SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Pelo fim do preconceito no futebol


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Este é um dos textos mais valiosos que já escrevi. Sou homem, aficionado por futebol e frequentador dos estádios há pelo menos 15 anos. Sei que vou ser ridicularizado e desacatado por muitas pessoas. Pouco importa. Quero rasgar elogios aos corajosos torcedores de vários clubes brasileiros (entre eles, o Rolo Compressor) que fundaram, nos últimos meses, páginas nas redes sociais contrariando a homofobia. São seres humanos que gostam de futebol e encararam a luta contra o preconceito e a opressão abertamente.

Cresci ouvindo dos meus rivais ofensas e piadinhas relacionadas ao dito parentesco colorado com os primatas. Sempre achei estranho, porque no fundo a carga racista esteve presente em grande parte dos ataques. Cresci refletindo sobre como não agir, ou seja, espelhei-me no preconceito dos outros para não repeti-lo com ninguém. Estudei a história das equipes gaúchas. Salvas as controvérsias diluídas no tempo, é fato que o Segundão passou a aceitar jogadores negros somente na década de 1950 (findado o nazismo!). Sabe-se que o Inter recrutava atletas das ligas populares da capital desde meados dos anos 1920. Durante bastante tempo, julguei-me desprovido do papel de opressor no tocante ao futebol.

Infeliz engano. Contrário ao preconceito alheio, eu esquecia aqueles que insistiam dentro de mim. Não foi uma, nem duas, as vezes que repeti um humor estéril relacionado a ficar contando anedotas referentes aos casos da “Poltrona 36” e da “Colygay”. Notava uma espécie de riso amarelo numa série de amigos que já tinham se dado conta da bestialidade dessa comédia. Demorei a perceber que eu combatia o racismo dos azuis com uma homofobia pintada de vermelho. Senti vergonha de mim mesmo. Contudo, passei a tentar virar a mesa cá com meus botões. Não cantei e não canto mais músicas homofóbicas quando participo do incomparável calor da multidão colorada. Troco os vocábulos ofensivos por termos que lembrem a Série B ou qualquer coisa que não envolva características de pessoas ou grupos sociais desprestigiados, excluídos ou oprimidos historicamente.

Sim, sou heterossexual. Até hoje só senti e sinto atração por mulheres e nenhuma por homens. E daí?! Poderia ser diferente. Não tenho medo de que minhas posições argumentativas se aproximem das dos gays. Acho ótimo se isso ocorrer. Também não sou politicamente correto. Apenas mantenho a convicção de estar investindo os meus esforços na procura por relações interpessoais desprovidas da violência (física ou simbólica) intrínseca à discriminação. Nunca vou sequer considerar arguições que falem em “anormalidade” ou “erro” acerca das pessoas que amam outras do mesmo sexo. Deixo, portanto, todo o meu singelo apoio às torcidas que combatem sem receio o racismo, a homofobia, o machismo, a misoginia e a exploração da humanidade pela humanidade.
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