SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Max Weber, 1864/1920

 
……………………………………………………………………………………………………………Bernardo Caprara
………………………………………………………………………………………………………..Sociólogo e Professor
 
O sociólogo alemão Max Weber foi um dos principais responsáveis por defender o rigor científico para as análises das sociedades. Situado num período em que os métodos naturalistas, vinculados às ciências exatas, influenciavam bastante o espaço das ciências sociais, Weber dedicou-se a afastar as noções de que a vida social pode ser avaliada sob o prisma de relações concretas, desprovidas de subjetividade.
           
Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, cuja edição estudada congrega tanto a versão inicial (1904/1905), quanto os comentários adicionados numa revisão do próprio autor (1920), estão contidos subsídios importantes para o entendimento da constituição do capitalismo moderno, sem observar na sua teoria a única causa do desenvolvimento capitalista.
 
Weber declara que uma rápida olhada nas estatísticas ocupacionais de países pluriconfessionais basta para constatar o caráter predominantemente protestante dos proprietários do capital e dos empresários, assim como das camadas superiores da mão-de-obra qualificada. Ele procura demonstrar a combinação fértil de um virtuoso senso de negócios capitalista com as formas mais intensas de devoção que permeia e regula a vida toda de grupos humanos ligados às igrejas e seitas protestantes de maior importância – especialmente o calvinismo.
 
No decorrer dos argumentos, Weber cita Benjamin Franklin, para explicitar uma espécie de “filosofia da avareza”, na qual esta exposta a ideia do dever que tem o indivíduo de se interessar pelo aumento das suas posses como um fim em si mesmo. Não se trata só de pregar uma técnica de vida, mas uma ética peculiar cuja violação é tratada como uma falta com o dever. Ali não se ensina apenas a perspicácia nos negócios, mas é um ethos que se expressa. Com efeito, é assim que Weber se refere ao “espírito do capitalismo” moderno, como o caráter de uma máxima de conduta de vida eticamente coroada.
 
A ideia característica da ética social da cultura capitalista, que em certo sentido faz parte da sua constituição, é a da profissão como dever, uma obrigação que o indivíduo deve sentir com respeito ao conteúdo da sua atividade profissional.
 
Por outro lado, o autor descarta o que chama de materialismo histórico ingênuo, que aponta a superestrutura como um reflexo das estruturas econômicas. Diz que, por exemplo, no estado americano de Massachussetts, terra natal de B. Franklin, o “espírito do capitalismo” existiu incontestavelmente antes do próprio desenvolvimento do capitalismo.
 
Para se impor, o “espírito capitalista” teve de travar duros combates contra um mundo de forças hostis. Essa luta teve como adversário uma espécie de sensibilidade e comportamento que Weber definiu como tradicionalismo. O desenvolvimento dessas tradições e o fortalecimento enérgico do livre lucro no seio dos mesmos agrupamentos sociais não foram acompanhados de uma afirmação ética das novidades, porém tolerados como infelizmente inevitáveis.
 
Na visão weberiana, para saber quais as forças motrizes da expansão do capitalismo moderno, colocar em primeiro lugar as sentenças econômicas é um erro, sendo que o caminho mais interessante é pensar em primeiro plano a questão do desenvolvimento do espírito capitalista.
 
O tipo ideal do empresário capitalista, representado entre os alemães eminentes, não guardava semelhanças com os ricos de aparência óbvia ou refinada. Ele se esquiva à ostentação e a despesa inútil, bem como ao gozo consciente do seu poder. Sua conduta de vida comporta quase sempre certo lance ascético. Para o homem pré-capitalista, é precisamente o fato de o ser humano existir para o seu negócio, e não o inverso, que é inconcebível, enigmático, sórdido e desprezível.
 
Analisando o conceito de vocação em Martinho Lutero, Weber percebe que o mesmo permaneceu com amarras tradicionalistas. Foi a partir das criações de Calvino e do calvinismo, motivadas por elementos puramente religiosos, que Weber centraliza a análise do “espírito do capitalismo”.
 
O feito propriamente dito da Reforma Protestante consistiu simplesmente em ter já no primeiro momento inflado fortemente a ênfase moral e o prêmio religioso para o trabalho intramundano no quadro das profissões. É importante salientar, enfim, que o desenvolvimento do “espírito capitalista” foi conseqüência de motivos puramente religiosos, sendo a salvação da alma, e somente ela, o eixo da vida e da ação dos reformadores. 
 
Em Economia e Sociedade, Max Weber dedica a primeira parte a explicitar o que chama de conceitos sociológicos fundamentais. Por conveniência metodológica, o método da Sociologia Compreensiva é “racionalista”, mesmo que o autor não esteja imputando a crença numa predominância efetiva do racional sobre a vida. Compreensão, em Weber, significa apreensão interpretativa do sentido ou da conexão de sentido. Denomina-se “motivo” uma conexão de sentido que, para o próprio agente ou para o observador, constitui a razão de um comportamento quanto ao seu sentido.
 
Para a Sociologia o objeto a ser investigado é a conexão de sentido das ações. A Sociologia constrói conceitos de tipos e procura regras gerais dos acontecimentos. Com efeito, o conceito de ação social é fundamental na obra de Weber. A ação social orienta-se pelo comportamento de outros, seja este passado, presente ou esperado como futuro. Os “outros” podem ser indivíduos e conhecidos, ou uma multiplicidade indeterminada de pessoas completamente desconhecidas. Um choque entre dois ciclistas, por exemplo, é um simples acontecimento; contudo, se ambos tentarem desviar, se ofender ou partir para a briga ou para uma discussão pacífica após o choque, tratar-se-á de uma ação social. É a ação social que constitui o fato central para a Sociologia como ciência, e ela é, por assim dizer, o seu elemento constitutivo.
 
A ação social pode ser classificada em quatro tipos: 1) racional referente a fins, que utiliza a racionalidade para estabelecer fins e organizar os meios necessários; 2) racional referente a valores, pela crença consciente num valor considerado importante, independente do êxito desse valor na realidade; 3) afetiva, que é determinada por afetos ou emoções; 4) tradicional, que é determinada por um costume ou um hábito arraigado. É importante ressaltar que o autor deixa claro que só muito raramente a ação social orienta-se exclusivamente por uma ou outra destas maneiras. Trata-se de tipos conceitualmente puros, criados para fins sociológicos.
 
Por relação social entende-se o comportamento reciprocamente definido quanto ao seu conteúdo de sentido, por uma pluralidade de agentes que se orienta por essa referência. Convém concluir com o que Weber define como poder. O poder significa toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade. Dominação, por sua vez, é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo, entre determinas pessoas. Por fim, disciplina é a probabilidade de encontrar obediência pronta, sistemática, automática a uma ordem, entre uma pluralidade de pessoas, em virtude de atividades treinadas.
 
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O conceito de tipo ideal corresponde a um processo de conceituação que abstrai de fenômenos concretos o que existe de particular. É um instrumento de análise sociológica para a apreensão da sociedade por parte do Cientista Social, com o objetivo de criar tipologias puras, que não existem por completo na realidade. Ele é destituído de qualquer tom avaliativo, de maneira a oferecer um recurso analítico baseado em conceitos. Apesar de não corresponder à realidade completa, pode ajudar na sua compreensão, estabelecido de forma racional, mas sustentado nas escolhas pessoais daquele que analisa.

REFERÊNCIAS

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Cia. das Letras, 2005.

___________. Economia e Sociedade. Brasília: UNB, 2000.
 
 
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