SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Bicicleta! Bicicleta! Bicicleta!

A capital do Rio Grande do Sul vem protagonizando uma série de debates sobre o uso da bicicleta como veículo de transporte e lazer. O movimento Massa Crítica (clique ao lado para acessar o blog e saber bem do que se trata) está contagiando a cidade e incentivando a discussão sobre as formas de locomoção numa sociedade dominada pelos automóveis.

O fato notório é que cada vez mais os engarrafamentos predominam, o stress urbano se dissemina nas mentes e corpos que ocupam os carros, ônibus e motos das grandes metrópoles. Trafegar de bicicleta, para este sociólogo, traz a alegria de viver a rua de perto, de exercitar as pernas e todo o corpo, mas também significa romper com a ideia de que só podemos chegar aos lugares que queremos ir usando as maneiras tradicionais.

Há alguns dias ocorreu o Fórum Mundial das Bicicletas, cuja carta aprovada após as conversas e diálogos pode ser acessada clicando aqui. Fica a pergunta, proposta pelo colega jornalista (de verdade, crítico e inteligente) Mauricio Tonetto (visite o blog Polêmicas do Tonetto): a bicicleta é moda ou é realmente uma alternativa ao caos urbano?

Se me permitem esboçar uma resposta, diria que a bicicleta é uma alternativa consistente de transporte e saúde. Não é uma revolução espiritual, social ou econômica. Também não é uma moda. Mas é uma forma de escapar da dependência do automóvel, sorrindo para a cidade enquanto nos direcionamos para os locais que precisamos ou queremos frequentar. Ainda estamos engatinhando, mas se uma razoável estrutura estiver disponível e as pessoas se dispuserem a experimentar, a bicicleta só tem a contribuir.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A grande contradição brasileira

Leonardo Boff
Teólogo e escritor

Mais e mais cresce a convicção, inclusive entre os economistas, seja do stablisment, seja da linha neokeynesiana, de que nos acercamos perigosamente dos limites físicos da Terra. Mesmo utilizando novas tecnologias, dificilmente poderemos levar avante o projeto do crescimento sem limites. A Terra não aguenta mais e somos forçados a trocar de rumo.

Economistas como Ladislau Dowbor entre nós, Ignace Sachs, Joan Alier, Herman Daly, Tim Jack e Peter Victor e bem antes Georgescu-Roegen incorporam organicamente o momento ecológico no processo produtivo. Especialmente o inglês T. Jack se celebrizou pelo livro “Prosperidade sem crescimento” (2009) e o canadense P. Victor pelo “Managing sem crescimento” (2008). Ambos mostraram que o aumento da dívida para financiar o consumo privado e público (é o caso atual nos países ricos), exigindo mais energia e uso maior de bens e serviços naturais não é de modo algum sustentável.

Os Prêmios Nobel como P. Krugman e J. Stiglitz, porque não incluem explicitamente em suas análises os limites da Terra, caem na armadilha de propor como saída para a crise atual um maior gasto público no pressuposto de que este produzirá crescimento econômico e maior consumo com os quais se pagarão mais à frente as astronômicas dívidas privadas e públicas. Já dissemos à saciedade, que um planeta finito não suporta um projeto desta natureza que pressupõe a infinitude dos bens e serviços. Esse dado já é assegurado.

O que Jack e Victor propõem é uma “prosperidade sem crescimento”. Nos países desenvolvidos o crescimento atingido já é suficiente para permitir o desabrochar das potencialidades humanas, nos limites possíveis do planeta. Então chega de crescimento. O que se pode pretender é a “prosperidade” que significa mais qualidade de vida, de educação, de saúde, de cultura ecológica, de espiritualidade etc. Essa solução é racional mas pode provocar grande desemprego, problema que eles resolvem mal, apelando para uma renda universal básica e uma diminuição de horas de trabalho. Não haverá nenhuma solução sem um prévio acerto de como vamos nos relacionar com a Terra, amigavelmente, e definir os padrões de consumo para que todos tenham o suficiente e o decente.

Para os países pobres e emergentes se inverte a equação. Precisa-se de “crescimento com prosperidade”. O crescimento é necessário para atender as demandas mínimas dos que estão na pobreza, na miséria e na exclusão social. É uma questão de justiça: assegurar a quantidade de bens e serviços indispensáveis. Mas simultaneamente deve-se visar a prosperidade que tem a ver com a qualidade do crescimento. Há o risco real de que sejam vítimas da lógica do sistema que incita a consumir mais e mais, especialmente bens supérfluos. Então acabam agravando os limites da Terra, coisa que se quer exatamente evitar. Estamos em face de um angustiante círculo vicioso que não sabemos como fazê-lo virtuoso sem prejudicar a sustentabilidade da Terra viva.

A contradição vivida pelo Brasil é esta: urge crescer para realizar o que o governo petista fez: garantir os mínimos para que milhões pudessem comer e, por políticas sociais, serem inseridos na sociedade. Para as classes já atendidas, precisa-se cobrar menos crescimento e mais prosperidade: melhorar a qualidade do bem viver, da educação, das relações sociais menos desiguais e mais solidariedade a partir dos últimos. Mas quem vai convencê-los se são violentamente cooptados pela propaganda que os incita ao consumo?

Ocorre que até agora os governos apenas fizeram políticas distributivas: repartiram desigualmente os recursos públicos. Primeiro garantem-se 140 bilhões de reais para o sistema financeiro a fim de pagar a dívida pública, depois para os grandes projetos e somente cerca de 60 bilhões para as imensas maiorias que só agora estão ascendendo. Todos ganham, mas de forma desigual. Tratar de forma desigual a iguais é grande injustiça. Nunca houve políticas redistributivas: tirar dos ricos (por meios legais) e repassar aos que mais precisam. Haveria equidade.

O mais grave é que com a obsessão do crescimento estamos minando a vitalidade da Terra. Precisamos de um crescimento mas com uma nova consciência ecológica que nos liberte da escravidão do produtivismo e do consumismo. Esse é o grande desafio para enfrentar a incômoda contradição brasileira.

Reproduzido do blog do
autor no sítio da
Carta Maior.