SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 14 de maio de 2013

Troco um tablet pela busca da dignidade


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No final do mês de abril, o magistério público realizou uma paralisação nacional. Foi um momento importante para a reflexão e para a luta da categoria. Passado algum tempo, a 1ª Coordenadoria Regional de Educação do Rio Grande do Sul começa a distribuir tablets para os docentes. Gostaria de problematizar a perspectiva adotada pelo governo frente ao cenário educacional, ressaltando a inoperância e o equívoco de algumas das suas propostas.

É óbvio que vivemos uma realidade em que a tecnologia atravessa a vida social. Nós, professores, precisamos estar cientes dos acontecimentos desse cunho. Eis o lado interessante da política de distribuição dos tablets. De alguma forma, mesmo que desprovida de sentido, como uma boia perdida na imensidão de um oceano, os educadores estão sendo condicionados a lidar com os modernos recursos que dispomos. Trata-se de um aspecto positivo.

No entanto, parece piada propagar que isso concretiza uma política séria e comprometida com a qualidade do ensino. Enquanto as escolas penam, tanto do ponto de vista da estrutura física, quanto do caos pedagógico que permeia o nosso ofício, os governantes inserem goela abaixo uma reforma no ensino médio. Iniciativa maquiada pela disseminação de aparelhos cuja necessidade é questionável – no mínimo. Afora o fato de que poderemos usar os tablets para algumas tarefas facilitadoras, sou taxativo em sentenciar que a ausência deles não é o eixo do problema da educação.

Ao invés de negociar uma parceria com uma empresa qualquer, o que sem dúvidas dispendeu algum investimento público, nossos gestores poderiam juntar esforços para pagar o piso nacional do magistério. Não porque as máquinas consignadas sejam rejeitáveis, volto a dizer. Mas porque é uma evidência empírica mundial que valorizar os salários destes profissionais tem que ser prioridade. Nos dias de hoje, digo com tristeza, poucos acadêmicos dedicados querem virar professores da rede pública. Isso é uma verdade terrível. Incômoda realidade que direciona para o fracasso uma das ocupações mais relevantes na conjuntura vigente.

Concordo que muitos colegas fazem corpo mole ou deveriam ser mais cobrados nas suas atuações em sala de aula. E é por isso que urge um projeto de Estado que financie a educação com vigor, que remunere com dignidade aqueles que estão no olho do furacão. Que reestruture os colégios, acabando com as goteiras, instalando internet sem fio por todos os ambientes em todos os estabelecimentos. Que disponibilize salas de vídeo, projeção e informática. Que termine com as rachaduras, os ventiladores quebrados e todas as demais mazelas materiais. Até para que a sociedade exerça o direito de nos cobrar com mais ênfase, sem que seja possível respondermos na linha do conformismo pelo salário miserável que recebemos ou pelo ímpeto de trabalhar 60 horas por semana a fim de atingir uma condição financeira de médio conforto. O cotidiano demonstra que o suporte básico não é cumprido.

Impossível é não retornar a uma referência à reformulação do ensino médio. De uma hora para a outra, através de um documento de 40 páginas, que, com todo o respeito, lembra mais um capítulo introdutório de uma dissertação ou tese não corrigida, o executivo gaúcho aplicou uma significativa transformação conceitual. Saliento que tenho vários pontos de convergência com o texto que fundamenta o ensino médio politécnico. Muitos são os argumentos acurados. Só que a prática e a teoria estão deveras distantes, contrariando as diretrizes dos próprios escritos que as baseiam. Além de assassinar a carga horária de determinadas disciplinas, o processo democrático de consecução desta política não está sendo executado democraticamente. A comunidade escolar não foi e não está sendo protagonista desse movimento. Está tudo acontecendo como dá para ser feito, à medida que os mandamentos da SEDUC batem na porta. Uma grande confusão.

Acho mesmo que os tablets podem ser úteis. Creio, entretanto, que não poderei adquirir aquele que me caberia. No dia marcado para aprender a ligá-lo e a fazer desenhinhos num Paint genérico, apresentarei dois trabalhos em dois eventos diferentes. Quem não for na formação, não recebe o brinquedo. Não vou deixar de fomentar a minha construção enquanto docente/autor/criador para ter a satisfação de ganhar um instrumento tecnológico. Estou trocando uma ferramenta pela busca da dignidade. Não obstante, nunca vi os governantes incentivarem um docente a pesquisar, a escrever, a expor suas ideias perante os pares da sua área de estudos. Ah, mas pelo menos eles vão ter um tablet.
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