’ (8,9%) e ‘transmitir conhecimentos atualizados e relevantes’ (17%)" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 87].

Nossos juízos definirão

Entendemos, portanto, que os professores, dotados de toda uma estrutura material e simbólica no mínimo razoável, falham no seu desempenho profissional porque pretendem que seus alunos sejam pessoas conscientes e críticas. Seja essa a noção aproximada da realidade diária do sistema, seja ela uma falácia, a questão que se coloca debruçada sobre o comentário do colunista é outra: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação no Brasil (LDB, lei número 9.394/1996) prevê que os mestres procurem incentivar a consciência e o pensamento crítico nos seus discípulos. O artigo 35, da quarta seção, que dispõe sobre o Ensino Médio, atribui a finalidade, dentre outras, do "aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico". Indo além, o artigo 36 da mesma seção disserta sobre o currículo, também do Ensino Médio, ressaltando que ele destacará a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania.

Portanto, se os professores realmente correspondem ao que disseram para a pesquisa citada por Ioschpe, eles estão seguindo os passos da "carta maior" da educação nacional. Se corretos ou não, professores e LDB, serão nossos juízos próprios que definirão, optando por esta ou aquela postura teórica, embora tais afirmativas pouco ou nada caracterizem por completo os marcos de alguma linha argumentativa, no viés da ciência social.

Com o "vencer na vida"?

A reportagem de Veja sobre o ensino brasileiro pode ser sintetizada em algumas linhas. O conjunto dos textos e imagens estacionados entre as páginas 72 e 87, entrecruzado com anúncios comerciais, pretende montar o quebra-cabeças do baixo índice de qualidade na educação, e para isso utiliza os seguintes argumentos:

** o cerne da questão está na ideologia predominante entre o corpo docente, pois eles impõem uma doutrina esquerdista em sala de aula;

** no reverso disso, deveriam sempre adotar uma postura neutra, apenas transmitir os conteúdos e preparar as crianças para o futuro, competitivo e empresarial;

** os livros didáticos, por sua vez, se traduzem em materiais ideológicos situados no campo da esquerda, e servem de apoio para professores mal-preparados que repetem chavões;

** em resumo, o sistema de ensino brasileiro, público e privado, é demasiadamente esquerdista.

Ora, pensemos a respeito. Ao entrarmos nos colégios de periferia, encontramos, em geral, grandes dificuldades estruturais, tanto no que se refere à manutenção, quanto ao próprio espaço físico e recursos destinados pelo Estado. Os grupos sociais que freqüentam tais ambientes, na maioria dos casos, possuem poucas oportunidades de "vencer na vida", no estilo empreendedor ao qual a Veja se refere constantemente. O que fazer?

"Chavões de esquerda"

Sem responder à provocação, basta encaminharmos o final deste ensaio. Ao mesmo tempo em que defende a neutralidade dos professores, algo que a epistemologia contemporânea praticamente descartou ao campo científico, o impresso atua de maneira a sustentar uma posição ideológica, o que não constitui, na nossa visão, algum problema em especial. A ferida reside justamente na ocultação que este veículo realiza, concernente aos pontos de vista teóricos que está engajado. Se na capa de Veja estivesse exposto, abaixo das manchetes e chamadas principais, o slogan "A sua revista neoliberal", ou então "Imprensa livre, mercado livre!", estaríamos um pouco mais satisfeitos. Se discordaríamos do conteúdo e/ou do relicário reflexivo que circunda a supremacia do laissez-faire pós-nazismo, isso é outra história. Entretanto, a revista seria honesta, clara, trataria de capacitar (à luz de alguns pensadores do próprio arcabouço intelectual que defende) seus consumidores com informações mais precisas.

De fato, o que a Veja faz atualmente é desinformar. Como estipula Marilena Chauí em um de seus escritos recentes, a grande mídia do século 21 propicia um status baixíssimo de conhecimento e os noticiários de rádio e televisão produzem como principal efeito um calvário de desinformação [CHAUI, Marilena. Simulacro e Poder: uma análise da mídia. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006, p. 45]. Contudo, para os responsáveis pelo impresso examinado, tudo que escrevemos aqui certamente não passará de "chavões de esquerda", "uma espécie de muleta, um recurso a que se recorre na falta de informação" [Veja, 20 de agosto de 2008, p. 80. Estes adjetivos supracitados referem-se ao motivo das práticas esquerdistas dos professores em sala de aula no Brasil].

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO TAMBÉM NO SÍTIO DO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA (edição 500). CLIQUE AQUI PARA ACESSÁ-LO.