SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

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segunda-feira, 28 de maio de 2012

As faces cruzadas do concurso para o magistério estadual gaúcho


Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

EDUCAÇÃO - Muito tem se falado no Rio Grande do Sul acerca do concurso realizado no dia 15 de abril deste ano, cujo objetivo era suprir a carência de 10 mil professores no estado. Mais de 60 mil pessoas que cumpriam os requisitos do pleito pagaram, cada uma, a inscrição de 120 reais e se prepararam (uns mais, outros menos) para realizar a prova objetiva. Passadas algumas semanas do fatídico marco no calendário, o governo gaúcho anunciou os resultados. A conclusão alarmou as famílias preocupadas com a educação dos seus filhos: pouco mais de quatro mil (dos 60 mil inscritos) foram aprovados, o que significa dizer que cinco mil vagas permanecerão insistindo nas escolas, além de demonstrar a incompetência dos seus ex-futuros professores.

Colocada dessa maneira, a história despertou discursos, programas midiáticos, discussões e argumentações variadas caracterizando o cenário da educação brasileira. Rapidamente os polos se disseminaram. De um lado, a ideia de que os profissionais que galgavam a possibilidade do exercício docente, na realidade do sistema de ensino público atual, estão muito aquém da qualificação exigida para as suas tarefas. Os números pretensamente provariam a tese. São excepcionalmente altos no que tange à reprovação dos candidatos. A decorrência dessa análise às vezes sugere que estes professores, despreparados, deveriam se preocupar em melhorar seu nível de conhecimento. Deixar de lado as famigeradas lutas políticas por condições adequadas de trabalho, ou mesmo a busca pela aplicação do piso salarial da categoria, ainda não praticado por aqui. Reducionismo puro.

Por outro viés, a insurgência da crítica feroz e imediata à metodologia geral da disputa, desde a contagem dos pontos, visitando as orientações provenientes da reforma em curso no Ensino Médio até chegar ao “interesse evidente” do governo em subjugar os trabalhadores da educação, desvalorizar ainda mais estes herois nacionais. A comprovação do processo conspiratório em vigência nos calabouços do Palácio Piratini se assentaria no não pagamento do piso salarial, na “reforma neoliberal” do Ensino Médio erigida aos trancos, no engajamento em atender às demandas do Banco Mundial e seus comparsas obstinados por austeridade para os outros.

Os fenômenos sociais e as interpretações que se faz sobre eles carregam um potencial intrínseco, magnífico, que é a possibilidade da produção de diferentes versões sobre os mesmos acontecimentos. Os fatores que estão aptos a influenciar a fabricação das histórias, assim como os fundamentos argumentativos que as permeiam, quiçá as conclusões que elas geram, são vestidos com tantos tecidos que o foco destes parágrafos não pretende dar conta. Apenas é importante lembrar tal capacidade, porque então abrimos os olhos para a miscelânea de componentes que abrange fenômenos como o polêmico concurso do magistério estadual gaúcho. É muito precipitada, extremamente irreal e fora de contexto, uma visão que separa em duas faces contrapostas, num jogo de soma zero, os ocorridos na pauta educacional surrada à exaustão nesse período posterior à divulgação das notas nos testes objetivos.

No mínimo, parece mais convincente pensar a situação sob um ângulo cruzado, com relação aos extremos interpretativos. Sendo verdade o lado “cara” da moeda, ou seja, a existência de problemas na formação dos educadores, também é verdade o lado “coroa” dela, isto é, o referido concurso não constitui um momento solto no universo do ensino público. A proposta destes escritos é notar o entrelaçamento inerente à realidade social, que nunca será explicada por uma única assertiva, baseada num agregado exclusivo de postulações de qualquer ordem discursiva.

Negar a fragilidade da grande maioria das instituições que estão formando os licenciados de hoje é um tiro no pé na defesa por um ensino democrático e de qualidade. Não precisamos ir longe para verificar que, embora o crescimento das ofertas de graduação seja manifesto, não se aventam de movimentos de aprendizagem consistentes no rigor da palavra. De fato, temos cursos bons e ruins, faculdades melhores ou piores. Muitas más faculdades e graduandos desinteressados. A responsabilidade pelas notas baixas no pleito em debate não pode e nem deve recair somente nas costas dos concorrentes, mas tem que deixar em alerta os responsáveis por formá-los e, por que não, eles próprios. Não podemos (os professores) ceder à acomodação, repetindo aulas repetidas, tampouco esquecer que o conhecimento e a construção do saber são os alicerces que moldam a boniteza, na expressão de Paulo Freire, da nossa atividade cotidiana. Admitir nossas lacunas e procurar, de verdade, os caminhos da qualificação e do estudo permanente – eis um rumo imperativo.

Há, contudo, mais a se dizer sobre este singelo 15 de abril e seus desdobramentos. Ora, desafio quem desconhece a realidade da educação estadual a confeccionar uma breve enquete e percorrer o chão de cinco escolas. Elas são muitas, em um dia isso é materializável. Cabe perguntar quantos são os docentes exercendo regência de classe que trabalham ancorados na falta de direitos e estabilidade dos contratos temporários; quantos labutam mais de 40 horas semanais, em locais diversos, para aumentar a remuneração e sobreviver com dignidade num mundo em que o dinheiro compra quase tudo, e a falta dele desespera os indivíduos; como são as realidades múltiplas incorporadas nos alunos, reunidos em turmas que passam de 30 pessoas; qual é o interesse que os estudantes têm pelo estudo; e, finalmente, mas isso pode ser feito sem a presença física nos colégios, qual é a percepção e o entendimento simbólico, em outras palavras, o valor social da educação que os discentes percebem da interação entre governo, sociedade e magistério. Feito todo esse trajeto, temos um quadro complexo e desanimador. Baixos salários, desvalorização, turmas enormes, rusgas disciplinares, ausência de recursos humanos (leia-se, falta de professores, pedagogos e etc.), enfim, uma gama de caracteres que, se não podem ser generalizados, podem ser encontrados em mais de um estabelecimento de ensino estadual.

Quanto ao mérito da prova objetiva, em si, ecoam também críticas pesadas. Particularmente, não achei a prova tão ruim, muito longe de ser uma avaliação complicada de ser resolvida. Podemos questionar várias coisas nela, porém dizer que estava difícil, isso sim é difícil de defender. Ela poderia, talvez, ter sido pensada com outros critérios. Algumas afirmações nas questões de humanidades dizem respeito ao campo da compreensão, não são fatos prontos, mas nada de muito absurdo se comparado ao senso comum hegemônico.

O que fica válido, dado tamanho imbróglio e a continuidade do assunto? Parece que um bocado dos dois lados da moeda. Torna-se prudente atentar para a qualidade dos profissionais que estão se graduando nas licenciaturas, estreitar os laços entre as mais reconhecidas Universidades e a escola básica, ajudar para que os professores sejam também, ao menos em parte, pesquisadores da realidade e do conteúdo ao seu alcance. Pesam, no entanto, as contingências coletivas, a precariedade da rotina à qual se deparam estes educadores. Vem a calhar para o governo o fervor sobre a desqualificação dos candidatos ao magistério, tendo o governo tomado essa postura direta ou indiretamente. Só não podemos ocultar que o fenômeno em discussão congrega uma teia de relações e argumentos, que não cabem numa abordagem reducionista.