SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Pierre Bourdieu, escola e capital cultural


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Os pioneiros trabalhos de Pierre Bourdieu e seus parceiros de pesquisa que obtiveram maior repercussão estão justamente relacionados ao estudo do campo escolar. A obra de Bourdieu é, todavia, bastante ampla e não deve ser pensada como um todo acabado, em que cada parte corresponde às outras que conduziriam a uma coerência absoluta. Proceder-se-á um tratamento exploratório sobre a postura sociológica de Bourdieu, além das noções de espaço social e classe, campo, habitus, capitais e capital cultural – finalizando com a sua relação com o campo escolar.

Leia também: CAPRARA, Bernardo. A influência do capital cultural
no desempenho estudantil: reflexões a partir do Saeb 2003
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A proposta de sociologia encontrada em Bourdieu (2005) está ancorada numa filosofia relacional, contrária ao substancialismo, dando ênfase às relações e misturando Cassirer e Bachelard. Noutro prisma, uma filosofia da ação, passível de ser alcunhada de disposicional, “[...] que atualiza as potencialidades inscritas nos corpos dos agentes e na estrutura das situações nas quais eles atuam ou, mais precisamente, em sua relação” (BOURDIEU, 2005, p. 10). O autor fomenta a captura das lógicas aprofundadas do mundo social, como uma tarefa da sua rotina científica, cujo sucesso está ligado a submergir numa especificidade de uma realidade empírica, situada e datada na história. Torna-se, então, possível erigi-la como um “caso particular do possível”, na expressão de Bachelard. O real é relacional, e Bourdieu (2005, p. 17/18) ressalva que

[...] é preciso cuidar-se para não transformar em propriedades necessárias e intrínsecas de um grupo qualquer (a nobreza, os samurais ou os operários e funcionários) as propriedades que lhes cabem em um momento dado, a partir de sua posição em um espaço social determinado e em uma dada situação de oferta de bens e práticas possíveis.

A base para a noção de espaço social está na ideia de diferença, separação, num aglutinado de posições coexistentes, mas distintas, “[...] exteriores umas às outras, definidas umas em relação às outras, por sua exterioridade mútua e por relações de proximidade, de vizinhança ou de distanciamento e, também, de ordem, como acima, abaixo e entre [...]” (BOURDIEU, 2005, p. 18/19). É primordial perceber que é um par de princípios que vigora como central para a diferenciação social, o capital econômico e o capital cultural. Sob a égide de ambos, o espaço social é construído fazendo com que os agentes ou os grupos se vejam espalhados em função dos aportes dos referidos capitais que possuem.

Construir o espaço social, essa realidade invisível, que não podemos mostrar nem tocar e que organiza as práticas e as representações dos agentes, é ao mesmo tempo possibilitar a construção de classes teóricas tão homogêneas quanto possível da perspectiva dos dois principais determinantes das práticas e de todas as propriedades que daí decorrem (BOURDIEU, 2005, p. 24).

O sociólogo francês desenha a realidade social com a imagem de microcosmos relativamente autônomos, os campos, universos intermediários nos quais estariam situados os agentes e as instituições que “produzem, reproduzem ou difundem a arte, a literatura ou a ciência” (BOURDIEU, 2004, p. 20). Noutras palavras, os campos são mundos sociais que correspondem a leis sociais mais ou menos específicas. Todos os campos são campos de força e de disputa, e a posição ocupada por cada agente na estrutura da distribuição do capital específico de cada campo vai encaminhar as suas possibilidades de atuação.

Os agentes se constituem enquanto agentes na medida em que, conforme Bourdieu, no ritmo peculiar da sua existência nos campos, constroem o habitus, isto é, suas disposições permanentes e duradouras, o sentido do jogo, as disposições incorporadas que orientarão as suas tomadas de decisão (BOURDIEU, 2008; 2010). Refere-se às “estruturas sociais de nossa subjetividade”, construídas em princípio na vivência das primeiras experiências sociais (habitus primário) e, posteriormente, da vida adulta (habitus secundário). É um princípio unificador, que recompõe a unidade velada na diversidade de práticas instituídas em campos tomados por diferentes lógicas.

Uma das funções da noção de habitus é a de dar conta da unidade de estilo que vincula as práticas e os bens de um agente singular ou de uma classe de agentes [...] O habitus é esse princípio gerador e unificador que retraduz as características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo de vida unívoco, isto é, em um conjunto unívoco de escolhas de pessoas, de bens, de práticas (BOURDIEU, 2005, p. 22).

Em síntese, ele é a maneira como as estruturas sociais se imprimem na racionalidade e no corpo dos agentes, por meio da interiorização da exterioridade, um “sistema de disposições duráveis e transponíveis”, em que as múltiplas respostas às variáveis situações são dadas a partir de um conjunto limitado de esquemas de ação e pensamento (CORCUFF, 2001).

Vídeo da UNIVESP TV trata da abordagem de Bourdieu sobre o campo escolar

O termo capital, na obra de Bourdieu, ultrapassa a perspectiva econômica. O caminho é conceber alguns tipos de capitais, que são propriedades atuantes em determinados campos ou na totalidade do espaço social. Eles podem atuar em um estado objetivado, no formato de propriedades materiais, títulos, finanças, imóveis e objetos, por exemplo; podem, também, se apresentar num estado incorporado, num momento específico, por meio do desenvolvimento do habitus. O autor afirma que,

[...] sendo capital uma relação social, ou seja, uma energia social que existe e produz seus efeitos apenas no campo em que ela se produz e se reproduz, cada uma das propriedades associadas à classe recebe seu valor e sua eficácia das leis específicas de cada campo: na prática, ou seja, em um campo particular, nem sempre todas as propriedades incorporadas (disposições) ou objetivadas (bens econômicos e culturais), associadas aos agentes, são eficientes simultaneamente; a lógica específica de cada campo determina aquelas que têm cotação neste mercado, sendo pertinentes e eficientes no jogo considerado, além de funcionarem, na relação com este campo, como capital específico e, por conseguinte, como fator explicativo das práticas (BOURDIEU, 2008, p. 107).

De modo genérico, Bourdieu fala em quatro tipos de capital. No que vale para o capital econômico, ele destaca o controle dos recursos econômicos na sociedade em questão, como a propriedade privada de bens móveis e imóveis, a dominação das ofertas de bens e serviços e a direção de empresas. O capital social representa um conjunto de relações produzidas no decorrer de uma trajetória (reconhecimento, autoridade, prestígio, influência, etc.). O capital simbólico, por sua vez, diz respeito à capacidade de impor uma visão específica sobre o mundo, sempre escorada numa divisão (eles versus nós), uma espécie de linguagem legítima, com pretensões de se configurar como “a verdade”.

O capital cultural compreende um conjunto de recursos e competências disponíveis e mobilizáveis em matéria de cultura dominante. Trata-se dos gostos, das disposições estéticas, fruídas a partir dos dominantes e traduzidas no estado incorporado através do habitus (disposições sistemáticas e esquemas de percepção). Esse é o aspecto mais complicado de ser adquirido pelos dominados, pois há uma distância entre aprender sobre música ou arte e manifestar a preferência, desfrutar dos elementos da cultura dominante. “Sendo pessoal, o trabalho de aquisição é um trabalho do ‘sujeito’ sobre si mesmo (fala-se em ‘cultivar-se’)” (BOURDIEU, 2007, p. 74). Os dois outros estados de capital cultural são, respectivamente, o objetivado pela posse de objetos culturais no ambiente doméstico e o institucionalizado pela posse dos títulos escolares reconhecidos, que incidem como sustentação distintiva dos dessemelhantes grupos de agentes.

No que concerne ao caráter do campo escolar, em tese, o capital cultural dos estudantes condiciona suas carreiras no mundo do saber sistematizado, fazendo com que aqueles que já partem de uma situação favorável desde nascença mantenham suas posições no desenrolar dos acontecimentos. A escola, território em que os despossuídos dos códigos culturais dominantes atuam com dificuldades, acaba por perder o sentido para eles, indicando uma espécie de “crise” nos sistemas de ensino. De maneira similar, os grandes colégios reconhecidos pelos grupos dominantes seriam os responsáveis por recrutar a renovação dos principais postos de trabalho na sociedade em questão (BOURDIEU, 1998).

Para o autor, o sistema escolar e a própria ação pedagógica conteriam o caráter de reprodução do arbitrário cultural dominante, mascarando-se com falsas alternativas de sucesso aos despossuídos do capital cultural necessário para resultados satisfatórios. A escola transformadora, dotada do esperançoso ideal de melhorias sociais, não passaria de uma falácia. As escolas brasileiras, vistas de dentro, para além dos seus muros, para além das matérias especiais feitas pelos grandes canais de televisão, observadas no calor do cotidiano, apresentam sinais de que a reprodução das desigualdades convive com honestas tentativas de mudança. A experiência de dois anos de docência em escolas públicas indica que estão presentes as considerações de Bourdieu, em geral e em princípio, é imperativo ressaltar, ainda que sejam elas partes integrantes de uma miscelânea de elementos. Só uma pesquisa de razoável densidade está apta a afirmar com maior clareza a importância do capital cultural no desempenho estudantil médio.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. A Distinção. Porto Alegre: Zouk, 2008.

_______________. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2011.

_______________. A Ilusão Biográfica. In: AMADO, Janaina e FERREIRA, Marieta de Moraes (organizadoras). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996b.

_______________. A Reprodução. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.

_______________. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. São Paulo: Companhia das Letras, 2010b.

_______________. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990.

_______________. Escritos de Educação: Pierre Bourdieu. Petrópolis: Vozes, 2007.

_______________. Los Herederos: Los Estudiantes y La Cultura. Buenos Aires: 2002a.

_______________. Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

_______________. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010a.

_______________. O Senso Prático. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

_______________. Ofício do Sociólogo: Metodologia da Pesquisa na Sociologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004b.

_______________. Os Usos Sociais da Ciência. São Paulo: UNESP, 2004a.

_______________. Pierre Bourdieu Entrevistado por Maria Andréa Loyola. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002b.

_______________. Razões Práticas: Sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996a.

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