SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sigamos inventando

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sem saber o caminho, seguiu andando. Dia após dia, mês após mês, ano após ano. No meio do caos e da falsa ordem cotidiana, seguiu em movimento.

Perto de virar mais uma página do calendário, encantou-se com a frase de Mia Couto*: "Os fatos só são verdadeiros depois de serem inventados".

Viajou. Desejou inventar um mundo com menos opressão, miséria e exclusão. Desejou fazer dessa invenção um verdadeiro conjunto de novos fatos.

* COUTO, Mia. O último voo do flamingo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Página 107.

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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Para além das minhas posses

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Parado na esquina, observou o poema estampado no muro. Era Verissimo, o Luis Fernando*:

"Estou emigrando
para uma terra mágica
onde os cheques voam
e todas as datas de vencimento
são precoces.
Vou viver além,
muito além
das minhas posses".

Desejou que, dali em diante, mais passos sejam dados na direção daquela magia. Seguiu em frente.

* VERISSIMO, Luis Fernando. Poesia numa hora dessas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010. Página 74.
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Os “10 mandamentos” de Luiz E. Soares


Por Luiz Eduardo Soares*
Antropólogo e Professor

No meu caso, a exaustão provocou insônia e vontade de compartilhar meus "10 mandamentos", que podem ser nove ou vinte e um. São minhas crenças, minha religião, algumas coisas que aprendi ao longo da vida:

1) Prefiro agir, me insurgindo contra o status quo, mesmo errando, do que me resignar a conviver com desigualdades sociais, exploração econômica, opressão política e iniquidades ou injustiças. Mas se me arrisco a errar, que sejam erros novos. Portanto: erremos, mas erremos erros novos. Nada mais melancólico e patético (e regressivo) do que errar erros velhos.

2) A iniquidade mais profunda e grave – porque estruturante –, na sociedade brasileira, é o racismo. Quatro séculos de escravidão moldaram a matriz a partir da qual as demais desigualdades têm sido formatadas e experimentadas. Por isso, ao contrário do que pensa a maioria de meus colegas, considero as desigualdades sócio-econômicas sobredeterminadas pela tirania da cor. A falta de consciência desse fenômeno, a meu juízo, resulta da naturalização do racismo, um processo violento e perverso.

3) Reconhecer a prioridade do racismo e defender com radicalidade ações afirmativas, como as políticas de cotas, não me levam a ver os meus críticos como necessariamente racistas. Há argumentos legítimos e preocupações respeitáveis contra as posições que defendo. Não concordo com a demonização dos meus adversários políticos, assim como rejeito essa atitude quando tomada pelos críticos das cotas, chamando-nos de "racialistas". Acusações generalizantes impedem o debate necessário e enriquecedor.

4) Não creio que o formato partido-político tenha salvação a médio e longo prazos. Temos de conviver com esse animal bizarro que nunca escapou à lei de ferro da oligarquização, mas recomendo manter ligado o sinal de alerta máximo. Uma democracia menos oca e hipócrita que a nossa, menos manipulativa e cúmplice das iniquidades, terá de mobilizar a imaginação e o protagonismo coletivo para que sejam inventadas novas dinâmicas e novos mecanismos de participação, capazes de submeter o Estado e os agentes econômicos ao controle popular, respeitando-se a liberdade, a diversidade e as minorias.

5) Não conheço, por ora, nenhum repertório de valores mais interessante do que aquele que inspira os direitos humanos. A dignidade da pessoa, entendida e tratada como fim, e não meio, é a pedra de toque para dar sentido às ideias de democracia e justiça. Por isso, a individualidade é uma construção, uma categoria e uma experiência matricial para a construção subjetiva de nós mesmos e de nossa vida coletiva. Não há nenhuma obra da arte ou da ciência mais bela e complexa do que uma pessoa em sua singularidade. Daí a importância de sacralizarmos a pessoa (sempre fim, não recurso instrumental, sacrificável em nome de entes supostamente superiores, como a nação, a pátria, a classe, o partido, a revolução, o bem coletivo, a utopia, a religião, Deus, etc…). Valorizar a pessoa em sua individualidade, ou singularidade, significa cultivar e cultuar a diversidade (que não se confunde com desigualdade, como todos sabemos). Por isso, classificar o outro, diagnosticá-lo, dizer quem ou o que ele ou ela é, constitui um ato despótico e brutal. Definir o outro equivale a uma espécie de Vodu ontológico e político: espeto o fetiche com o alfinete, cravo um punhal na imagem e condeno a pessoa a não ser senão aquilo que dela se diz. Identificar a essência ou a natureza de alguém implica reduzir a pessoa à qualidade que lhe atribuo, implica também condená-la a repetir para sempre o ato que justificou a classificação. É isso que faz a justiça criminal retributiva, cujas sentenças tomam a qualidade de um ato como espelho da natureza do sujeito. Por isso, afirmo que a privação de liberdade em uma instituição total é antes de mais nada uma prisão sintática, uma vez que liga um sujeito a um predicado, a um verbo, a um ato, de modo exclusivo, unilateral e inseparável.

6) Nosso grande desafio é transcender o antropocentrismo e pensar/viver uma moralidade pluriespecífica e transnatural. Para isso, impõe-se aprender com as sociedades ameríndias, como nos têm ensinado nossos colegas etnólogos, aqueles com quem mais temos a aprender, hoje. A repugnância que me causa a crueldade, a humilhação, o preconceito, é a mesma que sinto ante a brutalidade do Estado, perpetrada por meio de prisões e instituições policiais (essa violência é praticada antes e sobretudo contra os próprios policiais). E é ainda maior quando observo o instituto da punição, suas práticas, sua filosofia, sua estética, sua ética. A punição é a fusão da vingança – o cativeiro do ódio – com a impotência inconsciente de si, ou com a negação da finitude (cujo nome clássico é Hybris ou onipotência). Em resumo, a punição é a troca do sexo (como entrega e destituição de si, renúncia à identidade) pelo poder, é também a substituição da compaixão pela violência, do êxtase pela propriedade.

7) Os valores, por serem belos e defensáveis, inspiradores e legítimos, não necessariamente são suscetíveis de formar uma unidade, não necessariamente são indivisíveis ou complementares. Podem se contradizer, quando aplicados. A política é o espaço em que o bem precisa da razão pública, coletiva, dialógica, negocial, para realizar-se, tanto quanto possa realizar-se. Ou seja, cumpre à política democrática reduzir os danos recíprocos que a aplicação simultânea dos valores pode produzir: o caso exemplar é o choque entre liberdade e igualdade.

8) Gênero, sexo e corpo se afastarão até esquecerem um do outro, deixando de fazer sentido a geração de identidades como masculino, feminino, heterossexual, homossexual, bissexual ou qualquer outro nome que aprisione a contingência dos afetos, sua complexidade, sua variedade sincrônica e diacrônica.

9) A proibição de drogas, no futuro próximo, causará horror, indignação e incredulidade a qualquer cidadão ou cidadã mediana. Pela irracionalidade, pela hipocrisia, pelo artificialismo contraditório e pelos efeitos genocidas, criminalizando a pobreza. Nesse tempo, que espero não demore, será óbvio que nosso problema crônico com a violência tinha sua origem (a qual ditava as condições de sua reprodução em grande escala) na brutalidade do Estado contra jovens pobres e negros, em territórios vulneráveis. Nesse futuro mais lúcido e menos hipócrita, soará inacreditável que a sociedade brasileira não tenha percebido que o genocídios de jovens negros era o centro de sua agenda. Ou seja, que a questão policial era chave para a democracia.

10) Nem tudo que há na sociedade existe segundo uma vontade e um interesse. Há efeitos de agregação e efeitos perversos – são consequências inesperadas das ações sociais ou que decorrem de suas combinações. Há ignorância – nem tudo é transparente, nem mesmo interesses e os projetos que melhor os expressem e defendam – e, o mais óbvio e menos lembrado: há o erro. Assim sendo, é um equívoco primário deduzir da existência de cada fenômeno, necessariamente, um sujeito oculto, um interesse subjacente, uma lógica latente, uma finalidade estratégica se desdobrando. Portanto, há aquilo que não interessa a nenhum ator social, o que não significa que os mais hábeis e ágeis, os que têm mais poder e condições de atuar, deixem de tentar extrair do que há algum benefício. Entretanto, nem sempre conseguem. Também constitui um equívoco simples, embora bastante comum, mesmo entre aqueles com algum treinamento em ciências sociais, supor que aquilo que existe na sociedade, em expressando o interesse de algum grupo social, fere o interesse de outro grupo social. Se o vocabulário adotado é a da dominação, deduz-se que, necessariamente, o que um polo faz nada mais representa senão a reprodução do domínio ou a resistência a esse domínio. Não têm lugar, nessa visão simplificadora, reducionista, totêmica, as hipóteses de de que algo possa servir a propósitos contraditórios ou possa gerar efeitos ambivalentes ou possa suscitar consequências potencialmente duplas ou indefinidas. Ou seja, não cabe no esquema cognitivo reducionista, a ideia de que nem tudo se encaixa, nem tudo é funcional, nem tudo atende a imperativos de um sistema, nem tudo, mesmo se articulando sistemicamente, se conecta a apenas um sistema. Quando evoca "o sistema", o pensamento simplificador (que, no fundo, busca uma espécie de pureza maniqueísta e certezas finalísticas paranoicas, sonhando mundos em que tudo sempre têm sentido, tudo se encaixa, tudo atende a interesses) sequer se dá ao trabalho de definir sistema, porque, se o fizesse, teria de renunciar ao funcionalismo, pois sistema, enquanto categoria, não exclui desfuncionalidade e contradições, espaços indefinidos, lapsos, intervalos, vazios e irracionalidades – afinal, além de funções, estruturas e dinâmicas, há os atores, há os agentes, que por vezes erram, ignoram e por vezes se autodestróem.

Bem, são apenas anotações insones. Ninguém vai ler um comentário tão longo. Talvez isso seja apenas um desabafo, depois de um ano inteiro ouvindo tantas certezas funcionais sobre o sistema, o capitalismo, a burguesia, o neoliberalismo, e como tudo se explica com tanta singeleza, bastando que o coração bata do lado certo do peito. Quem dera as coisas fossem assim tão simples.Quem dera bastasse pronunciar o nome da besta-fera para que o Outro da besta se revelasse com transparência cristalina. Prefiro a via difícil da dúvida, sempre, e começo sempre perguntando qual é o outro da besta-fera? O que sabemos sobre o socialismo que queremos? Se não é nada parecido com o império soviético e seus satélites, se não se confunde com as tiranias que sobraram e que ainda evocam o santo nome do socialismo em vão, se ainda não foi experimentado em escala industrial ou pós-industrial, será que não nos cabe mais humildade cognitiva, mais esforço imaginativo, mais clareza argumentativa? Afinal, está conosco o ônus da prova. Isso não nos deve desanimar, mas certamente recomenda menos arrogância de nossa parte, menos onisciência, menos onipotência, e mais reconhecimento de que está por ser construído o caminho, de que ainda não o conhecemos e de que temos de ser intelectualmente honestos para admiti-lo e politicamente corajosos para explicitá-lo.

Prefiro quem não sabe a quem tem certeza. E me refiro não só ao projeto estratégico como também às metodologias e aos caminhos. Destes aqui não trato porque já temos assuntos em quantidade e em complexidade suficientes para boas conversas.

* Luiz Eduardo Soares é Antropólogo, Escritor e Professor da UERJ.
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Valeu, 2013!

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Foi-se. Fechamos as atividades. Pelo menos em 2013, a proposta de ensinar Sociologia para a gurizada do ensino médio dá um tempo. Parece que foi ontem o início do ano. Rápida, pesada e intensa temporada.

As férias se anunciam. Além dessa alegria, cabe falar das emoções que atravessaram a jornada. Foram vastas. Uma delas foi a alegria de compartilhar experiências, desafios e aprendizados com os graduandos da Licenciatura em Ciências Sociais da UFRGS, os Pibidianos que comigo trabalharam. Foi incrível. Aprendi demais com vocês. Gratidão, rapaziada! Vocês são, realmente, muito foda. O ensino de Sociologia tem muito a ganhar com vocês. Ficarão as saudades e os saberes que construímos uns com os outros.

Em 2014, sigamos tentando. Dias atrás, um estudante escreveu que, pela lente da Sociologia, passou a entender melhor o que é a humanidade. Temos um horizonte. Afinal, como diria Mia Couto, o sonho é o olho da vida.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Para que serve a tua Sociologia?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há perguntas que me tiram o sono. Na semana do dia do Sociólogo, em que foram publicadas avaliações de Universidades e Pós-Graduações brasileiras, uma delas voltou a me afligir. Singela, carrega muita polêmica: “Para que serve a tua Sociologia?”. Não penso que todo saber precise servir para alguma coisa. Mesmo assim, a questão me incomoda. Final de ano, hora de balanços.

As pesquisas da Sociologia e da Antropologia aqui da UFRGS situam-se entre as melhores do país. É o que dizem as avaliações nacionais. Fato importante, um reconhecimento ao trabalho de qualidade exercido por docentes, discentes e funcionários. Digno de comemoração, sim. Sobretudo por se tratar de um espaço acadêmico público e gratuito, localizado fora do eixo Rio-São Paulo.

No entanto, subjazem críticas que precisam aflorar. É inegável o padrão industrial adotado no âmbito do fazer científico vigente, o que fomenta um clima de alta competitividade e de fragmentação exagerada do conhecimento. Fatias e mais fatias de “achados” concorrem na corrida dos currículos oficiais. Por vezes, os próprios rigores teóricos e metodológicos fundamentais nas ciências ficam em segundo plano, dada a obrigatoriedade das produções em série.

Considero de extrema relevância o saber científico. Aposto minhas fichas nesse jogo. Porém, no auge da minha superficialidade, acho pouco perante a complexidade do real. Tento fazer uma Sociologia que dialogue com outros saberes. Que seja capaz de acessar públicos distintos daqueles que possuem os predicados das Ciências Sociais. Uma Sociologia das, nas e para as ruas.

* Acho que essa perspectiva que tento seguir na minha prática profissional cotidiana faz algum sentido. Pelo menos para o CNPq. Na capa do site do conselho para o desenvolvimento de ciência e tecnologia, chama-se um link para "popularização da ciência". Lá, diz-se o seguinte, com todas as letras: "Popularizar o conhecimento científico é contribuir para o desenvolvimento social e a ampliação da cidadania". Quem sabe...

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Querer é poder?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Maria escutava música. Pela janela, enxergava o lema do indivíduo moderno ostentado na avenida: “Querer é poder”. A moça pensava na vida. Nas suas experiências desde pequena. Viajava no tempo e no espaço. Bastaria o mérito para alcançar o que queremos?

Surpresa, ela vasculhava o seu passado. Problematizava o valor das relações que construíra na sua trajetória até ali. Tentava entender a formação das suas vontades, dos seus desejos e das suas ações. Afinal, as coisas nem sempre deram certo. Eram cheias de idas e vindas. Misturavam-se as suas atitudes e as condições das circunstâncias que se apresentavam.

Algumas oportunidades ela havia conquistado. Era habilidosa. Outras surgiam no desenrolar dos acontecimentos. Sem dúvidas, suas qualidades adquiridas socialmente abriam portas e dinamizavam as possibilidades práticas de execução dos seus desejos. Tudo se revelava um movimento de interdependência entre a sua interioridade e a exterioridade mundana.

Maria acordara. Lúcida, sublinhara para si própria a importância da dedicação. Do foco. Porém, fazer disso um paradigma já era demais. Poderia gerar muita competição e individualismo. Desse jeito, as oportunidades para que todos os dedicados se satisfaçam pareciam ficar ainda mais longe.

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um abraço em Mandela

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um abraço. Gostaria muito de ter dado um abraço em Nelson Mandela. Aliás, em Rolihlahla Mandela. Em Madiba. Hoje, no dia da sua morte, sinto esse desejo com maior profundidade.

Mandela é um vencedor. Representa a vitória da humanidade sobre a opressão. Uma vitória, infelizmente, bastante incompleta. Foi-se o Apartheid na África do Sul. Porém, o racismo insiste.

A batalha que Madiba simboliza permanece quando um garoto de cabelos volumosos é determinado pela sua escola a cortá-los. Quando um jogador de futebol sai do gramado em prantos ao ser comparado a um macaco. Quando são reproduzidas piadas racistas. Quando se diz que os negros são inferiores.

Um abraço para Madiba. Para Zumbi dos Palmares. Para todos os Panteras Negras. Para Martin Luther King. Para Malcom X. Para Abdias do Nascimento, João Cândido e Milton Santos. Para a guerreira Dandara. Para Luíza Mahin. Um abraço para Tereza de Benguela.

Um abraço para a África e a negritude espalhada pelo planeta. Um forte abraço.

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Menos “eu”, muito mais “nós”

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Dezembro chegou. Mais um ano está para terminar. O tempo voa. Penso. Indago-me com vontade. Ora, aqueles que se relacionam comigo, o que estão ganhando? Precisam ganhar alguma coisa? Qual o significado de tudo isso?

Posso falar sobre mim. Sobre os outros envolvidos no processo, especulo. Minhas ideias ambicionam passar, na escrita, sintonias com atitudes práticas que as materializem. Vibro na tentativa de dar sentido às ações, a partir da intensidade das relações interpessoais. Somos relações. Como humano, invisto esforços na troca comunicativa entre semelhantes que só são o que são por serem semelhantes. Arrisco afrouxar hierarquias. Iluminar possíveis dominações.

Não sei dar objetividade ao que aprendi e ensinei neste ano. Tenho dúvidas se quero saber. Ignoro fórmulas. O fato é que avaliar a construção do cotidiano é uma tarefa subjetivamente complexa. É como tentar pegar, enjaular sensações como o vento. Os saberes, tais quais o vento, podem ser mensurados através dos seus efeitos, das suas consequências. E agora, quais serão elas? Há uma novidade pulsando em cada ser atravessado nisso tudo?

Só o tempo dirá. Espero, com força, ajudar o vento a soprar em favor de algo muito diferente do que está naturalizado por aí. Algo menos “eu” e muito, muito mais “nós”. Sigamos tecendo vivas relações.

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Egos e ervilhas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Desconfio de qualquer jornalista. Quando foi que uma profissão tão relevante tornou-se o berço de impropérios e lugares comuns? O que leva um sujeito que é treinado para ouvir distintas versões sobre os acontecimentos a proferir sentenças absurdas como o dono da verdade?

Alguns colunistas/jornalistas, dia após dia, carimbam a população com a sua pretensa sabedoria. Quem os lê, por sua vez, pode acreditar que eles devoraram os clássicos da filosofia, das ciências sociais e da literatura. Apesar de achar pouco provável, até não duvido que algum conhecimento possa se debater nestas mentes confusas.

Uma das últimas pérolas que li discorre sobre o radicalismo e o idealismo, através de dois exemplos específicos: o feminismo e a figura de José Dirceu. Não há, entretanto, sequer uma definição sobre qualquer um dos conceitos. Para as ideias soltas expostas no texto, tanto o movimento de emancipação da mulher, quanto o político petista se traduzem em manifestações individuais de egoísmo atrelado a um ego faminto por reconhecimento.

Interessante. Sem sentido, mas interessante, do ponto de vista retórico. Uma das técnicas retóricas mais conhecidas é dizer que o outro faz aquilo que estamos fazendo. Bingo! Quanta semelhança com o referido texto. Radical e egoísta e chamando os outros disso tudo. Quanta semelhança com os jornalistas que escrevem sobre tudo e todos, mas se legitimam apenas a partir da amplitude que o veículo de comunicação no qual trabalham alcança na sociedade.

Um dos maiores sociólogos do século XX, o francês Pierre Bourdieu, defendia que as ciências sociais precisam buscar sempre um afastamento das noções cotidianas acerca do real. Uma espécie de vigilância na produção do seu conhecimento, uma ruptura inspirada em Gaston Bachelard. Nessa linha, muitas das assertivas erigidas desde a compreensão espontânea sobre a vida social resvalam em pré-noções, que podem, sim, derivar na reprodução de um arbitrário cultural específico.

Pois bem. Dizer que não há machismo na contemporaneidade é contrapor relatos, experiências detestáveis e estatísticas lançadas por organismos de pesquisa sérios e com mais credibilidade do que o cérebro de jornalistas sabichões. A Organização das Nações Unidas (ONU) não faz rodeios quando retrata a situação da mulher no cenário atual. Cerca de 70% dos seres humanos femininos sofrem algum tipo de violência no decorrer das suas trajetórias na Terra. Uma em cada cinco pessoas femininas será vitimada por tentativa de estupro durante a sua trajetória neste planeta.

Os dados são, infelizmente, incontestáveis. Estão aí para qualquer um ver. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), deste ano, não deixa dúvidas: “Destaca-se a necessidade de reforço às ações previstas na Lei Maria da Penha, bem como a adoção de outras medidas voltadas ao enfrentamento à violência contra a mulher, à efetiva proteção das vítimas e à redução das desigualdades de gênero no Brasil”.

Só que essa é só a ponta de um trágico iceberg. Basta olhar para a história humana com rigor, não somente escrever livrinhos feitos para ganhar dinheiro e inchar as ervilhas presentes nas cabeças alheias. O resultado da caminhada machista recai, nos dias de hoje, naquilo que Bourdieu conceituava como violência simbólica. Uma violência, uma dominação que não demanda obrigatoriamente a força física, mas se configura em elementos simbólicos e atitudes. Além disso, que se imiscui no próprio indivíduo que sofre a violência, fazendo com que ele não a entenda como tal.

Salvas as exceções que confirmam as regras, os movimentos pela emancipação da mulher, sob a égide do que se conhece por feminismo, não pretendem inverter a opressão. Não querem que os homens passem ao papel de oprimidos, e as mulheres de opressoras. Querem a justiça. Querem que as mulheres sejam do jeito que bem entenderem. Que se vistam do jeito que bem entenderem. Que ajam da maneira que bem entenderem. Sem receios de serem subjugadas, estupradas ou julgadas por uma moral hipócrita que não resiste à meia dúzia de argumentos.

Um minuto para respirar. Ter que articular essas palavras tão óbvias dá uma descrença na humanidade, capaz de fazer perder o ar. Sigamos.

Quando tratamos de José Dirceu, aí a coisa tende a ficar ainda mais óbvia. Os festejados escritores de textos bonitinhos – e sem conteúdo – esquecem (ou desconhecem) totalmente as intermitências da cena política e ideológica nacional. Isso que dá jornalistas quererem distribuir verdades compulsórias e irrefletidas.

Desde a década de 1990, as principais correntes “idealistas” começaram a cair fora do Partido dos Trabalhadores (PT). Grande parte dos grupos organizados sob a bandeira de um socialismo mais genuíno (sem trocadilho), sob os preceitos do “Programa de Transição” de León Trotksy ou da sua atualização, nas feições de Nahuel Moreno, não está mais no PT faz tempo. No momento em que a sigla assumiu o Governo Federal, aí toda essa lambança ideológica veio à tona de vez.

O documento intitulado “Carta aos Brasileiros” marca em definitivo o afastamento do PT de uma linha ideológica comprometida com os ideais da esquerda mais radical. Não é imperativo desfrutar de grandes saberes para descobrir isso. No entanto, deve-se buscar informação, reflexão e alguma lógica entre as palavras e a realidade. Muito mais fácil é sair digitando lugares comuns.

Hoje, José Dirceu não é um radical idealista. Nem aqui, nem em Cuba, nem na França, nem na China, nem nos Estados Unidos, nem na Alemanha. Dizer esse absurdo é patinar no barro das falácias dos dizeres espontâneos. Ação que traz pequenos problemas na mesa do bar. Contudo, que se faz lamentável para jornalistas e escritores de renome. Que ajuda a reproduzir desigualdades e opressões. Embora o PT diferencie-se um pouco dos demais partidos por um caráter mais propenso às classes populares, os banqueiros nunca lucraram tanto quanto nos seus mandatos. Os ricos enriqueceram ainda mais. Como pode um líder dos grupos dominantes dessa organização ser, neste contexto, um idealista radical? Alguém me explica, quero compreender.

Sugiro a leitura do texto da sensacional Eliane Brum, na sua estreia no El País, do qual cito este pequeno trecho: “A mudança é um momento agudo de um processo histórico no qual Lula e o PT tiveram, mais do que qualquer outro político e partido, uma contribuição decisiva, no concreto e no simbólico de sua ascensão ao poder. Apartaram-se, porém, e parecem estar bem menos preocupados do que deveriam com seu divórcio com as ruas. O braço erguido, o punho cerrado, é um capítulo melancólico de um partido que parou de escutar”.

Neste mundo de hoje, ser homem, branco e com condições razoáveis de sobrevivência econômica e não perceber todas as opressões e desigualdades que atravessam a nossa existência é algo análogo a uma ofensa grave à espécie humana. Por isso, dedico-me todos os dias a ajudar a criar as oportunidades que tive para outros seres humanos. Dedico-me todos os dias a desconstruir os alicerces simbólicos das injustiças no diálogo com os estudantes que tenho a honra de poder trabalhar.

Por fim, o feminismo e José Dirceu só são radicalismos idealistas no instante em que o ego se junta à ervilha. Ego e ervilha juntos formam um amálgama catalisador de preconceitos, irresistível para quem pensa que pode escrever sobre tudo, mas não se aprofunda em nada. Em alguns casos, assim caminha a humanidade.

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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Olhos nos olhos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Olhos nos olhos. Chico Buarque canta sobre isso. Eu observo. Naquela ocasião, deixei a bicicleta em casa e resolvi sair a pé. Caminhar pela cidade. Abordar com um olhar os olhos das pessoas que pela metrópole transitam. Qualquer semelhante, independente dos atributos.

Na primeira tentativa, o outro ser humano fugiu da olhada. Bobagem, na próxima iria rolar. Pé frio. Lá se foram mais de vinte miradas. Sequer uma olhadela de volta. Havia algo errado comigo. Devia ser a minha magreza. Talvez a minha barba. Fato: ou era a minha roupa ou a minha feiura.

Parei na sinaleira. Refleti. Engraçada a espécie humana na atualidade. Na época das chuvas intermitentes por aqui, todos me observavam na rua. A sombrinha vermelha com bolinhas brancas que usava me punha em evidência para as visões alheias.

Sinal dos tempos. Um objeto cotidiano chama mais atenção do que a busca descompromissada por um olhar a ser correspondido.

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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Deve o poder limitar o poder?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O cenário é sinuoso. Quando o líder do judiciário manda prender alguns políticos durante o feriado da República, no Brasil, o que pensar?

Uns dizem que é uma virada no combate à corrupção. Outros juram que é perseguição ideológica. Não sei. Mais do que ambos, talvez.

Para Montesquieu, filósofo francês iluminista, o poder deve limitar o poder, a fim de que não haja abuso de poder. Interessante. O homem que bate o martelo mais pesado da República cresce na parada. Desliza nas ondas do poder. O STF toma grandes decisões. Os outros poderes murcham na descrença geral. As ruas se agitam. Políticos vão para o xadrez. Outros políticos suspeitos seguem soltos.

O homem da capa preta é negro. Num país racista e mestiço. Racismo à brasileira. No mesmo triste mundo em que um jogador de futebol sai do gramado chorando pelas ofensas racistas da torcida. O chefe provoca. Faz e acontece. Muita gente aplaude. Outras gentes ficam espiadas. Advogados se organizam e fazem pressão.

Um impeachment no STF pode gerar um mártir da legalidade. Aquele que botou os corruptos na cadeia pode virar lema de herói popular. Afinal, os outros poderes constitucionais cobrem-se com telhados de vidro. Resistem pouco a uma inocente pedrada. Há pouca novidade em termos de alternativa no jogo político.

Vem aí a caça aos votos, na edição 2014. Em alguma medida, o dia a dia alimenta a ideia de que, se der merda, a regra é procurar a Justiça. E lá vai o magistrado bater o martelo. Na rua, negociar fica pra depois. O vizinho é adversário, por vezes inimigo. Curvas preocupantes. Olhos abertos.

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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Um mapa das desigualdades raciais


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Trovejava. Lia um jornal gratuito, escorado debaixo de qualquer marquise. Viajando, construía o mapa das desigualdades entre negros e não-negros no Brasil atual. A lista de orientação era variada:

- Cerca de 50% da população brasileira é negra ou parda (IBGE, 2010).
- O trabalhador negro recebe, em média, 36% a menos na quantia do seu salário do que os não-negros (DIEESE, 2013).
- Cerca de 90% dos negros permanecem fora das universidades, mesmo com o número daqueles que as frequentam aumentando em quatro vezes desde a implementação das Políticas de Ações Afirmativas (MEC, 2011).
- Aproximadamente 70% de todos os assassinatos no país vitimam pessoas negras (IPEA, 2013).

De repente, a cartografia mental banhou-se de sangue, opressão e desigualdade. Respirou, suportou e ousou superar. Da amargura à semente do novo. Daquilo que precisa ser descoberto, como dizia o sábio geógrafo Milton Santos. No cenário erigido pela imaginação do real, tambores começaram a tocar. Grandes e belas cidades negras ergueram-se, consolidaram-se outra vez. Grandes gentes reconhecidas como grandes gentes. O berço de todas as gentes.

Entre passados e presentes, o real. As realidades. Luta. Resistência. Orgulho e valor. Até a vitória.
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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Joãozinho e a República

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Joãozinho estava feliz, o feriado se aproximava. Não sabia a razão de uma folga geral como aquela, em plena sexta-feira. Curioso, resolveu descobrir. Perguntou aos familiares. A resposta foi lacônica: “É algum feriado político”. Joãozinho deu de ombros.

Faltavam cerca de 20 minutos para terminar a aula. O feriado iria começar, finalmente. A professora tentava explicar o conceito de República. Fazia a associação entre o feriado e a construção da República Brasileira, proclamada em 1889. “Essa é uma forma de governo que emana do povo, ou seja, surge das mãos da população”, insistia a docente, em meio ao caos instalado na sala de aula.

Caiu a ficha. Atento, Joãozinho entendeu os motivos da folga que estava quase chegando. Entendeu, mas não concordou com o conceito. “Lá na quebrada o poder não tá na mão da rapaziada, nem aqui na escola, nem em lugar nenhum que eu conheço!”. A reflexão do menino beirava a inocência juvenil.

Tocou o sinal. A gurizada se libertou com velocidade da escola. O feriado virou realidade. E a República?

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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Pobreza é uma questão coletiva


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Pobre é pobre porque quer”. A frase me corroía por dentro. Não saía da cabeça a polêmica afirmação (?!) de um jovem conhecido. Num boteco da rodoviária, observava o real em volta de mim. Os funcionários combinavam as escalas do fim de ano. Queriam uma chance para visitar os familiares. Torci para que eles conseguissem. Diziam que o patrão era duro na queda. Voltei àquela frase tão difícil de digerir.

Viajei. De repente, organizei alguns dados do PNUD, vinculado à ONU. Cerca de 1,57 bilhão de pessoas vivem em estado de “pobreza multidimensional”. Além de possuírem renda baixíssima (R$ 2,50 por dia, em média), não têm acesso à saúde e educação. Não têm perspectivas de qualidade de vida. Filosofei, na linha do politicamente incorreto, na moda hoje em dia: “É muita gente querendo ser pobre!”. Por outro lado, um banco suíço diz que os milionários representam 0,6% da população adulta do planeta. Cuspi: “É muito pouca gente querendo ganhar milhões!”.

Sobressaltado, brilhou-me uma recente lição. Temos a tendência a enxergar o mundo a partir das nossas sociabilidades. A transformar casos minoritários, excepcionais, em regras infalíveis – desde as nossas interações com a parte do mundo que nos cabe. Tendemos ao equívoco. Isso pode nos levar a desferir frases aparentemente certeiras. Mas que, na verdade, não passam de pré-noções cheias de irreflexão.

O balanço do ônibus fez pensar no movimento da vida. Na sua complexidade. Nas oportunidades que se distribuem por aí, de modo desigual. Bastante desigual. Sempre tive oportunidades na vida. A melhor maneira de agradecer a isso parece ser aproveitar as chances que a vida me deu, tentando construir oportunidades para mais pessoas. Num mundo em que competir e vencer é a lei maior, as evidências apontam que a pobreza é uma questão coletiva. Não é puramente individual.

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sábado, 9 de novembro de 2013

A vida é mesmo um sopro

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A vida é um sopro, dizia o velho Niemeyer. Um movimento de chegadas e partidas. Encontros e despedidas. Uma obra de arte, pintada de alegrias e tristezas. Se for isso mesmo, é muito intenso. Um sopro feito de furacões. Quando alguém querido se vai, como suportar? Como explicar o inexplicável? Quais as razões do imponderável, de uma partida absurdamente precipitada?

Não dá pra responder. As palavras ficam vazias. As lágrimas doem. Pesam demais. Por mais que possa parecer o contrário, se tem algo concreto nesse mundo, esse algo é o amor. Como podem alguns deixá-lo para trás, atribuindo valor ao que só tem um valor ilusório? Sei lá. Agora não importa. O corpo se vai. O amor fica. A vida é mesmo um sopro.

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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Filosofia Tiranossauro Rex

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma das iniciativas menos proveitosas do momento reside em acompanhar comentários de grandes portais na internet. Que baita merda enveredar nessa tarefa. Outra: ler os editoriais dos jornalões tradicionais. Que asco!

Parece haver uma espécie de Filosofia Tiranossauro Rex perpassando os conteúdos expostos nesses locais. Um “pega, mata e come” (pós)moderno. Uma ode aos de cima, um desprezo aos de baixo. Não há relações entre acontecimentos. Não há passado, origens ou sequências prévias conectadas ao aqui e agora. Há – isso sim – muita raiva, rancor, vingança, imediatismo, irreflexão, elitismo e simplismo nos ditos argumentos. Intolerância aos borbotões.

Diz uma música do Jorge Ben Jor: “Que pra acabar com a malandragem, tem que prender e comer todos otários...”. Talvez nos tempos dos dinossauros essa fosse a regra. Esse tempo já se foi. O Código de Hamurabi ficou pra trás. Será mesmo?

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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quem vai salvar quem?


O episódio envolvendo ativistas contrários ao uso de animais em testes científicos levantou bastante polêmica. Por um lado, aqueles que defendem que animais sentem dor, portanto a humanidade não pode dispor deles para avançar na ciência. De outro, aqueles que dizem que os humanos estão acima dos animais naImagem retirada do sítio http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,coisas-que-eu-queria-saber-aos-21-sidarta-ribeiro,790164,0.htm lógica da vida. O Professor Titular de Neurociência da UFRN, Sidarta Ribeiro (saiba mais), discorre sobre o tema e amplia os horizontes da compreensão sobre o assunto. O texto está publicado no jornal Estadão.

No vórtex contestatório que levanta pessoas em todo o planeta, eis que chega ao Brasil a ira santa contra a experimentação animal. Ativistas invadem laboratórios e retiram cães, para desespero dos cientistas que pesquisavam remédios oncológicos com esses animais. Confrontam-se argumentos. Há ética em submeter beagles adoráveis à experimentação fria? Por outro lado, será ético criar cães em apartamentos minúsculos, permitindo que desenvolvam problemas renais por baixa frequência de micção e obesidade por falta de exercício? Os ativistas acham que os cientistas são uns animais e vice-versa, como se isso fosse a maior ofensa.

O tema é forte e mobiliza paixões. São inegáveis os avanços para a saúde humana obtidos graças à experimentação animal, tais como vacinas, antibióticos, transplantes e reconstituição de órgãos. Sem a vivissecção, seria hoje impossível seguir avançando nas pesquisas sobre câncer, aids e doenças degenerativas, entre muitas outras. Mas se a pesquisa científica é patrimônio da humanidade, não há quem não se compadeça de um cãozinho melancólico.

O momento é oportuno para questionar injustiças e olhar de frente a questão dos direitos dos animais. Em perspectiva, nosso sucesso como espécie depende há milhares de anos da exploração de outras formas de vida. Nossos ancestrais nômades aprenderam a extrair de outros seres vivos seus alimentos, remédios, vestuário e serviços variados, domesticando espécies e criando novas raças a serviço do bicho homem. Não é exagero dizer que, sem tal domínio de outros seres, não haveria civilização. Portanto, o uso dos animais pela ciência nos últimos séculos, seja para compreender a biologia ou para resolver problemas práticos das pessoas, se configurou num contexto em que animais são coisas.

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Continuar leitura…
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Karl Popper e o conhecimento científico


“A ciência não é um sistema de enunciados certos ou bem estabelecidos, nem um sistema que avança constantemente em direção a um estado final. Nossa ciência não é conhecimento (episteme): ela nunca pode pretender haver atingido a verdade, ou mesmo um substituto para ela, tal como a probabilidade.

Entretanto, a ciência tem mais que um simples valor de sobrevivência biológica. Ela não é apenas um instrumento útil. Embora não possa atingir a verdade nem a probabilidade, o esforço pelo conhecimento e a procura da verdade ainda são os motivos mais fortes da descoberta científica.

Não sabemos: podemos apenas conjecturar. E nossas conjecturas são guiadas pela fé não-científica, metafísica (embora explicável biologicamente), nas leis ou regularidades que podemos desvendar-descobrir. (…)

Todavia, testes sistemáticos controlam cuidadosa e seriamente essas nossas conjecturas ou ‘antecipações’ maravilhosamente imaginativas e audazes. Uma vez propostas, não sustentamos dogmaticamente nenhuma de nossas ‘antecipações’. Nosso método de pesquisa não consiste em defendê-las para provar que estávamos certos. Pelo contrário, tentamos contestá-las. Empregando todas as armas de nosso arsenal lógico, matemático e técnico, tentamos provar que nossas antecipações eram falsas – com o fim de propor, em seu lugar, novas antecipações injustificadas e injustificáveis, novos ‘preconceitos precipitados e prematuros’, como Bacon pejorativamente as chamou. (…)

Mesmo o teste cuidadoso e sério de nossas ideias pela experiência inspira-se, por sua vez, em ideias: a experimentação é uma ação planejada na qual a teoria guia todos os passos. Não topamos com nossas experiências, nem deixamos que elas nos inundem como um rio. Pelo contrário, temos de ser ativos: devemos fazer nossas experiências. Somos sempre nós que formulamos as questões propostas à natureza; somos nós que repetidas vezes tentamos colocar essas questões para então obter um nítido ‘sim’ ou ‘não’ (pois a natureza não dá uma resposta, a menos que seja pressionada a fazê-lo). E, finalmente, somos nós também que damos uma resposta; somos nós próprios que, após severo escrutínio, decidimos sobre a resposta à qustão que colocamos à natureza – após tentativas insistentes e sérias de obter dela um inequívoco ‘não’. (…)

O velho ideal científico da episteme – do conhecimento absolutamente certo, demonstrável – mostrou ser um ídolo. A exigência da objetividade científica torna inevitável que todo enunciado científico permaneça provisório para sempre. Ele, com efeito, pode ser corroborado, mas toda corroboração é relativa a outros enunciados que, novamente, são provisórios”.

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. In: CHAUI, Marilena (org.). Primeira filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1984. Páginas 213-215.

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

A difícil arte de (tentar) ser uma mosca


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Precisei escrever. Quase como terapia. A sala de aula move difíceis situações. Ensinar (aprendendo) sociologia pode ser um barril de pólvora. Por aí, problematizar as desigualdades entre homens e mulheres se assemelha a riscar uma caixa de fósforos. Risquei.

Foi árido propor a possibilidade de um rompimento com a coisificação da mulher. Bater no machismo. Propor que pessoas se fazem em relações, não são propriedades umas das outras. Combater os pronomes possessivos fervilhando pelas bocas. A supremacia do individualismo. A ideia de que o homem pode tudo e a mulher não pode nada. Foi árido.

Penei. Errei na didática. Não consegui atingir os objetivos pedagógicos. Só consegui gerar algum incômodo e irritação. Senti o inacabamento, a minha competência reduzida. Mas aprendi, de uma vez por todas: o mundo e os arbitrários culturais vão muito além das nossas sociabilidades, dos nossos feeds, dos nossos amigos, parceiros, companheiros, reuniões, festas e etc. A sopa é muito maior do que as moscas. Ainda assim, prefiro ser mosca. Ampla lição.

Falhei. Escrevi. Respirei. Agora quero riscar outras caixas de fósforos.

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Como riem as hienas

Eduardo Barcellos Cientista Político


Ando atônito. Nunca pensei que utilizaria essa palavra para descrever um estado de espírito – atônito. Em seu significado, aqui faço uso total; mistura de admirado, confuso, estupefato, espantado.

Muito me senti o Senhor da Apreensão dos Escaninhos da Análise Social. Baita título pomposo. Mentira de uma alucinação, com personagens mais realistas do que o rei.

Despido da pretensão de compreensão total, percebo. Percebo que o Brasil-político que antes via, hoje é ficção. Eu promulgava a bula: segundo os conceitos vigentes na Ciência Política, vivemos numa democracia. Sentenciava, na verdade.

Pois bem. Peguei esses mesmos conceitos, semanas atrás, e me surpreendi, como dito, atônito. Algo havia se transformado no meio do caminho. E não era apenas meu ser.

Livre, como tenho estado, da busca do categórico, me permito finalmente o hipotético. Kant ficaria alegre, apesar de me condenar pelo mal uso do conhecimento. Oxalá, que assim seja!

Assim livre, me permito extrapolar as raias do duro conceito, transbordando para a rochosa realidade que formamos, ao materializá-la.

Extrapolando, digo, sem receio, ou rodeios: me parece que nem nos conceitos minimalistas de democracia o Brasil anda se enquadrando. “Me passe o foco, foto fora de foco”: escutei isso num rap (instrumento de sabedoria popular, como diria um amigo, nomeado Bernardo Caprara).

Como afirmado, não quero aqui esgotar conhecimento, até mesmo porque ele nunca se esgota. Fonte inesgotável. Em assim sendo, trago superficialmente duas abordagens sobre a democracia, uma minimalista em-si, e uma pluralista, pouco mais abrangente.

Visto que desejo evitar conduzir o Brasil-político ao banco dos réus (em função da presunção de inocência), privilegio o conceito minimalista, mais fácil de ser preenchido, começando por ele.
Competição livre através do voto livre”, dizia Schumpeter. 

A concepção pluralista, tendo Robert Dahl como âncora, entende da seguinte forma. “Todos os cidadãos plenos devem ter oportunidades plenas”; de quê? “De formular suas preferências; de expressá-las a seus concidadãos e ao governo através da ação individual e coletiva; e de ter suas preferências consideradas na conduta do governo, ou seja, consideradas sem discriminação decorrente do conteúdo ou da fonte da preferência”. Além dessas oportunidades, as instituições da sociedade devem fornecer oito garantias: liberdade de formar e aderir a organizações; liberdade de expressão; direito de voto; elegibilidade para cargos públicos; direito de líderes políticos disputarem apoio e, mais, disputarem votos; fontes alternativas de informação; eleições livres idôneas; instituições para fazer com que as políticas governamentais dependam de eleições e de outras manifestações de preferência.

Talvez tenha me alongado. Paciência.

O que anda acontecendo no Brasil? Ao menos no Brasil-político?

A liberdade de formar e aderir a organizações está ameaçada. A liberdade de expressão está recebendo tratamento repressivo digno de episódios da ditadura. O direito de líderes políticos disputarem voto? Combatido pelos“donos do poder”. É aquilo que um ilustre cientista político nos lembra: após entrarem no “jogo”, os recém egressos buscam vetar aos demais a sua entrada. É o velho lema: “para o meu lado, pode”. A garantia de “outras manifestações de preferência”? Igualmente abalada, como o episódio de 15 de outubro no Rio de Janeiro escancara, e outros episódios Brasil afora também – perseguição política a anarquistas, filiados a partidos oposicionistas de esquerda, e cidadãos livres de quaisquer organizações político-institucionalizadas. E as "fontes alternativas de informação"? A questão do marco civil da internet escancara, adicionada a busca do Senado para controle de usuários e acesso.

Estamos saindo de uma semi-oligarquia para uma semi-hegemonia. Mui distantes de uma sonhada poliarquia (isto é, aproximação possível, factual, do "ideal democrático"). O pêndulo, por estas plagas brasílicas, desconhece o caminho do meio. Ele é perdulário por Constituição.

Mas e o conceito minimalista de Schumpeter?

A competição livre começa a ser abalada. Quando uma gama plural de representações sociais e de mundo é vetada de adentrar o espaço institucionalizado da Política, o que temos é o fomento do caos.
Quando um partido, chefiado pelo cacique Paulinho da Força, recebe aval da Justiça Eleitoral e um partido, como a Rede, recebe veto, há escancaramento da falta de institucionalização dos órgãos de Poder. Pouco democrático.

O PT não entende o que anda acontecendo. Ele não representa mais a “voz que vem das ruas”, eis o que acontece. Por isso ele não entende. O PT virou estamento.

Na democracia, quando a voz não recebe atenção, inexiste lealdade, existindo “saída”. E a saída, pela falta de representação, corre o risco de ser pela porta dos fundos – arrombando-a.

A sede de PODER, em detrimento da sede de JUSTIÇA (social, humana, política), conturba o organismo coletivo.

Vivemos convulsões. E quando elas existem é porque falta harmonia orgânica; correspondência entre as partes que formatam, sustentam e formulam o todo.

A voz tem de ser representada, do contrário, caos.

Afora esse quesito meramente político, há um aspecto mais grave – o aspecto humano.

Está escancarado aos que têm olhos de ver, que a humanidade está falida. Falida ética, moral e psicologicamente.

Vemos ódios se cruzarem: de um lado, o ódio encarnado por Black Blocs, de outro, o ódio encarnado por policiais. Eis o que defende Luiz Eduardo Soares.

Ódio com ódio resulta em desumanização do ser individualizado, do ente coletivo e do ambiente em que ambos gravitam na experiência. Digo eu.

Governantes despreparados, os quais sofrem de grave sociopatia, estimulam o caos, fomentando ódios.

Empresários da mídia formulam arquétipos vulgares, e trabalham um simbolismo tortuoso, confundindo as mentes em que tocam.

O órgão Judiciário mexe com simbolismos errados, abalando outro órgão, o Legislativo; corroendo ainda mais, e em velocidade exponencial, a frágil legitimidade de nossa quase-democracia.

Não vamos aliviar aqui os indivíduos – grande parte de nós nos desviamos e justificamos a violência, confusos como estamos.

Sei que tudo o que ocorre, ocorre por alguma razão. Muitas vezes, ou na maioria delas, não as identificamos, justamente por nossa limitação. Não somos os Senhores da Análise Social, e da apreensão total da Realidade.

Mesmo assim, acredito que podemos formar um novo mundo, estabelecer novas conexões, estimular novas relações.

Corremos o sério risco de perder muitas das conquistas alcançadas rumo à democracia. Uma regressão negativa.

Vejo o colapso de um mundo vivido até então. A isto, presto louvor e graças.

Contudo, vejo hienas rindo ininterruptamente. Soltas a vagar pela sociedade brasileira.

Elas são os mantenedores da ordem. Estão na política; estão na burocracia; estão assumindo participação no Estado via concurso público; estão em suas casas, assistindo televisão; estão na polícia; estão nas Universidades; estão ao nosso lado. Estão, até mesmo, em nós.

As hienas riem. E elas riem na cara da democracia. Riem na cara de todos. Riem na, e da, cara do Brasil. 

Elas riem porque o mundo permanece. Negam a Humanidade. E dão gargalhadas porque recebem apoio de mim, de ti.

Elas riem. Mas o mundo chora.
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O piloto e o Velho Saravá

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Chove forte. Cedo da manhã, bastante alagada, a cidade ferve. Entro no transporte coletivo. Observo. Procuro o sentido das ações. Um samba toca no radinho do motorista. Lembro-me do Vinicius de Moraes. Do centenário do poetinha. O condutor do veículo, colorado dos pés à cabeça, dialoga com o mundo a cada instante. Demonstra saber todas as rotas, quem pilota quais carros, quem faz corpo mole e tudo mais. Ele abre a janela e grita, aos risos, para o colega da linha São José:

- Te mexe, cachaceiro!!!

O simples trabalhador exibe uma sabedoria enorme acerca da mobilidade urbana na capital gaúcha. Quase ninguém dá bola para o rapaz. O samba permanece. Alegra a manhã. Pelo menos a minha, a do motora e a da cobradora. Recordo-me, outra vez, do Velho Saravá. Parafraseando o branco mais preto do Brasil, atribuo algum sentido para os acontecimentos: “Mesmo com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema, toda Ipanema. A gente vai levando...”.

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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Sobre o dia do professor

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Hoje, mais do que nunca, cabe um grande salve aos colegas professores e aos queridos estudantes. Um enorme salve, também, para os grandes educadores que compartilharam e compartilham a minha formação enquanto pessoa humana. Gratidão!

Um dia, voltando pra casa com a cabeça encostada na janela do T8, pensei e repensei mil vezes o que fazer da minha vida profissional. Era 2005, se não me engano. Não queria trabalhar como jornalista. Não era e não é a minha praia.

De lá para cá, a aposta na docência como ofício virou realidade. A despeito de todas as dificuldades, não me vejo fazendo outra coisa. Estar professor é fomentar a construção de relações constantemente abertas, inscritas numa espécie de a fazer, sem receitas, dogmas ou doutrinas. Estou nessa com o grande mestre Paulo Freire* (1996, p. 53):

"Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. (...) Gosto de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo geneticamente e o que herdo social, cultural e historicamente, tem muito a ver comigo mesmo".

* FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Docente. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Descartes e o método científico


“Eu estudara um pouco, sendo mais jovem, entre as partes da filosofia, a lógica, e, entre as matemáticas, a análise dos geômetras e a álgebra, três artes ou ciências que pareciam dever contribuir com algo para o meu desígnio. Mas, examinando-as, notei que, quanto à lógica, os seus silogismos e a maior parte de seus outros preceitos servem mais para explicar a outrem as coisas que já se sabem, ou mesmo, como a arte de Lúlio, para falar, sem julgamento, daquelas que se ignoram, do que para aprendê-las. E embora ela contenha, com efeito, uma porção de preceitos muito verdadeiros e muito bons, há todavia tantos outros misturados de permeio que são ou nocivos, ou supérfluos, que é quase tão difícil separá-los quanto tirar uma Diana ou uma Minerva de um bloco de mármore que nem sequer está esboçado. Depois, com respeito à análise dos antigos e à álgebra dos modernos, além de se estenderem apenas a matérias muito abstratas, e de não parecerem de nenhum uso, a primeira permanece sempre tão adstrita à consideração das figuras, que não pode exercitar o entendimento sem fatigar muito a imaginação; e esteve-se de tal forma sujeito, na segunda, a certas regras e certas cifras, que se fez dela uma arte confusa e obscura que embaraça o espírito, em lugar de uma ciência que o cultiva. Por esta causa, pensei ser mister procurar algum outro método que, compreendendo as vantagens desses três, fosse isento de seus defeitos. E, como a multidão de leis fornece amiúde escusas aos vícios, de modo que um Estado é bem melhor dirigido quando, tendo embora muito poucas, são estritamente cumpridas; assim, em vez desse grande número de preceitos que compõe a lógica, julguei que me bastariam os quatro seguintes, desde que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de observá-los.

O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.

O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las.

O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir”.

DESCARTES, René. Discurso do método. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Página 41.

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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Insistentes paradoxos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Pode ser aqui. Pode ser longe daqui. Paradoxos. Quebram-se bancos, mercadinhos, museus, grandes e pequenas lojas. Qualquer coisa. Nada representa ninguém. Para alguns, tudo representa a opressão. Governos mandam bater em professores, reprimem manifestações públicas, forjam provas, criam bodes expiatórios e agem com violência contra as populações mais pobres. É o padrão de atuação do Estado desde quase sempre. Cada vez mais evidente aos olhos de todos. As elites aplaudem. Milhões de cidadãos, passageiros da versão oficial, aplaudem também.

As pessoas se organizam e intensificam os protestos. Com muita razão. Querem outras sociabilidades, querem outras relações, querem direitos e a partilha dos benefícios e oportunidades que repousam nas mãos de poucos. Querem muitas coisas, inclusive que o Estado pare de agir como uma máquina seletiva de exclusão. O mundo pega fogo. A terra dos paradoxos está em convulsão. As multidões saem às ruas, a violência se generaliza. Quebradeiras, revoltas, expressões guardadas nas gargantas por muito tempo.

Os dias passam. Vários fatores contribuem para que as mobilizações fiquem numericamente menores. A violência generalizada está entre eles. As pessoas têm medo. Elas sempre têm algo a perder. Muitas querem outro mundo, e encontram nessa utopia a via estratégica de não usar da violência banalizada. Sem julgamentos morais. Apenas a compreendem como uma estratégia que afasta o povo das ruas.

Esvazia o movimento. A violência persiste nas “ações transformadoras”. O Estado aproveita e vai com tudo. Apreende livros, age com arbitrariedade, relembra tempos ainda mais sombrios. E os paradoxos se debatem entre violências, protestos e pressões políticas. A espontaneidade domina os corações. A estratégia parece cada vez mais distante. Insistentes paradoxos.
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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Relativizar, eis a questão


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma cena inusitada. É o que se tornou ver alguém cantando na rua, nessa vida caótica e estressante das grandes metrópoles. Por incrível que possa parecer, um rapaz passou cantando um sertanejo universitário ou algo do gênero. Havia um casal observando o ocorrido. O alegre cantor se foi e o casal iniciou um diálogo:

- Bah, mas se é pra cantar aquilo, fica quieto!
- Não viaja, deixa de querer achar que os teus gostos, a tua cultura e tudo aquilo que é teu é melhor do que as coisas dos outros...
- Tá falando sério?!
- Certo, meu! O cara tava feliz, deixa ele cantar o que ele quiser e gostar.
- Qualidade zero no que ele cantava. Convenhamos, aquela música foi feita apenas pra vender, sem nenhuma contribuição pra humanidade.
- Sim, também acho. Mas o cara tava feliz, pelo menos.

O casal seguiu seu rumo. De tudo, as tentativas paradoxais de quebrar o etnocentrismo presente no cotidiano e problematizar a indústria cultural contemporânea chamaram a atenção. Ficou um impasse: relativizar tudo ou não? Seria possível refletir mais a fundo sobre a diversidade cultural, as origens dos gostos e das identificações. Quem sabe até esboçar um caminho. Mas aí seria assunto para outra reflexão.

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sobre os gaúchos e o 20 de setembro


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O dia 20 de setembro é lembrado, no Rio Grande do Sul, como uma homenagem à Revolução Farroupilha. Particularmente, considero uma data para pensar, muito mais do que para comemorar. Vou tentar fazer isso a partir de uma pequena história.

Aconteceu comigo na semana passada. Estive em outro estado, para um evento profissional. Logo que cheguei, fui recepcionado por um casal de amigos das amigas que me hospedaram. Naquele dia, foram as duas primeiras pessoas que sorriram para mim. Trataram-me muito bem. Chegamos à casa das minhas hospedeiras. Um churrasco em andamento nos esperava. Logo passamos a dialogar sobre vários assuntos. Protestos, docência, relações de trabalho, enfim, só temáticas interessantes. De repente, sei lá por qual razão, estávamos falando acerca das identidades de cada região do país.

Todos foram unânimes em dizer que mantinham um pé atrás com gaúchos e paulistas. Relataram que todas as experiências que tiveram com gaúchos foram difíceis. Eram pessoas frias, arrogantes, metidas, muitas vezes preconceituosas e, inclusive, racistas. Bah... Senti-me muito envergonhado. Não por estar ouvindo aquilo tudo. Mas por ter a convicção de que eles estavam certos – pelo menos no que tange ao nosso estereótipo. Argumentei um pouco, no sentido de desconstruir certas imagens reproduzidas por muitos dos meus conterrâneos. Eles ficaram espantados (perplexos até) ao notarem um gaúcho disposto a se chamar de brasileiro e a rejeitar o mito Farroupilha.

Não digo para não termos orgulho das nossas tradições. Chimarrão, churrasco, Grêmio e Inter. Eu gosto do Rio Grande do Sul. Porém, creio ser necessário manter uma consciência ativa sobre a nossa história. Chega de vangloriar um levante de estancieiros racistas. Chega de bradar pela falácia de que aqui somos mais educados, politizados ou coisas do gênero. Nada disso faz sentido. Somos brasileiros. Gaúchos e brasileiros. Quero chegar a qualquer parte do país e não precisar desconstruir a mentira de que somos a Europa do Brasil. Quero receber os irmãos de outras regiões com um sorriso no rosto, como fizeram os irmãos nordestinos assim que cheguei às bonitezas da Bahia.

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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Bauman, identidades e o fim da greve


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Nas últimas semanas, estive pensando bastante nas identificações que as pessoas adotam para si. Na própria ação de identificar-se com isso ou com aquilo. Pensei muito a respeito, durante a greve e a minha estadia em Salvador. Isso tudo na constante tentativa de pensar quem sou eu, quem são os outros.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman* diz que a identidade pessoal dá significado ao “eu”. Uma espécie de identidade social, por sua vez, reforça esse significado. Faz com que seja possível falar de um “nós”, em que o “eu”, instável e inseguro, descansa na segurança do “nós” para livrar-se das suas ansiedades. Na greve, esse “nós” flertou com um aglomerado de “eus”, para aqueles que enfraqueceram o movimento por dentro. “O meu salário vai ser cortado, as minhas férias vão ser perdidas, eu isso, eu aquilo...”. Parece preocupante quando a covardia vigia os portões do nosso lado de dentro, e a estupidez está em guarda no nosso lado de fora.

* BAUMAN, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

XVI Congresso Brasileiro de Sociologia


Do dia 10 até o dia 13 de setembro de 2013, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, ocorre o XVI Congresso Brasileiro de Sociologia. Estaremos lá apresentando o paper “A influência do capital cultural no desempenho estudantil: reflexões a partir do SAEB 2003”. Abaixo consta a apresentação do evento, organizado pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).

XVI Congresso Brasileiro de Sociologia
O XVI Congresso Brasileiro de Sociologia tem como tema A Sociologia como Artesanato Intelectual, expressão cunhada por Charles Wright Mills em fins dos anos 50, em seu famoso e clássico livro A Imaginação Sociológica.

A reflexão de Mills continua atual, mantido integralmente seu forte apelo heurístico: convida-nos a (re) pensar a Sociologia em muitas direções. Crítico de um certo "empirismo abstrato" que permeava sobretudo a sociologia de matriz parsoniana e também de um pragmatismo vulgar que parecia querer nivelar o pensamento sociológico a parâmetros burocráticos da pesquisa, Wright Mills opôs ao formalismo instrumental, um ethos profissional pautado na própria experiência do pesquisador como um artesão do conhecimento. O Artesanato Intelectual implicaria, portanto, em duas importantes características para pensarmos hoje, no Brasil, a formação e atuação profissional do Sociólogo: primeiro, o Artesanato Intelectual exige uma formação curricular densa, plural, madura e contínua. Segundo, não pode prescindir das referências clássicas.

Embora a referência para pensar o artesanato intelectual seja mais amplamente difundida através de Wright Mills, podemos citar aqui no Brasil tanto a obra de Gilberto Freyre quanto a do grupo de Florestan Fernandes como exemplos do trabalho cuidadoso de investigação artesanal.

Em tempos de frenéticas buscas por um currículo "competitivo" e de uma rápida ascensão profissional - aspecto que parece ser uma característica inescapável da atual expansão das universidades brasileiras - , nada mais saudável do que refletir sobre o real significado de ser "produtivo" na academia de hoje. Longe daquele acúmulo desenfreado de papers e títulos, o intelectual-artesão busca lapidar ideias e conceitos que venham a contribuir de fato com a produção renovada do conhecimento.

O artesão intelectual não se apressa, mas caminha íntegro e ininterrupto. Sabe que o esmero e a originalidade do seu trabalho exigem maturidade e muito conhecimento. Supõe tempo! Mais do que isso: reclama uma criatividade que somente a imaginação sociológica, desvinculada do excesso de formalismos e imediatismos, pode prover o intelectual das capacidades necessárias ao exercício inovador da análise sociológica. Não se trata, pois, de acumular mais-valia intelectual (na forma inflacionada de papers e congêneres), mas de produzir algo substantivo que de fato contribua para a ampliação renovada de um conhecimento por si dinâmico e subjetivo.

Uma outra característica do Artesanato Intelectual de Mills é a referência permanente aos clássicos. Em outras palavras: o respeito à melhor tradição do pensamento acumulado e ao saber-fazer daqueles que, na prática artesanal da vida acadêmica, souberam ser mestres do ofício para os aprendizes do saber. Infelizmente, tanto na sociologia quanto na prática profissional, essas dimensões parecem estar francamente em declínio. O Congresso pretende refletir sobre as possibilidades de praticar uma sociologia verdadeiramente densa no sentido artesanal, em meio aos apelos imediatistas de uma corrida profissional muitas vezes equivocada porque referenciada em parâmetros mais quantitativos do que podemos realmente oferecer.

Por tudo isso a reflexão de Wright Mills parece-nos oportuna e atual em dois sentidos: pelo que ela pode nos fazer (reflexivamente) pensar sobre as condições do exercício profissional da sociologia; e sobre nosso próprio desempenho e contribuição que estamos a dar para o fortalecimento ético e crítico do nosso campo de atuação no mundo contemporâneo.

O XVI Congresso Brasileiro de Sociologia coloca-se, assim, como um fórum criativo e critico dos processos contemporâneos de produção do conhecimento, voltados à construção de uma sociedade mais justa, inovadora e inclusiva.

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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A Cidade da Bahia e as duas sociologias


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Depois de chegar à Salvador para o Congresso Brasileiro de Sociologia, queria ressaltar só as belezas da Cidade da Bahia. A reggaera no Pelourinho, gratuita. O banho de mar revigorante. A terra de todas as cores e belezas. A literatura de Jorge Amado.

Mas não dá. No primeiro ônibus que peguei por aqui, algumas pessoas dialogavam. Criticavam o atual estado de coisas, comentavam que só alguma mobilização pode mudar o que não está bom. Junho ainda pulsa.

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A Bahia é muito sedutora. Seduz-me sempre que me acolhe. Com o fim do Congresso Brasileiro de Sociologia, logo deixarei o nordeste. De um lado, ficou em mim uma espécie de olhar sociológico, marcado pelo calor das ruas, das pessoas, a boniteza da negritude das gentes, o sacolejar dos ônibus, o ofegar nas ladeiras que tomam conta da cidade. Ficou essa sociologia popular, na qual o sociólogo não sepretende afastado da realidade que investiga. Pelo contrário, afunda-se nela. Joga-se nela com paixão. Seduz-se por ela. Pensa. Pergunta. Participa.

Por outro lado, também deixaram marcas os interessantes diálogos que acompanhei no evento da Sociedade Brasileira de Sociologia. Agregou muito para um aventureiro inexperiente nas ciências sociais, como eu, toda a gama de discussões de alto nível que pude acompanhar. Tem a contribuir a sociologia feita na intelectualidade, de terno e gravata, em hotéis de luxo e coisas do gênero, embora a realidade se mostre – na prática – muito mais complexa e desafiadora do que a academia consegue perceber. Mais uma vez, a Bahia vai deixar saudades.

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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sem questão

Por Marina Silva*
Publicado no jornal
Folha de São Paulo

Quase sempre focados na política institucional e no debate de interesses setoriais, esquecemos de ver as causas profundas dos fenômenos sociais, da luta entre mudança e estagnação que às vezes toma a cena e nos surpreende.

Um estudo da pesquisadora Joana Monteiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, nos faz contemplar o abismo. "Os Nem-Nem-Nem: Exploração Inicial Sobre um Fenômeno Pouco Estudado" mostra que um milhão e meio de brasileiros entre 19 e 24 anos, nas faixas mais pobres da população nem trabalham nem estudam nem procuram emprego. Um contingente numeroso e crescente, capaz de impactar a economia e o ambiente cultural nas próximas décadas.

Embora de modo quase invisível, esses jovens já impactam o Brasil. Seu desalento alimenta tendências sociais desagregadoras. Certamente, têm expressiva participação nas altas taxas de evasão escolar, mortalidade juvenil por acidentes, suicídio e violência.

O que faz com que esses jovens tenham perdido o desejo de investir em si mesmos? Sua pobreza de esperanças não nos deve restringir à falta de oportunidade material como causa única, ainda que esta seja muito relevante. Talvez nossa sociedade esteja sendo acometida de um adoecimento ainda mais grave, que se caracteriza pela ausência da capacidade de acreditar "em", da capacidade de desejar.

Claude Le Guen, em seu "Édipo Originário", diz que é impossível amar a si mesmo sem antes ter amado ao outro. Talvez seja também impossível investir em si mesmo sem antes ter investido no outro. Isso pode ocorrer quando somos privados do investimento do outro, sejam eles cuidadores próximos, pais, avós, professores e amigos, mas também cuidadores distantes, associados às instituições civis ou religiosas. Sem a inscrição de seus ideais identificatórios em nós não há como elaborarmos uma promessa de existência significativa, digna de auto-investimento relevante.

Os antigos gregos falavam de uma paidéia, um grande ideal identificatório que balizava sua educação e cidadania. Nossa sociedade parece subtrair-se a esse investimento em ideal, utopia e valores. É como se a economia fosse só consumo; a política, apenas disputa de poder; a cultura, só espetáculo. Como se a democracia pudesse ser mera forma, vazia de conteúdo.

Se os ideais não ocorrem nem na família nem na escola nem na sociedade não há como ter projeto de vida e resta o deserto. Nele brotam os nem-nem-nem, que, pela privação sócio-afetiva são esvaziados do desejo, imprescindível para se viver. Ser ou não ser, tanto faz, não há questão.

Sem teto, sem terra, sem emprego, sem educação, abram alas para a tragédia maior dos sem-desejo.

* Marina Silva (saiba mais) é Historiadora. Foi Ministra do Meio Ambiente e Senadora.
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Hannah Arendt e a condição humana


Livro: A condição humana
Autora: Hannah Arendt

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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Bourdieu pensando Foucault


Texto: Um pensador livre: “Não me pergunte quem sou eu”
Autor: Pierre Bourdieu / Publicação: Revista Tempo Social

A proximidade objetiva não predispõe à percepção e à apreciação objetivas: não estou tão seguro de que, em matéria de conhecimento, haja um privilégio do compatriota, do contemporâneo, do condiscípulo e do colega. Francês, aluno da Escola Normal nos idos de 1945 no apogeu do existencialismo, professor de filosofia, Michel Foucault deve a esse enraizamento histórico seus pontos de partida, de referência, de ruptura, suas pegadas, seus faróis e fobias, tudo aquilo que contribui para constituir um projeto intelectual. A despeito de certa distância temporal, tenho em comum com ele todas essas propriedades determinantes e muitas outras que se seguem, notadamente na visão acerca do mundo intelectual. Não é por acaso que estivemos tantas vezes no mesmo lado, ou seja, aliados em face dos mesmos adversários e por vezes confundidos pelos mesmos inimigos. Também minha tentativa de contribuir para a justa compreensão de Michel Foucault e de sua obra, ao esboçar uma história intelectual do universo no qual e contra o qual seu pensamento se formou, expõe-se ao perigo da assimilação ou da dissimilação fictícias que, no caso de um pensador célebre, oferecem, uma e outra, importantes ganhos simbólicos.

(…)

O projeto crítico, genealogia histórica do "sujeito" assujeitado, é inseparavelmente um projeto científico e político: o conhecimento antropológico é sem dúvida a única chance que temos de nos livrar do "sono antropológico" e de todas as formas de autocomplacência nascidas do cuidado de si, de nos liberar dos limites inerentes à ilusão do pensamento sem limites históricos, do pensamento sem impensado, de produzir, em uma palavra, um sujeito de que seríamos por pouco que seja os sujeitos. A teoria, essa visão que desvela, que põe a nu o poder, é uma prática, e uma prática política. Ela não pretende dizer o todo, a verdade total sobre o todo. Ela desentoca o poder de onde ele está, por vezes muito bem-escondido, nos nadas mais insignificantes da ordem ordinária, aceito como evidente. Ao romper com a representação - característica do homo academicus e notadamente do filósofo universitário - que leva a segmentar a vida em duas partes, aquela do conhecimento, investida pelo rigor, e aquela da política investida pela paixão, de preferência generosa, Michel Foucault concebeu a atividade intelectual como a forma por excelência de um empreendimento político de libertação: a política da verdade, que é a função própria do intelectual, se realiza num trabalho para descobrir e declarar a verdade da política. Isso é o que faz do desejo (perverso) de saber a verdade do poder um adversário irredutível do desejo de poder.

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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Notas midiáticas da semana

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Foi uma semana cheia de acontecimentos propícios para serem pensados, problematizados e interpretados. Os grandes meios de comunicação, por sua vez, deixaram para trás essas possibilidades. Vejamos alguns pontos:

- A cobertura que a grande mídia está fazendo do frio é tão bizarramente mercadológica e vazia que chega a apavorar até a quem já é crítico.

- A cobertura que a grande mídia está fazendo do autoritarismo no RJ é tão bizarramente elitista e vazia que chega a apavorar até a quem se diz democrata nos moldes atuais.

- A cobertura que a grande mídia está fazendo da vinda do papa é tão bizarramente doutrinária e vazia que chega a apavorar até a quem entende a importância das religiões para determinados grupos sociais.

- A cobertura que a grande mídia fez do bebê real britânico foi tão bizarramente esquizofrênica e vazia que apavorou até aos amantes dos assuntos infantis.

Viva a grande mídia! Só que não. Olhos abertos.
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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Repensar em busca do híbrido

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

De férias do trabalho, o trabalho insiste em não dar férias. Tudo normal. Resolvo, então, repensar uma sociologia da minha própria sociologia. Tematizar o núcleo básico do meu fazer profissional e as consequências que pretendo que ele alcance. Seja entre os estudantes com os quais trabalho, seja com os leitores dos meus textos.

Tenho defendido que é importante acionar uma imaginação sociológica. Construir dia após dia, num artesanato intelectual, conjuntos de perguntas que enfrentem a hegemonia do saber e do poder colonizados. Indagações que orientem a atuação em sala de aula ou a pesquisa acadêmica. Que potencializem os horizontes dos espaços de inserção fora dos ambientes restritivos, bem como para além dos padrões epistêmicos eurocentrados. Na figura de professor-pesquisador, posso procurar nas perturbações de cada discente os tentáculos que as estruturas e instituições da modernidade depositam sobre ele, a fim não de retirar-lhe a sua responsabilidade, mas de compreender os caminhos das relações que ele estabeleceu nas suas experiências até ali – para, quem sabe, suscitar alternativas híbridas e hibridizantes de (re)significação das experiências.

Se hoje as perturbações nos sistemas de ensino são vistas como generalizadas, por exemplo, não consigo tratá-las desde as características individuais dos envolvidos. Tampouco à feição dura da estrutura sem a agência humana. A imaginação sociológica precisa ver numa pessoa a sociedade, e na sociedade cada uma das pessoas. Precisa apostar mais na semântica dos conceitos e na sintaxe das teorias, ou seja, apostar na elucidação dos significados e nas ligações que formam os conjuntos de argumentos e significados. Não pode, a despeito da obliteração intencional espalhada por aí, ocultar o viés das estruturas econômicas e políticas. Não pode ter medo das ruas, ou daquilo que apreendemos enquanto realidade nessa vida louca e efêmera.
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domingo, 21 de julho de 2013

Duas médicas, dois livros de Neruda


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Que dureza! Não queria comentar a questão, mas não tem jeito. Não depois de hoje. O cara chega para realizar uma consulta médica, pelo convênio, num estabelecimento de pequeno porte. Na região central da capital gaúcha, longe do interior. Gripão pegando, receio da tal H1N1. O cenário é tomado por umas 100 pessoas para serem atendidas. Duas dedicadas e atenciosas médicas. Após uma hora e trinta minutos, chamam meu nome:

- Fulano de tal!

Alegre, quer dizer, meia boca, eu comemoro sentindo o febrão dominante:

- Bingo!

Deveria ter levado um livro, dois, na verdade. Como a menina sentada ao meu lado. Ela lia dois exemplares em idioma original dos poemas de Pablo Neruda. Quis pedir um emprestado, só que a vergonha não permitiu. Sábia jovem que acrescentava bonitezas na sua longa e doentia espera. Nas próximas vezes, farei igual a ela. Levarei duas boas obras. Uma para emprestar voluntariamente.

Embora as médicas estivessem fazendo milagre por ali, os problemas da saúde no Brasil ficaram evidentes. Eles são institucionais, por vezes individuais, sim. Sobretudo, a lógica do sistema é que precisa mudar. Óbvio que necessitamos de mais estrutura. Enquanto isso, por dez mil reais, vamos botar a mão na massa, queridos “doutores”! Parece que precisamos de menos remediação e mais estratégias preventivas. Mais humanidade e menos mercado. Profissionais que se insiram nas comunidades, criando uma nova cultura holística de saúde. 

Uma outra medicina tem que passar a vigorar. Com urgência.
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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Epistemologias do sul


O número 80 da Revista Crítica de Ciências Sociais, editado em 2008, disponibiliza uma série de artigos problematizando as questões relativas à colonialidade do poder e do saber. Desde os anos 1960, alguns teóricos e pesquisadores vêm refletindo acerca da possibilidade de outros paradigmas para a produção do conhecimento, distantes de uma matriz eurocentrada. Essas possibilidades podem ser incluídas no escopo dos estudos pós e descoloniais. Abaixo está o link pararccs80capa-small325 esta proeminente edição da revista, junto com um trecho da introdução escrita pela antropóloga moçambicana Maria Paula Meneses.

A procura especulativa do conhecimento é uma componente central da cultura humana. Mas o vasto campo das interrogações abrangidas pela reflexão filosófica excede em muito a racionalidade moderna, com as suas zonas de luz e sombra, as suas forças e fraquezas. Foi a partir desta constatação que, em 1995, Boaventura de Sousa Santos propôs o conceito de “epistemologia do Sul”, o qual veio a suscitar vários debates. Este número da Revista Crítica de Ciências Sociais ambiciona alargar a discussão sobre a diversidade epistemológica do mundo, apresentando algumas das controvérsias que o tema tem gerado.

A constituição mútua do Norte e do Sul e a natureza hierárquica das relações Norte‑Sul permanecem cativas da persistência das relações capitalistas e imperiais. No Norte global, os “outros” saberes, para além da ciência e da técnica, têm sido produzidos como não existentes e, por isso, radicalmente excluídos da racionalidade moderna. A relação colonial de exploração e dominação persiste nos dias de hoje, sendo talvez o eixo da colonização epistémica o mais difícil de criticar abertamente. A relação global etno-racial do projecto imperial do Norte Global vis à vis o Sul Global – metáfora da exploração e exclusão social – é parte da relação global capitalista. Esta hierarquização de saberes, juntamente com a hierarquia de sistemas económicos e políticos, assim como com a predominância de culturas de raiz eurocêntrica, tem sido apelidada por vários investigadores de “colonialidade do poder”. Uma dasexpressões mais claras da colonialidade das relações de poder acontece com a persistência da colonização epistémica, da reprodução de estereótipos e formas de discriminação (…).


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terça-feira, 9 de julho de 2013

Belluzzo: Foucault e o neoliberalismo


A releitura do liberalismo econômico clássico, proferida pelos pensamentos de Friedrich Hayek e Milton Friedman, após a Segunda Guerra Mundial espalhou-se ao redor do planeta como uma fórmula mágica das elites do poder. Mais do que uma doutrina relativa ao campo da economia, o neoliberalismo carrega uma espécie de filosofia social embutida. Luiz Gonzaga Belluzzo (saiba mais), economista Michel Foucault (Imagem reproduzida do sítio http://lh3.ggpht.com/-ka8dkI1-sHk/UWqyxLlwc0I/AAAAAAAACl4/R8-9DTdt5eE/foucault%25255B12%25255D.jpg?imgmax=800).consultor  da Revista Carta Capital, disserta sobre como o intelectual francês Michel Foucault (saiba mais) soube compreender com profundidade o alcance do espectro neoliberal, para além dos quesitos tradicionais.

O mundo se abriu para o novo milênio dominado por certezas que hoje se desmancham sob a ação demolidora da crise financeira. A ideologia neoliberal, quase sem resistências, tentou demonstrar que, com a queda do Muro de Berlim, o espaço político e econômico tornou-se mais homogêneo, menos conflitivo, com a concordância a respeito das tendências da economia e das sociedades. Não há mais razão, diziam, para se colocar em discussão questões anacrônicas, como a reprodução das desigualdades ou as tendências dos mercados a sair dos trilhos, frequentemente destrambelhados pelos excessos nascidos de suas engrenagens.

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sábado, 29 de junho de 2013

Brasil, junho de 2013: uma leitura arqueo-genealógica



Por Gabriel Torelly Professor e Historiador

1. O capitalismo atual não se apóia nas leis, mas numa esfera muito anterior, muito mais eficaz, que é a própria colonização do desejo. É somente depois de atuar de forma invasiva e predadora na produção da subjetividade que ele passa a incidir sobre as leis, modulando-lhes facilmente o conteúdo e o alcance a partir do momento em que houve sucesso na instância anterior da domesticação do desejo. O mais inquietante é que esse caráter predatório e invasivo não é garantido por meio da coação física ou do exercício direto da força. Ele atua de modo aparentemente dócil e inocente, fazendo proliferar imagens produzidas em profusão diariamente e disponibilizadas com espantosa eficiência nos tempos da tecnologia da informação. Pela exploração da democratização das imagens, aliada à intensa aceleração de sua difusão, o ritmo do capitalismo deixou de inscrever-se somente nos movimentos dos corpos dos trabalhadores e alcançou a possibilidade de instalar-se na própria imaginação. Nos dias correntes, a resistência ao monstro interplanetário que não respeita fronteiras nem restrições legais não poderá triunfar se aferrar-se apenas aos aspectos institucionais e não levar em conta essas agitações preliminares, sem bandeira nem lei, que dizem respeito ao campo do desejo. A verdade é que a natureza predadora de externalidades do capitalismo desferiu um golpe de mestre apropriando-se das pautas subversivas que colocavam o próprio regime em xeque ao final da década de 1960. Toda a crítica à unidimensionalidade de um humano massificado pelas formas do trabalho alienante e repetitivo foi como que engolida e digerida pelo monstro capitalista atual, e hoje em dia as palavras de ordem do mercado não apelam mais às fórmulas alienantes da divisão mecânica e simplificada do trabalho, mas à criatividade, inventividade, imaginação, etc. Na passagem que vivenciamos entre uma sociedade formalizada pela disciplina das fábricas e uma sociedade de controle movida pela tecnologia da informação, qualidades anteriormente consideradas como fontes não capitalizáveis de exteriorização da vida e do pensamento foram interiorizadas e capitalizadas. A dominação deixou de ser um exercício simples de assujeitamento dos corpos e passou a incidir sobre as próprias forças imateriais de produção da vida. Se ontem a resistência passava pela quebra das máquinas e pela rebeldia física e corporal das forças de trabalho, hoje ela precisa estar mais atenta às agitações do desejo, procurando formas de gestar um potencial humano imaginativo arredio à capitalização mercadológica e à integralização imagética colonizadora. 

2. Nos meandros da modernidade, o capital engoliu o contrato social. O que era vontade geral de um Povo governado pelo poder soberano transformou-se em opinião pública de uma Massa móvel submetida às formas institucionalizadas do poder disciplinar. De povo governado por uma política palaciana passamos à massa disciplinada pela política representativa. Se o modelo jurídico do contrato social e a noção de povo ruíram juntamente com a forma do poder soberano em algum momento da história da modernidade, parece certo que o descrédito da política representativa e o esvaziamento da noção de opinião pública acompanham hoje a crise da sociedade disciplinar e seus mecanismos de massificação. Ora, não é outra coisa senão essa crise ou mutação que presenciamos hoje. Desse modo, na contramão do que gritavam boa parte dos manifestantes, não foi o povo quem acordou. O povo está morto. E já faz tempo. Ele virou massa, e massa já está deixando de ser. É justamente isso que anda arrepiando os cabelos das pessoas, a impossibilidade de modular uma massa informe como antigamente. Em meio às ondas telemáticas e ao ciberespaço interplanetário a massa escorreu e deslizou para outra coisa, anda assustadoramente insistindo em diferir de si mesma.

3. O Povo está morto. E o que está morto não pode simplesmente renascer. Não é no conjunto de relações contratuais estabelecidas entre governantes e governados que encontraremos respostas para os novos problemas. A Massa diferiu. A modulação do corpo social operada no espaço fechado das fábricas e das escolas e na ordem do tempo da ciência moderna deixou de ressoar. Estamos na crista de uma descontinuidade histórica. O mundo mudou. E não é recorrendo a velhas respostas e esquematismos conceituais gastos e inviabilizados por todos os lados pelo próprio devir da História que alcançaremos uma compreensão razoável dos acontecimentos. Vivemos o tempo da Multidão. Não uma multidão negativa que segundo as análises clássicas de Hobbes e Rousseau caberia ao poder soberano dominar e domesticar. Mas uma nova modalidade de multidão que se assemelha a um estranho tipo de proletariado imaterial, em rede e conectado, que não converge numa vontade geral, escapa a qualquer tipo de unidade política e não se reflete de forma alguma no modelo do Estado. Tratar-se ia antes de uma sorte de rede imperial interplanetária composta por singularidades instáveis e imprevisíveis que respondem a uma multiplicidade de estímulos de ondas telemáticas. Somente observando com olhos atentos esse estranho quadro atual entende-se por que as formas históricas do “governado” e do “representado” foram esvaziadas de sentido e há um descompasso incrivelmente anacrônico entre esse novo modo de existência que vem sendo gestado na velocidade da tecnologia da informação e as instâncias tradicionais da política régia e da representação. Todos tentam canalizar e decifrar a energia potencial da multidão a partir de uma linguagem antiga, como se tentássemos escutar e compreender os sinais de uma nova língua apelando a uma forma de escrita e a uma tábua de significados que foram enterrados nas areias do tempo. Todavia, o grande desafio não será ler os acontecimentos à luz de velhas operações de enquadramento, e sim procurar inventar novas combinações, explorando esse rearranjo de singularidades que observamos como quem olha para uma janela futurista. 

4. Embora não seja nem um pouco prudente desconsiderar o conjunto de dilemas extremamente atuais expressados em cartazes e palavras de ordem ao longo dos últimos dias, quando operamos uma raspagem nas camadas mais superficiais e conjunturais e encaramos o acontecimento na sua dimensão existencial é a crise da própria imagem do homem que encontramos. Uma crise que ultrapassa as fronteiras dos Estados nacionais e manifesta o desconforto com o próprio ritmo do mundo. Muito além de uma duvidosa reforma política, da crítica indispensável aos abusos e aos maus usos do erário público, da insatisfação generalizada com a nossa vexatória “mobilidade urbana”, os protestos apelam a uma sorte de ontologia de nós mesmos. O que explodia nas bombas, queimava nas fogueiras improvisadas e vacilava nas barricadas erguidas pelos manifestantes era efetivamente a imagem de um humano desnaturado. O embate entre as forças difusas dos manifestantes e a ordem hierárquica do aparelho de Estado é a expressão de um cansaço em relação a velhas formas de conceber o homem que uma parcela lúcida da juventude não aceita mais. Trata-se de uma juventude que se descolou da televisão; de uma juventude que não se satisfaz com a modalidade hegemônica da escrita jornalística de grande circulação; de uma juventude desconfiada que o princípio norteador da vida não seja adquirir um automóvel ou um apartamento faraônico no ministério dos ares. O que se quer dizer com isso é que “o buraco é mais em baixo”, e que para lá das reivindicações necessárias e atuais existem comportamentos e valores de longa duração sendo colocados em xeque. É a própria imagem do homem burguês que está em questão. O que fazermos dela? O recado dos jovens parece muito claro: há uma “fadiga dos metais”, e a imagem carregada com as tintas do individualismo e do consumo irresponsável deixou de ser uma resposta possível. Muito diferente de um movimento sem causas, sem projetos e sem organização, trata-se antes de uma agitação positivamente descentralizada que manifesta o cansaço das velhas formas e o anseio por novos possíveis.

5. Em nenhuma hipótese, se trata de esvaziar o sentido político mais atual da palavra “reivindicação”. No entanto, o ato de reivindicar só pode se direcionar àquilo que já existe, enquanto o que marcaria mais profunda e positivamente o movimento seria a invenção de uma nova “economia afetiva”, ou o redesenho afirmativo das equações operadas pela energia vital que constrói uma dada ordem perceptiva entre o homem e o conjunto das imagens do mundo. Nesse ponto, a indeterminação e a nudez de um estado puro de Multidão podem mostrar sua face criadora e inventiva, escapando finalmente ao conteúdo pejorativo que lhe era destinado pela tradição jusracionalista. Contudo, quando a energia potencial em estado livre e a força criadora em regime de espera que caracterizam a pura virtualidade da Multidão descambam para uma simples e pobre descarga de irracionalismo destrutivo, toda a panóplia argumentativa dos defensores da violência de Estado ganha força e legitimidade. Para afirmar-se como positividade política, a Multidão precisa utilizar a violência unicamente como vetor para a criação de novas formas. Se o ímpeto de pura irracionalidade de uma violência-catástrofe apodera-se dos rumos do movimento tudo permanece em selvagem estado de caos. E contra o caos em estado selvagem as forças da repressão atuam com facilidade, visto que apenas fazem um uso institucionalizado e organizado do mesmo expediente. Entretanto, contra o caos que cria novas formas, que deságua numa nova economia dos afetos, por exemplo, as forças da repressão se vêem inertes e desarmadas, pois não encontram pela frente a forma da violência-catástrofe que bem conhecem, mas a forma de uma violência artista contra a qual o único expediente possível é a admiração. O verdadeiro vandalismo útil e estratégico, portanto, seria uma sorte de vandalismo existencial, a partir do qual nenhuma vidraça precisará ser quebrada, já que a maior das vidraças estará desfeita pelo exercício de atualização humana do esforço criador: a percepção. Com efeito, tudo parece indicar que a maior violência seria fazer da pura potência da Multidão um novo sentido de comunidade.

6. Como fugir da armadilha da burocratização sem cair ao mesmo tempo na armadilha da militarização? Se a burocratização era uma forma clássica de conversão das potências livres de um movimento no modelo hierarquizado do aparelho de Estado, a militarização não seria outra maneira que a forma-Estado encontra para penetrar o espaço livre do movimento e canalizar suas energias potencialmente criadoras de novas formas para um simples exercício de violência? Que me perdoem todos os simbolistas do quebra-quebra, mas a violência canalizada para a negação e a destruição é uma forma estratégica de desviar toda a potência produtiva da inteligência social para uma alternativa vazia e muito pouco revolucionária, por mais que ela pareça render frutos em curto prazo. Uma violência reativa que não cria formas, mas apenas alimenta um sentimento de cólera impotente que contamina o tecido social com afetos improdutivos. A potência de imaginação coletiva anda sendo seqüestrada por ícones militares. Em grande parte, isso acontece como um mecanismo automático de resposta ao terrorismo de Estado perpetrado criminosamente pela polícia militar. No entanto, aonde poderá nos levar um conflito deflagrado entre um terrorismo de Estado e um terrorismo de Bando? Eis o ponto: embora a violência desproporcional utilizada pelo terror de Estado da polícia militar faça disparar quase inevitavelmente um automatismo de resposta que se serve da mesma moeda, não seria possível ultrapassar essa mecânica de reação em cadeia pela criação de outro tipo de resposta? Como recusar a arbitrariedade do poder constituído sem construir uma réplica espelhada desse mesmo modelo?

7. Parodiando o célebre conto de Kafka “A muralha da China”, poderíamos dizer que na noite de segunda o governador construiu muralhas, mas que os nômades continuarão acampados no coração da cidade. Na capital gaúcha, as muralhas já não são feitas de sólido mineral imóvel. Aqui elas assumiram a forma dos batalhões da polícia militar. Mistura de carne, osso e armas, uma forma meio humana meio armamento, responsável por desferir incontáveis arremessos e covardes investidas contra a multidão. Não seria essa modalidade contemporânea de muralha, supostamente viva e humana, uma forma de mineralização da vida? Em conjunto, agrupados, num aparelho institucional de irracionalidade legitimada, a polícia militar não carregaria algo daquele velho mineral - estúpido estado de pedra? Maldita seja essa pedra cortante. Ela acredita que através da asfixia, da ardência e do derramamento de sangue dissolverá o conjunto de agitações das forças vivas da cidade? Ao fim de tudo, a borracha se tornará escassa e os gases se esfumarão, mas uma voz rouca ainda existirá ao fundo para dizer: abaixo à polícia militarizada, resquício apodrecido de uma ditadura derrotada, para os diabos com os seus malditos estrondos da morte. Nós permaneceremos. Não vamos arrefecer. Até que os cães de guarda do Estado curem sua raiva; até que abandonem a panóplia covarde e mortal que carregam com um falso orgulho que seus olhos mal podem esconder; até que se curvem aos seus verdadeiros senhores e passem a descarregar seus excrementos de irracionalidade em outro lugar; até que tudo isso ocorra, resistir será um dever. 

8. A Província de São Pedro verte lágrimas sangrentas. Ponta militarizada de império. República de ditadores e generais. Fonte geradora de rebentos autoritários de projeção continental. Farrapo escravista e traidor: será mesmo um exemplo nacional? É preciso que todos saibam. Aqui, nessa ponta sul, num conluio ao mesmo tempo escandaloso e inconfessável entre a mentalidade medrosa da elite política e o conservadorismo oligárquico das empresas de comunicação, o restabelecimento da ordem enterrou o sentido do progresso. Nesse estado sulista policialesco onde as fortunas se divertem com as formas do autoritarismo, a dualidade de princípios da bandeira nacional foi rasgada. O separatismo estúpido de nossos ancestrais deslizou para um separatismo conceitual. Nesse imbróglio, ficamos com a ordem. Talvez seja preciso procurar o progresso em terras uruguaias. De qualquer forma, resta uma maldita esperança que continua a me provocar: que os ventos de junho afastem daqui esse Cale-se.
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