SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Maria da Conceição Tavares na TV Senado

Economista manda recado para jovens estudiosos


Após ensinar economia aos jornalistas da TV Senado, Maria da Conceição Tavares, economista ligada às visões da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, orgão da ONU) e considerada entre os pares como de esquerda, tratou de aconselhar a juventude. Nestes minutos a portuguesa que abandonou seu país em virtude da ditadura comandada por Salazar deixa um recado aos jovens que se interessam pela economia. No sítio da TV Senado encontram-se todas as 3 partes da entrevista, que constituem um excelente material para os que pretendem pensar de maneira mais complexa os rumos  econômicos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O calvário do controle da inflação

nota de um real

Há 16 anos surgia o Plano Real, que visava reduzir a inflação e estabilizar a economia brasileira – o que, de fato, acabou conseguindo. Os louros dessa “vitória” são atribuídos, na maior parte das vezes, ao então Ministro da Fazenda, o renomado sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que governaria o país por dois mandatos subseqüentes. De lá para cá, o que sabemos sobre a economia parece não ter se diferenciado muito, ou seja, possuímos poucos subsídios, em geral, para analisar os rumos do mercado, as estatísticas econômicas e as complicadas propostas dos profissionais da área.

Antes de tudo, é imperativo lembrar que a economia é uma ciência social e que, embora seus representantes tentem desmanchar esses atributos, é isso que ela é e é isso que ela continuará sendo. Portanto, quando assistimos aos comentários de especialistas na televisão, lemos reportagens com os mesmos fins, ou escutamos notícias embasadas simplesmente em critérios abstratos ancorados no famoso “economês”, as profundezas da desinformação configuram-se nas nossas mentes confusas.

Sendo uma ciência social, para falar de economia precisamos entender que sem ela não teríamos condições materiais de sobrevivência, isto é, os produtos que satisfazem nossos anseios básicos não existiriam. Com o desmoronamento das relações feudais de produção, a Europa passou a caminhar no sentido de uma maneira distinta de organizar o trabalho, entendido aqui como a transformação da natureza pelo homem no intuito de facilitar, melhorar a sua vivência. Enquanto o capitalismo ascendia ao posto de sistema econômico dominante no Velho Continente, desligando os laços sociais anteriores e proporcionando novas formas de instituir a divisão do trabalho, noutros continentes as coisas aconteciam com feições diversas. Basta salientar o impacto das grandes navegações, conectando perspectivas de extrema incompreensão mútua, e pondo em xeque o futuro de cada território.

Se vamos analisar a economia brasileira, caros proprietários e trabalhadores das empresas responsáveis pela informação de larga escala, tenhamos respeito pela inteligibilidade dos nossos consumidores. Começamos este artigo resgatando o início do Plano Real, e partiremos dele para ampliar a compreensão sobre o que ocorre em termos econômicos no Brasil desde o fim dos governos militares.

O ponto final da ditadura comandada pelas forças armadas a partir de 1964 comportou uma gama extensa de disputas políticas, pautadas por uma conjuntura internacional tensa, na qual a economia planificada dos Estados soviéticos dava indícios de que naufragaria mais cedo ou mais tarde. Forjava-se um contexto adequado para que as teses do neoliberalismo pudessem se fortalecer, em contraposição ao modelo do Welfare State, que pensava o Estado como compensador das desigualdades geradas pelo mercado.

No Brasil, Gremaud (2007) aponta o espaço que vai de 1985 a 1994 como o momento em que perdurou uma espécie de saga de planos heterodoxos na economia nacional. Desde 1973, com a primeira crise do petróleo, a inflação tinha se tornado uma epidemia incurável, e o combate a ela foi eleito como o centro das atenções das equipes econômicas da nova democracia. Nesse sentido, para os ortodoxos, a inflação é originada no processo de emissão monetária devido aos déficits públicos, aumentando a demanda e forçando a alta de preços. Para ser combatida era imperativa a retração da demanda, mediante uma política recessiva. No pensamento heterodoxo, o exagero na demanda proveniente da emissão monetária é visto muito mais como uma consequência da inflação do que como uma causa. “Assim, a inflação poderia ser combatida sem o apelo ao controle da demanda, isto é, não haveria a necessidade de uma política recessiva” (GREMAUD, 2007: 432).

Até chegar ao Real, observamos vários planos que amargaram a derrota, sob o ponto de vista de frear as pressões inflacionárias, do Cruzado ao Collor II. Eles continham alguns elementos em comum, como o congelamento de preços, e acabaram obtendo resultados positivos no curto prazo, que rapidamente se mostravam fragilizados. Nesse ínterim, duas correntes com novas explicações para a persistência da inflação no Brasil ganharam força: os inercialistas e os pós-keynesianos. Os primeiros eram ligados a PUC-RJ, e a ideia central deles dizia que, em determinado momento, a inflação adquire certa autonomia, num caráter inercial, no qual a inflação passada condiciona a atual, a atual faz o mesmo com a futura, e assim prossegue. Os vilões seriam os mecanismos de indexação (correção monetária de preços, salários, câmbio e ativos financeiros), pois esses difundiriam as inflações pretéritas para o futuro. Os pós-keynesianos, por sua vez, se situavam nas assertivas de Tavares e Belluzzo (1984), ligados a Unicamp. Suas concepções baseavam-se no complexo processo de formação de preços keynesiano, distinguindo duas categorias de bens, o setor flex-price (concorrencial, matérias-primas) e o setor fix-price (oligopolizado, industrial). A despeito das relações interiorizadas nessas teorias, para o término do processo inflacionário seria preciso uma renegociação da dívida externa e um ajuste do patrimônio público, que possibilitariam uma condução estável da política cambial e de juros.

O Plano Real foi amparado por uma proposta de reforma monetária, que significava uma “[...] simulação dos efeitos de uma hiperinflação com o convívio de duas moedas, uma boa e uma ruim, com a primeira substituindo a última ao longo do tempo” (GREMAUD, 2007: 448). O ataque às pressões inflacionárias se dividiu em três frentes: a) o ajuste fiscal, que tentaria equilibrar o orçamento da União para os próximos anos, sedimentado no corte de despesas, no aumento dos impostos e na diminuição das transferências do governo federal; b) a indexação completa da economia, iniciada em fevereiro de 1994, com a criação de um novo indexador, a Unidade Real de Valor (URV), cujo valor se manteria em paridade de um para um com o dólar e consistiria na própria taxa de câmbio; c) a transformação da URV em Reais, noutros termos, a reforma monetária, quando quase todos os preços estavam expressos em URV. O governo aplicou, em paralelo, o controle da demanda e da expansão monetária, restringindo a capacidade de repasse dos custos de produção para os preços – estratégia conhecida como âncora monetária.

É possível caracterizar a política econômica brasileira desde a “estabilização”, concretizada em 1999, no tripé que angaria as metas de inflação, o câmbio flutuante e o superávit primário. Apesar de o governo Lula ter começado com certa desconfiança dos capitalistas, o ministro Palocci seguiu os intentos anteriores, orientados pela fortaleza do combate à inflação. O Banco Central, sob as rédeas de um homem do setor financeiro, permaneceu com as receitas austeras e movimentando-se de modo autônomo.

Na rotina diária, o que vemos é o crescimento econômico do país representar pouco para a grande maioria das pessoas. Por que não nos perguntamos, por intermédio dos mass media, se o controle da inflação deve mesmo ser o norte das políticas econômicas brasileiras? Por que não se questiona a prevalência completa do mercado, considerado um organismo eficiente e dinâmico, o reverso do Estado, malvado, opressor, corrupto, ineficaz, burocrático e tudo mais?

Sem querer tirar os méritos dos economistas, em se tratando de uma ciência social, tem razão Maria da Conceição Tavares quando afirma com veemência que não se pode chamar a disciplina senão pela sua alcunha original, isto é, economia política. Estão em jogo não apenas mecanismos de controle disso ou daquilo, táticas de funcionamento da acumulação capitalista e de acomodação dos conflitos de classe. Estão em jogo filosofias sociais, elas carregadas de compreensões acerca de quais grupos sociais devem ser privilegiados no acesso às riquezas, de que modo se deve organizar a divisão do trabalho e de que formas os lucros devem ser apropriados.

Por detrás dos panos, é fundamental discutir a relação entre capital e trabalho, e pensar até que ponto o reino da propriedade sagrada deve vigorar universalmente, sem críticas, sem alternativas. Uma política econômica comprometida com uma nova sociedade, na qual as oportunidades de ascensão social realmente existam, terá de enfrentar os grandes capitalistas, certamente não os excluindo de maneira arbitrária, mas regulando os desvios prejudiciais ao tecido societário derivados da acumulação irrestrita de capital.

Algumas medidas, como a taxação das grandes fortunas, a renegociação da dívida externa, a presença intensa do Estado na fiscalização das transações entre os bancos constituiriam atitudes valiosas. Mas hoje o que estampa as manchetes é o calvário da inflação, que parece querer retornar aditivada. A rigor, não querendo discutir os pressupostos do capitalismo como único meio possível para a produção nas sociedades contemporâneas, o que por si só ainda é um debate pulsante, pelo menos as belezas do “economês” mais elaborado deveriam pautar as percepções sobre a economia na grande mídia. Sem um ou outro conteúdo, as informações são rasteiras, e o pior é que servem de combustível para a retirada de direitos dos trabalhadores, além de espalhar sentenças interpretativas como verdades científicas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tiririca não é o alvo certo

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Ele é Francisco Everaldo Oliveira Silva

...As eleições de 2010 terminaram com um comentário em particular dominando as fofocas da mídia: o caso Tiririca. Como a democracia brasileira pode gerar as ditas “aberrações” similares ao comediante, eleito deputado federal pelo estado de São Paulo? Por quais razões surgiriam tais gargalos nas instituições políticas brasileiras?

...As conclusões mais imediatistas responderiam em algumas direções, desde a Reforma Política, até soluções que censurariam os direitos de determinados grupos sociais em buscar a ocupação de cargo eletivo. Bradariam os “caçadores de furos” aos ouvidos de “especialistas” os apelos por explicações acerca dos motivos que não deixam a famigerada reforma política sair do papel; pediriam elucidações sobre mecanismos de veto para candidatos com características consideradas inadequadas.

...Tudo isso resulta em ocultar as faces mais verdadeiras da novata democracia nacional, tratando de questões de intensa complexidade social com falsos remédios. Se procurarmos conhecer melhor os alicerces da nossa política, precisaremos ir além de sentenças estéreis, reducionistas e, por conseguinte, pouco ou nada informativas. Nesse sentido, cabe uma crítica ao próprio processo de produção ao qual o jornalismo contemporâneo se tornou dependente, na medida em que os trabalhadores – sim, trabalhadores, na grande maioria das vezes – das empresas de comunicação operam pressionados constantemente, numa competição empresarial voraz, que origina, entre outros reflexos, a velocidade (time is Money!) em detrimento da qualidade da informação.

...O Brasil carrega na história das suas instituições políticas algumas apreciações gerais que não podem ser esquecidas. A despeito das relações econômicas, conquanto o escravismo oficial tenha sido o mais tardio do planeta, as elites do poder nesse país congregam elementos específicos que demandam uma abordagem mais atenta. Não é senão forçosa uma análise do conceito de patrimonialismo.

...Já em Max Weber encontramos o termo, descrito como uma administração política em que as questões públicas e privadas se confundem e o limite entre ambas as esferas de poder é bastante imperceptível. Ele defende que “falaremos de Estado patrimonial quando o príncipe organiza seu poder político sobre áreas extrapatrimoniais e súditos políticos – poder que não é discricionário nem mantido pela coerção física – exatamente como exerce seu poder patriarcal” (1999: 239/240).

...Em Raymundo Faoro estão as considerações mais promissoras acerca do patrimonialismo na construção da ordem estatal brasileira. Mesmo que sua obra central, Os donos do poder, não possa e nem deva ser delimitada no rigor do pensamento weberiano, a influência do sociólogo clássico está, no mínimo, entrelaçada aos argumentos de Faoro numa linha tangencial. Com efeito, ao iluminar o caráter específico da formação histórica deste valoroso território, torna-se palpável elucidar algumas questões que se manifestam nas mazelas do Estado e da política. Noutras palavras, a estrutura patrimonialista herdada do Estado Português correspondeu a uma importação quase absoluta dos setores administrativos da metrópole no período pós-descobrimento, reforçada com a vinda da Corte Lusitana para o Rio de Janeiro, fugida dos intentos napoleônicos, nos idos do século XIX. Reputado como o traço mais notável no desenvolvimento do Estado brasileiro, o patrimonialismo acompanhou o modelo institucional que se tornou historicamente padrão e sedimentou o Império, a Independência e a República. Faoro disserta sobre a precária distinção entre o público e o privado na edificação do Estado Português:

...A coroa conseguiu formar, desde os primeiros golpes da reconquista, imenso patrimônio rural (bens “requengos”, “regalengos”, “regoengos”, “regeengos”), cuja propriedade se confundia com o domínio da casa real, aplicado o produto nas necessidades coletivas ou pessoais, sob as circunstâncias que distinguiam mal o bem público do bem particular, privativo do príncipe [...] A propriedade do rei – suas terras e seus tesouros – se confundem nos seus aspectos público e particular. Rendas e despesas se aplicam, sem discriminação normativa prévia, nos gastos da família ou em bens e serviços de utilidade geral (1977 [v. 1]: 04 e 08).
           
...Arrolados os fundamentais argumentos, pretendemos dizer que o Estado e as instituições políticas possuem nas suas entranhas o comportamento dos estamentos, sobretudo do patrimonialismo arraigado no passado e diluído no presente. Olhar de maneira mais profunda para os acontecimentos dessa natureza significa repensar uma série de atributos, e não apenas empolgar-se em discussões superficiais.

...Por outro lado, as pesquisas em que trabalhamos durante três anos no Departamento de Ciência Política da UFRGS, que objetivavam demonstrar os perfis socioeconômicos de todos os candidatos a deputado federal em 2006, indicaram caminhos acerca da escolaridade destes indivíduos. Para se ter uma ideia, São Paulo consistia no ente federativo com maior número de concorrentes para o cargo. Das 952 campanhas legitimadas pelo TSE, 24 iam apresentar pleiteantes declaradamente com ensino fundamental incompleto; 64 com ensino fundamental completo; 18 possuíam ensino médio incompleto; 179 com ensino médio completo; todos os 665 restantes declararam ensino superior completo ou incompleto.

...Enfim, se o foco é na escolaridade dos sujeitos que estão galgando os postos legislativos, em 2006 aproximadamente 27% dos candidatos à Câmara, através do estado de São Paulo, não detinham alguma trajetória no ensino superior. Esse dado representa que 73% dos candidatos não devem ter sua intelectualidade colocada em prova, pelo menos se acreditarmos na formação oferecida pelas nossas universidades.

...Ocorre no período democrático que passamos a vivenciar desde o final da década de 1980 uma percepção de que somos frágeis politicamente, que a corrupção é endêmica, que o parlamento advoga em causa própria e não incorpora seus pressupostos mais republicanos. Não obstante a validade dessas assertivas, que pouco contribui para uma análise séria, na realidade tem-se um país que está ampliando a entrada de pessoas que outrora não vislumbravam possibilidades de se inserir na vida política. Os mais de um milhão de votos de Tiririca não estão deflagrando a crise da representação política destas bandas, à medida que essa é uma definição que não passa por um simples cidadão isolado. Estão, sim, apontando de forma nítida que a população não vota exclusivamente por rostos bonitos, ternos e gravatas, tampouco por fraseologias baratas e manjadas. No inverso, esse fenômeno deixa crer que o povo pode querer ser representado por sua autoimagem, por pessoas simples, que passaram por dificuldades na vida, que muitas vezes não obtiveram êxito nos percursos educacionais. Isso é bom ou ruim?

...Um julgamento como esse incorrerá no perigo do preconceito, ou na consagração da ignorância. Nem uma, nem outra, diríamos. O fato central não requer esse veredicto, afinal os Maluf’s por aí não são analfabetos funcionais, nem os mensaleiros, nem os Collor’s e Dirceu’s. Os partidos ainda resistem com alguma postura ideológica, isto é, seus quadros não estão soltos no universo, fazendo o que bem entendem. Há uma estrutura de posições políticas por detrás dos panos, interagindo com o protagonismo dos atores, em que pese no caso de Tiririca essa interação pareça ser desfavorável ao indivíduo, provável fantoche da sigla que ostenta.

...Os meios de comunicação atiram nos alvos errados, ou seja, disseminam sentimentos de exclusão calcados na ideia de que a política é coisa para a “inteligência”. Chega a ser incrível acreditar que o medo de Tiririca freqüentar o Congresso possa substituir os debates nevrálgicos que precisariam pautar nossas grandes empresas de comunicação.

...Enquanto polarizamos o assunto Tiririca, o Banco Central abandona a condução de um homem do setor financeiro e admite um funcionário de carreira, muito próximo das concepções econômicas de Guido Mantega. Seríamos utópicos se implorássemos aos mass media por uma cobertura aprofundada e densa sobre a economia; seríamos também se trocássemos o pedido, da economia para a política. Talvez só tenhamos sucesso, atualmente, no intuito de um jornalismo de qualidade, se as pautas importantes ficarem em segundo plano, e então aceitarmos o melhor que eles conseguem fazer: o entretenimento como meio e fim.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cenas de uma guerra ilusória

Rio de Janeiro ensina como tratar problemas
complexos de maneira por demais simplista

Mira na favela e no "varejo" do tráfico: mais uma leitura equivocada

Há mais de uma semana estamos assistindo ao festival de "cinema" dos principais meios de comunicação brasileiros. Desta vez, no entanto, o filme não é de ficção, mesmo que carregue nos elementos espetaculares, movidos a tiros, imagens de policiais posicionados em conflito, "bandidos" correndo em fuga. Enfim, típicas cenas de uma guerra que, apesar de não ficcional, é constituída por argumentos ilusórios.
Não sou especialista em violência, segurança pública ou qualquer coisa do tipo. Não tenho experiência profissional na área, tampouco pretendo ter. Mas nem por isso, enquanto Sociólogo e professor da rede pública estadual, poderia me ausentar em refletir acerca dos últimos acontecimentos cariocas, festejados pela mídia como "momentos históricos de vitórias contra o crime". Já sobre a mídia posso falar com embasamento, conhecendo suas peculiaridades internas e sua linha de trabalho geral.
Em primeiro lugar, uma guerra que pretenda seriedade contra o crime organizado e o tráfico de entorpecentes, além de visar à qualificação da segurança nacional, demandará necessariamente um conjunto de soluções, emaranhado nos diversos aspectos causais dos fatores a serem combatidos, ou seja, uma solução complexa para problemas complexos. Ao contrário, quando se acredita exterminar o tráfico somente atacando os indivíduos que habitam as favelas, seres humanos que optaram pelo crime como forma de sobrevivência, errada ou não, se reduz uma situação de grande complexidade, visto a continuidade no tempo e as relações sociais decorrentes, a sentenças de rara simplicidade. Fortalecido pela imprensa, nos mais variados veículos, o discurso que desempenha o papel de uma espécie de fascismo social se dissemina nos corações e mentes desse imenso Brasil.
Dispare uma bala de AK-47 quem nunca errou. De todo modo, uma leitura séria da questão da segurança pública neste país precisa, no mínimo, mirar seus projetos para alguns componentes centrais, isto é, focar as raízes dos problemas:
a) ok, as UPP’s consistem num projeto importante, de fato, retirando as facções criminosas das comunidades e ampliando o contato (a propósito, atenção para qual contato acontecerá e canja de galinha não fazem mal a ninguém!) das polícias com a população;
b) as fronteiras, gigantescas, precisam ser controladas profundamente, através do Exército, que ao invés de lidar com civis, deveria trabalhar no seu objetivo legítimo, a defesa da soberania nacional;
c) enquanto uma vasta gama de favelas cariocas estiver nas mãos das milícias, ou de grupos desonestos das forças armadas, a legitimidade encontrada por Weber no uso do monopólio da força física do Estado se desmanchará por completo, e por consequência ruirá uma suposta polaridade entre o Estado (repressor) e os "bandidos do tráfico";
d) sempre me pergunto por que, em paralelo a participação do Estado como agente repressor nas periferias, o próprio Estado não assume seu caráter Republicano e passa a concretizar políticas sociais de maior fôlego, nas quais estariam sendo garantidos direitos constitucionais historicamente negados a parcelas específicas da sociedade. Moradia, alimentação, transporte, saneamento, saúde, lazer, emprego... Os caracteres do Estado de bem-estar social, aos moldes keynesianos, sem entrar no fundamental debate econômico, não estão na conta das ações fluminenses, sobretudo o braço repressor do Leviatã se faz presente;
e) a justiça, esfera de poder importantíssima, não pode ser considerada um exemplo de eficiência, boa fé e imparcialidade nas suas atividades cotidianas. Os altos escalões do judiciário mandam e desmandam conforme seus interesses pontuais, deveras entrelaçados ao poder econômico e político, portanto facilitadores dos famosos "delitos do colarinho branco", na maioria dos casos finalizados em pizza;
f) por fim, o sistema prisional é uma questão pra ontem, de urgência crônica, à medida que se converte de uma face "corretiva" para uma "faculdade do crime", na qual quem entra amador sai PHD. Se for para reeducar os sujeitos que atentarem contra as leis e à ordem, buscando a transformação destes, é imperativa uma mudança extensa nos presídios e cadeias.
Ora, se pensarmos como Durkheim, entendendo as sociedades de divisão do trabalho complexa, arraigada, na figura de um organismo saudável em que cada parte cumpre sua função, gerando assim uma solidariedade orgânica, de forte coesão social, então vigorará uma leitura míope das atuais circunstâncias. A divisão do trabalho no mundo ocidental capitalista avançado ocasiona mais itens "anômicos" do que reflexos morais interessantes, principalmente sob a égide das teorias neoliberais ou neoclássicas da economia, que enxergam no Estado os males do funcionamento dos mercados e tentam dizimar a sua atuação em setores estratégicos.
Quero dizer que uma postura séria para com a segurança pública também envolve alternativas econômicas, a luta pela diminuição da ganância feroz dos lucros privados, e a luta por uma sociedade que consuma menos e conheça mais. Um amigo me mostrou uma obra do cientista político Wanderley Guilherme do Santos, intitulada Ordem Burguesa e Liberalismo Político, que não li, a despeito de uma página. Naqueles parágrafos, dizia ser responsabilidade do Estado orientar a divisão do trabalho, deixando às instituições políticas a sua essência, o debate, as discussões, o aperfeiçoamento das desavenças, a modulação ideológica dos grupos sociais.
A rigor, pelas entranhas da mídia exala o fedor do preconceito, do abismo pré-fascista, da consolidação de um senso comum desinformado, simplista, beirando a irracionalidade. As cenas da guerra no Rio espelham um confronto ilusório, em que pese os parcos acertos da iniciativa governamental, originados num certo governo anterior que ousou mexer em alguns vespeiros supracitados e terminou varrido sem piedade, depois de ameaçada a vida do representante da Secretaria de Segurança. No dia a dia, famílias estão sendo vitimadas pelo ranço de policiais despreparados (uma parte das corporações), malgrado se sintam protagonizando o lado "bom" da guerra, com denúncias transmitidas pela televisão, banhadas de confetes e requintes de novela das oito.
Se o jornalismo e a ciência social possuem distintas percepções sobre a realidade, uma bem evidente é o método para investigar os fenômenos sociais. O jornalismo hegemônico abstrai do concreto uma versão minúscula, cercada por assertivas de natureza parcial, frequentemente associadas a uma visão de mundo fragmentária, predominando o individualismo. A ciência social, a priori, procura o inverso, ambiciona estabelecer conexões, no intuito de possibilitar referências complexas concernentes à vida social, pois senão correria um risco imperdoável. Solucionar problemas complicados com perspectivas simplistas: eis a receita da mídia, eis o risco imperdoável para a ciência social.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Karl Marx, 1818/1883

……………………………………………………………………………….Bernardo Caprara
………………………………………………………………………………………………..Sociólogo e Professor

Karl Marx e Friedrich Engels foram responsáveis por uma extensa obra que se relaciona com os mais diversos campos do saber. Não obstante, foi nas análises sobre o capitalismo que ambos se tornaram reconhecidamente importantes, na medida em que seus nomes persistem até hoje em correntes teóricas vinculadas à classe trabalhadora ao redor do planeta.

A Ideologia Alemã
pode ser considerado um dos principais textos da dupla. Nestes escritos estão contidas críticas aos pensadores alemães vinculados ao chamado hegelianismo de esquerda, ao qual Marx utiliza a obra para romper de uma vez por todas. Ao criticar Bruno Bauer e Max Stirner, ele identifica nas suas teorias a primazia do pensamento sobre a atividade humana, isto é, o idealismo presente nos autores inspirados em Hegel. Através do amadurecimento intelectual, Marx também ataca o materialismo mecânico de Ludwig Feuerbach, que não incorpora a dialética ao seu escopo, mesmo que rejeite o idealismo. No livro estão contidas as Teses sobre Feuerbach, que sintetizam as considerações sobre o autor. Marx esboça, ainda, uma perspectiva da sociedade comunista, na qual o trabalho estaria desprovido do caráter de exploração de classe, e os indivíduos poderiam satisfazer suas necessidades materiais em harmonia.

Retirando de Hegel a dialética – o devir, o vir a ser, a dinâmica de transformação inevitável da vida, o choque permanente entre os opostos, a negação da negação – e associando-a a visão de que é a atividade humana real que precede a sua consciência, Marx fundamentou o materialismo histórico e dialético. Tratava-se de colocar a dialética de Hegel de ponta a cabeça, invertendo a lógica de que o pensamento antecede as ações reais, e para transformar a sociedade seria preciso substituir as ideias predominantes por novas. Desta forma, as ações de homens reais na vida real, sob o ponto de vista material, originam a consciência que eles terão delas e deles mesmos.

Este entendimento está alicerçado numa profunda análise das transformações ocorridas na história, em que Marx observa que as modificações nas estruturas econômicas iam alterando o caminho das ideias. No prefácio de Para a Crítica da Econômica Política, ele declara que sob a estrutura econômica das sociedades se ergueriam grandes superestruturas. Na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem à etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e a qual correspondem formas determinadas de consciência.

O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas o seu ser social que determina sua consciência. Esse argumento é muito criticado por diversos pensadores, visto que para os críticos empreende uma sentença por demais economicista. Na introdução dos mesmos escritos, Marx trabalha a questão do método da economia política. Deve-se pensar o concreto como unidade do diverso, ponto de partida efetivo, mas resultado do processo de síntese, abstraído. A ilusão de Hegel, elevar-se do abstrato ao concreto, significa a maneira do pensamento de se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado.

Marx prossegue seus estudos e lança, em 1848, um documento que mudaria o rumo dos trabalhadores assalariados, classe oriunda das necessidades de produção da indústria capitalista. O Manifesto do Partido Comunista, material de divulgação política, convocava os trabalhadores do mundo a se unir, em busca do fim da exploração do trabalho humano. A obra sugere o trilho para o proletariado retirar o poder político das mãos da burguesia, centralizando nas mãos do Estado controlado pelos trabalhadores, numa ditadura do proletariado, a fim de construir uma sociedade sem classes.

O capitalismo, proveniente da acumulação primitiva de capital, da apropriação (cercamentos) de terras coletivas, se desenvolve consolidando a burguesia enquanto classe social dominante e dissolvendo a ordem feudal para dentro dos livros de história. As transformações das forças produtivas (meios de produção e força de trabalho) vão condicionando a sociedade capitalista, e trazendo a tona uma nova classe social, a antítese da burguesia, que acabara por engendrar seus próprios algozes. Ao proletariado, trabalhadores assalariados que utilizam sua força de trabalho como mercadoria para manter sua sobrevivência, cabe a tarefa de enfrentar a exploração da burguesia e orientar a construção de uma sociedade sem classes. A luta entre classes sociais, nessa concepção, carrega o sentido de motor da história humana. Por intermédio de uma análise histórica organizada, Marx encontra a opressão entre diferentes classes sociais no decorrer do processo histórico. Ainda no Manifesto Comunista, estão contidas críticas as correntes socialistas utópicas, e resumidas algumas concepções do chamado socialismo científico.

A propriedade privada dos meios de produção (instrumentos, terra, fábricas, capital), elemento central da dominação burguesa, caracteriza o modo de produção capitalista. Nessa sociedade, os despossuídos do capital possuem somente sua força de trabalho para vender como mercadoria de sobrevivência, sendo a relação estabelecida entre o capitalista e o operário operando sob a égide do prejuízo, em última instância, aos trabalhadores. O capitalista usa o lucro para reinvestir, como capital, para fazer mais lucro, à custa do trabalho explorado dos operários. Nesse processo, a mais-valia, excedente de trabalho do operário apropriado pelo patrão, representa o caráter da acumulação de lucro da classe dominante. Ela pode ser absoluta, com ampliação da jornada de trabalho mantendo salários, ou relativa, com o enfoque na mecanização, aumentando a produtividade física do trabalho. Marx ressalta, a saber, a distinção entre capital constante e capital variável. O primeiro consiste nos investimentos do capitalista em fábricas, instrumentos de produção; o segundo, na força de trabalho, fonte única de mais-valia.

De fato, as contribuições de Marx e Engels para as ciências humanas ultrapassam os limites de qualquer tentativa de enquadramento nessa ou naquela disciplina. Constituíram, em si e na sua repercussão nos últimos séculos, uma nova fase no pensamento social e na vida de milhões de pessoas.
 
REFERÊNCIAS
 
MARX, Karl. O Manifesto do Partido Comunista. Porto Alegre: L&PM, 2001.
 
___________. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
 
___________. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

 

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Max Weber, 1864/1920

 
……………………………………………………………………………………………………………Bernardo Caprara
………………………………………………………………………………………………………..Sociólogo e Professor
 
O sociólogo alemão Max Weber foi um dos principais responsáveis por defender o rigor científico para as análises das sociedades. Situado num período em que os métodos naturalistas, vinculados às ciências exatas, influenciavam bastante o espaço das ciências sociais, Weber dedicou-se a afastar as noções de que a vida social pode ser avaliada sob o prisma de relações concretas, desprovidas de subjetividade.
           
Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, cuja edição estudada congrega tanto a versão inicial (1904/1905), quanto os comentários adicionados numa revisão do próprio autor (1920), estão contidos subsídios importantes para o entendimento da constituição do capitalismo moderno, sem observar na sua teoria a única causa do desenvolvimento capitalista.
 
Weber declara que uma rápida olhada nas estatísticas ocupacionais de países pluriconfessionais basta para constatar o caráter predominantemente protestante dos proprietários do capital e dos empresários, assim como das camadas superiores da mão-de-obra qualificada. Ele procura demonstrar a combinação fértil de um virtuoso senso de negócios capitalista com as formas mais intensas de devoção que permeia e regula a vida toda de grupos humanos ligados às igrejas e seitas protestantes de maior importância – especialmente o calvinismo.
 
No decorrer dos argumentos, Weber cita Benjamin Franklin, para explicitar uma espécie de “filosofia da avareza”, na qual esta exposta a ideia do dever que tem o indivíduo de se interessar pelo aumento das suas posses como um fim em si mesmo. Não se trata só de pregar uma técnica de vida, mas uma ética peculiar cuja violação é tratada como uma falta com o dever. Ali não se ensina apenas a perspicácia nos negócios, mas é um ethos que se expressa. Com efeito, é assim que Weber se refere ao “espírito do capitalismo” moderno, como o caráter de uma máxima de conduta de vida eticamente coroada.
 
A ideia característica da ética social da cultura capitalista, que em certo sentido faz parte da sua constituição, é a da profissão como dever, uma obrigação que o indivíduo deve sentir com respeito ao conteúdo da sua atividade profissional.
 
Por outro lado, o autor descarta o que chama de materialismo histórico ingênuo, que aponta a superestrutura como um reflexo das estruturas econômicas. Diz que, por exemplo, no estado americano de Massachussetts, terra natal de B. Franklin, o “espírito do capitalismo” existiu incontestavelmente antes do próprio desenvolvimento do capitalismo.
 
Para se impor, o “espírito capitalista” teve de travar duros combates contra um mundo de forças hostis. Essa luta teve como adversário uma espécie de sensibilidade e comportamento que Weber definiu como tradicionalismo. O desenvolvimento dessas tradições e o fortalecimento enérgico do livre lucro no seio dos mesmos agrupamentos sociais não foram acompanhados de uma afirmação ética das novidades, porém tolerados como infelizmente inevitáveis.
 
Na visão weberiana, para saber quais as forças motrizes da expansão do capitalismo moderno, colocar em primeiro lugar as sentenças econômicas é um erro, sendo que o caminho mais interessante é pensar em primeiro plano a questão do desenvolvimento do espírito capitalista.
 
O tipo ideal do empresário capitalista, representado entre os alemães eminentes, não guardava semelhanças com os ricos de aparência óbvia ou refinada. Ele se esquiva à ostentação e a despesa inútil, bem como ao gozo consciente do seu poder. Sua conduta de vida comporta quase sempre certo lance ascético. Para o homem pré-capitalista, é precisamente o fato de o ser humano existir para o seu negócio, e não o inverso, que é inconcebível, enigmático, sórdido e desprezível.
 
Analisando o conceito de vocação em Martinho Lutero, Weber percebe que o mesmo permaneceu com amarras tradicionalistas. Foi a partir das criações de Calvino e do calvinismo, motivadas por elementos puramente religiosos, que Weber centraliza a análise do “espírito do capitalismo”.
 
O feito propriamente dito da Reforma Protestante consistiu simplesmente em ter já no primeiro momento inflado fortemente a ênfase moral e o prêmio religioso para o trabalho intramundano no quadro das profissões. É importante salientar, enfim, que o desenvolvimento do “espírito capitalista” foi conseqüência de motivos puramente religiosos, sendo a salvação da alma, e somente ela, o eixo da vida e da ação dos reformadores. 
 
Em Economia e Sociedade, Max Weber dedica a primeira parte a explicitar o que chama de conceitos sociológicos fundamentais. Por conveniência metodológica, o método da Sociologia Compreensiva é “racionalista”, mesmo que o autor não esteja imputando a crença numa predominância efetiva do racional sobre a vida. Compreensão, em Weber, significa apreensão interpretativa do sentido ou da conexão de sentido. Denomina-se “motivo” uma conexão de sentido que, para o próprio agente ou para o observador, constitui a razão de um comportamento quanto ao seu sentido.
 
Para a Sociologia o objeto a ser investigado é a conexão de sentido das ações. A Sociologia constrói conceitos de tipos e procura regras gerais dos acontecimentos. Com efeito, o conceito de ação social é fundamental na obra de Weber. A ação social orienta-se pelo comportamento de outros, seja este passado, presente ou esperado como futuro. Os “outros” podem ser indivíduos e conhecidos, ou uma multiplicidade indeterminada de pessoas completamente desconhecidas. Um choque entre dois ciclistas, por exemplo, é um simples acontecimento; contudo, se ambos tentarem desviar, se ofender ou partir para a briga ou para uma discussão pacífica após o choque, tratar-se-á de uma ação social. É a ação social que constitui o fato central para a Sociologia como ciência, e ela é, por assim dizer, o seu elemento constitutivo.
 
A ação social pode ser classificada em quatro tipos: 1) racional referente a fins, que utiliza a racionalidade para estabelecer fins e organizar os meios necessários; 2) racional referente a valores, pela crença consciente num valor considerado importante, independente do êxito desse valor na realidade; 3) afetiva, que é determinada por afetos ou emoções; 4) tradicional, que é determinada por um costume ou um hábito arraigado. É importante ressaltar que o autor deixa claro que só muito raramente a ação social orienta-se exclusivamente por uma ou outra destas maneiras. Trata-se de tipos conceitualmente puros, criados para fins sociológicos.
 
Por relação social entende-se o comportamento reciprocamente definido quanto ao seu conteúdo de sentido, por uma pluralidade de agentes que se orienta por essa referência. Convém concluir com o que Weber define como poder. O poder significa toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade. Dominação, por sua vez, é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo, entre determinas pessoas. Por fim, disciplina é a probabilidade de encontrar obediência pronta, sistemática, automática a uma ordem, entre uma pluralidade de pessoas, em virtude de atividades treinadas.
 
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O conceito de tipo ideal corresponde a um processo de conceituação que abstrai de fenômenos concretos o que existe de particular. É um instrumento de análise sociológica para a apreensão da sociedade por parte do Cientista Social, com o objetivo de criar tipologias puras, que não existem por completo na realidade. Ele é destituído de qualquer tom avaliativo, de maneira a oferecer um recurso analítico baseado em conceitos. Apesar de não corresponder à realidade completa, pode ajudar na sua compreensão, estabelecido de forma racional, mas sustentado nas escolhas pessoais daquele que analisa.

REFERÊNCIAS

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Cia. das Letras, 2005.

___________. Economia e Sociedade. Brasília: UNB, 2000.
 
 
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Émile Durkheim, 1858/1917

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O sociólogo francês Émile Durkheim é considerado um dos principais responsáveis pela consolidação da Sociologia como disciplina científica. Ele dedicou boa parte dos seus estudos para demonstrar a importância do método, além de caracterizar os instrumentos basilares para a pesquisa dos fenômenos sociais. Os próximos parágrafos constituem um esforço sintetizador, orientados pela releitura de alguns dos seus textos fundamentais.

No trabalho intitulado As Regras do Método Sociológico, Durkheim procurou estipular os caracteres básicos que fazem a Sociologia operar no escopo da ciência, afastando-se da filosofia e se estabelecendo como uma área específica. Na sua versão, a Sociologia é independente daquilo que chamou de “doutrinas da prática”, isto é, ela não deve ser nem determinista, nem individualista, tampouco comunista ou socialista. Seu papel não está atrelado aos partidos políticos; é voltado para a objetividade do método.
 
Sendo o método sociológico objetivo, ele é dominado pela ideia de tratar os fatos sociais como coisas. Mesmo que sob um prisma um pouco diferente, este princípio esteve presente em Comte e Spencer. Assim, o sociólogo deve afastar as noções antecipadas que formula acerca dos fatos, no intuito de encarar os próprios fatos, para atingi-los através do exame dos elementos mais objetivos.
 
Afinal, o que são os fatos sociais? Eles representam maneiras de agir, pensar e sentir que apresentam a marcante propriedade de existir fora das consciências individuais. São tipos de conduta ou pensamento que não são apenas exteriores ao indivíduo, mas também se impõem a ele, quer queira, quer não. Ele existe nas partes porque existe no todo, consistindo na sua generalidade. O sentimento coletivo não exprime apenas o que há de comum entre as consciências individuais, porém é resultante da vida em comum, é produto das ações e reações travadas entre as consciências individuais. A energia da sua origem coletiva é que repercute em cada consciência individual.
 
É possível, portanto, resumir o domínio em que a Sociologia atua na perspectiva de Durkheim. O fato social é reconhecível pelo poder de coerção externa que exerce ou pode exercer sobre os indivíduos; a presença desse poder é reconhecível pela existência de alguma sanção determinada ou resistência que o fato opõe a qualquer iniciativa individual que tenta violentá-la. Por fim, apresenta uma difusão no interior do grupo, independente das formas individuais que assume ao se difundir.
           
As reflexões de Émile Durkheim também discutem o método para determinar a função da divisão do trabalho. Ele sentencia que os serviços econômicos que a divisão do trabalho produz são de pequeno valor, ao lado do efeito moral que ela causa. Sua verdadeira função é criar um sentimento de solidariedade entre as pessoas. Através da divisão do trabalho é que se tornam possíveis as sociedades, estabelecendo uma ordem moral e social sui generis. Analisada sob essa ótica, a divisão do trabalho garante a coesão social.
 
Para verificar o papel da divisão do trabalho, geradora de solidariedade social, e assim conseguir analisá-la, é preciso estudar o seu símbolo mais visível, que é o direito. A vida social tende, sempre que existe de maneira durável, inevitavelmente a assumir uma forma definida e a se organizar. O direito é o que a própria organização tem de mais estável e conciso. No que concerne ao argumento de que nem toda vida social é regulada por formas jurídicas, Durkheim defende que, se em dado momento não se evidencia o direito, a regulamentação fica a cargo dos costumes. Todo preceito jurídico pode ser definido assim: uma regra de conduta sancionada.
 
A questão da solidariedade social perpassa profundamente a obra do sociólogo francês. A solidariedade mecânica expressa uma ligação direta entre o indivíduo e a sociedade, nascida das semelhanças, tornando harmônicos inclusive os pormenores dessa conexão. Essa solidariedade social decorre de certo número de estados de consciência comuns a todos os membros da mesma sociedade, representada materialmente pelo direito repressivo.
 
Por outro lado, a solidariedade orgânica, produzida pela divisão do trabalho, só é possível se a personalidade individual não for completamente absorvida pela personalidade coletiva, se houver uma esfera própria de ação para a consciência individual. Isso origina uma coesão social mais forte; cada um depende da sociedade na qual o trabalho é dividido, e a atividade de cada um é tanto mais pessoal quanto mais especializada ela seja.
 
Nesse contexto, Durkheim percebe a preponderância progressiva da solidariedade orgânica. As sociedades primitivas, por ele alcunhadas de hordas, funcionavam pela lógica da coesão através das semelhanças – solidariedade mecânica – e iniciaram progressivamente o caminho da divisão do trabalho social. A passagem de um estado para outro se faz por intermédio de uma lenta evolução. A solidariedade orgânica jamais se encontra sozinha, do mesmo modo que ela se torna cada vez mais preponderante.
 
Convém concluir descrevendo a divisão do trabalho anômica. Ela consiste na situação em que não está organizada a divisão do trabalho, e por isso não ocasiona solidariedade social. A priori poderíamos dizer que o estado de anomia é impossível sempre que os órgãos solidários estejam em contato bastante e suficientemente prolongado. Se os trabalhadores são reduzidos ao papel de máquina, é porque a divisão do trabalho se encontra em circunstâncias anormais e excepcionais. Normalmente, o desempenho de cada função especial supõe que o trabalhador/indivíduo não se feche estreitamente, mas que mantenha relações constantes com as funções vizinhas, sentindo que serve para alguma coisa.
 
REFERÊNCIAS
 
DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.
_______________. Durkheim (Coleção Grandes Cientistas Sociais). Organização José Alberto Rodrigues. São Paulo: Ática, 2003.
 
 
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sábado, 30 de outubro de 2010

Midnite transcendental em Porto Alegre

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Midnite, reggae roots direto das Ilhas Virgens

A banda de reggae originária da localidade de St. Croix, nas Ilhas Virgens Americanas, esteve em Porto Alegre tocando mais de 3 horas de uma pedrada completa! O show pode ser descrito como transcedental, a música se inseria nos espíritos, algo inexplicável.

Com mais de 30 álbuns lançados, falando de temas vinculados a opressão, a fé religiosa Rastafari, entre outros, Midnite tornou a vida de quem esteve presente na quinta-feira passada um pouco melhor. Sonzera!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

No dia da Independência do Brasil, um 4x2 na Argentina, em pleno Gigante (7/9/1999)

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Essa recordação vale a pena! No dia da independência do Brasil, um amistoso no Gigante contra a Argentina. Era uma espécie de torneio, na partida de ida em Buenos Aires, no Monumental de Nuñez, perdemos por 2x0. Em Porto, memorável jogo que fui com o coroa, 7 de setembro de 1999, mais de 70 mil pessoas num Beira Rio explodindo. Irado!

Vale lembrar também que, apesar de considerar o processo de Independência do Brasil uma baita palhaçada, um acordo entre as elites com uma pitada de mau-humor da Metrópole, isso não significa que vencer os portenhos nesse dia não nos traga boa felicidade...

Obs.: Estou procurando a segunda parte desse vídeo.

 

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Manderlay, grande filme de Lars Von Trier

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Neste fim de semana, tive a oportunidade de assistir a uma grande obra cinematográfica. O filme Manderlay, segundo episódio da trilogia "Estados Unidos: Terra de Oportunidades", elaborada por Lars Von Trier, retrata a situação do sul dos Estados Unidos nos idos de 1930. A sequência de Dogville, outra sensacional película, é trabalhada num cenário semelhante a uma peça de teatro, com a atenção voltada totalmente para a interpretação dos atores.

No início do filme, a personagem principal, reminiscente de Dogville, chega a uma fazenda no Alabama, junto com seu pai, gângster, e seus capangas. Logo, uma moça da fazenda relata o fato de a proprietária estar ainda escravizando os negros trabalhadores de lá, sendo que a escravidão já havia sido abolida. Tomada pelo sentimento de compaixão e, mais do que isso, pela vontade de ajudar àquela população, a protagonista - de pele branca - assume o papel de organizar a localidade de maneira "democrática" e como uma "empresa livre", após a morte da senhora dona de Manderlay.

O enredo demonstra que não basta a vontade humana para consertar erros do passado, tampouco a liderança de um indivíduo poderá modificar todas as estruturas sociais, psicológicas e comportamentais, seja daonde for. É um grande filme, com um fim intrigante e uma reviravolta espetacular no seu decorrer. No entanto, vale avisar: quem gostar dos enlatados ianques, esqueça, não vai se agradar com Manderlay.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O que é o neoliberalismo? (Por Frei Betto)


Nota do editor: A linha teórica do campo da economia política que recebe o nome de neoliberalismo ou liberalismo neoclássico se define por um resgate das teses que defendem o mínimo de intervenção dos Estados na atuação dos agentes econômicos. O texto abaixo, de autoria do teólogo Frei Betto, expressa uma visão que problematiza e critica a linha teórica descrita acima. O texto é, sob aguns ângulos, elucidativo. Porém, de modo geral, é um texto introdutório acerca da temática. Para aprofundar mais os estudos, sugiro o texto do Historiador Britânico e Professor da Universidade da Califórnia (EUA), Perry Anderson – intitulado “Balanço do neoliberalismo”. Para uma visão que entende como válidas as assertivas da referida linhagem teórica, sugiro o texto do Economista e Professor Visitante da Universidade de Nova Iorque de 1945 a 1969, Ludwig Von Mises, denominado “Uma crítica ao intervencionismo”. Por fim, se o leitor quiser enveredar por debates ainda mais densos, a leitura que junta economia livre com justiça social numa espécie liberalismo de esquerda é uma interessante perspectiva – de certa forma congregada no manifesto do site Mercado Popular.

O neoliberalismo é o novo caráter do velho capitalismo. Este adquiriu força hegemônica no mundo a partir da Revolução Industrial do século 19. O aprimoramento de máquinas capazes de reproduzir em grande escala o mesmo produto e a descoberta da eletricidade possibilitaram à indústria produzir, não em função de necessidades humanas, mas sobretudo visando ao aumento do lucro das empresas.

O excedente da produção e a mercadoria supérflua obtiveram na publicidade a alavanca de que necessitavam para induzir o homem a consumir, a comprar mais do que precisa e a necessitar do que, a rigor, é supérfluo e até mesmo prejudicial à saúde, como alimentos ricos em açúcares e gordura saturada.

O capitalismo é uma religião laica fundada em dogmas que, historicamente, merecem pouca credibilidade. Um deles reza que a economia é regida pela "mão invisible" do mercado. Ora, em muitos períodos o sistema entrou em colapso, obrigando o governo a intervir na economia para regular o mercado.

O fortalecimento do movimento sindical e do socialismo real, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial (1940-1945), ameaçou o capitalismo liberal, que tratou de disciplinar o mercado através dos chamados Estados de Bem-Estar Social (previdência, leis trabalhistas, subsídios à saúde e educação etc.).

Esse caráter "social" do capitalismo durou até fins da década de 1970 e início da década seguinte, quando os EUA se deram conta de que era insustentável a conversibilidade do dólar em ouro. Durante a guerra do Vietnã, os EUA emitiram dólares em excesso e isso fez aumentar o preço do petróleo. Tornou-se imperioso para o sistema recuperar a rentabilidade do capital. Em função deste objetivo várias medidas foram adotadas: golpes de Estado para estancar o avanço de conquistas sociais (caso do Brasil em 1964, quando foi derrubado o governo João Goulart), eleições de governantes conservadores (Reagan), cooptação dos social-democratas (Europa ocidental), fim dos Estado de Bem-Estar Social, utilização da dívida externa como forma de controle dos países periféricos pelos chamados organismos multilaterais (FMI, OMC etc.) e o processo de erosão do socialismo real no Leste europeu.

O socialismo ruiu naquela região por edificar um governo para o povo e não do povo e com o povo. À democracia econômica (socialização dos bens e serviços, e distribuição de renda) não se adicionou a democracia política; não nos moldes do Ocidente capitalista, mas fundada na participação ativa dos trabalhadores nos rumos da nação.

Nasceu, assim, o neoliberalismo, tendo como parteiro o Consenso de Washington ¬ a globalização do mercado "livre" e, segundo conveniências, do modelo norte-americano de democracia (jamais exigido aos países árabes fornecedores de petróleo e governados por oligarquias favoráveis aos interesses da Casa Branca).

O capitalismo transforma tudo em mercadoria, bens e serviços, incluindo a força de trabalho. O neoliberalismo o reforça, mercantilizando serviços essenciais, como os sistemas de saúde e educação, fornecimento de água e energia, sem poupar os bens simbólicos ¬ a cultura é reduzida a mero entretenimento; a arte passa a valer, não pelo valor estético da obra, mas pela fama do artista; a religião pulverizada em modismos; as singularidades étnicas encaradas como folclore; o controle da dieta alimentar; a manipulação de desejos inconfessáveis; as relações afetivas condicionadas pela glamourização das formas; a busca do elixir da eterna juventude e da imortalidade através de sofisticados recursos tecnocientíficos que prometem saúde perene e beleza exuberante.

Tudo isso restrito a um único espaço: o mercado, equivocadamente adjetivado de "livre". Nem o Estado escapa, reduzido a mero instrumento dos interesses dos setores dominantes, como tão bem analisou Marx. Sim, certas concessões são feitas às classes média e popular, desde que não afetem as estruturas do sistema e nem reduzam a acumulação da riqueza em mãos de uma minoria. No caso brasileiro, hoje os 10% mais ricos da população ¬ cerca de 18 milhões de pessoas ¬ têm em mãos 44% da riqueza nacional. Na outra ponta, os 10% mais pobres sobrevivem dividindo entre si 1% da renda nacional.

Milhares de pessoas consideram o neoliberalismo estágio avançado de civilização, assim como os contemporâneos de Aristóteles encaravam a escravidão um direito natural e os teólogos medievais consideravam a mulher um ser ontologicamente inferior ao homem. Se houve mudanças, não foi jamais por benevolência do poder.


Autor: Frei Betto.
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