SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 27 de setembro de 2011

O paradigma científico emergente e a sociologia de Boaventura de Sousa Santos


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No livro A crítica da razão indolente – Contra o desperdício da experiência, no capítulo em que versa sobre O paradigma emergente, Boaventura de Sousa Santos (2002) sugere a emergência de um processo de transformação paradigmática relativo ao fazer científico. Não se trata de algo parecido com a revolução das ciências ocorrida no século XVI, pois se dá numa sociedade que já passou por radicais mudanças científicas. Nesse sentido, ele nomina a novidade como o paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente.

Santos (2002) argumenta que o novo paradigma não pode ser apenas científico, mas precisa carregar um cunho social. O autor passa a discorrer acerca das representações inacabadas da modernidade, afirmando que será somente a partir dela que se tornará possível transcendê-la. As lacunas deixadas pelas representações da modernidade estão alocadas, no princípio da comunidade (domínio da regulação) e na racionalidade estético-expressiva (domínio da emancipação). É na noção de autor, situada no contexto inacabado da racionalidade estético-expressiva, que pode se conceber uma resistência ao colonialismo. No paradigma da modernidade, duas formas de conhecimento estiveram em jogo: o conhecimento-regulação e o conhecimento-emancipação.

O conhecimento-emancipação é uma trajetória entre um estado de ignorância que designo por colonialismo e um estado de saber que designo por solidariedade. O conhecimento-regulação é urna trajetória entre um estado de ignorância que designo por caos e um estado de saber que designo por ordem (SANTOS, 2002, p. 78).

Há dois últimos séculos, uma racionalidade cognitivo-instrumental da tecnologia e da ciência se sobrepôs às demais. O conhecimento-regulação venceu o duelo com o conhecimento-emancipação. A primazia do primeiro fez com que o segundo fosse recodificado sob os critérios do conhecimento-regulação. O que era estado de saber no conhecimento-emancipação tornou-se ignorância no conhecimento-regulação, sendo a solidariedade subvertida em caos; o que era ignorância no conhecimento-emancipação verteu-se em saber no conhecimento-regulação, e o colonialismo traduziu-se em ordem.

Santos (2002) deixa claro que entende ser essa a situação em que nos encontramos e dela vigora a urgência de uma saída. A maneira de elaborar uma saída para a constatação explicitada está na reavaliação do conhecimento-emancipação, de modo a atribuir-lhe uma preponderância frente ao conhecimento-regulação. “Isto implica, por um lado, que se transforme a solidariedade na forma hegemónica de saber e, por outro, que se aceite um certo nível de caos decorrente da negligência relativa do conhecimento-regulação” (SANTOS, 2002, p. 79). Mas essa postura não pode ser realizada sem que se assumam dois compromissos epistemológicos. De início, é imperativo defender o caos como uma forma de saber, sem entendê-lo como ignorância. Este aceitar e revalorizar o caos possibilita que se rompa com a supremacia do conhecimento-regulação, desequilibrando o conhecimento favoravelmente à emancipação. O segundo aspecto repousa numa revalorização da solidariedade percebida como forma de saber.

O aprofundamento epistemológico das ciências na modernidade traz na distinção entre sujeito e objeto uma das suas facetas mais definidas. Ainda que fundamento da prática científica moderna, essa fragmentação possui contradições. Santos (2002, p. 82) sentencia o fato de que “[...] é tão impossível um conhecimento científico sem condições como um conhecimento plenamente consciente de todas as condições que o tornam possível”. Além disso, tal separação entre sujeito e objeto redunda numa profunda separação entre o humano e o não-humano. O não-humano pode significar tanto a sociedade como a natureza. A desumanização do objeto constituiu um elemento central na consolidação da ideia de um conhecimento instrumental e regulatório, cujo saber está na dominação do caos pela ordem.

O sociólogo português problematiza René Descartes, para dizer que as explicações científicas dos fenômenos consistem em autojustificações da ciência – sendo essa autobiográfica. Os saberes inerentes às nossas trajetórias e valores, estejam eles escondidos ou mesmo soterrados, perpassam os pressupostos não-ditos dos nossos discursos científicos. Por outro lado, no paradigma visto como emergente, a atribuição autobiográfica do conhecimento-emancipação deve ser assumida na sua plenitude: trata-se de “[...] um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos” (SANTOS, 2002, p. 84).

Não obstante, se o rompimento entre sujeito e objeto é um rompimento epistemológico com consequências ontológicas, do rompimento entre natureza e cultura/sociedade supõe-se um rompimento ontológico com consequências epistemológicas. Santos (2002) coloca que, de maneira gradual, todas as ciências passarão para o espectro das ciências sociais. Na atualidade, a diferenciação entre natureza e cultura parece apenas um produto da inércia. Tal distinção deriva de acepções culturais e não naturais. Ao aceitar essa visão, conquistamos a capacidade de investigar os processos sociais e políticos que interferiram no desenvolvimento da oposição entre natureza e cultura/sociedade.

Esta verificação permite mostrar que a ciência moderna, além de moderna, é também ocidental, capitalista e sexista. Esta tripla adjetivação não é circunstancial. Com ela quero salientar que a "matriz de privilégio" (Harding, 1993: 11) da produção científica moderna combina o racismo com o classismo e o sexismo (SANTOS, 2002, p. 85).

As chamadas ciências da vida comportam uma espécie de sociologia implícita no dualismo natureza/cultura. Um exemplo se refere à teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, compreendendo como uma obra escorada em proposições políticas e sociais do seu tempo. Noutra via de exemplificação, Santos (2002) utiliza a primatologia. Nessa ciência focada a estudar os macacos e os símios, busca os trabalhos de Donna Haraway para demonstrar a forma pela qual as temáticas da raça, do sexo, da família e da classe foram instaladas no tratamento da natureza pelas ciências da vida desde o século XVIII. A conclusão das comparações entre a primatologia ocidental, japonesa, africana e indiana revela que a primatologia se trata de um campo multicultural, “[...] influenciado por uma biopolítica que, em diferentes culturas, estabelece diferentes redes de significação entre seres humanos e primatas, entre cultura e natureza” (SANTOS, 2002, p. 97).

Mais do que ocidental e capitalista, o paradigma científico moderno é também sexista. O corte dual que segmenta natureza e cultura/sociedade está inserido numa gama de binômios, todos eles sexistas, ao passo que o primeiro polo de cada um deles é considerado o dominante e associado ao caractere masculino. Já em Aristóteles evidenciam-se preceitos políticos, éticos e biológicos que inferiorizam a figura das mulheres. Com efeito, a ciência moderna reforça e potencializa esses dualismos, em razão de incorporar um falso universalismo hegemônico da sua racionalidade cognitivo-instrumental, que enfoca experiências dominantes como experiências universais.

Santos (2002) encaminha um quesito epistemológico complexo de realizar, na transição paradigmática que observa em transcurso. Se o que chama de imprudente produção-destruição tecnológica, em conjunto com as críticas ao etnocentrismo e androcentrismo das ciências na modernidade, conflui na percepção de que “[...] a natureza é a segunda natureza da sociedade” (SANTOS, 2002, p. 89), notadamente não temos uma natureza humana, pois toda natureza é humana. As posições proeminentes na ciência dos últimos vinte anos desterram as dicotomias que outrora marcavam a cena científica, embora os prognósticos do que pode vir a se estabilizar no decorrer das tensões epistemológicas do momento não enveredem num consenso.

Para o autor, portanto, a superação dos jogos de dualidades desenvolve-se também na aproximação entre as ciências naturais e sociais, sob a proteção das ciências sociais. Em outras palavras, há de se pensar que todas as ciências, em alguma instância, constituem-se em ciências sociais.

REFERÊNCIA

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente – Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2002.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sobre o 20 de setembro no Rio Grande

Imagem retirada do sítio http://1.bp.blogspot.com/_YMySWr9TmmA/TJZhrliCCvI/AAAAAAAAO1s/suegBhYWsZM/s320/LANCEIROS+NEGROS1.jpg Os Lanceiros Negros, verdadeiros heróis de uma
Revolução que não fez sentido para o povo

Sim, eu sou gaúcho. Sou colorado, fanático, se existir um bom sentido para o termo. Tenho o hábito de degustar um bom chimarrão quase que diariamente. O churrasco é, sim, uma das mais (senão a mais) apreciadas refeições que costumo realizar. Eu admiro as características do meu estado que são parecidas com os países do Prata.

Não, eu não ando a cavalo. Não, eu não uso bombachas e botas diariamente. Não gosto de música tradicionalista e detesto o frio (“zinho” coisa nenhuma!) que nos atormenta em todos os invernos. Não compactuo com o ideal “faca na bota”, nem com a maioria das referências simbólicas provenientes do interior do estado – generalizando e sabendo dos perigos disso.

Essa lógica do “sim” e “não” me autoriza, rapidamente, a mostrar que essa história exagerada de exaltação da Revolução Farroupilha ou das “propriedades superiores” de um sujeito que nasceu no Rio Grande do Sul não está com nada. É pura arrogância lamentável.

Isso não significa que não devemos dar valor ao nossos caracteres tradicionais, ou rejeitar nossos costumes. Jamais defenderia isso, mas pra nenhum povo que seja. O que me incomoda nesses momentos, como o 20 de setembro nosso de cada ano, é que alguns de nós sobem na mesa e bradam com ênfase: “sirvam nossas façanhas!”.

Devagar, irmãos. Nem tanto o céu, nem tanto a Terra. Até porque, retrocedendo no tempo, pouco temos a vangloriar num movimento separatista erguido por estancieiros, latifundiários e integrantes de uma elite econômica. Não teve uma base popular como o imaginário construído ao final da Revolução sugere e perpetua, de certa forma, até os dias de hoje.

Sim, valorizemos o nosso lar, o nosso modo de viver. Muito mais do que isso, valorizemos o fato de que somos brasileiros, de que constituímos uma bela parte de uma variedade heterogênea de povos misturados nessa imensidão de diversidade chamada Brasil. Sou brasileiro e gaúcho, gaúcho e brasileiro!

domingo, 18 de setembro de 2011

Multidão toma as ruas na Europa e EUA contra os mercados financeiros (Sul21)

Reproduzido da redação do sítio Sul21.

Na manhã deste sábado (17), centenas de pessoas se concentraram nas imediações da Bolsa de Valores de Madrid para protestar contra o mercado financeiro do país. A reivindicação faz parte da iniciativa conhecida como “Occupy Wall Street” (Ocupar Wall Street, em tradução livre) que mobilizou protestos semelhantes em frentes às bolsas de valores de 74 cidades pelo mundo.

Como o nome indica, a ação foi iniciada nos Estados Unidos, onde um protesto deverá tomar a Wall Street, símbolo do mercado financeiro do país, na noite deste sábado. O ponto de encontro entre os manifestantes é a estátua do Touro da Wall Street, que simboliza a agressividade do mercado financeiro norte-americano. Inspirados pelos protestos do mundo árabe, milhares de pessoas decidiram ocupar Wall Street hoje, para se manifestar contra instituições financeiras, bancos e o governo.

Embora semelhantes, cada cidade impõe suas demandas em protestos que deverão durar, pelo menos, até este domingo (18/09). Em Nova York, os manifestantes demandam uma economia a serviço das pessoas, a regulação dos mercados financeiros, a limitação da influência desses mercados na vida política, a criação de um banco público e uma partilha justa e equitativa da riqueza.

Em Madrid, a manifestação foi convidada pelo movimento 15-M, conhecidos como “indignados”, que foram às ruas do país nos últimos meses para exigir reformas políticas, econômicas e sociais.

No protesto, iniciado às 12 de Madrid (7h no horário de Brasília), os manifestantes trazem faixas com dizeres como “FMI, deixe-nos viver”, “Ditadura dos mercados”; “A Bolsa ou a vida”, “Cuidado com a carteira, você está na Bolsa”, “Bancos sim; públicos e para sentar-se”, entre outras em protesto com o sistema financeiro do país.

Em meio à crise econômica que afeta países europeus e também os Estados Unidos, diversas manifestações ainda deverão ocorrer neste final de semana em nações como Alemanha, Holanda, Portugal, Grécia, França, entre outras, reunindo milhares de pessoas.

Com informações do sítio Opera Mundi
e do jornal O Estado de São Paulo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Roda Viva (TV Cultura) com S. Zizek

Abaixo segue uma parte da entrevista do filósofo Slavoj Zizek, no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2009.

Vale conferir as posições polêmicas de Zizek.

O fascismo nosso de cada dia

Alipio Freire é jornalista e escritor.

Texto publicado originalmente
na edição 445 do Brasil de Fato.

Outrora temíamos a volta do fascismo. Hoje, vivemos às vésperas da lei de Gerson ser erigida em capítulo primeiro das constituições de “Estados democráticos”.

Segundo Jean-Paul Sartre, não é o torturador que faz a tortura, mas a prática da tortura que faz o torturador. Concordando, afirmamos: não é o fascista que faz o fascismo. São as práticas fascistas que fazem os fascistas.

Outrora temíamos a volta do fascismo. Hoje, vivemos às vésperas da lei de Gerson ser erigida (oficialmente) em capítulo primeiro das constituições de “Estados democráticos”, e da impunidade das elites e dos agentes do seu Estado ser transformada em jurisprudência. Oficiosamente, o mundo já parece funcionar assim.

A naturalização dos massacres dos mais pobres por agentes do Estado ou milícias privadas; a convivência promíscua com a corrupção; a flexibilização do conceito de tortura e defi nição de “circunstâncias” em que ela pode/deve ser utilizada; os poderes das Repúblicas controlados e exercidos pelos dossiês (chantagens); a delação premiada como estatuto legal; o medo e o pânico como alavancas da paz social; mecanismos de controle dos indivíduos em nome da sua segurança pessoal, como câmeras e gravadores espalhados por toda parte, muitas vezes com o apelo cínico e patético: “sorria, você está sendo filmado” (e muitos sorriem); a valorização das pessoas pelo que são capazes de consumir; a vida pública e a vida privada mercantilizadas como espetáculo; a substituição do conceito de autodeterminação dos povos pelo de “soberania relativa”, implicando invasões, guerras e destruições de povos em nome da democracia e da paz internacional; o acobertamento das disputas de mercados e de classes, por “guerras religiosas”; o moralismo cada vez mais torto e hipócrita a serviço de escândalos capazes de vender jornais, revistas, programas de tv, rádio, etc.; o silêncio da grande maioria dos que mais sabem; enfim, a banalização do mal.

A lista é infinita.

Ou seja, as práticas fascistas estão instaladas no dia-a-dia.

Agora, só falta um pouco mais de prática intensiva desses valores para que os quadros do fascismo emerjam viçosos e despojados de qualquer conveniência.

E eles estão se formando: na direita e na esquerda.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A aventura dos que lutam contra o terrorismo nos Estados Unidos

Por Emir Sader, sociólogo.

Postagem retirada do Blogue
do autor, no sítio da Carta Maior.

Mesmo se fosse ficção, a história desses personagens já seria sensacional. Mas se são reais e se dão no epicentro da guerra fria – entre Cuba e os EUA, entre Havana e Miami, com personagens reais, que têm sua trajetória verdadeira reconstruída com maestria por um dos melhores escritores que temos – só poderia dar um livro extraordinário.

Fernando Morais diz que quer, com suas obras, de Olga a Paulo Coelho, passando por Chatô, entre tantas outras – ajudar a entender o Brasil. Com "A Ilha" nos ajudou a entender a Cuba, com "Os últimos soldados da guerra fria", nos permite entender melhor a América Latina, sua relação com os EUA e, portanto, um dos eixos que articulam o mundo contemporâneo.

O cenário é uma das duas esquinas da guerra fria – a outra era Berlim dividida -, que quase levaram a um enfrentamento bélico entre as duas superpotências. A trama tem a ver diretamente com isso. Daí a intensidade que ganham as situações de tensão, entre países, refletida em personagens concretos, reconstruídos com maestria por Fernando.

Cuba era, literalmente, o “pátio traseiro” dos EUA. Toda a economia cubana dependia da venda da safra de açúcar ao mercado norteamericano. Cuba era o destino principal do turismo norteameriano, que dispunha de uma enorme estrutura de cassinos, cabarés, rinhas de briga de galos, prostíbulos. Nem precisavam passar pela alfândega, saíam diretamente com seus iates da Florida e chegavam aos hotéis de Havana.

Os carros norteamericanos eram primeiro testados em Cuba, antes de serem lancados nos EUA. A primeira linha aérea internacional da Pan American foi para Cuba, cenário típico dos filmes de Hollywood.

A ditadura de Batista, derrubada pelo movimento liderado por Fidel, tinha o apoio total dos EUA. Desde o começo Washington tramou contra a Revolução Cubana. Quando foram realizadas a reforma agrária, a reforma urbana, a nacioanalização da indústria açucareira, os EUA passaram a enfrentar abertamente o novo governo cubano, decretando o bloqueio do país – ha meio século -, tentando uma invasão com mercenários e passando a financiar a oposição a Cuba, localizada basicamente em Miami.

As ações terroristas foram uma constante ao longo das 5 décadas de poder revolucionário, da mesma forma que o trabalho de infiltração por Cuba dos grupos opositores, buscando informações que permitissem evitar essas ações. Os 5 últimos soldados fazem parte dessas escaramuças.

Já sob os duros efeitos do fim da URSS e do planejamento econômico internacional do campo socialista - quando Cuba perdeu todo seu mercado para a produção de açúcar em troca do petróleo -, o turismo ganhou mais destaque na resistência cubana para sobreviver à pior crise que tinha enfrentado desde 1959. As ações terroristas se concentraram então em locais de turismo, tentando passar a ideia do risco dessa atividade em Cuba.

Foi nesse marco que Cuba resolveu montar uma operação que conseguisse penetrar nas organizações que mais diretamente realizavam as ações terroristas, diante da passividade, da conivência, quando não do incentivo e do apoio direto do próprio governo dos EUA. A historia magistralmente relatada por Fernando Morais é a de cinco deles, que foram presos e ate’ hoje cumprem penas nos EUA, por terem tratado de fazer o serviço que os EUA não fazem: o de recolher informações junto aos grupos terroristas no exílio cubano, para tratar de evitar a proliferação de sua ações criminosas.

O livro começa já com a descrição da dramática situação de um cubano sempre identificado com a revolução, que de repente aparece como um “traidor”, que chega a Miami a bordo de um avião da Força Aerea cubana, que ele mesmo tinha pilotado na guerra de Angola. Ninguém da sua família sabia, nem mesmo sua mulher, até ali confidente de tudo, que não podia acreditar que o seu marido e companheiro de vida está falando para uma rádio de Miami, criticando a revolução e justificando sua deserção.

Fernando retoma, fio a fio, a saída de cada um deles, suas inserções no meio de organizações terroristas cubanas na Florida, o clima dessa colônia, até, finalmente, a prisão de todos e as condições absurdas dos processos que se armam contra eles, como se estivessem espionando instituições norte-americanas e não apenas entidades terroristas da oposição cubana, tarefa que deveria ser feita pelo próprio governo dos EUA.

A mídia brasileira se sente incomodada diante de um livro com esse teor e trata de calar sobre ele. Uma que outra nota apenas não impede que o livro salte para os primeiros lugares nas listas do mais vendidos. Uma leitura obrigatória para entender como os EUA tratam de manter a guerra fria nas suas relações com Cuba, porque até hoje nao conseguiram tragar o fato de que não conseguiram derrubar, por nenhum meio possível, o regime que mais oposição lhe faz, há mais de meio século. Uma leitura deliciosa para qume gosta de livros de aventura, de espionagem, de temas políticos vinculados à ação. E um grande trabalho a favor da libertação dos cinco cubanos que, lutando contra o terrorismo em território noteamericano, foram presos e condenados, enquanto terroristas confessos continuam andando livremente pelas ruas da principal potência imperial da história.