SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um “eu” balizador da vida social

Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

Há imprevistos interessantes. Num desses, surgiu uma viagem de cerca de 30 horas dentro de um ônibus. Poderia ser somente uma cansativa peregrinação. Mas, no fim, foram horas de instigantes reflexões sobre a vida e as pessoas, as relações entre elas.

Antes de qualquer coisa, um grupo de rapazes demonstrava que a viagem seria, no mínimo, engraçadíssima. Não era, entretanto, o que uma senhora sentada à direita pensava. A rapaziada falava alto, alguns palavrões, todos se conheciam. Eram trabalhadores com pouca qualificação, provavelmente retornando para casa após erguer a tal Arena porto-alegrense. Tá, eles incomodavam um pouco, desrespeitavam o coletivo com sua “hegemonia” discursiva no interior do veículo. Estavam sendo individualistas, não se importavam com o restante dos passageiros. Isso ficava bem claro.

A referida senhora, sentada à direita, desde o princípio bateu de frente com veemência àquela situação. Foi para o confronto ameaçando chamar a PM, a BM, a PF e todas as espécies de instrumentos repressivos do Estado. Ela estava evidentemente desgostosa com o falatório dos operários, cuja linguagem lhe parecia algo de surreal. Na verdade, eles falavam o idioma das ruas, do morro, da vida real. A senhora, com seus argumentos explicitamente individualistas, a cada momento se mostrando mais e mais preconceituosa, beirando a um tipo qualquer de fascismo, já manifestava claramente que constituía a outra face da mesma moeda.

Tudo isso fez pensar o quanto somos ensinados, dia após dia, a agir operando com o individualismo. Os faladores sem limites e a senhora que estava sentada à direita representavam as duas faces da moeda corrente do “eu” enquanto balizador da interação social. Ambos, na verdade, não estavam nem aí para a grande maioria dos viajantes. Viajantes que, cada qual a seu jeito, (re)construíam suas percepções sobre aquela algazarra toda.
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sobre o dia do sociólogo


No dia do sociólogo, cabe perguntar: o que é a sociologia? Tem gente que trata essa ciência como discurso, como uma variante da literatura ou como especulação ideológica. Tem gente que a trata como uma física social (ainda!?), um revelador científico/racional das verdades da vivência humana coletiva. Acho que a sociologia precisa ser vista como ela é, ou seja, como uma ciência entre as outras. Assim, desse jeito modesto, mas também ousado, ela pode cumprir o seu dever de lançar luz sobre os fenômenos sociais reais, abastecida por uma boa gama de métodos e um profundo rigor teórico. Sem o aporte metodológico, os objetos sociológicos parecem soltos; sem o rigor teórico, tanto relativo ao objeto de estudo, quanto ao próprio processo de construção do conhecimento, uma abordagem nada reflexiva triunfará. Óbvio, essa é uma das visões, é genérica, e ela pode ser considerada restrita ou equivocada. No entanto, mais importante é o fato de que, na sua trajetória até aqui, a sociologia esteve muito próxima de uma indignação, incomodando a lógica do poder estabelecido, questionando os pressupostos que norteiam a elevação das desigualdades. Coisas que os especialistas da grande mídia, os Magnoli's espalhados por aí, esquecem quando dizem suas bobagens sem fundamentos. Fica um grande salve a todos os sociólogos conhecidos e desconhecidos, sobretudo àqueles que não ocultam ou ocultaram os horrores desse mundo e protagonizaram ou protagonizam a busca por alternativas.

Obs.: Esta data se refere ao dia da sanção presidencial à Lei 6.888 de 10 de Dezembro de 1980, quando foi reconhecida a profissão liberal de sociólogo no Brasil, deixando de ser uma simples ocupação e equiparando-se a certas atividades com direito a honorários, a uma estrutura sindical adequada e à representação coletiva dos seus interesses como categoria profissional de nível superior.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fernando Atthanasio

Raquel Braun Figueiró*
Historiadora e Professora

– Atthanasio, Fernando Atthanasio.

Repetia várias vezes Laurindo de Oliveira Silvado, na noite que sucedeu aos tiros que levou no ventre e no braço direito, na doca do cais, ao anoitecer do dia 28 de novembro de 1893.

Fernando Atthanasio era um italiano negociante na cidade de Porto Alegre. Era casado e contava com seus 33 anos no dia em que Silvado fora baleado. No dia do crime saíra após o almoço para jogar cartas e tomar um trago na venda do seu Victor Gaclord. Do meio para o fim da tarde, fora para casa tomar uma taça de vinho e comer um pedaço de salame, servidos por sua mulher, Eufrasia. Tomara seu casaco escuro e saíra para os lados das docas do entorno do mercado. Ali ficara a fumar na beira do rio e a pensar na vida como se estivesse em um daqueles momentos em que o tempo para. Lembrara os motivos que o fizeram vir a Porto Alegre com sua esposa, há pouco mais de um ano.

Eufrasia era uma mulher madura, séria, esguia e observadora. Já contava com seus setenta anos ao casar com Fernando. Queria uma jovem companhia para a velhice, a qual ainda poderia lhe valer uns afagos que os homens da sua idade já não podiam mais lhe dar. Porém, queria também beber um pouco da juventude de outrem para não apagar totalmente os seus tempos áureos da memória, mesmo sabendo que o respeito de Fernando por ela não podia mais alcançar o fulgor de uma paixão e que ele talvez pudesse procurar outras mulheres com quem se deitar. Em Triumpho, sua cidade natal, Eufrasia havia acumulado certa quantia em dinheiro e deixou um filho mais velho que o marido. Naquela cidade, ao longo da vida tornara-se dona de campo e casa no valor de dois contos de réis e quantidade de gado no mesmo valor. A mulher vendera esse gado todo ao seu filho Silvio Gonçalves.

Fumando seu cigarro na beira do cais, Fernando Atthanasio lembrara tudo isso e os diversos mal entendidos travados entre ele e o filho da sua mulher. A situação tornara a vida em Triumpho insustentável. Tendo como negociar em Porto Alegre, o casal partira para a capital. Pensara em como a sua vida de imigrante diferia do que imaginara. Do sonho de terra e trabalhador agrícola, sua trajetória o transfigurara num errante das terras platinas. O que mais aquelas terras lhe reservavam?

À mulher, já casada e já tendo trilhado a maior parte de sua vida, restara acompanhar o marido e esperançar por uma velhice mais tranquila, longe das brigas travadas pelo filho e dos fuxicos da vila de Triumpho.

O que ambos não sabiam é que essa decisão não acalmaria a raiva de seu filho. Silvio Gonçalves fervilhava em pensar que o restante da herança de sua mãe iria para as mãos daquele mascate. Resolveu acabar com a raça do seu padrasto, encomendando a sua morte.

Nesse ponto é que todas as histórias se entrelaçam, quando o lanchão “Leopoldina” atracara na doca próxima ao mercado e a Fernando Atthanasio. Dela desembarcou Laurindo de Oliveira Silvado com um objetivo firme e frio a ser desfechado na capital. Fernando o reconheceu por saber da sua amizade com seu enteado. Foi ao seu encontro irado de raiva com a sua presença, indagando-o:

– O que fazes aqui diabo velho? Espero não ter vindo a mando do Gonçalves.

O outro proponente ficou surpreso em encontrá-lo tão rapidamente e retrucou as ofensas. Os ânimos se exaltaram a ponto de Laurindo Silvado já ter sacado a sua arma na frente de uma multidão de marítimos presentes no porto, sem se lembrar da discrição que essa incumbência necessitava.

Fernando Atthanasio, também armado, talvez a esperá-lo naquela embarcação ou talvez precavido pelas as incertezas da sua vida, disparou dois tiros contra Silvado e saiu em disparada para os lados do mercado, ainda tropeçando no meio do caminho.

A fuga desesperada de Fernando não o safou da pena de dez anos e seis meses na Casa de Correção de Porto Alegre. Haja vista, todos os marítimos, os negociantes e um músico que presenciaram partes daquela cena de um cair da noite na beira do cais da capital gaúcha. Fernando Atthanasio errou para a Correção da capital. Apenas em nove de maio de 1903 conseguira, outra vez, sentar-se livremente à beira do cais e se perguntar a quais outros lugares sua trajetória lhe enviaria.

* Raquel Braun Figueiró é Licenciada em História pela UFRGS, Mestranda em História Contemporânea pela UFF, Especialista em História da África pela FAPA e Professora de História na Rede Pública Estadual.
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sábado, 1 de dezembro de 2012

Sujata Patel sobre as mentes colonizadas


Pouco se conhece no mundo ocidental sobre a sociologia da Índia. A professora Sujata Patel (saiba mais), da Universidade de Hydebarad, apresentou conferência no Seminário Internacional Sociologias do Século 21, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS. Na sua fala, uma crítica ao conhecimento elaborado sob os pressupostos epistêmicos europeus, considerados como a única forma de produção do saber científico. Patel argumentou que a forma de pensar as sociedades colonizadas como exóticas apenas impede que se aprofundem osImagem reproduzida do sítio http://www.havenscenter.org/files/Patel2.jpg conhecimentos sobre elas. Abaixo disponibilizamos o atalho para um pequeno texto da socióloga, publicado pela International Sociological Association (ISA).

[…] Uma imaginação eurocêntrica se entende em termos de sua própria autoimagem. Este
self viu seu crescimento a partir do Iluminismo europeu, que criou um novo sujeito racionalista e humanista. Com razão e ciência, este sujeito conquistou tempo e espaço, desta forma garantindo e satisfazendo as demandas do progresso humano. Ao invés de perceber a modernidade como um sistema econômico mundial (um sistema de produção capitalista e seu mercado), sustentado por uma formação política (um sistema de Estados Nação com uma forma nacional legitimada pela lei), uma organização social (na forma de classes, gênero, raças e etnicidades) com práticas culturais (como o lazer e a boa vida), a imaginação eurocêntrica o reificou como um processo “culturalista” interno da Europa, como argumenta Arif Dirlik. Este self emergiu não somente em termos de seu próprio desenvolvimento endógeno, mas também na e por meio da organização de processos coloniais e imperiais de dominação. Contudo, acadêmicos europeus avaliaram e continuam a avaliar este discurso não em sua mútua relação com o colonialismo, mas dentro dos limites de sua própria história e linguagem endógenas. Hoje, esta orientação continua a explicar os processos de segunda ou alta modernidade, ou modernidade radical, na Europa e na América do Norte, e organiza a discussão do nacionalismo metodológico.

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