SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 8 de março de 2012

Uma defesa do feminismo radical

Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

Discordâncias são essenciais para as sociedades humanas, mas nem sempre são tratadas dessa forma. Na maioria das vezes, temos a tendência de encarar as divergências variadas como brigas, em que os protagonistas se vestem de opositores. Foi através de uma divergência completa com um amigo particular, com o qual concordo frequentemente, que consegui destravar este texto. São ideias que estavam trancadas na minha cabeça há algum tempo, e versam sobre o entendimento da situação da mulher na vida social contemporânea. Pratiquemos a discordância sadia. Digo em alto e bom tom: é importante defender o feminismo radical.

Um primeiro comentário é imperativo para explicar porque essas frases foram tão difíceis de escrever. Falar sobre a situação das mulheres, de maneira superficial, pode ser um empreendimento para qualquer ser humano em estado de lucidez. No entanto, a tentativa de aprofundar a situação da mulher, enquanto grupo social específico, a partir do olhar característico de um homem, constitui uma aventura difícil de realizar. A minha perspectiva de apreensão do mundo social, desde sempre, foi elaborada sobre os pilares do conjunto das atribuições masculinas, e mesmo que eu me esforce para conquistar uma libertação individual disso, permaneço posicionado num lugar de enunciação masculino. Pois bem. Caminhando num terreno minado, vou arriscar e defender a assertiva que fechou o parágrafo inicial.

Considero bastante rasteiros e demagógicos argumentos que não explicitem o que realmente são (na sua complexidade inerente), como se fossem coisas dadas, naturais e não precisassem de detalhamento. O texto ao qual me contraponho com veemência discursiva e prática afirma que “a raça humana é uma só” e “o cerne da questão é garantir direitos para todos”. No que diz respeito às duas sentenças, se as observarmos com rapidez, acharemos que está tudo bem. Mas o fato é que, em se tratando de uma concepção sobre o momento que vive o machismo, ou sobre as vitórias dos grupos feministas organizados na história, as duas ideias acima pouco ou nada acrescentam.

Ora, somos todos da raça humana, e isso está consumado. Entretanto, se pararmos por aí, nossa análise perde as evidências da realidade cotidiana e fica presa numa expressão estéril. Não precisa ir muito longe para perceber que são gritantes muitas das diferenças que insistem em se reproduzir nas sociedades contemporâneas, entre homens e mulheres. Um gigantesco equívoco é partir da premissa de que, na medida em que as mulheres conquistaram uma gama de direitos no final do século XX, ou porque as figuras políticas maiores do Brasil e da Alemanha são mulheres, a opressão retrocedeu de vez e “os espaços tradicionalmente dominados por homens vêm sendo ocupados por mulheres gradualmente, o que só aumentará com o tempo”. Desafio qualquer um a me mostrar quais são as evidências empíricas que trazem tanta certeza a uma visão de presente e futuro democrática como essa.

Pelo lado oposto da moeda, o que podemos ver é uma realidade em que o homem ainda age como se as mulheres possuíssem papeis sociais vinculados ao lar, aos dotes familiares, ao “ser reservada, atenciosa e disponível”. Sejamos sinceros e olhemos para os que nos cercam. Pensemos em quantos são os casais que conhecemos em que as mulheres sofrem com o ciúme do parceiro por motivos banais, como uma conversa com um amigo, um olhar mal compreendido ou qualquer circunstância imaginária. Quantos são os homens que se preocupam com o prazer sexual feminino?

A violência contra a mulher vigora em comentários, atitudes, pensamentos e na própria “filosofia” implícita na falácia de que a mulher é o sexo frágil – definição desprovida de muitos critérios. Em uma semana consumindo os meios de comunicação de massa (em 2012), nas vésperas do carnaval, quatro casos de violência contra a mulher foram relatados. Nenhum deles associado ao fato clamoroso, evidente, ou seja, ao fato de que se tratava de violência contra a mulher, numa sociedade machista. Nada além da rotina da desinformação. Uma menina de 12 anos estuprada dentro de um ônibus no Rio de Janeiro; uma festa organizada no Pará na qual os sujeitos mascarados estupraram as mulheres e, ao serem reconhecidos, assassinaram duas delas; o maior caso de cárcere privado do Brasil, que acabou em homicídio, motivado por ciúmes do ex-namorado para com um amigo da moça; e, finalizando esse tenebroso quadro, uma jovem que rejeitou uma cantada, precisou discutir para não ser forçada a fazer o que não queria, e terminou com uma bala no meio da face.

Seria ingenuidade demasiada pensar que os crimes citados são exceções. Na contramão dessa tolice, é apavorante constatar que aqueles são somente os acontecimentos que ganharam um espaço privilegiado no mercado da informação. E todos aqueles que seguem acontecendo e não ganham notoriedade?

Como aventureiro das palavras, vou mais longe, correndo o risco de sofrer retaliações agressivas por parte dos ciumentos de plantão. Numa sociedade em que os padrões de relacionamentos conjugais estão completamente arraigados na monogamia (embora os relacionamentos extraconjugais se multipliquem e alimentem uma hipocrisia bizarra), os homens concebem suas parceiras como “propriedades”, ainda que não digam ou neguem isso. Experimente dizer para 90% dos seus amigos que a namorada de algum deles esteve flertando com alguém. Faça o teste. Partimos do pressuposto de que convivemos com seres humanos lúcidos, civilizados (conceito perigosíssimo se estiver desacompanhado de minúcias), e que nada aconteceria além de uma conversa entre ambos os envolvidos na cena que propus. Doce ingenuidade, ou uma cegueira inexplicável.

No auge da inversão do meu lugar de enunciação, coisa que só posso fazer discursivamente, pois não sou mulher, tento me colocar no lugar delas. Tento sentir o nojo que muitas delas sentem ao serem abordadas como se estivessem expostas num balcão de carnes. Tento compreender o que é se constituir como pessoa num contexto em que o corpo e a beleza feminina valem milhões, e que parece que elas são objetos. Continuo tentando.

Acho mesmo que se queremos direitos iguais, se queremos um mundo mais adequado para a sobrevivência da espécie humana, é uma obrigação cidadã defender o feminismo radical. Sinceramente, não posso crer que pessoas estudiosas ainda usem o termo “radicalismo” com o significado de “extremismo”. Feministas extremistas, que bradem pela opressão sobre os homens, que façam qualquer negócio para sobrepujar os machos, estas são nocivas, não restam dúvidas. Só que radicalismo significa buscar as raízes, entrar de cabeça no debate, fugir da superficialidade tão degenerativa ao tecido social. O feminismo radical é o norte da luta pelos direitos femininos, pela libertação da mulher das amarras econômicas, políticas e também morais. É a sustentação de uma luta que está longe de acabar, que se mostra atual todos os dias.

As políticas de ações afirmativas que contemplam as mulheres demandam debates e aperfeiçoamentos até a exaustão. São pautas para ontem. Trazem consigo prazos de validade, para que depois que as estruturas de opressão estejam caindo, a dinâmica social possa se desenvolver sem o machismo. Não se trata de tornar os oprimidos os próximos opressores. Trata-se de agir politicamente no presente, na realidade viva, prática, atacando com força a demagogia verborrágica do lema “gradualmente vocês chegarão lá, meninas!”.

É certo que muitos vão dizer que as mulheres reproduzem o machismo, usam de alguns dos seus atributos singulares em jogos de poder com os homens ou apenas gostam de ser como são. Todas são questões inevitavelmente complexas, portanto sugiro muita cautela para os que pretendem alimentar tais linhas opinativas. Não tenho respostas para elas, mas me parece que o eixo do debate não é esse. A premissa central, na minha interpretação das evidências, deve ser a insistência das relações machistas nas sociedades contemporâneas.

O que não contribui definitivamente para a construção de uma sociedade menos machista (sim, homens, as sociedades contemporâneas são machistas!) é a reprodução de lugares comuns ou futurismos que acreditam numa processual “compreensão melhor de ambos os lados”, que levaria a um fantasioso “amadurecimento”. Relativizando o machismo, rejeitando focar nas raízes dos fenômenos, não agimos com bom senso, mas colaboramos com a manutenção das coisas como elas estão. É justamente isso que o feminismo radical não aceita, e com toda a razão.