SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sábado, 29 de junho de 2013

Brasil, junho de 2013: uma leitura arqueo-genealógica



Por Gabriel Torelly Professor e Historiador

1. O capitalismo atual não se apóia nas leis, mas numa esfera muito anterior, muito mais eficaz, que é a própria colonização do desejo. É somente depois de atuar de forma invasiva e predadora na produção da subjetividade que ele passa a incidir sobre as leis, modulando-lhes facilmente o conteúdo e o alcance a partir do momento em que houve sucesso na instância anterior da domesticação do desejo. O mais inquietante é que esse caráter predatório e invasivo não é garantido por meio da coação física ou do exercício direto da força. Ele atua de modo aparentemente dócil e inocente, fazendo proliferar imagens produzidas em profusão diariamente e disponibilizadas com espantosa eficiência nos tempos da tecnologia da informação. Pela exploração da democratização das imagens, aliada à intensa aceleração de sua difusão, o ritmo do capitalismo deixou de inscrever-se somente nos movimentos dos corpos dos trabalhadores e alcançou a possibilidade de instalar-se na própria imaginação. Nos dias correntes, a resistência ao monstro interplanetário que não respeita fronteiras nem restrições legais não poderá triunfar se aferrar-se apenas aos aspectos institucionais e não levar em conta essas agitações preliminares, sem bandeira nem lei, que dizem respeito ao campo do desejo. A verdade é que a natureza predadora de externalidades do capitalismo desferiu um golpe de mestre apropriando-se das pautas subversivas que colocavam o próprio regime em xeque ao final da década de 1960. Toda a crítica à unidimensionalidade de um humano massificado pelas formas do trabalho alienante e repetitivo foi como que engolida e digerida pelo monstro capitalista atual, e hoje em dia as palavras de ordem do mercado não apelam mais às fórmulas alienantes da divisão mecânica e simplificada do trabalho, mas à criatividade, inventividade, imaginação, etc. Na passagem que vivenciamos entre uma sociedade formalizada pela disciplina das fábricas e uma sociedade de controle movida pela tecnologia da informação, qualidades anteriormente consideradas como fontes não capitalizáveis de exteriorização da vida e do pensamento foram interiorizadas e capitalizadas. A dominação deixou de ser um exercício simples de assujeitamento dos corpos e passou a incidir sobre as próprias forças imateriais de produção da vida. Se ontem a resistência passava pela quebra das máquinas e pela rebeldia física e corporal das forças de trabalho, hoje ela precisa estar mais atenta às agitações do desejo, procurando formas de gestar um potencial humano imaginativo arredio à capitalização mercadológica e à integralização imagética colonizadora. 

2. Nos meandros da modernidade, o capital engoliu o contrato social. O que era vontade geral de um Povo governado pelo poder soberano transformou-se em opinião pública de uma Massa móvel submetida às formas institucionalizadas do poder disciplinar. De povo governado por uma política palaciana passamos à massa disciplinada pela política representativa. Se o modelo jurídico do contrato social e a noção de povo ruíram juntamente com a forma do poder soberano em algum momento da história da modernidade, parece certo que o descrédito da política representativa e o esvaziamento da noção de opinião pública acompanham hoje a crise da sociedade disciplinar e seus mecanismos de massificação. Ora, não é outra coisa senão essa crise ou mutação que presenciamos hoje. Desse modo, na contramão do que gritavam boa parte dos manifestantes, não foi o povo quem acordou. O povo está morto. E já faz tempo. Ele virou massa, e massa já está deixando de ser. É justamente isso que anda arrepiando os cabelos das pessoas, a impossibilidade de modular uma massa informe como antigamente. Em meio às ondas telemáticas e ao ciberespaço interplanetário a massa escorreu e deslizou para outra coisa, anda assustadoramente insistindo em diferir de si mesma.

3. O Povo está morto. E o que está morto não pode simplesmente renascer. Não é no conjunto de relações contratuais estabelecidas entre governantes e governados que encontraremos respostas para os novos problemas. A Massa diferiu. A modulação do corpo social operada no espaço fechado das fábricas e das escolas e na ordem do tempo da ciência moderna deixou de ressoar. Estamos na crista de uma descontinuidade histórica. O mundo mudou. E não é recorrendo a velhas respostas e esquematismos conceituais gastos e inviabilizados por todos os lados pelo próprio devir da História que alcançaremos uma compreensão razoável dos acontecimentos. Vivemos o tempo da Multidão. Não uma multidão negativa que segundo as análises clássicas de Hobbes e Rousseau caberia ao poder soberano dominar e domesticar. Mas uma nova modalidade de multidão que se assemelha a um estranho tipo de proletariado imaterial, em rede e conectado, que não converge numa vontade geral, escapa a qualquer tipo de unidade política e não se reflete de forma alguma no modelo do Estado. Tratar-se ia antes de uma sorte de rede imperial interplanetária composta por singularidades instáveis e imprevisíveis que respondem a uma multiplicidade de estímulos de ondas telemáticas. Somente observando com olhos atentos esse estranho quadro atual entende-se por que as formas históricas do “governado” e do “representado” foram esvaziadas de sentido e há um descompasso incrivelmente anacrônico entre esse novo modo de existência que vem sendo gestado na velocidade da tecnologia da informação e as instâncias tradicionais da política régia e da representação. Todos tentam canalizar e decifrar a energia potencial da multidão a partir de uma linguagem antiga, como se tentássemos escutar e compreender os sinais de uma nova língua apelando a uma forma de escrita e a uma tábua de significados que foram enterrados nas areias do tempo. Todavia, o grande desafio não será ler os acontecimentos à luz de velhas operações de enquadramento, e sim procurar inventar novas combinações, explorando esse rearranjo de singularidades que observamos como quem olha para uma janela futurista. 

4. Embora não seja nem um pouco prudente desconsiderar o conjunto de dilemas extremamente atuais expressados em cartazes e palavras de ordem ao longo dos últimos dias, quando operamos uma raspagem nas camadas mais superficiais e conjunturais e encaramos o acontecimento na sua dimensão existencial é a crise da própria imagem do homem que encontramos. Uma crise que ultrapassa as fronteiras dos Estados nacionais e manifesta o desconforto com o próprio ritmo do mundo. Muito além de uma duvidosa reforma política, da crítica indispensável aos abusos e aos maus usos do erário público, da insatisfação generalizada com a nossa vexatória “mobilidade urbana”, os protestos apelam a uma sorte de ontologia de nós mesmos. O que explodia nas bombas, queimava nas fogueiras improvisadas e vacilava nas barricadas erguidas pelos manifestantes era efetivamente a imagem de um humano desnaturado. O embate entre as forças difusas dos manifestantes e a ordem hierárquica do aparelho de Estado é a expressão de um cansaço em relação a velhas formas de conceber o homem que uma parcela lúcida da juventude não aceita mais. Trata-se de uma juventude que se descolou da televisão; de uma juventude que não se satisfaz com a modalidade hegemônica da escrita jornalística de grande circulação; de uma juventude desconfiada que o princípio norteador da vida não seja adquirir um automóvel ou um apartamento faraônico no ministério dos ares. O que se quer dizer com isso é que “o buraco é mais em baixo”, e que para lá das reivindicações necessárias e atuais existem comportamentos e valores de longa duração sendo colocados em xeque. É a própria imagem do homem burguês que está em questão. O que fazermos dela? O recado dos jovens parece muito claro: há uma “fadiga dos metais”, e a imagem carregada com as tintas do individualismo e do consumo irresponsável deixou de ser uma resposta possível. Muito diferente de um movimento sem causas, sem projetos e sem organização, trata-se antes de uma agitação positivamente descentralizada que manifesta o cansaço das velhas formas e o anseio por novos possíveis.

5. Em nenhuma hipótese, se trata de esvaziar o sentido político mais atual da palavra “reivindicação”. No entanto, o ato de reivindicar só pode se direcionar àquilo que já existe, enquanto o que marcaria mais profunda e positivamente o movimento seria a invenção de uma nova “economia afetiva”, ou o redesenho afirmativo das equações operadas pela energia vital que constrói uma dada ordem perceptiva entre o homem e o conjunto das imagens do mundo. Nesse ponto, a indeterminação e a nudez de um estado puro de Multidão podem mostrar sua face criadora e inventiva, escapando finalmente ao conteúdo pejorativo que lhe era destinado pela tradição jusracionalista. Contudo, quando a energia potencial em estado livre e a força criadora em regime de espera que caracterizam a pura virtualidade da Multidão descambam para uma simples e pobre descarga de irracionalismo destrutivo, toda a panóplia argumentativa dos defensores da violência de Estado ganha força e legitimidade. Para afirmar-se como positividade política, a Multidão precisa utilizar a violência unicamente como vetor para a criação de novas formas. Se o ímpeto de pura irracionalidade de uma violência-catástrofe apodera-se dos rumos do movimento tudo permanece em selvagem estado de caos. E contra o caos em estado selvagem as forças da repressão atuam com facilidade, visto que apenas fazem um uso institucionalizado e organizado do mesmo expediente. Entretanto, contra o caos que cria novas formas, que deságua numa nova economia dos afetos, por exemplo, as forças da repressão se vêem inertes e desarmadas, pois não encontram pela frente a forma da violência-catástrofe que bem conhecem, mas a forma de uma violência artista contra a qual o único expediente possível é a admiração. O verdadeiro vandalismo útil e estratégico, portanto, seria uma sorte de vandalismo existencial, a partir do qual nenhuma vidraça precisará ser quebrada, já que a maior das vidraças estará desfeita pelo exercício de atualização humana do esforço criador: a percepção. Com efeito, tudo parece indicar que a maior violência seria fazer da pura potência da Multidão um novo sentido de comunidade.

6. Como fugir da armadilha da burocratização sem cair ao mesmo tempo na armadilha da militarização? Se a burocratização era uma forma clássica de conversão das potências livres de um movimento no modelo hierarquizado do aparelho de Estado, a militarização não seria outra maneira que a forma-Estado encontra para penetrar o espaço livre do movimento e canalizar suas energias potencialmente criadoras de novas formas para um simples exercício de violência? Que me perdoem todos os simbolistas do quebra-quebra, mas a violência canalizada para a negação e a destruição é uma forma estratégica de desviar toda a potência produtiva da inteligência social para uma alternativa vazia e muito pouco revolucionária, por mais que ela pareça render frutos em curto prazo. Uma violência reativa que não cria formas, mas apenas alimenta um sentimento de cólera impotente que contamina o tecido social com afetos improdutivos. A potência de imaginação coletiva anda sendo seqüestrada por ícones militares. Em grande parte, isso acontece como um mecanismo automático de resposta ao terrorismo de Estado perpetrado criminosamente pela polícia militar. No entanto, aonde poderá nos levar um conflito deflagrado entre um terrorismo de Estado e um terrorismo de Bando? Eis o ponto: embora a violência desproporcional utilizada pelo terror de Estado da polícia militar faça disparar quase inevitavelmente um automatismo de resposta que se serve da mesma moeda, não seria possível ultrapassar essa mecânica de reação em cadeia pela criação de outro tipo de resposta? Como recusar a arbitrariedade do poder constituído sem construir uma réplica espelhada desse mesmo modelo?

7. Parodiando o célebre conto de Kafka “A muralha da China”, poderíamos dizer que na noite de segunda o governador construiu muralhas, mas que os nômades continuarão acampados no coração da cidade. Na capital gaúcha, as muralhas já não são feitas de sólido mineral imóvel. Aqui elas assumiram a forma dos batalhões da polícia militar. Mistura de carne, osso e armas, uma forma meio humana meio armamento, responsável por desferir incontáveis arremessos e covardes investidas contra a multidão. Não seria essa modalidade contemporânea de muralha, supostamente viva e humana, uma forma de mineralização da vida? Em conjunto, agrupados, num aparelho institucional de irracionalidade legitimada, a polícia militar não carregaria algo daquele velho mineral - estúpido estado de pedra? Maldita seja essa pedra cortante. Ela acredita que através da asfixia, da ardência e do derramamento de sangue dissolverá o conjunto de agitações das forças vivas da cidade? Ao fim de tudo, a borracha se tornará escassa e os gases se esfumarão, mas uma voz rouca ainda existirá ao fundo para dizer: abaixo à polícia militarizada, resquício apodrecido de uma ditadura derrotada, para os diabos com os seus malditos estrondos da morte. Nós permaneceremos. Não vamos arrefecer. Até que os cães de guarda do Estado curem sua raiva; até que abandonem a panóplia covarde e mortal que carregam com um falso orgulho que seus olhos mal podem esconder; até que se curvem aos seus verdadeiros senhores e passem a descarregar seus excrementos de irracionalidade em outro lugar; até que tudo isso ocorra, resistir será um dever. 

8. A Província de São Pedro verte lágrimas sangrentas. Ponta militarizada de império. República de ditadores e generais. Fonte geradora de rebentos autoritários de projeção continental. Farrapo escravista e traidor: será mesmo um exemplo nacional? É preciso que todos saibam. Aqui, nessa ponta sul, num conluio ao mesmo tempo escandaloso e inconfessável entre a mentalidade medrosa da elite política e o conservadorismo oligárquico das empresas de comunicação, o restabelecimento da ordem enterrou o sentido do progresso. Nesse estado sulista policialesco onde as fortunas se divertem com as formas do autoritarismo, a dualidade de princípios da bandeira nacional foi rasgada. O separatismo estúpido de nossos ancestrais deslizou para um separatismo conceitual. Nesse imbróglio, ficamos com a ordem. Talvez seja preciso procurar o progresso em terras uruguaias. De qualquer forma, resta uma maldita esperança que continua a me provocar: que os ventos de junho afastem daqui esse Cale-se.
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sexta-feira, 28 de junho de 2013

A hora da encruzilhada?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Cheguei à Praça da Matriz perto das 17 horas. A cultura do medo que se espalha pela cidade fez com que as atividades do turno da tarde fossem suspensas na escola em que trabalho. O Centro de Porto Alegre estava sitiado pelas forças policiais. Até aí, tudo normal. Inclusive o clima de tensão predominante. Mas a praça estava “tranquila”. A narrativa a seguir propõe o entendimento dos fatos do dia 27 de junho de 2013, de modo reflexivo, além de problematizar uma intuição proveniente deles.

Caminhei um pouco em busca de algum amigo. Encontrei. Conversamos sem ver o tempo passar. Outros amigos foram se juntando. Quando a noite chegou, o movimento começou a tomar a forma da encruzilhada que está pulsando diante dos olhos atentos aos quentes dias de inverno do hemisfério sul. Um carro de som anunciava as bandas que iriam tocar na sequência, ao mesmo tempo em que propagava pautas prontas, palavras de ordem caracterizadas quase como um palanque eleitoral. Confesso que todas as pautas desferidas pelas grandes caixas de som constituíam uma linha política razoável para o meu gosto. Só que o buraco é mais embaixo.

Desde o primeiro passo que dei na praça, atentei ao meu redor. Tentei agir enquanto partícipe e pesquisador, numa esquizofrenia básica que as ciências sociais entregam como cartão de visitas aos seus praticantes. O que vi é o que me leva a despertar para um sentimento de encruzilhada muito próxima de virar realidade. Vi, com satisfação, variados movimentos sociais, pessoas que estão na luta há bastante tempo, reivindicações das minorias e grupos organizados em favor da igualdade e das conhecidas insígnias da esquerda política. Um avanço na consciência coletiva – pensei de imediato. Os atos aqui pelos pampas estão em disputa e a tentativa de politização está presente.

Contudo, vi também que a multidão é, sim, um monstro sem rosto e coração. A célebre rima dos Racionais MC’s fez todo sentido nas últimas manifestações. Dentre os ativistas supracitados, os independentes e espontâneos, lá estavam jovens mascarados e tapados dos pés à cabeça. Não tem como fugir de uma reflexão acerca disso. Sobretudo pelo fato de que, mergulhados na heterogeneidade exposta entre as árvores e cartazes, a parte da juventude que não se sente integrante de uma cidade que a exclui sistematicamente demonstrava um sangue nos olhos e uma ansiedade por qualquer tipo de enfrentamento.

Os mascarados, apenas com os olhos de fora, não generalizando, mas já tipificando, pareciam esperar o instante de botar para fora uma raiva acumulada, um desprezo por aqueles que não sofrem o sofrimento cotidiano das periferias. Não tenho a intenção de justificar ou defender quaisquer ações. Tenho a obrigatoriedade profissional de entender (ou tentar, pelo menos) como as coisas estão ocorrendo. E eu compreendo (dentro do que a minha experiência cognitiva permite) o sangue nos olhos daquela gurizada. A vida não é bonita, nem por um segundo, para quem não tem ou teve saneamento básico, carinho e afeto, educação e saúde de qualidade, recursos materiais elementares, oportunidades promissoras de sucesso individual e social e todos os outros pressupostos não atendidos nas sociedades capitalistas contemporâneas.

Minuto após minuto, a Praça da Matriz perdia a aura cultural e política e ganhava os ares de uma batalha campal prestes a iniciar. Sabe-se lá por qual razão, ela chegou. A correria, a repressão do Estado e o esvaziamento do protesto vieram rapidamente. O Centro e a Cidade Baixa, bairros vizinhos, viraram uma grande trincheira, na qual ninguém sabia em quem confiar, pois a caminhada por ali estava em aberto, na literalidade total da expressão. Moradores e pequenos comerciantes posicionavam-se com ou como seguranças privados em frente aos seus estabelecimentos e residências, prontos para o confronto com as gangues dispostas a buscar lucros individuais numa situação coletiva, através de arrastões e saques (materializados aos meus olhos). A polícia não distinguia alhos de bugalhos (algum dia distinguiu?). Clima de Estado de Sítio.

Sei que não vou agradar as mentes da esquerda militante, movidas pela paixão e pelo ideário da revolução socialista. Sei, paradoxalmente, que tampouco agradarei as falácias da direita elitista que ambiciona mais autoridade, opressão e repressão para conter a maré popular que banha as ruas do país. Sei, ainda, que tudo indica estarmos caminhando, passo a passo, rumo a uma encruzilhada em que o novo vai ter que surgir, nem que seja goela abaixo. Caso contrário, corre-se o risco de um recrudescimento vigoroso dos alicerces conservadores. Não estou falando de golpes ou ditaduras cujos moldes mancham a história. Estou falando da capacidade dos setores conservadores se organizarem por dentro do poder, sustentados por intervenções autoritárias ratificadas pelo medo deflagrado na população em geral.

De tudo, ficam indagações. Elas são muito mais relevantes do que qualquer assertiva cunhada neste texto. Se não é possível frear a dinâmica dos levantes populares, e nem parece adequado, como dar voz ao povo massacrado século após século, sem que a criminalidade cresça geometricamente e incentive o endurecimento da máquina repressiva a serviço do Estado e da conservação? Como trazer essa juventude revoltada e que encontra sentido numa espécie de cultura do crime para um viés de politização das suas demandas? Como não confundir uma crítica política do status quo com uma crítica estéril à política? Como evitar o esvaziamento das ruas mediante o caos que tende a se instaurar? Como trabalhar, nesse contexto de acirramento, para uma proposta de refundação da esfera policial, a fim de reconstruí-la sob a égide da cidadania e dos direitos humanos? Como fazer brotar o novo, num oceano de doutrinas políticas restritas e ultrapassadas no seu âmago, geradoras de mecanismos organizacionais enterrados pelo passado? Como fugir da encruzilhada que se aproxima apontando para mais repressão, à medida que o instinto revoltoso volta-se contra tudo e contra todos?

São tempos de grandes desafios. Não canso de ressaltar isso. São tempos, com efeito, de não deixar em segundo plano os questionamentos que afloram do calor dos acontecimentos. São tempos de quentes ruas de política viva. São tempos de perguntas. Perguntas que podem valer mais do que uma dezena de respostas. Principalmente porque elas fazem pensar. Pensemos. Antes de agir. 
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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Socializar os sonhos democráticos


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Enquanto a bola começa a rolar na Copa das Confederações, o Brasil está em convulsão. Para falar a verdade, o mundo está em convulsão. Se durante muito tempo achamos que a inércia era uma característica que acompanhava o século XXI, hoje podemos visualizar que essa ideia estava equivocada. E, pasmem alguns, o futebol não está afastado disso tudo. Pelo contrário, sobretudo no caso brasileiro, ele é parte integrante de uma discussão fundamental sobre a vida humana em sociedade. Quero refletir acerca do esporte mais popular da Terra, os protestos e manifestações que se alastram entre variados povos e as perspectivas que estão em pauta na realidade contemporânea.

Onze atletas de cada lado do campo, correndo atrás de uma esfera, no intuito de chutá-la para dentro de uma goleira. Vendo dessa forma, quer coisa mais banal e alienante? Contudo, tem-se uma visão muito parcial adotando essa postura. O futebol sobrepõe o fato inerente de ser um esporte e um jogo. O que faz dele uma paixão mundial é a existência de uma infinidade de pessoas que o encaram como uma arte, como um sopro de alegria num furacão de possíveis tristezas. É a identificação de distintos seres humanos com uma cor, uma camisa, uma história clubística que constitui a força das grandes equipes espalhadas por aí. A sensação de compartilhar da efervescência intrínseca a uma arquibancada lotada, de coadunar energias para um fim comum, tudo isso concretizado de pé ou sentado, cantando, pulando e, enfim, torcendo. Pode ser no estádio, pode ser na rua, pode ser em casa, fazendo um churrasco ou sentado no sofá. Trata-se de um sentimento que ultrapassa a individualidade.

O genial escritor uruguaio Eduardo Galeano cunhou uma expressão aguçada para se referir ao futebol dos tempos atuais. A magia de jogar bola encontra-se à sombra. Seu período de iluminação absoluta já passou. Aquela irradiação maravilhosa de todas as suas belezas sucumbe cada vez mais ao padrão FIFA. Torcedores viram clientes, e é imperativo que paguem caro pelo produto. Estádios viram teatros, repletos de regras de conduta alienígenas. Arquibancadas são tomadas por poltronas, nas quais as bundas alheias se aconchegam e, se o evento estiver chato, fornecem todos os caminhos para um gostoso soninho. Se alguém tirar a camiseta, seguranças privados aceleram seus coturnos para manter a ordem e os bons costumes. Sem falar, é claro, dos milhões e milhões, que totalizam bilhões de reais do governo ou do BNDES destinados a edificar elefantes brancos disseminados pelo país. Dizem que na África do Sul certas arenas estão sendo derrubadas, visto que não possuem qualquer utilidade.

Não é à toa que o planeta está em convulsão. Há tantas e tantas coisas para dizer, entaladas na goela das multidões. São tantos os nós nas gargantas. Em Porto Alegre, no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Turquia, no Chile, na Grécia, na Espanha, nos países árabes ou nos Estados Unidos. O endereço é o que menos importa. Bastante gente não suporta mais as brutais desigualdades; a concentração de riquezas; o racismo; a homofobia; o machismo; os meios de comunicação hegemônicos ignorantes e corporativistas; a especulação imobiliária; o descaso na educação; o abandono na saúde; o medo generalizado para com o outro; o medo da polícia discriminadora; a corrupção em todas as esferas; o individualismo e o conservadorismo crescentes; enfim, motivos não faltam para tentar virar a mesa. A violência está no cotidiano. Seja física ou simbólica. Dia após dia. Não adianta fechar o vidro do carro que leva quase sempre somente um passageiro e que vale o preço de um apartamento ou de uma sonhada casa própria. Bertolt Brecht nos ensinou que o rio que tudo arrasta é, sim, recheado por violências. Mas as margens que o oprimem também.

Creio que todas as pessoas precisam sonhar. Precisam de um passado a se orgulhar, de um presente com oportunidades e um futuro de paz e alegria. Como está até aqui, o trajeto é o inverso. Só uns poucos desfrutam das bonitezas da vida. A rotina nos individualiza demais, amarra-nos ao trabalho incessante, violenta-nos ao permitir que nossos sonhos e utopias sejam freados por uma ordem demasiadamente injusta. Se não mudar, amanhã vai ser maior o coro a ser ouvido. Por variadas razões. E amanhã, e amanhã, e amanhã... Até que a esperança volte a ser mais importante do que o mercado, ou do que uma estabilidade (?) que só traz calmaria para determinados favorecidos. Até que uma vida volte a valer mais do que uma vidraça rachada ou do que o sucesso em transações financeiras com lucros estratosféricos.

Os dias que vêm por aí serão de grandes desafios. A parte mais relevante deles, acredito, está associada ao enorme ponto de interrogação que os cercam. As receitas das alternativas passadas engendraram válidas experiências, demonstraram erros e indicaram por quais rumos não marchar. As pessoas que arriscam sua integridade física, que se abrem às críticas ocupando as ruas e manifestando os seus descontentamentos podem ser vistas com inúmeras lentes. Não peço que cheguemos a um consenso. Pelo contrário, a estrada a percorrer é justamente talhada por dissenções, por argumentos antagônicos postos em cheque, discutidos à exaustão. Essa estrada não parece passar pela democracia representativa de viés tradicional. Parece, com efeito, enveredar na busca por outras formas democráticas de deliberar as questões relativas à cidade, ao Estado, à nação e à civilização humana.

Uma célebre frase do poeta Sérgio Vaz dá o tom daquilo que os anseios das heterogêneas reivindicações que incomodam os dominantes e seus adeptos carregam como potencial: “Enquanto eles capitalizam a realidade, nós socializamos nossos sonhos”. É hora de aderir ao porvir, de fazer, de experimentar, de errar e acertar para além de uma falsa harmonia que nos põe numa zona de conforto que pouquíssimo tem de confortável. Como diz a paradoxal propaganda de uma montadora de automóveis, repetida nos comerciais televisivos, está na hora de ir para as ruas, já que as ruas são as maiores arquibancadas do Brasil. Ocupar essas arquibancadas públicas. Com pessoas, com arte, com expressão, com cartazes, cânticos e disposição para pensar e concretizar outras vivências cheias de solidariedade e valores que nos complementem uns aos outros. Vivemos num tempo de enormes desafios, mas o mundo está em movimento e nada deve parecer impossível de mudar.
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sexta-feira, 14 de junho de 2013

O mundo está em convulsão

Bernardo Caprara
sociólogo e Professor

Tantas coisas para dizer. Tantos nós na garganta. Não é só por alguns centavos. Aqui, no Rio, em São Paulo, no Chile, na Turquia, na Grécia ou na Espanha. São as brutais desigualdades; a concentração de riquezas; o racismo; a homofobia; o machismo; uma mídia ignorante e despreparada; a especulação imobiliária; o descaso na educação; o abandono na saúde; o medo generalizado para com o outro; o medo da polícia discriminadora; a falta de perspectivas; a corrupção em todas as esferas; enfim, motivos não faltam. A violência está no cotidiano. Seja física ou simbólica. Dia após dia.

O mundo está em convulsão. Todas as pessoas precisam sonhar. Precisam de um passado a se orgulhar, de um presente com oportunidades e um futuro de paz e alegria. Como está hoje, o caminho é o inverso. Só uns poucos desfrutam das bonitezas da vida. Se não mudar, amanhã vai ser maior. Por variadas razões. E amanhã, e amanhã, e amanhã... Até que a esperança volte a ser mais importante do que o mercado, ou do que uma ordem que só traz tranquilidade para alguns favorecidos. Até que uma vida volte a valer mais do que uma vidraça. O mundo está em movimento e nada deve parecer impossível de mudar.
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