SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Só mais um Silva? (Parte 1)

Imagem retirada do sítio http://3.bp.blogspot.com/_PPYmKQoHdCk/STnpus79r8I/AAAAAAAAAO4/k3UDlhVnpZY/s400/multid%C3%A3o.bmp No meio do caos e da multidão, ele era só mais um Silva?

Ele era um rapaz bastante normal para a sua idade. Gostava muito de futebol, das aventuras com as meninas, da vida agitada com os amigos e, inclusive, da batalha para vencer os desafios escolares. Não seria um episódio como aquele que o faria desistir de levantar de todos os dias, buscar um sorriso no rosto ao visualizar o sol brilhante. Não um episódio nefasto como aquele. Era chegada a hora de mudar o rumo de sua vida com uma decisão, uma ação que não poderia esperar.

Silva vivera até aquele momento numa cidade pequena, às margens do estuário Guaíba, região metropolitana de Porto Alegre. Na verdade, às margens de um rio que banha a capital do Rio Grande do Sul, pois assim o local foi e permanece definido no imaginário característico do gaúcho. Do outro lado do vasto aglomerado de águas, cujo deleite do sol deitando-se diariamente proporciona um espetáculo tão belo como as mais belas expressões da natureza. Lá nascera e crescera Silva, o protagonista da situação encardida daquele momento crucial. Tinha a sensação de se confrontar consigo mesmo, com as suas mais íntimas intenções.

Com 18 anos, ele conhecia bem a capital, mantinha boas relações com uma rapaziada de diversas quebradas daquela selva de pedras. Viu e viveu uma realidade que retrata uma considerável parcela dos jovens brasileiros, imersos nas dificuldades financeiras, numa vida em que os prazeres mundanos se confundem com a violência própria das sociedades contemporâneas. Sempre traçava comparações entre a vida na metrópole e a sua vida, nas longas viagens de ônibus, pelas quais chegava e saía da capital, lembrando-se das noites às margens do Guaíba, do vento cortante que se entrelaça ao frio peculiar da região sul. Desta vez, precisava pensar bem antes de tomar qualquer atitude.

Silva dormiu e acordou sobressaltado. A cena daquela criança, verdadeiro homem, não lhe abandonava os pensamentos. Como poderia um indivíduo como aquele, um homem que não tinha uma dezena de idade, agir de uma maneira em que se poderia afirmar a presença da deterioração incontestável do ser humano? Seria aquela uma prática espontânea, derivada dos impulsos “naturais”, trazidos por aquele menino na sua base genética e/ou biológica? Seria ele fruto de uma sociedade que vangloria a competição, os discursos de uma moral caduca, descontextualizada?

Era preciso descer do ônibus e conversar com alguém, dividir a tensão da necessidade que sentia em não deixar passar aquela oportunidade de ajudar uma pessoa. Ele sabia que o menino não iria gostar da sua ideia, tampouco da materialização dela, mergulhado que estava nas ondulações da realidade diária, desconcertado pelos caminhos da rua. Jogado nas agruras da eterna briga pela sobrevivência, pela comida do dia, pelo abrigo da chuva e do frio, aquele moleque de cabeça raspada e feições de homem feito possuía personalidade, uma identidade marcada. Não seria nada fácil convencê-lo.

Silva abriu a porta de casa, beijou sua mulher e sentou-se ofegante no sofá da sala. Maria Joana sentiu na chegada daquele homem com quem dividia sua vida uma energia estranha, diferente da rotina a qual ambos estavam acostumados. Silva estava nervoso, seu semblante transparecia isso. Mari, como a chamava Silva no carinho do cotidiano, aproximou-se e com um olhar de quem sabia o que estava falando, perguntou de maneira simples:

– Conta, meu grande amigo. O que te aflige?

– Eu não sei o que fazer Mari, hoje estive a ponto de perder a compostura com uma visão que tive lá na capital. – Disse Silva.

Maria Joana foi até a cozinha e colocou uma chaleira com água para esquentar. Voltou para a sala, observando Silva jogado no sofá, de olhos fechados notadamente obscurecidos por alguma brutalidade da realidade social do século XXI. Apertou alguns botões, retirou de uma estante hermeticamente organizada um velho disco de uma música caribenha que é capaz de mexer com qualquer sujeito transtornado pela carga de sentimentos do mundo urbano mal resolvido. Pôs o objeto musical para tocar e voltou à cozinha, a fim de finalizar a preparação do mate. Sentou-se no sofá, abraçou Silva e ficaram ali, durante dois quartos de hora apreciando o mate e a serenidade da música que abduzia seus espíritos numa maré de tranquilidade.

A noite se impôs sem piedade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mia Couto: Murar o medo

Mia Couto
Escritor

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
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sábado, 2 de julho de 2011

Gabriel García Márquez e os Buendía

Cem Anos de Solidão (Cien Años de Soledad no título  original) é uma obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982, e é actualmente considerada uma das obras mais importantes da literatura Latino-Americana. Esta obra tem a peculiaridade de ser umas das mais lidas e traduzidas de todo o mundo. Durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em Março Imagem retirada do sítio http://2.bp.blogspot.com/_aNPPrp0ge-4/TVBBrdpSAOI/AAAAAAAAAkI/dLnzCKUBlvA/s1600/cem-anos.jpgde 2007, Cem anos de solidão foi considerada a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de Dom Quixote de la Mancha. Utilizando o estilo conhecido como realismo fantástico, Cem Anos de Solidão cativou milhões de leitores e ainda atrai milhares de fãs à literatura constante de Gabriel García Márquez.

A primeira edição da obra foi publicada em Buenos Aires, Argentina, em Maio de 1967, pela editora Editorial Sudamericana, com uma tiragem inicial de 8.000 exemplares. Nos dias de hoje já foram vendidos cerca de 30 milhões de exemplares ao longo dos 35 idiomas em que foram traduzidos.

Muitos falam da necessidade de se ler Cem anos de solidão com um bloco de apontamentos ao lado, com o intuito de se traçar a árvore genealógica dos 500 mil Aurelianos, José Arcadios e variações destes mesmos nomes para compreender a teia de personagens que vai sendo criada à medida que os anos avançam. No entanto, a real essência está em ver a história além das suas personagens e entender o círculo que se fecha ante às previsões de um fim anunciado. Há diversos elementos que se entrelaçam formando um conjunto bastante interessante, pois, como disse Pablo Neruda, "este é o melhor livro escrito em castelhano desde Quixote".

Texto retirado da Wikipedia, a Enciclopedia Livre.