SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um “eu” balizador da vida social

Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

Há imprevistos interessantes. Num desses, surgiu uma viagem de cerca de 30 horas dentro de um ônibus. Poderia ser somente uma cansativa peregrinação. Mas, no fim, foram horas de instigantes reflexões sobre a vida e as pessoas, as relações entre elas.

Antes de qualquer coisa, um grupo de rapazes demonstrava que a viagem seria, no mínimo, engraçadíssima. Não era, entretanto, o que uma senhora sentada à direita pensava. A rapaziada falava alto, alguns palavrões, todos se conheciam. Eram trabalhadores com pouca qualificação, provavelmente retornando para casa após erguer a tal Arena porto-alegrense. Tá, eles incomodavam um pouco, desrespeitavam o coletivo com sua “hegemonia” discursiva no interior do veículo. Estavam sendo individualistas, não se importavam com o restante dos passageiros. Isso ficava bem claro.

A referida senhora, sentada à direita, desde o princípio bateu de frente com veemência àquela situação. Foi para o confronto ameaçando chamar a PM, a BM, a PF e todas as espécies de instrumentos repressivos do Estado. Ela estava evidentemente desgostosa com o falatório dos operários, cuja linguagem lhe parecia algo de surreal. Na verdade, eles falavam o idioma das ruas, do morro, da vida real. A senhora, com seus argumentos explicitamente individualistas, a cada momento se mostrando mais e mais preconceituosa, beirando a um tipo qualquer de fascismo, já manifestava claramente que constituía a outra face da mesma moeda.

Tudo isso fez pensar o quanto somos ensinados, dia após dia, a agir operando com o individualismo. Os faladores sem limites e a senhora que estava sentada à direita representavam as duas faces da moeda corrente do “eu” enquanto balizador da interação social. Ambos, na verdade, não estavam nem aí para a grande maioria dos viajantes. Viajantes que, cada qual a seu jeito, (re)construíam suas percepções sobre aquela algazarra toda.
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sobre o dia do sociólogo


No dia do sociólogo, cabe perguntar: o que é a sociologia? Tem gente que trata essa ciência como discurso, como uma variante da literatura ou como especulação ideológica. Tem gente que a trata como uma física social (ainda!?), um revelador científico/racional das verdades da vivência humana coletiva. Acho que a sociologia precisa ser vista como ela é, ou seja, como uma ciência entre as outras. Assim, desse jeito modesto, mas também ousado, ela pode cumprir o seu dever de lançar luz sobre os fenômenos sociais reais, abastecida por uma boa gama de métodos e um profundo rigor teórico. Sem o aporte metodológico, os objetos sociológicos parecem soltos; sem o rigor teórico, tanto relativo ao objeto de estudo, quanto ao próprio processo de construção do conhecimento, uma abordagem nada reflexiva triunfará. Óbvio, essa é uma das visões, é genérica, e ela pode ser considerada restrita ou equivocada. No entanto, mais importante é o fato de que, na sua trajetória até aqui, a sociologia esteve muito próxima de uma indignação, incomodando a lógica do poder estabelecido, questionando os pressupostos que norteiam a elevação das desigualdades. Coisas que os especialistas da grande mídia, os Magnoli's espalhados por aí, esquecem quando dizem suas bobagens sem fundamentos. Fica um grande salve a todos os sociólogos conhecidos e desconhecidos, sobretudo àqueles que não ocultam ou ocultaram os horrores desse mundo e protagonizaram ou protagonizam a busca por alternativas.

Obs.: Esta data se refere ao dia da sanção presidencial à Lei 6.888 de 10 de Dezembro de 1980, quando foi reconhecida a profissão liberal de sociólogo no Brasil, deixando de ser uma simples ocupação e equiparando-se a certas atividades com direito a honorários, a uma estrutura sindical adequada e à representação coletiva dos seus interesses como categoria profissional de nível superior.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fernando Atthanasio

Raquel Braun Figueiró*
Historiadora e Professora

– Atthanasio, Fernando Atthanasio.

Repetia várias vezes Laurindo de Oliveira Silvado, na noite que sucedeu aos tiros que levou no ventre e no braço direito, na doca do cais, ao anoitecer do dia 28 de novembro de 1893.

Fernando Atthanasio era um italiano negociante na cidade de Porto Alegre. Era casado e contava com seus 33 anos no dia em que Silvado fora baleado. No dia do crime saíra após o almoço para jogar cartas e tomar um trago na venda do seu Victor Gaclord. Do meio para o fim da tarde, fora para casa tomar uma taça de vinho e comer um pedaço de salame, servidos por sua mulher, Eufrasia. Tomara seu casaco escuro e saíra para os lados das docas do entorno do mercado. Ali ficara a fumar na beira do rio e a pensar na vida como se estivesse em um daqueles momentos em que o tempo para. Lembrara os motivos que o fizeram vir a Porto Alegre com sua esposa, há pouco mais de um ano.

Eufrasia era uma mulher madura, séria, esguia e observadora. Já contava com seus setenta anos ao casar com Fernando. Queria uma jovem companhia para a velhice, a qual ainda poderia lhe valer uns afagos que os homens da sua idade já não podiam mais lhe dar. Porém, queria também beber um pouco da juventude de outrem para não apagar totalmente os seus tempos áureos da memória, mesmo sabendo que o respeito de Fernando por ela não podia mais alcançar o fulgor de uma paixão e que ele talvez pudesse procurar outras mulheres com quem se deitar. Em Triumpho, sua cidade natal, Eufrasia havia acumulado certa quantia em dinheiro e deixou um filho mais velho que o marido. Naquela cidade, ao longo da vida tornara-se dona de campo e casa no valor de dois contos de réis e quantidade de gado no mesmo valor. A mulher vendera esse gado todo ao seu filho Silvio Gonçalves.

Fumando seu cigarro na beira do cais, Fernando Atthanasio lembrara tudo isso e os diversos mal entendidos travados entre ele e o filho da sua mulher. A situação tornara a vida em Triumpho insustentável. Tendo como negociar em Porto Alegre, o casal partira para a capital. Pensara em como a sua vida de imigrante diferia do que imaginara. Do sonho de terra e trabalhador agrícola, sua trajetória o transfigurara num errante das terras platinas. O que mais aquelas terras lhe reservavam?

À mulher, já casada e já tendo trilhado a maior parte de sua vida, restara acompanhar o marido e esperançar por uma velhice mais tranquila, longe das brigas travadas pelo filho e dos fuxicos da vila de Triumpho.

O que ambos não sabiam é que essa decisão não acalmaria a raiva de seu filho. Silvio Gonçalves fervilhava em pensar que o restante da herança de sua mãe iria para as mãos daquele mascate. Resolveu acabar com a raça do seu padrasto, encomendando a sua morte.

Nesse ponto é que todas as histórias se entrelaçam, quando o lanchão “Leopoldina” atracara na doca próxima ao mercado e a Fernando Atthanasio. Dela desembarcou Laurindo de Oliveira Silvado com um objetivo firme e frio a ser desfechado na capital. Fernando o reconheceu por saber da sua amizade com seu enteado. Foi ao seu encontro irado de raiva com a sua presença, indagando-o:

– O que fazes aqui diabo velho? Espero não ter vindo a mando do Gonçalves.

O outro proponente ficou surpreso em encontrá-lo tão rapidamente e retrucou as ofensas. Os ânimos se exaltaram a ponto de Laurindo Silvado já ter sacado a sua arma na frente de uma multidão de marítimos presentes no porto, sem se lembrar da discrição que essa incumbência necessitava.

Fernando Atthanasio, também armado, talvez a esperá-lo naquela embarcação ou talvez precavido pelas as incertezas da sua vida, disparou dois tiros contra Silvado e saiu em disparada para os lados do mercado, ainda tropeçando no meio do caminho.

A fuga desesperada de Fernando não o safou da pena de dez anos e seis meses na Casa de Correção de Porto Alegre. Haja vista, todos os marítimos, os negociantes e um músico que presenciaram partes daquela cena de um cair da noite na beira do cais da capital gaúcha. Fernando Atthanasio errou para a Correção da capital. Apenas em nove de maio de 1903 conseguira, outra vez, sentar-se livremente à beira do cais e se perguntar a quais outros lugares sua trajetória lhe enviaria.

* Raquel Braun Figueiró é Licenciada em História pela UFRGS, Mestranda em História Contemporânea pela UFF, Especialista em História da África pela FAPA e Professora de História na Rede Pública Estadual.
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sábado, 1 de dezembro de 2012

Sujata Patel sobre as mentes colonizadas


Pouco se conhece no mundo ocidental sobre a sociologia da Índia. A professora Sujata Patel (saiba mais), da Universidade de Hydebarad, apresentou conferência no Seminário Internacional Sociologias do Século 21, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS. Na sua fala, uma crítica ao conhecimento elaborado sob os pressupostos epistêmicos europeus, considerados como a única forma de produção do saber científico. Patel argumentou que a forma de pensar as sociedades colonizadas como exóticas apenas impede que se aprofundem osImagem reproduzida do sítio http://www.havenscenter.org/files/Patel2.jpg conhecimentos sobre elas. Abaixo disponibilizamos o atalho para um pequeno texto da socióloga, publicado pela International Sociological Association (ISA).

[…] Uma imaginação eurocêntrica se entende em termos de sua própria autoimagem. Este
self viu seu crescimento a partir do Iluminismo europeu, que criou um novo sujeito racionalista e humanista. Com razão e ciência, este sujeito conquistou tempo e espaço, desta forma garantindo e satisfazendo as demandas do progresso humano. Ao invés de perceber a modernidade como um sistema econômico mundial (um sistema de produção capitalista e seu mercado), sustentado por uma formação política (um sistema de Estados Nação com uma forma nacional legitimada pela lei), uma organização social (na forma de classes, gênero, raças e etnicidades) com práticas culturais (como o lazer e a boa vida), a imaginação eurocêntrica o reificou como um processo “culturalista” interno da Europa, como argumenta Arif Dirlik. Este self emergiu não somente em termos de seu próprio desenvolvimento endógeno, mas também na e por meio da organização de processos coloniais e imperiais de dominação. Contudo, acadêmicos europeus avaliaram e continuam a avaliar este discurso não em sua mútua relação com o colonialismo, mas dentro dos limites de sua própria história e linguagem endógenas. Hoje, esta orientação continua a explicar os processos de segunda ou alta modernidade, ou modernidade radical, na Europa e na América do Norte, e organiza a discussão do nacionalismo metodológico.

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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Texto para discussão: Quão atrativo é tornar-se professor de Ensino Médio?


A educação no Brasil é uma temática sempre em pauta nas discussões políticas e sociais. Embora tenhamos conquistado melhorias nas últimas décadas, a qualidade dos sistemas de ensino deixa a desejar no país. Pouquíssimos são os estudantes universitários que pretendem seguir a carreira de professor no ensino básico. Fábio Waltenberg e Ariana Britto, membros do Núcleo de Estudos em Educação (NEE) do Centro de Estudo sobre Desigualdade e Desenvolvimento (CEDE), vinculados à Universidade Federal Fluminense (UFF), discorrem sobre as razões que levam à pouca atratividade da carreira de professor e destacam os baixos salários como um elemento explicativo saliente.

Imagem retirada do sítio http://www.proac.uff.br/cede/

Neste artigo avalia-se a atratividade da ocupação de professor do Ensino Médio, tal como expressa pelos diferenciais salariais entre essa categoria de professores e três grupos de comparação. Os dados provêm da PNAD, anos 2006 e 2009, e a metodologia empregada é a decomposição de Oaxaca. Os resultados indicam que professores do Ensino Médio possuem diferencial de remuneração favorável – porém decrescente – quando comparados a funcionários públicos e empregados do setor privado. Além disso, e de modo mais preocupante, em comparação a profissionais com qualificação semelhante (profissionais das ciências), a situação torna-se desfavorável aos professores, e mostra deterioração de 2006 para 2009. Tal diferencial pode ser atribuído quase que exclusivamente às diferenças nos coeficientes. O déficit de remuneração no mercado de trabalho docente pode ser um dos fatores explicativos do baixo interesse de jovens talentosos pelas carreiras de pedagogia com potenciais impactos negativos sobre a qualidade do aprendizado dos futuros alunos.

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sociologias do Século 21


O Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS, ao completar 40 anos de existência, promove entre os dias 28 e 30 de novembro deste ano o Seminário Internacional Sociologias do Século 21. Sociólogos de várias partes do planeta compõem as atrações do evento, buscando integrar a comunidade acadêmica das ciências sociais em torno das discussões mais relevanteImagem reproduzida do sítio http://www.sociologias-21.org/s na atualidade. Abaixo disponibilizamos um link direto para a programação e um resumo do que faz parte dos seus debates.

No Seminário Internacional Sociologias do Século 21 serão analisadas as transformações socioeconômicas dos países que compõe o BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China). O Global South impulsiona uma geopolítica inédita e, sobretudo, novas dinâmicas em termos de sociabilidades, padrões de vida e participação política. Os processos em curso afetam indivíduos, empresas e nações, potencializam crises, criam impasses, mas, também, apresentam possibilidades de ampliação da democracia e de outras formas de desenvolvimento. O seminário visará aprofundar o conhecimento e o debate sobre estes acontecimentos, considerando os fenômenos em curso a partir da produção de quadros teóricos originais. Eminentes sociólogos da China, Índia e África do Sul e renomados pesquisadores brasileiros apresentarão temas e interpretações qualificadas que compõe parte do mais avançado conhecimento sociológico da atualidade.

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domingo, 21 de outubro de 2012

36° Encontro Anual da ANPOCS


Começou neste domingo (21 de outubro de 2012) o Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), sediado em Águas de Lindóia, São Paulo. Trata-se de um dos eventos mais importantes entre os estudiosos da Sociologia, da Antropologia e da Ciência Política no Brasil. São  inúmeros os Grupos de Trabalho que reúnem as investigações dos mais variados Imagem reproduzida do sítio http://www.encontroanpocs.org.br/2012/locais do país. Disponibilizamos abaixo o link para o sítio do encontro e um breve texto sobre a ANPOCS.

A ANPOCS – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – é uma entidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, criada em 1977, para aglutinar e representar centros de pesquisa e programas de pós-graduação que atuam no campo das Ciências Sociais. Com uma participação inicial de 14 centros e/ou programas, conta hoje com a filiação de 100 instituições que têm na Sociologia, na Antropologia e na Ciência Política seu campo de atuação. Diferentemente de outras associações científicas, a ANPOCS filia sócios institucionais, e não pesquisadores individuais.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

As formas elementares da vida religiosa


Ocorre na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia, o Seminário Internacional As Formas Elementares da Vida Religiosa (importante livro de Émile Durkheim), nas comemorações dos 40 anos do PPG. A coordenação do evento é das professoras Dra. Clarissa Eckert Baeta Neves (saiba mais) e Dra. Raquel Weiss (saiba mais). Fazem-se presentes participantes de vários países que debatem as implicações e as abordagens derivadas da obra cujo nome estampa o título do referido seminário.Imagem reproduzida do sítio http://www.durkheim-br.org/ Abaixo disponibilizamos o link que leva ao site e algumas considerações expostas nele.

O ano de 2012 marca os cem anos do último livro que Émile Durkheim publicou em vida, Les Formes Elementaires de la Vie Réligieuse. Mas, afinal, qual a relevância de um evento que tem um livro como foco? Para se oferecer uma resposta pertinente a essa pergunta é preciso, antes de tudo, levar em consideração o sentido dos assim chamados “clássicos” para a área das ciências sociais em geral, e da sociologia em particular. Talvez poucos autores tenham formulado tão bem quanto Anthony Giddens o que é um clássico e qual o seu estatuto para a sociologia. A construção de seu argumento começa com duas perguntas que são absolutamente centrais. Primeiro, “o que devemos entender por ‘clássicos da sociologia’” e, depois, “a expressão teoria social clássica tem alguma força real ou é apenas um rótulo vago e conveniente?”.

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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Hobsbawm e o milenarismo campesino


O falecimento de um dos mais importantes historiadores de todos os tempos, Eric Hobsbawm (saiba mais), deixa uma lacuna na busca por uma outra forma de organização social. Hobsbawm, nascido em Alexandria (Egito), judeu radicado na Inglaterra, escreveu diversas obras que são referências para os estudos históricos. Não há como passar pelo século XX e não lembrar do autor de “Era dosImagem reproduzida do sítio http://www.brasildefato.com.br/sites/default/files/Eric-Hobsbawm_reprodu%C3%A7%C3%A3o.gif extremos”, “História social do jazz”, “Revolucionários” e muitos outros. Disponibilizamos abaixo o link para um texto de Michael Löwy (saiba mais), tratando de um trabalho deste imenso intelectual acerca do milenarismo campesino.

Historiador interessado em ciências sociais, Eric John Ernest Hobsbawm apresentou, graças a seus trabalhos sobre o milenarismo campesino, uma abordagem muito significativa no tocante à sociologia das religiões. Trata-se de uma das dimensões de sua pesquisa pioneira sobre as formas ditas "primitivas" de revolta. Judeu de cultura alemã, nascido no Egito, em 1917, educado em Viena e Berlim, mais tarde em Oxford e Cambridge, Hobsbawm é um dos maiores historiadores ingleses do século XX. Intelectual de esquerda, representa, antes de tudo, um homem do Iluminismo: não define ele o socialismo como o último herdeiro do racionalismo do século XVIII? Portanto, não é de estranhar que a distinção entre "moderno" e "primitivo" ou "arcaico" ocupe um lugar importante em seus trabalhos.

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domingo, 16 de setembro de 2012

O racismo velado, por K. Munanga


Em entrevista para a Revista Fórum, o Antropólogo e Professor Titular da USP, Kabengele Munanga (saiba mais), não deixa de discutir as questões ligadas ao racismo espalhado pelo Brasil. O intelectual, nascido no antigo Zaire (atual Congo), discorre sobre o mito da democracia racial brasileira, os embates com os opositores das ações afirmativas e a função da mídia e da educação no combateImagem reproduzida do sítio http://1.bp.blogspot.com/_vHqx-gfcCww/SChkxuJctxI/AAAAAAAAAS8/HUPWDUl0AqY/s320/muanga.jpg ao preconceito associado à cor da pele. A publicação é do blog Luis Nassif Online.

[…] Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.

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sábado, 8 de setembro de 2012

Educação básica no Brasil de FHC


Os pesquisadores em educação Gaudêncio Frigotto (saiba mais) e Maria Ciavatta (saiba mais), neste texto intitulado “Educação básica no Brasil na década de 1990: subordinação ativa e consentida à lógica do mercado”, discorrem sobre as políticas de educação nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso. A publicação é da Revista Educação e Sociedade, da Unicamp.

Imagem reproduzida do sítio http://www.unicamp.br/unicamp/

Imagem reproduzida do sítio http://www.scielo.br/scielo.php/script_sci_serial/pid_0101-7330/lng_pt/nrm_iso

Este trabalho, apoiado no esforço de análises de pesquisadores e intelectuais que não declinaram do pensamento utópico e, portanto, do esforço de produção de um pensamento crítico a todas as formas de colonialismo, discute a política de educação básica nos dois mandatos do Governo Fernando Henrique Cardoso. A conclusão a que chegamos é a de que a “era FHC” neste particular, também, foi um retrocesso tanto no plano institucional e organizativo quanto, e articularmente, no âmbito pedagógico. Esta conclusão se fundamenta, primeiramente, na análise do tipo de projeto social mais amplo e do projeto educativo a ele articulado, ambos associados de forma ativa, consentida e subordinada aos organismos internacionais. No plano mais específico fundamenta-se na relevância da educação básica à luz das questões mais gerais postas à educação por um mundo em transformação e às políticas educacionais em relação à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e ao Conselho Nacional de Educação, ao Plano Nacional de Educação, ao ensino fundamental e aos Parâmetros Curriculares Nacionais e à reforma do ensino médio e técnico.

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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Bourdieu e a renovação da sociologia contemporânea da cultura


O sociólogo francês Pierre Bourdieu foi, sem dúvidas, um dos pesquisadores mais importantes das ciências sociais no século XX. Sua obra se espalhou por diversos campos do saber, e foi traduzida para muitos países. No texto abaixo, o professor de Sociologia na Universidade de São Paulo (USP), Sergio Miceli (saiba mais),Imagem reproduzida do sítio http://www.edusp.com.br/millivros/MICELI.jpg discorre acerca das abordagens de Bourdieu. Com o foco na sua sociologia da cultura, Miceli oferece um bom apanhado de alguns dos principais conceitos forjados pelo sociólogo francês. A publicação é da Revista Tempo Social, da USP.

O artigo examina a sociologia da cultura de Pierre Bourdieu à luz de três conceitos chaves – as noções de prática,  habitus e campo –, buscando, de um lado, apreender os significados cambiantes desses termos em diferentes momentos da trajetória intelectual do autor e, de outro, ressaltando as conexões entre os objetos empíricos abordados e os respectivos modelos de interpretação sociológica da vida intelectual e cultural ancorados nesse paradigma.

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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ENEM no IDEB?


O Ministério da Educação (MEC) vai subsitituir a Prova Brasil pelo ENEM como forma de calcular o IDEB, índice mais importante para avaliar a qualidade da educação brasileira. Esta iniciativa gerou polêmica e não está sendo debatida à exaustão, como deveria. O texto abaixo trata desta temática. A aImagem retirada do sítio http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/wp-content/uploads/2012/08/chico1.jpgutoria dos escritos é do professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais, José Francisco Soares (saiba mais). A referida publicação está no sítio eletrônico de Simon Schwartzman (saiba mais).

O ministro da educação Aloísio Mercadante anunciou recentemente que o IDEB para o ensino médio será calculado usando-se os resultados do ENEM, ao invés dos resultados da Prova Brasil aplicada aos alunos do terceiro ano do Ensino Médio, tal como é hoje. Para analisar quão apropriada é esta sugestão é preciso explicitar algumas características do IDEB. Este indicador é o produto de uma medida de aprendizado dos alunos, colocada em uma escala de 0 a 10, pela média da taxa de aprovação na etapa do ensino considerada, que é um número entre 0 e 1.

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terça-feira, 21 de agosto de 2012

O velho e bom feminismo?


Os constantes debates em torno das manifestações feministas por todo o planeta carregam muitas facetas. O texto abaixo, da antropóloga e professora da UFBA, Alinne Bonetti (saiba mais), traz muitos elementos dessa discussão e indica os caminhos mais proeminentes na atualidade. Uma leitura essencial para pensar asImagem reproduzida do sítio http://servicosweb.cnpq.br/wspessoa/servletrecuperafoto?tipo=1&id=K4795356U6  desigualdades contemporâneas, além de mostrar o papel fundamental do feminismo. A publicação é da Revista Cult e está completa no link que segue.

Elas foram guilhotinadas, conquistaram o direito ao voto, “queimaram” sutiãs, protestaram  contra as ditaduras e o capitalismo, desafiaram as religiões, passaram a decidir sobre o momento de serem mães, tomaram as universidades, criticaram a ciência, inventaram novas teorias e campos de estudos, invadiram o mercado de trabalho, criaram leis para se protegerem contra a violência e passaram a ocupar altos cargos políticos em importantes países ao redor do mundo. São inúmeras e inegáveis as conquistas e, se as mulheres já conquistaram tanto, há quem possa argumentar que o feminismo perdeu a sua razão de existência.

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Tendências da desigualdade educacional


Os pesquisadores Nelson do Valle Silva (saiba mais) e Carlos Hasenbalg (saiba mais) formulam, no texto que segue abaixo, as principais considerações acerca das desigualdades educacionais no Brasil. A partir de dados e indicadores nacionais, Silva e Hasenbalg expõem um quadro sintético dos fatores que carregam maioresImagem reproduzida do sítio http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=0011-5258&lng=en&nrm=iso impactos nesses fenômenos. A publicação é da Revista Dados e encontra-se disponível no SciELO.

No presente trabalho, nosso propósito é examinar a evolução das desigualdades educacionais e as mudanças nos determinantes extra-escolares do desempenho escolar no ensino fundamental, visando separar a contribuição das melhorias no sistema educacional stricto sensu daquelas atribuíveis às melhorias das condições sociais da clientela escolar. Para tanto utilizaremos dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD - 1998 e duas outras PNADs representativas de anos favoráveis das duas décadas passadas, a saber, aquelas referentes a 1976 e 1986. Daremos prioridade às crianças de 7 a 14 anos de idade e seu fluxo no sistema de ensino fundamental.

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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Uma “síndrome do olho eletrônico”


O pensador italiano Umberto Eco (saiba mais), famoso por seus livros, entre eles o sucesso que virou filme, “O nome da rosa”, possui uma coluna no sítio UOL. Eco fala sobre a sensação permanente em que estamos inseridos na atualidade. Tal sensação é a de uma espécie de “síndrome do olho eletrônico”, na qual em todosImagem reproduzida do sítio http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Eco,_Umberto-1.jpg  os momentos estamos cercados por câmeras, aparelhos de filmagem e similares, capazes de capturar a vida real e transpô-la para a instância do virtual. Cabe, então, uma abordagem crítica desses fenômenos.

Algum tempo atrás eu estava dando uma palestra na Academia Espanhola em Roma - ou melhor, tentando dar uma palestra. Fui distraído por uma luz forte que brilhava em meus olhos e dificultava que eu lesse minhas anotações - a luz de uma câmera de vídeo de um celular pertencente a uma mulher na plateia. Reagi de maneira muito ressentida, comentando (como geralmente faço diante de fotógrafos desconsiderados) que, mantendo a adequada divisão de trabalho, quando eu estou trabalhando eles deveriam parar de trabalhar. A mulher desligou a câmera, mas com um ar oprimido, como se tivesse sido submetida a um verdadeiro insulto.

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sábado, 11 de agosto de 2012

Com a palavra, o francês Bruno Latour


Bruno Latour (saiba mais) se define como um antropólogo filosófico que trabalha com a sociologia. Aos 65 anos, o diretor científico do Instituto de Pesquisas Políticas de Paris passa pelo Brasil para falar no evento Fronteiras do Pensamento. Autor Imagem reproduzida do sítio http://www.bruno-latour.fr/biographyde várias obras, com destaque para “Jamais Fomos Modernos – Ensaios de Antropologia Simétrica” (no Brasil, pela Editora 34), Latour discorre sobre alguns pontos centrais das suas análises. A entrevista foi realizada pela professora da UFF e da PUC, Carla Rodrigues (saiba mais), e publicada no jornal Valor Econômico.

“Os humanos são envolvidos por muitos outros seres, e a ideia de que uma pessoa age autonomamente, com seus próprios objetivos, não funciona nem na economia, nem na religião, nem na psicologia nem em nenhuma outra situação. Portanto, a pergunta que a teoria ator-rede coloca é: quais são os outros seres ativos no momento em que alguém age? A antropologia e a sociologia que tento desenvolver se ocupa da pesquisa desses seres”.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

The Second ISA Forum of Sociology

Nesta semana que se passou, estivemos na capital da Argentina participando do Segundo Fórum ISA de Sociologia. Organizado pela Associação Internacional de Sociologia (International Sociological Association, ISA), o Fórum reuniu sociólogos e pesquisadores das ciências humanas de todos os cantos do planeta.

Imagem reproduzida do sítio http://www.isa-sociology.org/buenos-aires-2012/

O tema do evento girou em torno das discussões sobre justiça social e democratização. No Comitê de Pesquisa de número 04 (RC 04), situado na área de Sociologia da Educação, apresentamos o trabalho intitulado “The impact of cultural capital on secondary students in Brazil” (O impacto do capital cultural no desempenho dos estudantes secundários brasileiros). Abaixo disponibilizamos os links que tornam possível acessar o programa do evento, o seu sítio na internet e o resumo do trabalho que expusemos.

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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Regras eleitorais importam?


Num ano de importantes escolhas eleitorais, bem como de intensos debates acerca das variadas propostas de reformas políticas, este texto do Professor Doutor André Marenco dos Santos (saiba mais), do Departamento de Ciência Política da UFRGS, traz algumas reflexões necessárias aos intImagem reproduzida do sítio http://www.ufrgs.br/cienciassociais/imagens/marenco.jpgeressados na temática. Vale conferir o referido artigo, acessando o link no final da postagem.

O objetivo deste artigo consiste em analisar as conseqüências provocadas por diferentes modelos de listas eleitorais sobre a configuração dos sistemas partidários e o desempenho de instituições poliárquicas. Modelos alternativos de listas eleitorais podem ser compreendidos como regras que definem quem ordena a distribuição de cadeiras partidárias entre candidatos individuais, com variações entre o ranqueamento prévio dos candidatos legislativos – fixado por lideranças partidárias – até formatos que permitem maior influência dos eleitores na definição da composição das bancadas eleitas por cada partido através do voto nominal atribuído a candidatos individuais.


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quarta-feira, 18 de julho de 2012

O processo civilizador, de Norbert Elias


Bernardo Caprara*
Janine Prandini Silveira**

Nem sempre garfos foram utilizados à mesa na sociedade ocidental. O lenço difundiu-se com vasta abrangência pelos diferentes estratos da sociedade somente por volta do século XVIII. Até então, como os indivíduos faziam para limpar bocas e narizes? E como eram suas condutas à mesa? Dessas e outras questões aparentemente irrelevantes, o sociólogo alemão Norbert Elias consegue extrair sentido, ao abordá-las sob um enfoque analítico longitudinal, procurando as minúcias dos hábitos cotidianos no curso da História do Ocidente. O problema de que trata Elias em “O processo civilizador”, cuja primeira edição data de 1939, parte da percepção de que os indivíduos ocidentais nem sempre se comportaram da maneira que chamamos de “civilizada”. Por que aconteceu essa transformação nas condutas dos seres humanos? Sobre o que versa esse tal processo civilizador? Como ele acontece? Nesse livro, Elias nos fornece algumas respostas a essas questões.

A obra é divida em dois volumes. O primeiro volume, do qual falaremos nessa resenha, recupera a percepção da existência de um processo de mudança na maneira como o indivíduo se comporta e se sente após a Idade Média. O segundo volume aborda, conforme consta no prefácio da primeira edição e no prefácio da edição de 1968 (apêndice da publicação brasileira), as causas do processo civilizador, das transformações ocorridas em longo prazo na estrutura da sociedade ocidental, focando o desenvolvimento dos Estados nacionais e o seu efeito na mudança da estrutura psíquica do ser humano ocidental. Este volume também contém o “Esboço de uma teoria da civilização”, no qual o autor formula explicitamente o que já tinha sido sugerido pelo estudo de documentos históricos feito no decorrer do livro, de que há “[...] possíveis ligações entre a mudança a longo prazo nas estruturas da personalidade no rumo da consolidação e diferenciação dos controles emocionais, e a mudança a longo prazo na estrutura social com vistas a um nível mais alto de diferenciação e integração...” (p. 216).

No primeiro volume, Elias utilizou um extenso material documental (livros de etiqueta, tratados de boas maneiras), do século XIII ao século XIX, relevantes para observar as mudanças ocorridas no padrão do que a sociedade exige e proíbe no tocante à conduta dos indivíduos, para demonstrar o caráter processual, historicamente construído do que hoje denominamos de comportamento civilizado. A relevância da análise destes livros para o estudo de Elias está, portanto, no que eles revelam sobre o que eram consideradas boas maneiras, ou seja, as regras ligadas ao padrão de conduta que esses livros tinham a intenção de cultivar – já que eles próprios eram instrumentos de condicionamento –, e no que revelam sobre as maneiras socialmente aceitas em outras épocas, mas então condenadas por eles.

Logo no capítulo 1, Elias consegue mostrar as conexões existentes entre a estrutura social e os costumes dos indivíduos de determinadas configurações sociais, explicitando o que chama de sociogênese dos conceitos de “civilização” e “cultura”, e os significados expressados por esses termos na Alemanha e na França. Explora, ainda, a diferença que o conceito de civilização adquire para franceses e ingleses, por um lado, e para alemães, por outro. Enquanto para os primeiros, os franceses, o termo civilização expressa o orgulho que possuem do desenvolvimento de suas nações (referentes a fatos políticos, econômicos, científicos, sociais, à “civilização” das maneiras e dos costumes), e por seu papel para o progresso da humanidade, para os alemães, o significado de civilização está vinculado a ideias de superficialidade, de aparência externa dos seres humanos. Na Alemanha, é o conceito kultur que expressa o orgulho dos alemães por suas realizações, pelo valor daquilo que produzem em matéria de arte, filosofia, literatura. O conceito de kultur expressa a individualidade de um povo, delimita as diferenças, a identidade nacional de uma nação; em contrapartida, o de civilização minimiza as diferenças entre povos, porque é tomado como algo comum aos seres humanos. Nesse sentido, o termo kultur expressa as peculiaridades histórico-políticas da Alemanha, isto é, a necessidade de estar incessantemente construindo um sentido político e espiritual, uma identidade nacional, em decorrência de uma tardia unificação política e consolidação de fronteiras. Já nações como Inglaterra e França, que tiveram suas identidades nacionais estabelecidas há mais tempo, encontraram, no lema da civilização, a justificativa para sua tendência expansionista e colonialista.

Para demonstrar a origem das discussões que propõe, Elias analisa trechos de obras da literatura alemã evidenciando as diferenças existentes nos costumes, nos gostos, na vida afetiva, nos ideais e aspirações da aristocracia cortesã e da intelligentsia de classe média na Alemanha. Entre essas obras, está a de Frederico, o Grande, rei da Prússia, em que fica evidenciado o olhar crítico de um representante da aristocracia, que como marca de distinção falava francês e não alemão. Entretanto, é dos livros de representantes da burguesia do século XVIII (Goethe, Schiller, Lessing), a intelligentsia de classe média, que Elias retira a maior parte dos exemplos deste capítulo, por ilustrarem como esse pequeno estrato da sociedade alemã via as diferenças da estrutura e da vida da classe média e da classe superior cortesã. Nesses livros, aparece a autoimagem da intelligentsia, que falava e escrevia em alemão, o seu orgulho pela erudição, pela formação intelectual, pelo enriquecimento interno individual. Essa autoimagem se contrapunha a imagem que tinham sobre a vida da aristocracia cortesã, sua etiqueta, seu decoro, o controle das emoções, vistos como superficialidade, falsidade, polidez de fachada. Conforme Elias, dessa tensão entre a intelligentsia alemã e a aristocracia cortesã, sobretudo no que diz respeito a questões comportamentais, surgiria uma antítese entre os conceitos de kultur e zivilisation, já que as ideias expressas pelo conceito de kultur refletiam a autoimagem da intelligentsia alemã em contraste com a imagem que faziam da aristocracia de corte.

O prosseguimento do texto expõe a sociogênese do conceito de civilisation na França. Diferente do que aconteceu na Alemanha, onde a aristocracia era bastante fechada ao acesso de outros grupos, e a intelligentsia excluída das questões políticas, a intelligentsia francesa e outros grupos da classe média foram relativamente atraídos para os círculos da corte e para a vida política. O contato com o meio cortesão possibilitou muito cedo na França uma identificação dos costumes dos grupos burgueses e da aristocracia cortesã. O conceito de civilisation gestado pela intelligentsia francesa não expressa, como o conceito de kultur na Alemanha, um ataque às características humanas da classe superior, mas se refere às ideias e as aspirações da intelligentsia francesa de promover uma reforma política, econômica e social na França. O conceito de civilisation vai, portanto, além dos termos politesse e civilité, então utilizados pelos membros da corte, que expressavam o refinamento de maneiras e distinguiam a corte do restante da população. Civilisation expressa a ideia de um processo em andamento, de que uma reforma era necessária para que a “falsa civilização” se transformasse numa autêntica. Nessa linha, quando o antigo regime foi derrubado, os costumes e os hábitos cortesãos, incorporados pela intelligentsia e por outros grupos burgueses se mantiveram.

Tanto na Alemanha quanto na França, os termos kultur e civilisation, respectivamente, que em um primeiro momento eram expressão das ideias burguesas frente à aristocracia no conflito social interno, passaram a sintetizar a imagem nacional dessas duas nações quando da transformação desses grupos burgueses em classes dominantes. Kultur passa a expressar uma identidade nacional, as especificidades, a individualidade do povo alemão em contraste com outras nações. O conceito civilisation, por sua vez, é usado pelos franceses como justificativa às suas aspirações de expansão nacional e colonização, perdendo um pouco seu caráter de processo, para expressar uma característica intrínseca do povo francês, um “povo civilizado” e, por isso, superior a outras nações as quais teriam a missão de transmitir a “civilização”.

É no segundo capítulo do livro que Elias mostra, com a exposição de uma série de exemplos retirados de documentos de experiência histórica, a transformação do comportamento humano, a elevação do patamar de vergonha e embaraço, na direção de um maior controle das emoções, ocorrido na sociedade ocidental a partir da Idade Média. Elias faz referência principalmente ao tratado para a educação de crianças “De civilitate morum puerilium” (Da civilidade em crianças), de Erasmo de Rotterdam, como um indicador do processo civilizador em andamento, por ter sido escrito em 1530, uma época de declínio da nobreza guerreira do feudalismo e da formação de uma nova aristocracia das cortes absolutistas. Em outras palavras, era um momento em que se dava a formação de um novo espaço social, com uma nova estrutura de relações entre os indivíduos e grupos no sentido de uma maior interdependência e que, portanto, exigia um novo padrão de conduta, uma nova modulação das estruturas de personalidade.

Norbert Elias passa a expor como as estruturas das relações sociais na Idade Média não compeliam os indivíduos a controlar suas emoções, sua agressividade ou a abster-se de suas funções corporais na frente de outras pessoas. Não obstante, é válido salientar que o autor traça um cenário do medievo em que reinam a incerteza e a insegurança, embora as explosões de violência e agressividade aparecessem repentinamente, quando sorrisos e diversões dariam lugar a frases mal colocadas, originando o estopim de um subseqüente conflito físico. No entanto, os padrões de comportamento vigentes não excluíam do convívio social (nem ao menos no nível simbólico) os sujeitos que assim procediam, assertiva que oferece calçamento ao já explicado, constituindo a crueldade e a violência dimensões da vida social corriqueiras. Com a centralização do poder nas monarquias absolutistas, e uma vida de maior interdependência entre os elementos das cortes, a moderação e o controle dos impulsos tornaram-se necessários para convivência, bem como um sinal de distinção dessa elite social. Nesta época, a restrição dos impulsos encerrava uma razão social, já que ela somente era recomendada na presença de indivíduos com posição superior ou igual na hierarquia social, e a justificativa dada a essa forma de conduta era por ela ser “fina”, ou “cortês” até aproximadamente o século XVI, e por consideração social (não causar embaraços às outras pessoas) como sinal de “civilidade” a partir do século XVI até aproximadamente o século XVIII. Com a flexibilização da hierarquia social, e a elevação da interdependência social, por volta do século XIX, uma vergonha que antes era sentida apenas na presença de indivíduos de posição superior ou igual, vai perdendo essa referência social e começa a ser sentida como um autocontrole natural, manifestando-se até mesmo na ausência de outras pessoas. O controle das emoções instigado por razões sociais pelas estruturas da vida social na corte, e que acaba se difundindo pela sociedade como um todo, condiciona o comportamento a tal ponto que ocorre uma mudança nas estruturas de personalidade dos indivíduos, elevando o patamar de vergonha e embaraço e transformando o controle exercido, anteriormente por coação externa, em uma espécie de autocontrole. Quando a classe burguesa torna-se governante, a família nuclear passa a ser a principal instituição de controle e condicionamento das crianças ao padrão socialmente aceito. 

Na verdade, [a limitação dos instintos] é cultivada desde tenra idade no indivíduo, como autocontrole habitual, pela estrutura da vida social, pela pressão das instituições em geral, e por certos órgãos executivos da sociedade (acima de tudo, pela família) em particular. Por conseguinte, as injunções e proibições sociais tornam-se cada vez mais partes do ser, de um superego estritamente regulado (p. 186-187). 

Séries de exemplos, retirados de livro de boas maneiras, ilustram e evidenciam o que é chamado pelo autor de “curva de civilização” e elevação do patamar de vergonha e repugnância. Num trecho do tratado de Erasmo para a civilidade de crianças, do século XVI, são evidentes as mudanças ocorridas nas atitudes em relação às funções corporais, quando, em uma época em que era costume as pessoas urinarem ou defecarem na presença de outras, caracterizava-se como um sinal de delicadeza não conversar e não cumprimentar as pessoas que estivessem nessa situação. Com relação ao hábito de assoar-se, o livro nos traz a informação de que, na sociedade medieval, era comum limpar o nariz com as mãos, bem como usar as mãos para comer numa travessa em comum com outras pessoas. Assim, por consideração aos outros com quem se estava comendo, ao embaraço e ao sentimento desagradável que podia lhes causar, passou a ser recomendado, como sinal de cortesia, que se limpasse o nariz com uma mão e pegasse a carne com outra. O tratado de Erasmo já faz referência ao uso de um pano para limpar o nariz e orienta para virar-se para o lado na presença de pessoas de posição social superior. O lenço, nessa época, assim como o garfo, era artigo de luxo, indicador de prestígio social e marca de distinção. Segundo Elias, foi apenas no século XVIII que o uso do lenço tornou-se generalizado na sociedade ocidental, e, por conseguinte, o uso das mãos para limpar o nariz passou a provocar sentimentos de nojo, sendo considerado sinal de má educação. As mudanças no modo como a carne é servida também são exploradas por Elias para mostrar a transformação no padrão de nojo. Nas classes superiores medievais, os animais eram levados à mesa inteiros. Por isso, até mais ou menos o século XVII, os livros de boas maneiras traziam sugestões e regras de como fazer o trinchamento da carne corretamente. O desaparecimento deste costume é explicado por razões de caráter social (refeições realizadas na família nuclear e diminuição do número de membros da mesma, especialização de atividades profissionais como açougueiros, abatedouros) e razões de caráter psicológicos: elevação do padrão de nojo e repugnância. 

A partir de um padrão de sentimentos segundo o qual a vista e trincho de uma animal morto à mesa eram coisas realmente agradáveis, ou pelo menos não desagradáveis, o desenvolvimento levou a outro padrão pelo qual a lembrança de que o prato de carne tem algo a ver com o sacrifício animal é evitada a todo custo. [...] O ato de trinchar, conforme demonstram os exemplos, outrora constituiu parte importante da vida social da classe alta. Depois, o espetáculo passou a ser julgado crescentemente repugnante (p. 127-128). 

Dessa forma, o repugnante, as funções corporais e também a sexualidade são removidas para o fundo da vida social. Trata-se de uma tendência do processo civilizador privatizar, tornar íntimas, pelo inculcamento de sentimentos de vergonha, nojo, medo e culpas, condutas que outrora publicamente eram aceitas.

Com o processo civilizador, a discrepância entre o padrão de conduta de crianças e adultos torna-se maior. Se, na Idade Média, as crianças participavam da mesma esfera social que adultos e o que era exigido dos adultos não divergia muito daquilo que as crianças faziam; no início do século XX (época da elaboração deste livro), as crianças “[...] têm no espaço de alguns anos que atingir o nível avançado de vergonha e nojo que demorou séculos para se desenvolver” (p. 145). Portanto, para Elias, a educação, a socialização das crianças é o próprio processo sócio-histórico (sociogênese) de séculos acontecendo na vida de cada ser humano individual (psicogênese).

Com efeito, processo civilizador seria, sobretudo, uma transformação de estruturas individuais, o que está em perfeita consonância com sua concepção de sociedade como “sociedade dos indivíduos”. Em seu prefácio para a edição de 1968, Elias critica a forma como esses conceitos (indivíduo e sociedade) foram tratados pelas ciências sociais seja pela concepção de sociedade como a simples soma de indivíduos, seja pela explicação da sociedade como uma totalidade para além dos indivíduos, pois essas definições acabam separando aquilo que ele julga aspectos inseparáveis dos seres humanos. A sociedade seria uma configuração (de caráter flexível, dinâmico e mutável), uma rede de interdependências que liga os seres humanos. O indivíduo, portanto, cumpriria o papel de um ser que tem a sua vida orientada para e pelas outras pessoas, estando longe de ser soberano, independente, auto-suficiente, pois no decorrer do processo civilizador as estruturas dos seres humanos individuais são mudadas em uma determinada direção. No livro “O Processo Civilizador: uma história dos costumes”, Elias consegue mostrar, pela análise de documentos da experiência histórica (portanto, com evidência empírica) que as estruturas de personalidade e as estruturas sociais se desenvolvem em uma “inter-relação indissolúvel”, que as mudanças nas estruturas de personalidade ocorre em conjunto com as mudanças nas configurações sociais. Fica a curiosidade de entender como Elias explica as causas das mudanças na estrutura da sociedade ocidental e sua influência na transformação dos padrões de comportamento e constituição psíquica dos povos do ocidente, assim como seu “Esboço de uma teoria de civilização”, aspectos abordados no segundo volume do livro. 

* Bernardo Caprara é Sociólogo e Professor.
** Janine Prandini Silveira é Socióloga e Professora.
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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Descoberta de físicos pode ajudar a entender a origem do universo


Na última quarta-feira, 3 de julho, foi anunciada uma descoberta científica que parece ser muito importante. Um grupo de estudiosos da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (cuja sigla em francês é CERN) argumenta ter comprovado a existência da partícula subatômica Bóson de HiggsImagem retirada do sítio http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/07/descoberta-da-particula-de-deus-e-inquestionavel-garantem-especialistas.html. Ela é considerada fundamental para a compreensão do surgimento do universo e da formação da matéria.

“É inquestionável a descoberta dessas partículas. Não tenho a menor dúvida que isso é uma descoberta concreta e real. A gente estava esperando há muito tempo [pela comprovação] e não duvida disso”, disse Ronald Shellard, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Física e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro. Para ele, “a descoberta coroa uma das maiores aventuras do espírito humano” e é “um feito muito maior do que o homem ter ido à Lua”, compara.

Clique no link abaixo para acessar o texto completo no Pragmatismo Político e saber mais sobre a pauta em questão.

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sábado, 30 de junho de 2012

As potencialidades analíticas da Nova Sociologia Econômica


No artigo exposto abaixo, disponível no SciELO, o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Edmilson Lopes Júnior (saiba mais), traça um panorama acerca do desenvolvimento da chamada Nova Sociologia Econômica. Como forma de problematizar um fenômeno social que não pertence apenas à disciplina da Economia, o referido escImagem reproduzida do sítio http://blogdoedmilsonlopes.blogspot.com.br/opo de abordagem amplia os horizontes analíticos sobre a temática.

A Nova Sociologia Econômica tem sido uma das mais promissoras reações produzidas dentro do campo da Sociologia à investida do "imperialismo disciplinar" da Economia, ocorrida na década de 80. Nesse momento, quando o reaganismo e o thatcherismo dominavam as paisagens políticas dos EUA e Inglaterra, o paradigma neoclássico hegemônico na Economia parecia, enfim, ter conquistado legitimidade suficiente para ultrapassar o campo limitado das predições sobre o mercado e arvorar-se possuidor de uma base epistemológica capaz de produzir explicações convincentes sobre temas até então abordados prioritariamente pelos sociólogos. Foi assim que os economistas passaram a abordar questões como as escolhas no casamento, as redefinições das taxas de natalidade ou a produção de movimentos sociais em determinados setores da vida social.

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domingo, 24 de junho de 2012

Wolton: “Comunicação é conceito político”


O sociólogo francês Dominique Wolton (saiba mais) esteve em Porto Alegre nesta sexta-feira. Doutor em Sociologia e dedicado a estudar sobre a Comunicação Política e suas vertentes de ligações com a ciência, a tecnologia eImagem reproduzida do sítio http://sul21.com.br/jornal/2012/06/comunicacao-e-um-conceito-politico-diz-dominique-wolton-em-porto-alegre/ a sociedade, Wolton defendeu suas ideias em palestra proferida na capital gaúcha.

Para ele, vivemos um momento em que a humanidade está dominada pelas tecnologias emergentes e acredita que elas solucionarão os problemas mais variados. Por outro lado, Wolton argumenta que o importante é buscar uma aproximação comunicativa entre os povos, para fins de uma convivência harmoniosa. Nessa perspectiva, apenas o desenvolvimento técnico não basta para que possamos melhorar as organizações sociais.

“Comunicação é um conceito político, pois supõe a igualdade entre os protagonistas. Só não nos matamos uns aos outros porque somos capazes de nos comunicar”.

Para saber mais sobre as ideias do autor e a palestra por ele realizada, visite a matéria do Sul21 clicando no link abaixo.

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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Gostar de estudar afasta a reprovação?


Os fenômenos adjacentes ao sucesso escolar podem ser ocasionados por distintos fatores. Do ambiente interno da instituição, observados os elementos familiares, até as próprias contingências das realidades específicas, perpassam muitas conjecturas, pesquisas e teorias. Sem entrar nessa seara, executaremos um exercício de porcentagens (sem muitos rigores metodológicos e teóricos, portanto não científico), tentando verificar algumas assertivas retiradas do cotidiano ou do senso comum.

A partir do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e o seu banco de dados de 2003, contendo 107 variáveis, será possível oferecer algumas reflexões. A proficiência dos jovens foi medida nas disciplinas de português e matemática e as demais variáveis constituem um questionário socioeconômico. As variáveis selecionadas são as seguintes: a) a reprovação dos estudantes (0=não; 1=sim), como manifestação simbólica dos seus rendimentos, no posto de variável dependente; b) o gosto pelo estudo (0=não; 1=sim), variável independente 1; c) posse de computador e internet em casa (0=não; 1=sim), variável independente 2.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Belluzzo: “Uma crise terminal”


Na sua coluna publicada com frequência na edição online da revista Carta Capital, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo analisa com profundidade a atual situação da economia mundial. Em particular, dois dos seus últimos textos são muito explicativos do cenário turbulento que o capitalismo está enfrentando Imagem reproduzida do sítio http://0.gravatar.com/avatar/48cdf6433ac77cef8ad99bf52205b170?s=150&d=&r=G neste momento histórico.

É provável que a crise não atingisse tais culminâncias se as autoridades europeias tivessem admitido a inevitabilidade de uma reestruturação ordenada da dívida e do controle público do sistema bancário. Teriam, assim, mitigado as agruras da recessão e bloqueado o avanço contagioso da crise financeira. Trata-se de um caso de psiquiatria política: a opção mesquinha por fazer pouco e devagar – too little, too late – transformou-se numa reação avassaladora do tipo too much forever.

Seguem os dois links para a leitura completa dos textos, que colaboram bastante para o entendimento da realidade econômica contemporânea.

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sábado, 9 de junho de 2012

Homenagem a Antônio F. Pierucci


Infelizmente, a morte chegou para um dos grandes sociólogos brasileiros. Antônio Flávio Pierucci (saiba mais), então professor da USP, faleceu vítima de um infarto na sexta-feira (08) do presente mês. O sociólogo paulista tinha 67 anos e, além de professor da USP, haviado pesquisado para o CEBRAP e desde 2001 oImagem reproduzida do sítio http://f.i.uol.com.br/folha/cotidiano/images/12160356.jpegcupava o cargo de Secretário-Geral da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência.

Seus principais estudos giram em torno da Sociologia da Religião. A melhor edição do clássico “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (na opinião do editor deste blog), de Max Weber, publicada no Brasil, carrega a organização de Pierucci. Como homenagem a este grande cientista e pensador, indicamos a leitura de um dos seus artigos, intitulado “De olho na modernidade religiosa”, cujo primeiro parágrafo encontra-se abaixo e o link para a leitura completa também.

Como a sociologia em relação à modernidade, assim a sociologia da religião só tem cabimento se for capaz de uma sociologia da modernidade religiosa. É a convicção epistemológica que sustento e me sustenta como especialista.


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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma hora com Maria da Conceição Tavares


Economista Maria da Conceição Tavares completa
80 anos e permanece com as suas atividades acadêmicas

A economista nascida em Portugal, mas brasileira por opção e de coração, Maria da Conceição Tavares (saiba mais), completou 80 anos em 2011. Ela prossegue com as suas atividades de pesquisa e docência na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O canal Globo News entrevistou a intelectual por quase uma hora, em conversa que perpassou diversos assuntos.

Conhecida por sua participação intensa nos debates econômicos desde a década de 1960, Tavares carrega o rótulo de “agressiva”, embora se mostre bastante disposta e por muitas vezes sorridente no vídeo acima. Trata-se de mais uma aula de economia política ministrada por Maria da Conceição Tavares. 
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terça-feira, 5 de junho de 2012

A impunidade e a sociedade da disciplina e do controle: um olhar à luz de Foucault

Imagem retirada do sítio http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Michael-Foucault.jpgMichel Foucault marcou as ciências sociais do século XX

Uma das afirmações bastante difundidas no Brasil atual diz respeito ao vício da impunidade, sempre associado aos percalços da violência, da corrupção e ao funcionamento dito ineficaz do Estado. Os desvios encontrados nesse país seriam, tanto para alguns representantes dos meios de comunicação, quanto para determinados grupos sociais, frutos da percepção de que nada acontece para aqueles que burlam as leis e as condutas consideradas adequadas na convivência cotidiana. Os desesperados bradam em uníssono: pena de morte aos vagabundos!

Sem desconsiderar a relevância de tais sentenças (com exceção da última, fora de cogitação para quem vos escreve), contanto que deixemos claro que os fenômenos sociais não possuem causas únicas, no que concerne às suas querelas, pretendemos aprofundar a reflexão acerca das questões supracitadas. De fato, a trajetória das sociedades ocidentais nos últimos séculos conformou uma tendência a naturalizar as decorrências de relações sociais construídas historicamente, por agentes sociais protagonistas das situações que, portanto, nada carregam de naturais, objetivas ou imutáveis. É imperativo enfatizar isso, no intuito de evidenciar nossa concepção de que conviver com a impunidade não simula um fator intrínseco ao povo brasileiro, sejam quais forem os argumentos desferidos em favor dessa posição.

Na medida em que entendemos as sociedades contemporâneas sob o prisma da complexidade, apresentaremos, na tentativa de buscar as suas características, algumas das abordagens centrais de Michel Foucault, relacionadas à punição, controle e disciplina. Por intermédio das colocações do pensador francês, ofereceremos subsídios para problematizar as relações sociais da contemporaneidade, indo além de respostas fechadas, como a ideia de impunidade – e suas contrapartidas, conectadas aos projetos de punições severas por excelência – sugere em diversos momentos.

domingo, 3 de junho de 2012

François Dubet e as desigualdades escolares antes e depois da escola


SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO - A Revista Sociologias, do Programa de Pós Graduação em Sociologia da UFRGS, apresenta no seu último número um dossiê sobre a educação e os desafios que ela encontra nesse momento histórico de valorização do conhecimento. Um dos textos principais, de autoria de François Dubet (foto), Marie Duru-Bellat e Antoine Vérétout, versa sobre as desigualdades educacionais, o fator escolaImagem retirada do sítio http://cvideo.ac-bordeaux.fr/preview/f_dubet.jpg e a influência dos diplomas. Segue o resumo do artigo e o link para prosseguir a leitura. Na página do texto pode ser visualizado o currículo dos autores.

A escola reproduz as desigualdades sociais por ser mais favorável aos alunos social e culturalmente privilegiados. No entanto, essa "lei" é demasiado geral para explicar as grandes variações na amplitude dessa reprodução, reveladas pelas comparações internacionais. Partindo desses estudos, o artigo mostra, em primeiro lugar, que essas variações não se explicam diretamente pela amplitude das desigualdades sociais. Para explicá-las é preciso levantar duas outras questões. A primeira tange à organização dos sistemas escolares, os quais podem aumentar ou atenuar o impacto das desigualdades sociais sobre as desigualdades escolares. A segunda se refere aos impactos da escola, à influência dos diplomas para a mobilidade social. O artigo demonstra que, quanto mais determinante for o papel dos diplomas, mais marcadas serão as desigualdades escolares e mais rígida será a reprodução das desigualdades sociais. Finalmente, a função atribuída à escola pelas diversas sociedades determinará a amplitude da reprodução social. Contudo, essa análise foi realizada a partir de uma amostra de países, logo a realização de estudos qualitativos complementares seria muito útil para melhor compreender como ocorre a reprodução social.

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sábado, 2 de junho de 2012

Ciro Gomes: “fazer o capital em casa”


ECONOMIA POLÍTICA – O ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional do governo Lula, Ciro Gomes (saiba mais), escreve numa coluna no sítio da revista Carta Capital. Em dois ensaios publicados nos últimos tempos, oImagem reproduzida do sítio http://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/userphoto/950.jpg advogado, político e professor universitário cearense discorre e fundamenta algumas daquelas medidas econômicas que considera importantes para o fortalecimento do cenário nacional em níveis prósperos de crescimento.

Com trajetória conturbada, tendo saído do PDS (ex-Arena) e circulado pelos meandros da política brasileira, Ciro Gomes sustenta o apoio a algumas perspectivas do governo de Dilma Rousseff. Propõe também questões relativas à carga tributária e ao sistem previdenciário. Sobre os impostos, defende que “[…] trata-se, tenhamos clareza, de deslocar proporções no peso da carga tributária entre diversos grupos de interesse que fraturam a ideia de Nação e nos submetem – na prática – ao domínio de lobbies, regionalismos paroquiais e cíclicos favores aos que já são os mais favorecidos”.


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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Florestan Fernandes no Roda Viva


Um dos maiores nomes da sociologia brasileira
Florestan Fernandes esteve no programa da TV Cultura

Logo após um dos seus orientandos mais próximos assumir a Presidência da República (Fernando Henrique Cardoso, em 1994), Florestan Fernandes (saiba mais) respondeu a uma série de questionamentos realizados pela bancada de jornalistas que compunha o programa Roda Viva. Na época, o sociológo estava Deputado Federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

O foco dos arguidores se manteve nas possibilidades de Fernando Henrique Cardoso enquanto presidente, nas concepções políticas do entrevistado e na visão que o mesmo estabelecia da realidade vigente. Florestan Fernandes salientou a necessidade de contrapor a “onda” neoliberal, criticou denúncias relacionadas ao PT e, inclusive, sublinhou que a sua conduta era disciplinada, mas não controlada ou submetida aos ditames do partido. Com mais de 50 livros publicados, Florestan Fernandes marcou para sempre as ciências sociais no Brasil.
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Por que crucificar a Grécia


Flávio Lyra* / Economista
Reproduzido do Outras Palavras

CRISE NA GRÉCIA - A crise de endividamento da Grécia tem sido tema obrigatório da imprensa em todo o mundo. A Grécia é um pequeno país, membro da Zona do Euro desde 2001. Diariamente, atribui-se à crise grega as flutuações nos índices das bolsas de valores em todo o mundo.

A Zona do Euro, que adotou a moeda comum em 1990, abarca 17 dos 27 países que constituem a União Européia. Trata-se da maior economia do mundo, com cerca de 321 milhões de habitantes.

A Grécia, com 11 milhões de habitantes, representa apenas 3,4% da população da Zona e sua renda per capita é de 39 mil dólares, ou seja, o quádruplo da brasileira, portanto, um país “desenvolvido”.

Tem sido crescente a resistência que a população vem manifestando para submeter-se ao plano de austeridade que a União Europeia, em articulação com o Fundo Monetário Internacional, negociou com o governo do país, como condição para rolagem de sua dívida externa em condições de perdão parcial do valor devido.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Cumplicidade com o atraso


Raul Silva Telles do Valle / Advogado e Ambientalista
Reproduzido do sítio do Instituto Socioambiental

CÓDIGO FLORESTAL - Em setembro de 2010, em plena corrida presidencial, um grupo de organizações da sociedade civil encaminhou aos então candidatos um conjunto de questões relativas às propostas de modificação do Código Florestal. Já àquela época, avançava na Câmara dos Deputados o projeto ruralista de modificação da legislação florestal e as organizações queriam saber o que pensavam os aspirantes ao cargo maior do País.

A hoje presidenta da República, Dilma Rousseff, questionada se apoiava ou não a anistia proposta pelo texto então em tramitação, disse textualmente: “construímos no governo Lula um consenso de que a eventual conversão de multas só deve ocorrer após ações efetivas de recuperação das áreas desmatadas ilegalmente. Temos que estimular e apoiar esta transição, dando condições técnicas e materiais para nossos agricultores recuperarem estas áreas”.

A partir daí, a candidata e depois presidenta teve a oportunidade de repetir diversas vezes que não passaria a mão na cabeça de quem desmatou ilegalmente. Isso alimentou um sentimento difuso de esperança na sociedade, que, depois de aprovado o projeto ruralista pelo Congresso Nacional, passou a manifestar de forma inequívoca, por todos os meios disponíveis, amplo apoio à presidenta para que ela cumprisse com sua palavra. Ciente de que ela estava emparedada entre sua palavra e os anseios da sociedade, de um lado, e os interesses de uma parte expressiva de sua base de apoio parlamentar, os cidadãos brasileiros sinalizaram que ela poderia contar com eles para confrontar a chantagem dos representantes da elite agrária brasileira.