SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fernando Atthanasio

Raquel Braun Figueiró*
Historiadora e Professora

– Atthanasio, Fernando Atthanasio.

Repetia várias vezes Laurindo de Oliveira Silvado, na noite que sucedeu aos tiros que levou no ventre e no braço direito, na doca do cais, ao anoitecer do dia 28 de novembro de 1893.

Fernando Atthanasio era um italiano negociante na cidade de Porto Alegre. Era casado e contava com seus 33 anos no dia em que Silvado fora baleado. No dia do crime saíra após o almoço para jogar cartas e tomar um trago na venda do seu Victor Gaclord. Do meio para o fim da tarde, fora para casa tomar uma taça de vinho e comer um pedaço de salame, servidos por sua mulher, Eufrasia. Tomara seu casaco escuro e saíra para os lados das docas do entorno do mercado. Ali ficara a fumar na beira do rio e a pensar na vida como se estivesse em um daqueles momentos em que o tempo para. Lembrara os motivos que o fizeram vir a Porto Alegre com sua esposa, há pouco mais de um ano.

Eufrasia era uma mulher madura, séria, esguia e observadora. Já contava com seus setenta anos ao casar com Fernando. Queria uma jovem companhia para a velhice, a qual ainda poderia lhe valer uns afagos que os homens da sua idade já não podiam mais lhe dar. Porém, queria também beber um pouco da juventude de outrem para não apagar totalmente os seus tempos áureos da memória, mesmo sabendo que o respeito de Fernando por ela não podia mais alcançar o fulgor de uma paixão e que ele talvez pudesse procurar outras mulheres com quem se deitar. Em Triumpho, sua cidade natal, Eufrasia havia acumulado certa quantia em dinheiro e deixou um filho mais velho que o marido. Naquela cidade, ao longo da vida tornara-se dona de campo e casa no valor de dois contos de réis e quantidade de gado no mesmo valor. A mulher vendera esse gado todo ao seu filho Silvio Gonçalves.

Fumando seu cigarro na beira do cais, Fernando Atthanasio lembrara tudo isso e os diversos mal entendidos travados entre ele e o filho da sua mulher. A situação tornara a vida em Triumpho insustentável. Tendo como negociar em Porto Alegre, o casal partira para a capital. Pensara em como a sua vida de imigrante diferia do que imaginara. Do sonho de terra e trabalhador agrícola, sua trajetória o transfigurara num errante das terras platinas. O que mais aquelas terras lhe reservavam?

À mulher, já casada e já tendo trilhado a maior parte de sua vida, restara acompanhar o marido e esperançar por uma velhice mais tranquila, longe das brigas travadas pelo filho e dos fuxicos da vila de Triumpho.

O que ambos não sabiam é que essa decisão não acalmaria a raiva de seu filho. Silvio Gonçalves fervilhava em pensar que o restante da herança de sua mãe iria para as mãos daquele mascate. Resolveu acabar com a raça do seu padrasto, encomendando a sua morte.

Nesse ponto é que todas as histórias se entrelaçam, quando o lanchão “Leopoldina” atracara na doca próxima ao mercado e a Fernando Atthanasio. Dela desembarcou Laurindo de Oliveira Silvado com um objetivo firme e frio a ser desfechado na capital. Fernando o reconheceu por saber da sua amizade com seu enteado. Foi ao seu encontro irado de raiva com a sua presença, indagando-o:

– O que fazes aqui diabo velho? Espero não ter vindo a mando do Gonçalves.

O outro proponente ficou surpreso em encontrá-lo tão rapidamente e retrucou as ofensas. Os ânimos se exaltaram a ponto de Laurindo Silvado já ter sacado a sua arma na frente de uma multidão de marítimos presentes no porto, sem se lembrar da discrição que essa incumbência necessitava.

Fernando Atthanasio, também armado, talvez a esperá-lo naquela embarcação ou talvez precavido pelas as incertezas da sua vida, disparou dois tiros contra Silvado e saiu em disparada para os lados do mercado, ainda tropeçando no meio do caminho.

A fuga desesperada de Fernando não o safou da pena de dez anos e seis meses na Casa de Correção de Porto Alegre. Haja vista, todos os marítimos, os negociantes e um músico que presenciaram partes daquela cena de um cair da noite na beira do cais da capital gaúcha. Fernando Atthanasio errou para a Correção da capital. Apenas em nove de maio de 1903 conseguira, outra vez, sentar-se livremente à beira do cais e se perguntar a quais outros lugares sua trajetória lhe enviaria.

* Raquel Braun Figueiró é Licenciada em História pela UFRGS, Mestranda em História Contemporânea pela UFF, Especialista em História da África pela FAPA e Professora de História na Rede Pública Estadual.
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