SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Edgar Morin: "A grande questão é como abolir a especulação do capital financeiro"


A revista Carta Capital entrevistou o pensador francês Edgar Morin, hoje com 90 anos, no auge da sua lucidez, em Paris. A entrevista foi publicada na edição do dia 15 de maio de 2012. O sociólogo, ex-integrante da Resistência Francesa, possui origem judaica e trocou de nome durante a Segunda Guerra Mundial. Seus dois últimos livros se chamam, respectivamente, "O caminho" e o "O caminho da esperança", este último elaborado com o ex-embaixa­dor Stéphane Hessel, de 94 anos.

Morin, que possui trabalhos em diversas áreas e é considerado um dos maiores intelectuais franceses ainda vivos, considera que "[...] a grande questão atualmente é sa­ber como abolir a especulação do capital financeiro (saiba mais sobre o capital financeiro) que aterroriza os Estados e esma­ga os povos, como na Grécia”. O francês falou sobre variados assuntos. Reproduzimos abaixo a entrevista produzida pela Carta Capital, através do sítio da Escola da Complexidade.

Carta Capital: O que o motivou a escre­ver com Stéphane Hessel "O Caminho da Esperança"?

Edgar Morin: Depois de "Indignez-vous", diziam a Hessel que não bastava indig­nar-se, e ele retrucava afirmando que "O Caminho" apontava uma via. Decidimos então fazer um pequeno livro, num con­texto mais francês, para defender, du­rante a campanha presidencial, uma po­lítica possível mesmo neste país em situação de interdependência em relação à globalização. Depois do fim dos totali­tarismos do século XX, novos monstros surgiram, o capitalismo financeiro des­conectado da produção e os fanatismos nacionalistas, étnicos e religiosos.

CC: O senhor diz no livro "O Caminho da Esperança" que o liberalismo econômico revelou-se uma ideologia falida e que o laissez-faire, mais do que enriquecer, empobreceu as pessoas. Como seria uma economia social solidária?

EM: Se desenvolvermos a agricultura familiar e orgânica, produziremos alimentos de qualidade para todos. Mas seria preciso haver cooperativas, asso­ciações como as Amaps francesas, para eliminar intermediários predado­res. Esse tipo de comércio funciona en­tre pequenos produtores de cacau e ca­fé na América Latina. Numa economia plural, a hegemonia do lucro seria re­duzida progressivamente, porque desenvolveríamos cada vez mais outras formas de produção e consumo.

CC: Entre as citações que abrem "O Ca­minho", há a frase de Kenneth Boulding: “Quem acredita que um crescimento ex­ponencial pode durar para sempre num mundo finito é um louco ou um economis­ta”. Qual o futuro do homem no planeta?

EM: No futuro haverá uma possibilida­de de metamorfose sociológico-cultural que responderá à realidade da interde­pendência planetária atual. Tudo deve ser reformado, a justiça, a economia, a burocracia, o consumo, o modo de vida, o amor. Nosso desenvolvimento técnico­ industrial ainda não destruiu o planeta porque ele pode subsistir mesmo quan­do o homem não existir mais. A bomba pode acelerar um pouco as coisas.

CC: No Le Monde, três especialistas di­zem que um ataque preventivo de Israel contra alvos iranianos seria um erro de consequências dramáticas. Segundo eles, esse ataque partiria de um país não sig­natário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), Israel, con­tra um país signatário, o Irã. Isso provo­caria uma implosão do TNP, que protege contra a proliferação nuclear. O que o se­nhor pensa disso?

EM: Israel, Paquistão e Índia fabricaram suas bombas atômicas sem au­torização. Se o Irã faz a sua, segue o mesmo exemplo. O Irã é uma ditadura político-religiosa extremamente criti­cável, mas ainda não fez a bomba, en­quanto Israel deve ter entre 100 e 200 ogivas nucleares. Penso que o peri­go do Irã na situação mundial não é o da energia nuclear, antes a degradação dos conflitos múltiplos do mundo mu­çulmano do Oriente Médio, entre xii­tas e sunitas. A intenção de Netanyahu de bombardear o Irã é uma forma de desviar a atenção da questão palesti­na, da colonização que continua. Se lançar um ataque contra o Irã, embar­cará numa aventura da qual não se po­derão medir as consequências.

CC: Há alguns anos o senhor escreveu no Le Monde o artigo “Israel-Palestina: O câncer”, que foi processado por antissemitis­mo e inocentado. Na França não se pode criticar Israel?

EM: Essa é a estratégia não somente das autoridades políticas israelenses, mas de instituições como o Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França, cuja finalidade é justificar tudo o que Israel faz. Qualquer crítica à política israelense é ro­tulada de anti-semitismo, mesmo feita por um judeu. Por que essa histeria política dá certo? Primeiramente, porque há uma grande parte de judeus com uma espécie de cordão umbilical com Israel, para eles a primeira ou a segunda pátria, e eles gosta­riam de vê-la sem mácula. Na Alemanha, a política de exterminação de Hitler pesou nas consciências. Na França, o governo de Vichy colaborou com a deportação dos ju­deus. Esse complexo de culpa paralisa toda crítica a Israel. Ninguém é assassinado por criticar, mas quando criticamos so­mos acusados de anti-semitismo.

CC: Como o senhor viu a Primavera Árabe? O que pode surgir das revolu­ções tunisiana, egípcia e líbia?

EM: Vi essas revoluções com muita ale­gria. Elas mostram que nossas aspira­ções eram idênticas às dessas juventu­des árabes e de uma grande parte da po­pulação muçulmana. Mas vai acontecer como na Revolução Francesa, isto é, 1789 foi um raio de sol e depois houve regres­são, confiscos, o terror, Bonaparte. A Primavera inicia uma nova aventura histó­rica no mundo árabe. Haverá consequên­cias negativas e muitas positivas.

CC: O caso sírio parece mais complexo. Os Estados Unidos estão por trás da insurrei­ção na Síria com o objetivo de desestabili­zar o Irã ou o que se passa é uma revolta real contra um ditador forte, apoiado pela Rússia e pela China?

EM: Evidentemente, China e Rússia são um apoio importante para Bashar el-Assad, e é de admirar que a oposição esteja tão dividi­da. Talvez a insurreição consiga derrubar Assad, mas e depois? Perguntei meses atrás, ao embaixador do Iraque em Paris, um homem culto: “Os aspectos positivos da guer­ra americana são mais importantes que os aspectos negativos ou é o contrário?” Nós conhecemos os aspectos positivos, entre eles a eliminação de Saddam Hussein, e os negativos, entre outros, o esfacelamento de um país vítima de crises econômicas, polí­ticas e étnicas. Ele me respondeu: “É cedo para lhe dar a resposta”. Então, para a Sí­ria, acompanho o sofrimento dos rebeldes mas não sei o que virá dessa rebelião.