SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 29 de maio de 2012

Cumplicidade com o atraso


Raul Silva Telles do Valle / Advogado e Ambientalista
Reproduzido do sítio do Instituto Socioambiental

CÓDIGO FLORESTAL - Em setembro de 2010, em plena corrida presidencial, um grupo de organizações da sociedade civil encaminhou aos então candidatos um conjunto de questões relativas às propostas de modificação do Código Florestal. Já àquela época, avançava na Câmara dos Deputados o projeto ruralista de modificação da legislação florestal e as organizações queriam saber o que pensavam os aspirantes ao cargo maior do País.

A hoje presidenta da República, Dilma Rousseff, questionada se apoiava ou não a anistia proposta pelo texto então em tramitação, disse textualmente: “construímos no governo Lula um consenso de que a eventual conversão de multas só deve ocorrer após ações efetivas de recuperação das áreas desmatadas ilegalmente. Temos que estimular e apoiar esta transição, dando condições técnicas e materiais para nossos agricultores recuperarem estas áreas”.

A partir daí, a candidata e depois presidenta teve a oportunidade de repetir diversas vezes que não passaria a mão na cabeça de quem desmatou ilegalmente. Isso alimentou um sentimento difuso de esperança na sociedade, que, depois de aprovado o projeto ruralista pelo Congresso Nacional, passou a manifestar de forma inequívoca, por todos os meios disponíveis, amplo apoio à presidenta para que ela cumprisse com sua palavra. Ciente de que ela estava emparedada entre sua palavra e os anseios da sociedade, de um lado, e os interesses de uma parte expressiva de sua base de apoio parlamentar, os cidadãos brasileiros sinalizaram que ela poderia contar com eles para confrontar a chantagem dos representantes da elite agrária brasileira.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

As faces cruzadas do concurso para o magistério estadual gaúcho


Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

EDUCAÇÃO - Muito tem se falado no Rio Grande do Sul acerca do concurso realizado no dia 15 de abril deste ano, cujo objetivo era suprir a carência de 10 mil professores no estado. Mais de 60 mil pessoas que cumpriam os requisitos do pleito pagaram, cada uma, a inscrição de 120 reais e se prepararam (uns mais, outros menos) para realizar a prova objetiva. Passadas algumas semanas do fatídico marco no calendário, o governo gaúcho anunciou os resultados. A conclusão alarmou as famílias preocupadas com a educação dos seus filhos: pouco mais de quatro mil (dos 60 mil inscritos) foram aprovados, o que significa dizer que cinco mil vagas permanecerão insistindo nas escolas, além de demonstrar a incompetência dos seus ex-futuros professores.

Colocada dessa maneira, a história despertou discursos, programas midiáticos, discussões e argumentações variadas caracterizando o cenário da educação brasileira. Rapidamente os polos se disseminaram. De um lado, a ideia de que os profissionais que galgavam a possibilidade do exercício docente, na realidade do sistema de ensino público atual, estão muito aquém da qualificação exigida para as suas tarefas. Os números pretensamente provariam a tese. São excepcionalmente altos no que tange à reprovação dos candidatos. A decorrência dessa análise às vezes sugere que estes professores, despreparados, deveriam se preocupar em melhorar seu nível de conhecimento. Deixar de lado as famigeradas lutas políticas por condições adequadas de trabalho, ou mesmo a busca pela aplicação do piso salarial da categoria, ainda não praticado por aqui. Reducionismo puro.

sábado, 26 de maio de 2012

Por que o futuro da Europa é importante


Immanuel Wallerstein* / 
Sociólogo Estadunidense
Tradução de Daniela Frabasile / Reproduzido do Outras Palavras

CRISE NA EUROPA - As eleições nos sistemas parlamentares ocidentais sempre têm a ver com o centro. A situação mais comum é aquela em que existem dois partidos dominantes – um mais à direita e outro mais à esquerda do centro. Existem diferenças entre as políticas que esses partidos colocam em prática quando estão no poder, mas também enormes semelhanças. A eleição nunca expressa uma divisão política profunda. Seu papel é, em vez disso, o de de redefinir e relocalizar o centro – o ponto de alavanca, na gangorra entre os partidos.

Uma situação muito mais rara é o repúdio ao centro e, portanto, aos dois partidos – anteriormente principais – que se posicionam próximos ao ponto central. Esse resultado joga as políticas nacionais em um grande turbilhão, o que por vezes tem impactos consideráveis fora do país.

As últimas eleições na França e na Grécia ilustram bem essas duas situações. Na França, os socialistas derrotaram o partido conservador UMP, e deslocaram o centro. Num cenário caótico do sistema-mundo, e particularmente na União Europeia, o deslocamento do centro na França terá grande impacto. Mas não espere que as políticas reais de François Hollande sejam radicalmente diferentes daquelas de Nicolas Sarkozy.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Desenvolvimento e subdesenvolvimento no mundo pós-neoliberal

Presidente do IPEA

ECONOMIA - Na segunda metade do século XVIII, o aparecimento da primeira Revolução Industrial deu início à transição da sociedade agrária. As bases da nova sociedade urbano-industrial impuseram significativos ganhos de produtividade no trabalho, decorrentes da emergência do novo padrão de produção e do consumo associado ao uso intensivo de carbono. Com isso, a expansão da base material da economia foi tornando possível elevar o padrão de bem-estar social por meio de grandes lutas sociais e políticas, como no caso de modalidades emancipatórias na condição de trabalho pela sobrevivência. Diante da elevação da expectativa média de vida para mais de 50 anos de idade, houve importante redução da carga horária de trabalho dos segmentos sociais ativos e proteção aos riscos do trabalho penoso.

Por meio da captura de parte do excedente econômico gerado pela sociedade urbano-industrial, responsável pela expansão do fundo público, tornou-se possível viabilizar o financiamento da inatividade de crianças, adolescentes e idosos por meio de uma garantia generalizada de serviços (saúde, transporte e educação públicos), bens (alimentação, saneamento e moradia) e rendas (bolsas e subsídios). Uma vez concluída a formação para o trabalho (até os 15 anos de idade), tinha início o exercício do trabalho durante 30 a 35 anos, com contribuição ao fundo público capaz de permitir a imediata passagem para a inatividade (sistema de aposentadoria e pensão que legava viver sem mais depender do mercado de trabalho). Isso se tornou mais evidente desde o final do século XIX, com o avanço da Segunda Revolução Tecnológica, que, simultaneamente à ocorrência da Depressão entre 1873 e 1896, abriu lugar à nova disputa entre nações emergentes pela sucessão da liderança inglesa. Alemanha e Estados Unidos despontaram com o protagonismo da industrialização retardatária, com ganhos de produtividade superiores a todos os demais países. A solução final, todavia, ocorreu mais tarde, após a realização de duas grandes guerras mundiais, em que a Alemanha foi derrotada sucessivamente.

Lester Salamon e o Terceiro Setor


O professor Lester Salamon (saiba mais), da John Hopkins University, proferiu palestra, nesta terça (22/05), na Universidade Federal do Rio GrImagem retirada do sítio http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ed/Lester_M._Salamon.jpg/220px-Lester_M._Salamon.jpgande do Sul (UFRGS). Atendendo ao convite do Programa de Pós Graduação em Sociologia (PPGS/UFRGS), o pesquisador supracitado detalhou os resultados dos seus estudos sobre a sociedade civil sem fins lucrativos ao redor do planeta.

O estadunidense ressaltou que, no início, a dificuldade de trabalhar com dados fieis sobre o terceiro setor era muito latente. Os organismos de grande porte responsáveis por organizar as estatísticas não conseguiam contemplar a complexidade da temática. Teimoso, como o próprio Salamon se definiu, depois de muita estrada foi convencendo, com suas pesquisas, os referidos organismos, e eles passaram a prestar mais atenção ao assunto.

sábado, 19 de maio de 2012

Economista Maria da Conceição Tavares recebe prêmio de mérito científico


A economista Maria da Conceição Tavares (saiba mais), reconhecida por suas posições fortes, contrárias ao fatalismo da regulação "natural" (?!) do mercado na economia, recebeu no dia 17 de maio de 2012 o maior prêmio científico existente no Brasil. O "Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia" foi entregue pelas mãos da Presidente da República, Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto.

---- Segue o discurso proferido pela presidente no momento da premiação ----

Este é um discurso de uma discípula para uma mestra, com muito orgulho e muito carinho. Orgulho por presidir esta cerimônia, que concede o maior e mais importante prêmio científico do Brasil – o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia – à professora Maria da Conceição Tavares, por sua imensa generosidade, por sua grande inteligência, seus méritos intelectuais, sua extraordinária dedicação à formação de várias gerações de brasileiros e brasileiras – de economistas, sim, mas de pessoas comprometidas com o país.

Carinho por homenagear minha mestra, que eu sou testemunha de seu compromisso com o Brasil, com o desenvolvimento do nosso país, com o desenvolvimento da América Latina. Compromisso que sempre cumpriu, tratando economia como ela deve ser tratada, como economia política.

Falo como aluna que fui da professora Maria da Conceição Tavares, com quem aprendi muito e continuo aprendendo com sua integridade, sua competência, sua firmeza de princípios. Aluna que a teve e tem como referência em todos estes anos, inclusive, hoje, em minhas tarefas como a primeira mulher a exercer a Presidência da República no Brasil.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A raiz dos nossos problemas de segurança


Luiz Eduardo Soares¹
Ricardo Balestreri²

A situação da segurança pública no país permanece grave, a despeito de respeitáveis esforços pontuais. Aconteceram avanços regionais, mas o resultado nacional segue inalterado, pois os problemas se disseminaram para o interior e a insegurança cresceu em algumas regiões.

Os cerca de 50 mil homicídios dolosos por ano tornam o Brasil o segundo país mais violento do mundo em números absolutos. Apenas 8% desses casos são esclarecidos - ou seja, 92% ficam impunes.

A brutalidade de segmentos da polícia bate recordes. Por outro lado, temos a terceira população carcerária do mundo e a que cresce mais rápido, pois prendemos muito e mal.

Na outra ponta, policiais não são valorizados. Em geral, os salários são insuficientes. As condições de trabalho, inadequadas. A consequência é a adesão ilegal ao segundo emprego na segurança privada informal.

Para evitar o colapso do orçamento público, as autoridades se calam. Preferem conviver com a ilegalidade na base do sistema. Resultado: os turnos de trabalho irracionais não podem ser ajustados; a dupla lealdade obsta a execução das rotinas; a disciplina interna é contaminada pela vinculação com o ilícito; e a impunidade estimula a formação de grupos de interesse cuja expressão extrema são as milícias.

Na raiz dos problemas, está a arquitetura institucional da segurança pública legada pela ditadura, que encontrou abrigo na Constituição.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Uma hora sobre Pierre Bourdieu


Aproveitando a sequência de reflexões sobre a eleição na França e o contexto europeu, esse vídeo de uma hora de duração traz muitas informações sobre um dos sociólogos mais importantes do século 20, o francês Pierre Bourdieu. Ele coloca com suas próprias palavras muitas das suas concepções sobre a realidade social contemporânea. As falas estão traduzidas em espanhol, o que tende a diminuir a compreensão, embora seja possível entender os seus fundamentos argumentativos.

Saiba mais

- A escola e o capital cultural dos alunos.

..

A possível rebelião francesa


Ignacio Ramonet
Sociólogo e Jornalista

Algo como a sensação de asfixia. É o que vivem, em diversos países da União Europeia (UE), inúmeros cidadãos, estrangulados por tantas restrições, reduções e golpes claros. Um sentimento acentuado pela constatação de que a alternância política não modifica o “furor de austeridade [1]” dos governantes.

Na Espanha, por exemplo, a sociedade havia sido duramente penalizada pelas doses cavalares dos “remédios” ministrados, a partir de maio de 2010, pelo primeiro-ministro (socialista) José Luis Rodriguez Zapatero. Nas eleições legislativas de 20 de novembro último, Mariano Rajoy, candidato do Partido Popular (PP, conservador) prometeu nada menos que a “mudança” e o “restabelecimento da felicidade”. Mas um dia depois de eleito, machado à mão, lançou-se à mais devastadora destruição de conquistas sociais da história da Espanha.

Pode-se citar outros exemplos, notadamente Portugal. Neste país, em junho de 2011, depois de ter imposto quatro programas muito impopulares de “disciplina fiscal” e de submeter-se a um “plano de salvamento” da troika [2], o premiê socialista José Socrates perdeu, obviamente, as eleições. Embora criticasse com virulência as medidas de “ajuste” dos socialistas, um novo chefe do governo, o conservador Pedro Passos Coelho, afirmou já em sua eleição que cumpriria as exigências da União Europeia (UE), aplicando “uma dose ainda mais forte de austeridade [3]”…

De que servem, então, as eleições se, nos temas essenciais – questões econômicas, financeiras e sociais – os novos governantes adotam a mesma política de seus antecessores? Como não duvidar do próprio sistema democrático? Porque todos constatam que, nos marcos da União Europeia, não há controle cidadão sobre um enorme elenco de decisões cruciais para a vida das pessoas. E que as exigências – consideradas prioritárias – dos mercados, das agências de avaliação de risco e dos especuladores limitam severamente os princípios essenciais da República [4]. Muitos governos (de direita e de esquerda) estão agora convencidos que os mercados têm sempre razão, sejam quais forem as consequências para os cidadãos. Aos seus olhos, os mercados são a solução; e a democracia, o problema.

terça-feira, 1 de maio de 2012

O trabalho, no Dia do Trabalhador

Por Emir Sader
Sociólogo e Cientista Político*

O homem se distingue dos outros animais por várias coisas, mas a determinante é que o homem tem capacidade de trabalho. O homem transforma o mundo, o meio que o cerca, através do trabalho, para encontrar as formas de sua sobrevivência e para amoldar o mundo conforme os seus projetos. O homem tem o poder de humanizar a natureza, enquanto os outros animais apenas recolhem o que encontram na natureza ou fazem trabalhos puramente mecânicos e repetitivos, sem criatividade – como os casos das formigas e das abelhas.

O progresso humano foi resultado do trabalho humano, embora o trabalho, nas sociedades existentes até aqui, seja um trabalho alienado, em que os trabalhadores não possuem os meios de produção para plasmar seu trabalho conforme suas decisões conscientes. Tenham que submeter a ser explorados pelos que não produzem, mas possuem capital suficiente para ter meios de produção que explorem o trabalho alheio.

A transformação do mundo só pode ser explicada pela evolução do trabalho humano, da capacidade humana de modificar o mundo que o cerca. O homem foi escravo da natureza durante séculos e séculos, acordava quando havia luz e dormia quando ela terminava. Era vítima inerte das catástrofes naturais.

O trabalho humano é a fonte da construção das riquezas, dos bens de que o homem dispõe. Se pudesse decidir livremente, de forma consciente e democrática, o destino do seu trabalho, o mundo seria – será – muito destino, humanizado.

No entanto, a crítica das concepções tradicionais, que buscavam reduzir todas as contradições das nossas sociedades à contradição capital-trabalho, como se as outras – de gênero, de etnias, entre outras – se resolvessem automaticamente quando fosse resolvida aquela contradição, levou à critica da centralidade exclusiva das contradições do mundo do trabalho. Afloraram contradições que sempre existiram, mas que ficaram escondidas pelas lutas dos trabalhadores contra a exploração. Surgiram os novos movimentos sociais – das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos quilombolas, das diversas formas de sexualidade, do meio ambiente, entre outros.

Ao mesmo tempo, as transformações ocorridas no mundo, com o desaparecimento do campo socialista e a expansão sem limites do capitalismo, representaram uma ofensiva brutal contra os trabalhadores e o mundo do trabalho. A simples possibilidade dos capitais de se deslocarem para qualquer lugar do mundo para explorar mão de obra nas condições mais brutais, já representa uma violência brutal contra os direitos dos trabalhadores.

O conjunto desses fatores levou à diminuição da importância do mundo do trabalho – invisibilizado pela mídia –, os próprios estudos sobre o mundo do trabalho perderam muito importância, justamente quando exigem muito mais investigação, porque as formas de exploração do trabalho se tornaram muito mais complexas e diversificadas.

Nunca como na atualidade tanta gente vive do seu trabalho, por mais heterogêneos que eles sejam. Homens e mulheres, negros, brancos, indígenas, idosos e crianças, todos trabalham. A riqueza humana continua a ser produzida pelo trabalho humano.

A maioria esmagadora da humanidade gasta grande parte do seu tempo de vida trabalhando – para enriquecer algumas outras pessoas –, a atividade do trabalho é a que ocupa a esmagadora maioria das pessoas e do seu tempo de vida. O trabalho é a atividade transversal que cruza países, classes etnias, gêneros, idades.

O trabalho precisa voltar a ganhar a centralidade que requer, sem deslocar por isso as outras contradições, mas se articulando com elas. Somente assim a grande luta contra a exploração do trabalho, a alienação do trabalho e da consciência humana, poderá avançar na luta pela emancipação humana.

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Texto reproduzido do blog do autor no sítio
Carta Maior.
Título original:
O trabalho, a atividade mais transversal da humanidade.

* Emir Sader (São Paulo, 13 de julho de 1943) é Sociólogo e Cientista Político. Brasileiro, de origem libanesa, é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, mestre em Filosofia Política e doutor em Ciência Política por essa mesma instituição. Nessa mesma universidade, trabalhou ainda como professor, inicialmente de filosofia e posteriormente de ciência política. Trabalhou também como pesquisador do Centro de Estudos Sócio Econômicos da Universidade do Chile e foi professor de Política na Unicamp. Atualmente, é professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), dirige o Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde é professor de Sociologia.