SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O beco sem saída de Londres 2011?

Imagem retirada do sítio http://extra.globo.com/incoming/2408925-182-c95/w976h550/londres-0.jpgÉ preciso reflexão sobre a violência na capital britânica

Nunca fui a Londres. Tudo bem, não é necessário estar presente em todos os lugares para que se possa pensar sobre eles. Os acontecimentos de violência na capital britânica fervilham no caldeirão de revoltas, protestos e manifestações eclodidas no agitado ano de 2011. Esses episódios fazem parte de um conjunto de fenômenos sociais que assinalam o início do século XXI.

Lembremos os automóveis incendiados na França de 2006, pensemos na violência urbana que assola nossas grandes cidades. Nos desmatamentos compulsivos, no imenso número de pessoas que estão desempregadas no planeta. Essas dificuldades enfrentadas pela espécie humana, na tentativa de se organizar socialmente de uma maneira que beneficie a si própria, constituem boa parcela do que se costuma chamar de civilização ocidental.

Além disso, também necessário é sublinhar o advento da tecnologia que proporcionou a extensão das redes sociais, mesmo que tal elogio deva conter comentários explicativos. No instante em que qualquer indivíduo acessa as redes sociais, ele utiliza um artifício da tecnologia da informação e da comunicação, mas coloca a sua personalidade nas relações. Ora, não estou excluindo o atraente lado do anonimato, dos fakes ou dos crimes virtuais de distintos gêneros. Observando as redes sociais, suporte tecnológico das insurreições árabes e das confusões de toda a sorte na Europa, vislumbram-se perfis de personagens que em algum momento atuam na realidade, de interação face a face. Eles fazem uso dos mecanismos disponíveis para comunicação e colocam fogo em lojas londrinas, despertando o ódio mais visceral do poder instituído – Estado e mercado.

Em outros escritos busquei um livro de Norberto Bobbio [1] para defender a validade da díade entre as categorias políticas entendidas como direita e esquerda. Não pretendo estender muito as palavras sobre isso. No entanto, no cotidiano das redes sociais, é bastante simples identificar verdadeiras sentenças racistas, homofóbicas e xenófobas, sem esquecer as posturas visivelmente fascistas, no rigor do significado. Nada disso é igual a dizer que posicionamentos críticos e intencionados a um futuro diferente dos parâmetros em vigor não existam nas fileiras do virtual. Trata-se de um campo de disputa discursiva.

Estive pensando no quanto é desafiador tentar incorporar na rotina das nossas vidas a permanente capacidade observadora, reflexiva e crítica acerca da realidade em que estamos inseridos. Não contabilizamos mais do que 30% dos seres humanos – para citar um número alto – que acordam todas as manhãs livres de algum incômodo relativo à forma como procedem para manterem as suas sobrevivências. A exploração do trabalho continua sendo uma característica das sociedades ocidentais capitalistas contemporâneas, e relevante fatia dos outros 70% que sobraram ocupa a maioria do seu tempo nas suas atividades laborais.

Se não bastasse o tempo devotado ao trabalho, o período de lazer de vasta quantidade de indivíduos é ocupado pelos meios de comunicação de massa. Aí uma referência aos impressos (revistas, jornais, etc.), sobretudo à televisão e ao rádio. Embora os princípios editoriais da maior empresa de comunicação brasileira sejam dotados de um caráter impressionantemente controverso, na comparação com a programação apresentada, a realidade não permite distorções ingênuas quanto ao que se passa nessas mídias. Não demanda exagerado esforço elencar os programas de fofocas, os bate-bocas ao vivo, as pornografias, a reprodução de padrões culturais estrangeiros, a disseminação de uma visão de apologia ao mercado e a um código moral de conduta imiscuído na competitividade e na distinção social. A cereja do bolo repousa, é lógico, em quem financia as grandes corporações midiáticas, a pragmática publicidade e propaganda. O grande mercado vende seus produtos nos meios de comunicação de massa, financia sua programação e se vê contemplado pelos discursos “ocasionalmente” adequados aos seus interesses.

Os obstáculos para a reflexão duradoura se mostram ainda na interpretação dos fenômenos sociais que se ampara em argumentos das ciências naturais ou desconsidera as ciências humanas e sociais. Muito tem se falado sobre o atirador de Oslo, que em consonância com grupos de extrema direita executou dezenas de aleatórios sujeitos há pouco tempo. E para o espanto singular, a tentativa de retirar o conteúdo político dos assassinatos está escorada na ideia de que o fascista em questão esteja louco, perturbado mentalmente. Esteja com um problema de doença física. Seja qual for o viés nesse sentido, entendo como insustentável qualquer iniciativa de avaliar o crime político e social cometido na Noruega como uma decorrência de contingências de natureza físico-químico-biológica. O norueguês Anders Breivik é um maníaco maluco, sim, mas situado num campo bem definido politicamente, a extrema direita xenófoba e racista da Europa contemporânea.

Regressando aos distúrbios em Londres, é importante se informar sobre a conjuntura, no intuito de ilustrar uma imagem do que está ocorrendo por lá composta de mínima fidedignidade. A ofensiva de Margareth Thatcher contra a vertente social do Estado impulsionou a degradação das zonas suburbanas no país, e encaminhou um novo processo acelerado de concentração de riquezas e poder. Chegamos em 2011 com o mundo em ebulição, greves vigorosas enfrentando o Estado e o capital na Grécia e em Portugal, com uma imensidão de indignados na Espanha, com a população chilena reivindicando junto com os seus estudantes o fim do predomínio dos interesses mercadológicos sobre a totalidade da vida humana.

Nesse cenário, o primeiro-ministro do governo inglês, David Cameron, líder do Partido Conservador, tratou de aplicar um pacote de medidas de austeridade econômica ao país. Na prática, isso se traduz em redução de recursos às localidades mais pobres, por exemplo, o fechamento de associações comunitárias e clubes de bairro. Esses locais ofereciam alternativas à rua, ao mundo anárquico em valores da sarjeta do capitalismo. De acordo com o jornal The Guardian, em determinadas cidades houve corte de 70% dos projetos sociais destinados aos jovens; no bairro de Tottenham, onde explodiram os atos violentos, o corte de verbas foi de 75% e oito dos 13 centros de assistência social fecharam as portas. Combinados com a trajetória fundada por Thatcher e aperfeiçoada no decorrer do tempo, os recentes planos que suplantam direitos sociais em nome da saúde da economia carregam como o efeito rebote evidente os mais controversos conflitos sociais.

A charmosa Londres não escapa de outras duas mazelas: o preconceito e a violência policial. Dizem os moradores que a confusão do momento resultou da morte de um rapaz negro, Mark Duggan, em Tottenham. Familiares e amigos acusam a polícia pela tragédia, e a Scotland Yard diz que investiga o caso, sem transparecer muito afinco. O fato é que é sabida a exclusão pela qual passam imigrantes e parentes africanos, nascidos ou não por lá. Está oculto (ainda que esteja vivo) o sentimento da imperatividade de uma limpeza étnica no continente. Os partidos de direita estão no poder na França, na Inglaterra e na Itália, pelo menos, protegidos pelos votos de setores menores da direita, a face extremista que beira o fascismo e contabiliza razoável eleitorado.

Tenho que admitir que uma fala de Arnaldo Jabor na televisão me deixou pensativo. Não sei o que aconteceu com ele, do qual discordo com veemência em três quartos do que produz. O cineasta opinava que em situações históricas insolúveis, a tendência é a marcha da insensatez, da estupidez, que no poder significa fascismo. Dizia ele que caminhamos para um grande beco sem saída, cujo sintoma psicótico está explícito no criminoso de Oslo.

Não compactuo de tal perspectiva próxima de um fatalismo determinista, encostado nos pilares do descrédito à democracia. Entretanto, é de se pensar os perigos do fascismo global, da intolerância se espalhando pelos cantos, da destruição das remotas conquistas da humanidade enquanto espécie. Parece que ainda é o momento de canalizar a crítica a essa possibilidade, de não dar espaço às defesas fascistas, de levantar a bandeira da pluralidade e da união dos diferentes povos e etnias em favor da humanidade e do planeta.

Mais do que isso, o momento é propício para trazer o debate sobre a relação entre o capital e o trabalho à tona novamente. Acompanhando os escritos de Juremir Machado da Silva publicados na internet, numa das suas conversas com Edgar Morin, intelectual reconhecido nas ciências humanas e sociais deste século, o francês de 90 anos colocava a necessidade de diminuir a distância entre o mundo encantado do capital e o repertório de lamúrias do mundo do trabalho. Nisso não está embutida a conclusão de que a economia comanda a vida social ou coisa do tipo.

Em síntese, um dos passos para fugir do grande beco sem saída sugerido por Jabor se constrói com o pensamento, a reflexão e a crítica. Isso tudo posto em ação, na prática, nos diálogos e na interação dos grupos sociais. Na pressão ao poder político e econômico hegemônicos. No enfrentamento ao preconceito e à intolerância fascista. As redes sociais podem ajudar ou prejudicar uma organização que busque uma nova distribuição do poder. Enquanto técnica comunicativa, elas ajudam. Mas a realidade que vai compô-las é e será criada por seres humanos reais, imersos num oceano de anseios e complexidades inerentes ao espaço histórico em que protagonizam suas vidas.


[1] Conferir BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: Razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 2001.