SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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domingo, 30 de junho de 2013

A caminho de uma ruptura global


Por Slavoj Žižek
Filósofo

Em seus primeiros escritos, Marx descreve a situação na Alemanha como uma daquelas na qual a única resposta a problemas particulares seria a solução universal: a revolução global. É expressão condensada da diferença entre período reformista e período revolucionário: em período reformista, a revolução global permanece como sonho que, se serve para alguma coisa, é apenas para dar peso às tentativas para mudar alguma coisa localmente; em período revolucionário, vê-se claramente que nada melhorará, sem mudança global radical. Nesse sentido puramente formal, 1990 foi ano revolucionário: as muitas reformas parciais nos estados comunistas jamais dariam conta do serviço; e era necessária uma quebra total, para resolver todos os problemas do dia a dia. Por exemplo, o problema de dar suficiente comida às pessoas.

Em que ponto estamos hoje, quanto a essa diferença? Os problemas e protestos dos últimos anos são sinais de que se aproxima uma crise global, ou não passam de pequenos obstáculos que pode enfrentar mediante intervenções locais? O mais notável nas erupções é que estão acontecendo não apenas, nem basicamente, nos pontos fracos do sistema, mas em pontos que, até aqui, eram percebidos como histórias de sucesso. Sabemos por que as pessoas protestam na Grécia ou na Espanha; mas por que há confusão em países prósperos e em rápido desenvolvimento como Turquia, Suécia ou Brasil?

Com algum distanciamento, pode-se ver que a revolução de Khomeini em 1979 foi o caso original de “dificuldades no paraíso”, dado que aconteceu em país que caminhava a passos largos para uma modernização pró-ocidente, e era o mais estável aliado do ocidente na região.

Antes da atual onda de protestos, a Turquia era quente: modelo ideal de estado estável, a combinar pujante economia liberal e islamismo moderado. Pronta para a Europa, um bem-vindo contraste com a Grécia mais “europeia”, colhida num labirinto ideológico e andando rumo à autodestruição econômica. Sim, é verdade: aqui e ali sempre viam-se alguns sinais péssimos (a Turquia, sempre a negar o holocausto dos armênios; prisão de jornalistas; o status não resolvido dos curdos; chamamentos a uma “grande Turquia” que ressuscitaria a tradição do Império Otomano; imposição, vez ou outra, de leis religiosas). Mas eram descartados como pequenas máculas que não comprometeriam o grande quadro.

E então, explodiram os protestos na praça Taksim. Não há quem não saiba que os planos para transformar um parque em torno da praça Taksim no centro de Istambul em shopping-center não foram “o caso”, naqueles protestos; e que um mal-estar muito mais profundo ganhava força. O mesmo se deve dizer dos protestos de meados de junho no Brasil: foram desencadeados por um pequeno aumento na tarifa do transporte público, e prosseguiram mesmo depois de o aumento ter sido revogado. Também nesse caso, os protestos explodiram num país que – pelo menos segundo a mídia – estava em pleno boom econômico e com todos os motivos para sentir-se confiante quanto ao futuro. Nesse caso, os protestos foram aparentemente apoiados pela presidente Dilma Rousseff, que se declarou satisfeitíssima com eles.

É crucialmente importante não vermos os protestos turcos meramente como sociedade civil secular que se levanta contra regime islamista autoritário, apoiado por uma maioria islamista silenciosa. O que complica o quadro é o ímpeto anticapitalista dos protestos. Os que protestam sentem intuitivamente que o fundamentalismo de mercado e o fundamentalismo islâmico não se excluem mutuamente.

A privatização do espaço público por ação de um governo islamista mostra que as duas modalidades de fundamentalismo podem trabalhar de mãos dadas. É sinal claro de que o casamento “por toda a eternidade” de democracia e capitalismo já caminha para o divórcio.

Também é importante reconhecer que os que protestam não visam a nenhum objetivo “real” identificável. Os protestos não são, “realmente”, contra o capitalismo global, nem “realmente” contra o fundamentalismo religioso, nem “realmente” a favor de liberdades civis e democracia, nem visam “realmente” qualquer outra coisa específica. O que a maioria dos que participaram dos protestos “sabem” é de um mal-estar, de um descontentamento fluido, que sustenta e une várias demandas específicas.

A luta para entender os protestos não é luta só epistemológica, com jornalistas e teóricos tentando explicar seu “real” conteúdo: é também luta ontológica pela própria coisa, o que esteja acontecendo dentro dos próprios protestos. É apenas luta contra governo corrupto? É luta contra governo islâmico autoritário? É luta contra a privatização do espaço público? A pergunta continua aberta. E de como seja respondida dependerá o resultado de um processo político em andamento.

Em 2011, quando irrompiam protestos por toda a Europa e todo o Oriente Médio, muitos insistiram que não fossem tratados como instâncias de um único movimento global. Em vez disso, argumentavam, haveria uma resposta específica para cada situação específica. No Egito, os que protestavam queriam o que em outros países era alvo das críticas do movimento Occupy: “liberdade” e “democracia”. Mesmo entre países muçulmanos, haveria diferenças cruciais: a Primavera Árabe no Egito seria contra um regime autoritário e corrupto aliado do ocidente; a Revolução Verde no Irã, que começou em 2009, seria contra o islamismo autoritário. É fácil ver o quanto essa particularização dos protestos serve bem aos defensores do status quo: não há nenhuma ameaça direta à ordem global como tal. Só uma série de problemas locais separados…

O capitalismo global é processo complexo que afeta diferentes países de diferentes modos. O que une todos os protestos, por mais multifacetados que sejam, é que todos reagem contra diferentes facetas da globalização capitalista. A tendência geral do capitalismo global é hoje expandir o mercado, invadir e cercar o espaço público, reduzir os serviços públicos (saúde, educação, cultura) e impor cada vez mais firmemente um poder político autoritário. Nesse contexto, os gregos protestam contra o governo do capital financeiro internacional e contra seu próprio estado ineficiente e corrupto, cada dia menos capaz de prover os serviços sociais básicos. Nesse contexto, os turcos protestam contra a comercialização do espaço público e contra o autoritarismo religioso. E os egípcios protestam contra um governo apoiado pelas potências ocidentais. E os iranianos protestam contra a corrupção e o fundamentalismo religioso. E assim por diante.

Nenhum desses protestos pode ser reduzido a uma única questão. Todos lidam com uma específica combinação de pelo menos dois problemas, um econômico (da corrupção à ineficiência do próprio capitalismo); o outro, político-ideológico (da demanda por democracia à demanda pelo fim da democracia convencional multipartidária). O mesmo se aplica ao movimento Occupy. Na profusão de declarações (muitas vezes confusas), o movimento manteve dois traços básicos: primeiro, o descontentamento com o capitalismo como sistema, não apenas contra um ou outro corrupto ou corrupções locais; segundo, a consciência de que a forma institucionalizada de democracia multipartidária não tem meios para combater os excessos capitalistas. Em outras palavras, é preciso reinventar a democracia.

A causa subjacente dos protestos ser o capitalismo global não significa que a única solução seja “derrubar” o capitalismo. Nem é viável seguir a alternativa pragmática, que implica lidar com problemas individuais enquanto se espera por transformação radical. Essa ideia ignora o fato de que o capitalismo global é necessariamente contraditório e inconsistente: a liberdade de mercado anda de mãos dadas com os EUA protegerem seus próprios agronegócios e agronegociantes; pregar a democracia anda de mãos dadas com apoiar o governo da Arábia Saudita.

Essa inconsistência abre um espaço para a intervenção política: onde o capitalista global é forçado a violar suas próprias regras, ali há uma oportunidade para insistir em que ele obedeça àquelas regras. Exigir coerência e consistência em pontos estrategicamente selecionados nos quais o sistema não pode pagar para ser coerente e consistente é pressionar todo o sistema. A arte da política está em impor demandas específicas as quais, ao mesmo tempo em que são perfeitamente realistas, ferem o coração da ideologia hegemônica e implicam mudança muito mais radical. Essas demandas, por mais que sejam viáveis e legítimas, são, de fato, impossíveis. Caso exemplar é a proposta de Obama para prover assistência pública universal à saúde. Por isso as reações foram tão violentas.

Um movimento político começa com uma ideia, algo por que lutar, mas, no tempo, a ideia passa por transformação profunda – não apenas alguma acomodação tática, mas uma redefinição essencial –, porque a própria ideia passa a ser parte do processo: torna-se sobredeterminada.* Digamos que uma revolta comece com uma demanda por justiça, talvez sob a forma de demanda pela rejeição de uma determinada lei. Depois de o povo estar profundamente engajado na revolta, ele percebe que será preciso muito mais do que a demanda inicial, para que haja verdadeira justiça. O problema então é definir, precisamente, em que consiste esse “muito mais”.

A perspectiva liberal-pragmática entende que os problemas podem ser resolvidos gradualmente, um a um: “Há gente morrendo agora em Rwanda, então esqueçam a luta anti-imperialista e vamos impedir o massacre”. Ou: “Temos de combater a pobreza e o racismo já, aqui e agora, não esperar pelo colapso da ordem capitalista global”. John Caputo argumenta exatamente assim em After the Death of God (2007):

Eu ficaria perfeitamente feliz se os políticos da extrema-esquerda nos EUA fossem capazes de reformar o sistema oferecendo assistência universal à saúde, redistribuindo efetivamente a riqueza mais equitativamente com um sistema tributário [orig. Internal Revenue Code (IRC)] redefinido, restringindo o financiamento privado de campanhas eleitorais, autorizando o voto universal, para todos, tratando com humanidade os trabalhadores migrantes, e levando a efeito uma política externa multilateralista que integrasse o poder dos EUA dentro da comunidade internacional etc. Ou seja, intervindo sobre o capitalismo mediante reformas profundas, de longo alcance… Se depois de fazer tudo isso, Badiou e Žižek ainda reclamarem de um monstro chamado Capitalismo a nos assombrar, eu estaria inclinado a receber o tal monstro com um bocejo.

O problema aqui não é a conclusão de Caputo: se se pode alcançar tudo isso dentro do capitalismo, por que não ficar aí mesmo? O problema é a premissa subjacente de que seja possível obter tudo isso dentro do capitalismo global em sua forma atual. Mas e se os emperramentos e mau funcionamento do capitalismo, que Caputo listou, não forem meras perturbações contingentes, mas necessários por estrutura? E se o sonho de Caputo é um sonho de ordem capitalista universal, sem sintomas, sem os pontos críticos nos quais sua “verdade reprimida” mostra a própria cara?

Os protestos e revoltas de hoje são sustentados pela combinação de demandas sobrepostas, e é aí que está a sua força: lutam por democracia (“normal”, parlamentar) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente quando dirigidos contra imigrantes e refugiados; contra a corrupção na política e nos negócios (poluição industrial do meio ambiente etc.); pelo estado de bem-estar contra o neoliberalismo; e por novas formas de democracia que avancem além dos rituais multipartidários. Questionam também o sistema capitalista global como tal, e tentam manter viva a ideia de uma sociedade que avance além do capitalismo.

Duas armadilhas há aí, a serem evitadas: o falso radicalismo (“o que realmente interessa é abolir o capitalismo liberal-parlamentar; todas as demais lutas são secundárias”), mas, também, o falso gradualismo (“no momentos temos de lutar contra a ditadura militar e por democracia básica, todos os sonhos de socialismo devem ser, agora, postos de lado”).

Aqui, ninguém se deve envergonhar de acionar a distinção maoista entre antagonismo principal e antagonismos secundários, entre os que mais interessam no fim e os que dominam hoje. Há situações nas quais insistir no antagonismo principal significa perder a oportunidade de acertar golpe significativo, no curso da luta.

Só uma política que tome plenamente em consideração a complexidade da sobredeterminação merece o nome de estratégia. Quando se embarca numa luta específica, a pergunta chave é: como nosso engajamento ou desengajamento nessa luta afeta outras lutas?

A regra geral é que quando uma revolta contra regime semidemocrático começa – como no Oriente Médio em 2011 – é fácil mobilizar grandes multidões com slogans (por democracia, contra a corrupção etc.). Mas muito rapidamente temos de enfrentar escolhas muito mais difíceis. Quando a revolta é bem-sucedida e alcança o objetivo inicial, nos damos conta de que o que realmente nos perturbava (a falta de liberdade, a humilhação diária, a corrupção, o futuro pouco ou nenhum) persiste sob novo disfarce. Nesse momento somos forçados a ver que havia furos no próprio objetivo inicial. Pode implicar que se chegue a ver que a democracia pode ser uma forma de des-liberdade, ou que se pode exigir muito mais do que apenas a mera democracia política: que a vida social e econômica tem de ser também democratizada.

Em resumo, o que à primeira vista tomamos como fracasso que só atingia um nobre princípio (a liberdade democrática) é afinal percebido como fracasso inerente ao próprio princípio. Essa descoberta – de que o princípio pelo qual lutamos pode ser inerentemente viciado – é um grande passo em qualquer educação política.

Representantes da ideologia reinante mobilizam todo o seu arsenal para impedir que cheguemos a essa conclusão radical. Dizem-nos que a liberdade democrática implica suas próprias responsabilidades, que tem um preço, que é sinal de imaturidade esperar demais da democracia. Numa sociedade livre, dizem eles, devemos agir como capitalistas e investir em nossa própria vida: se fracassarmos, se não conseguirmos fazer os necessários sacrifícios, ou se de algum modo não correspondermos, a culpa é nossa.

Em sentido político mais direto, os EUA perseguem coerentemente uma estratégia de controle de danos em sua política externa, recanalizando os levantes populares para formas capitalistas-parlamentares aceitáveis: na África do Sul, depois do apartheid; nas Filipinas, depois da queda de Marcos; na Indonésia, depois de Suharto etc. É nesse ponto que a política propriamente dita começa: a questão é como empurrar ainda mais adiante, depois que passa a primeira, excitante, onda de mudança; como dar o passo seguinte, sem sucumbir à tentação “totalitária”; como avançar além de Mandela, sem virar Mugabe.

O que significaria isso, num caso concreto? Comparemos dois países vizinhos, Grécia e Turquia. À primeira vista, talvez pareçam completamente diferentes: Grécia, presa na armadilha da ruinosa política de austeridade; Turquia em pleno boom econômico e emergindo como nova superpotência regional. Mas e se cada Turquia contiver sua própria Grécia, suas próprias ilhas de miséria? Como Brecht diz em sua Elegias Hollywoodenses (orig. Hollywood Elegies’ [1942]),

A vila de Hollywood foi planejada segundo a ideia
De que o povo aqui seria proprietário de partes do paraíso. Ali,
Chegaram à conclusão de que Deus
Embora precisando de céu e inferno, não precisava
Planejar dois estabelecimentos, mas
Só um: o paraíso. Que esse,
para os pobres e infortunados, funciona
como inferno.
[1]

Esses versos descrevem bastante bem a “aldeia global” de hoje: aplicam-se ao Qatar ou Dubai, playgrounds para os ricos, que dependem de manter os trabalhadores imigrantes em estado de semiescravidão, ou escravidão. Exame mais detido revela semelhanças entre Turquia e Grécia: privatizações, o fechamento do espaço público, o desmonte dos serviços sociais, a ascensão de políticos autoritários. Num plano elementar, os que protestam na Grécia e os que protestam na Turquia estão engajados na mesma luta. O melhor caminho talvez seja coordenar as duas lutas, rejeitar as tentações “patrióticas”, deixar para trás a inimizade histórica entre os dois países e buscar espaços de solidariedade. O futuro dos protestos talvez dependa disso.


* Em seu prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx escreveu (no seu pior modo evolucional) que a humanidade só se propõe problemas que seja capaz de resolver. E se invertermos a ganga dessa frase e declararmos que, regra geral, a humanidade propõe-se problemas que não pode resolver, e assim dispara um processo cujo desdobramento é imprevisível, no curso do qual, a própria tarefa é redefinida?

[1] Não encontramos tradução para o português. Aqui, tradução de trabalho, sem ambição literária, só para ajudar a ler [NTs].

Este texto foi publicado originalmente no London Review of Books. Tradução para o português: Vila Vudu.
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sábado, 29 de junho de 2013

Brasil, junho de 2013: uma leitura arqueo-genealógica



Por Gabriel Torelly Professor e Historiador

1. O capitalismo atual não se apóia nas leis, mas numa esfera muito anterior, muito mais eficaz, que é a própria colonização do desejo. É somente depois de atuar de forma invasiva e predadora na produção da subjetividade que ele passa a incidir sobre as leis, modulando-lhes facilmente o conteúdo e o alcance a partir do momento em que houve sucesso na instância anterior da domesticação do desejo. O mais inquietante é que esse caráter predatório e invasivo não é garantido por meio da coação física ou do exercício direto da força. Ele atua de modo aparentemente dócil e inocente, fazendo proliferar imagens produzidas em profusão diariamente e disponibilizadas com espantosa eficiência nos tempos da tecnologia da informação. Pela exploração da democratização das imagens, aliada à intensa aceleração de sua difusão, o ritmo do capitalismo deixou de inscrever-se somente nos movimentos dos corpos dos trabalhadores e alcançou a possibilidade de instalar-se na própria imaginação. Nos dias correntes, a resistência ao monstro interplanetário que não respeita fronteiras nem restrições legais não poderá triunfar se aferrar-se apenas aos aspectos institucionais e não levar em conta essas agitações preliminares, sem bandeira nem lei, que dizem respeito ao campo do desejo. A verdade é que a natureza predadora de externalidades do capitalismo desferiu um golpe de mestre apropriando-se das pautas subversivas que colocavam o próprio regime em xeque ao final da década de 1960. Toda a crítica à unidimensionalidade de um humano massificado pelas formas do trabalho alienante e repetitivo foi como que engolida e digerida pelo monstro capitalista atual, e hoje em dia as palavras de ordem do mercado não apelam mais às fórmulas alienantes da divisão mecânica e simplificada do trabalho, mas à criatividade, inventividade, imaginação, etc. Na passagem que vivenciamos entre uma sociedade formalizada pela disciplina das fábricas e uma sociedade de controle movida pela tecnologia da informação, qualidades anteriormente consideradas como fontes não capitalizáveis de exteriorização da vida e do pensamento foram interiorizadas e capitalizadas. A dominação deixou de ser um exercício simples de assujeitamento dos corpos e passou a incidir sobre as próprias forças imateriais de produção da vida. Se ontem a resistência passava pela quebra das máquinas e pela rebeldia física e corporal das forças de trabalho, hoje ela precisa estar mais atenta às agitações do desejo, procurando formas de gestar um potencial humano imaginativo arredio à capitalização mercadológica e à integralização imagética colonizadora. 

2. Nos meandros da modernidade, o capital engoliu o contrato social. O que era vontade geral de um Povo governado pelo poder soberano transformou-se em opinião pública de uma Massa móvel submetida às formas institucionalizadas do poder disciplinar. De povo governado por uma política palaciana passamos à massa disciplinada pela política representativa. Se o modelo jurídico do contrato social e a noção de povo ruíram juntamente com a forma do poder soberano em algum momento da história da modernidade, parece certo que o descrédito da política representativa e o esvaziamento da noção de opinião pública acompanham hoje a crise da sociedade disciplinar e seus mecanismos de massificação. Ora, não é outra coisa senão essa crise ou mutação que presenciamos hoje. Desse modo, na contramão do que gritavam boa parte dos manifestantes, não foi o povo quem acordou. O povo está morto. E já faz tempo. Ele virou massa, e massa já está deixando de ser. É justamente isso que anda arrepiando os cabelos das pessoas, a impossibilidade de modular uma massa informe como antigamente. Em meio às ondas telemáticas e ao ciberespaço interplanetário a massa escorreu e deslizou para outra coisa, anda assustadoramente insistindo em diferir de si mesma.

3. O Povo está morto. E o que está morto não pode simplesmente renascer. Não é no conjunto de relações contratuais estabelecidas entre governantes e governados que encontraremos respostas para os novos problemas. A Massa diferiu. A modulação do corpo social operada no espaço fechado das fábricas e das escolas e na ordem do tempo da ciência moderna deixou de ressoar. Estamos na crista de uma descontinuidade histórica. O mundo mudou. E não é recorrendo a velhas respostas e esquematismos conceituais gastos e inviabilizados por todos os lados pelo próprio devir da História que alcançaremos uma compreensão razoável dos acontecimentos. Vivemos o tempo da Multidão. Não uma multidão negativa que segundo as análises clássicas de Hobbes e Rousseau caberia ao poder soberano dominar e domesticar. Mas uma nova modalidade de multidão que se assemelha a um estranho tipo de proletariado imaterial, em rede e conectado, que não converge numa vontade geral, escapa a qualquer tipo de unidade política e não se reflete de forma alguma no modelo do Estado. Tratar-se ia antes de uma sorte de rede imperial interplanetária composta por singularidades instáveis e imprevisíveis que respondem a uma multiplicidade de estímulos de ondas telemáticas. Somente observando com olhos atentos esse estranho quadro atual entende-se por que as formas históricas do “governado” e do “representado” foram esvaziadas de sentido e há um descompasso incrivelmente anacrônico entre esse novo modo de existência que vem sendo gestado na velocidade da tecnologia da informação e as instâncias tradicionais da política régia e da representação. Todos tentam canalizar e decifrar a energia potencial da multidão a partir de uma linguagem antiga, como se tentássemos escutar e compreender os sinais de uma nova língua apelando a uma forma de escrita e a uma tábua de significados que foram enterrados nas areias do tempo. Todavia, o grande desafio não será ler os acontecimentos à luz de velhas operações de enquadramento, e sim procurar inventar novas combinações, explorando esse rearranjo de singularidades que observamos como quem olha para uma janela futurista. 

4. Embora não seja nem um pouco prudente desconsiderar o conjunto de dilemas extremamente atuais expressados em cartazes e palavras de ordem ao longo dos últimos dias, quando operamos uma raspagem nas camadas mais superficiais e conjunturais e encaramos o acontecimento na sua dimensão existencial é a crise da própria imagem do homem que encontramos. Uma crise que ultrapassa as fronteiras dos Estados nacionais e manifesta o desconforto com o próprio ritmo do mundo. Muito além de uma duvidosa reforma política, da crítica indispensável aos abusos e aos maus usos do erário público, da insatisfação generalizada com a nossa vexatória “mobilidade urbana”, os protestos apelam a uma sorte de ontologia de nós mesmos. O que explodia nas bombas, queimava nas fogueiras improvisadas e vacilava nas barricadas erguidas pelos manifestantes era efetivamente a imagem de um humano desnaturado. O embate entre as forças difusas dos manifestantes e a ordem hierárquica do aparelho de Estado é a expressão de um cansaço em relação a velhas formas de conceber o homem que uma parcela lúcida da juventude não aceita mais. Trata-se de uma juventude que se descolou da televisão; de uma juventude que não se satisfaz com a modalidade hegemônica da escrita jornalística de grande circulação; de uma juventude desconfiada que o princípio norteador da vida não seja adquirir um automóvel ou um apartamento faraônico no ministério dos ares. O que se quer dizer com isso é que “o buraco é mais em baixo”, e que para lá das reivindicações necessárias e atuais existem comportamentos e valores de longa duração sendo colocados em xeque. É a própria imagem do homem burguês que está em questão. O que fazermos dela? O recado dos jovens parece muito claro: há uma “fadiga dos metais”, e a imagem carregada com as tintas do individualismo e do consumo irresponsável deixou de ser uma resposta possível. Muito diferente de um movimento sem causas, sem projetos e sem organização, trata-se antes de uma agitação positivamente descentralizada que manifesta o cansaço das velhas formas e o anseio por novos possíveis.

5. Em nenhuma hipótese, se trata de esvaziar o sentido político mais atual da palavra “reivindicação”. No entanto, o ato de reivindicar só pode se direcionar àquilo que já existe, enquanto o que marcaria mais profunda e positivamente o movimento seria a invenção de uma nova “economia afetiva”, ou o redesenho afirmativo das equações operadas pela energia vital que constrói uma dada ordem perceptiva entre o homem e o conjunto das imagens do mundo. Nesse ponto, a indeterminação e a nudez de um estado puro de Multidão podem mostrar sua face criadora e inventiva, escapando finalmente ao conteúdo pejorativo que lhe era destinado pela tradição jusracionalista. Contudo, quando a energia potencial em estado livre e a força criadora em regime de espera que caracterizam a pura virtualidade da Multidão descambam para uma simples e pobre descarga de irracionalismo destrutivo, toda a panóplia argumentativa dos defensores da violência de Estado ganha força e legitimidade. Para afirmar-se como positividade política, a Multidão precisa utilizar a violência unicamente como vetor para a criação de novas formas. Se o ímpeto de pura irracionalidade de uma violência-catástrofe apodera-se dos rumos do movimento tudo permanece em selvagem estado de caos. E contra o caos em estado selvagem as forças da repressão atuam com facilidade, visto que apenas fazem um uso institucionalizado e organizado do mesmo expediente. Entretanto, contra o caos que cria novas formas, que deságua numa nova economia dos afetos, por exemplo, as forças da repressão se vêem inertes e desarmadas, pois não encontram pela frente a forma da violência-catástrofe que bem conhecem, mas a forma de uma violência artista contra a qual o único expediente possível é a admiração. O verdadeiro vandalismo útil e estratégico, portanto, seria uma sorte de vandalismo existencial, a partir do qual nenhuma vidraça precisará ser quebrada, já que a maior das vidraças estará desfeita pelo exercício de atualização humana do esforço criador: a percepção. Com efeito, tudo parece indicar que a maior violência seria fazer da pura potência da Multidão um novo sentido de comunidade.

6. Como fugir da armadilha da burocratização sem cair ao mesmo tempo na armadilha da militarização? Se a burocratização era uma forma clássica de conversão das potências livres de um movimento no modelo hierarquizado do aparelho de Estado, a militarização não seria outra maneira que a forma-Estado encontra para penetrar o espaço livre do movimento e canalizar suas energias potencialmente criadoras de novas formas para um simples exercício de violência? Que me perdoem todos os simbolistas do quebra-quebra, mas a violência canalizada para a negação e a destruição é uma forma estratégica de desviar toda a potência produtiva da inteligência social para uma alternativa vazia e muito pouco revolucionária, por mais que ela pareça render frutos em curto prazo. Uma violência reativa que não cria formas, mas apenas alimenta um sentimento de cólera impotente que contamina o tecido social com afetos improdutivos. A potência de imaginação coletiva anda sendo seqüestrada por ícones militares. Em grande parte, isso acontece como um mecanismo automático de resposta ao terrorismo de Estado perpetrado criminosamente pela polícia militar. No entanto, aonde poderá nos levar um conflito deflagrado entre um terrorismo de Estado e um terrorismo de Bando? Eis o ponto: embora a violência desproporcional utilizada pelo terror de Estado da polícia militar faça disparar quase inevitavelmente um automatismo de resposta que se serve da mesma moeda, não seria possível ultrapassar essa mecânica de reação em cadeia pela criação de outro tipo de resposta? Como recusar a arbitrariedade do poder constituído sem construir uma réplica espelhada desse mesmo modelo?

7. Parodiando o célebre conto de Kafka “A muralha da China”, poderíamos dizer que na noite de segunda o governador construiu muralhas, mas que os nômades continuarão acampados no coração da cidade. Na capital gaúcha, as muralhas já não são feitas de sólido mineral imóvel. Aqui elas assumiram a forma dos batalhões da polícia militar. Mistura de carne, osso e armas, uma forma meio humana meio armamento, responsável por desferir incontáveis arremessos e covardes investidas contra a multidão. Não seria essa modalidade contemporânea de muralha, supostamente viva e humana, uma forma de mineralização da vida? Em conjunto, agrupados, num aparelho institucional de irracionalidade legitimada, a polícia militar não carregaria algo daquele velho mineral - estúpido estado de pedra? Maldita seja essa pedra cortante. Ela acredita que através da asfixia, da ardência e do derramamento de sangue dissolverá o conjunto de agitações das forças vivas da cidade? Ao fim de tudo, a borracha se tornará escassa e os gases se esfumarão, mas uma voz rouca ainda existirá ao fundo para dizer: abaixo à polícia militarizada, resquício apodrecido de uma ditadura derrotada, para os diabos com os seus malditos estrondos da morte. Nós permaneceremos. Não vamos arrefecer. Até que os cães de guarda do Estado curem sua raiva; até que abandonem a panóplia covarde e mortal que carregam com um falso orgulho que seus olhos mal podem esconder; até que se curvem aos seus verdadeiros senhores e passem a descarregar seus excrementos de irracionalidade em outro lugar; até que tudo isso ocorra, resistir será um dever. 

8. A Província de São Pedro verte lágrimas sangrentas. Ponta militarizada de império. República de ditadores e generais. Fonte geradora de rebentos autoritários de projeção continental. Farrapo escravista e traidor: será mesmo um exemplo nacional? É preciso que todos saibam. Aqui, nessa ponta sul, num conluio ao mesmo tempo escandaloso e inconfessável entre a mentalidade medrosa da elite política e o conservadorismo oligárquico das empresas de comunicação, o restabelecimento da ordem enterrou o sentido do progresso. Nesse estado sulista policialesco onde as fortunas se divertem com as formas do autoritarismo, a dualidade de princípios da bandeira nacional foi rasgada. O separatismo estúpido de nossos ancestrais deslizou para um separatismo conceitual. Nesse imbróglio, ficamos com a ordem. Talvez seja preciso procurar o progresso em terras uruguaias. De qualquer forma, resta uma maldita esperança que continua a me provocar: que os ventos de junho afastem daqui esse Cale-se.
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sexta-feira, 28 de junho de 2013

A hora da encruzilhada?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Cheguei à Praça da Matriz perto das 17 horas. A cultura do medo que se espalha pela cidade fez com que as atividades do turno da tarde fossem suspensas na escola em que trabalho. O Centro de Porto Alegre estava sitiado pelas forças policiais. Até aí, tudo normal. Inclusive o clima de tensão predominante. Mas a praça estava “tranquila”. A narrativa a seguir propõe o entendimento dos fatos do dia 27 de junho de 2013, de modo reflexivo, além de problematizar uma intuição proveniente deles.

Caminhei um pouco em busca de algum amigo. Encontrei. Conversamos sem ver o tempo passar. Outros amigos foram se juntando. Quando a noite chegou, o movimento começou a tomar a forma da encruzilhada que está pulsando diante dos olhos atentos aos quentes dias de inverno do hemisfério sul. Um carro de som anunciava as bandas que iriam tocar na sequência, ao mesmo tempo em que propagava pautas prontas, palavras de ordem caracterizadas quase como um palanque eleitoral. Confesso que todas as pautas desferidas pelas grandes caixas de som constituíam uma linha política razoável para o meu gosto. Só que o buraco é mais embaixo.

Desde o primeiro passo que dei na praça, atentei ao meu redor. Tentei agir enquanto partícipe e pesquisador, numa esquizofrenia básica que as ciências sociais entregam como cartão de visitas aos seus praticantes. O que vi é o que me leva a despertar para um sentimento de encruzilhada muito próxima de virar realidade. Vi, com satisfação, variados movimentos sociais, pessoas que estão na luta há bastante tempo, reivindicações das minorias e grupos organizados em favor da igualdade e das conhecidas insígnias da esquerda política. Um avanço na consciência coletiva – pensei de imediato. Os atos aqui pelos pampas estão em disputa e a tentativa de politização está presente.

Contudo, vi também que a multidão é, sim, um monstro sem rosto e coração. A célebre rima dos Racionais MC’s fez todo sentido nas últimas manifestações. Dentre os ativistas supracitados, os independentes e espontâneos, lá estavam jovens mascarados e tapados dos pés à cabeça. Não tem como fugir de uma reflexão acerca disso. Sobretudo pelo fato de que, mergulhados na heterogeneidade exposta entre as árvores e cartazes, a parte da juventude que não se sente integrante de uma cidade que a exclui sistematicamente demonstrava um sangue nos olhos e uma ansiedade por qualquer tipo de enfrentamento.

Os mascarados, apenas com os olhos de fora, não generalizando, mas já tipificando, pareciam esperar o instante de botar para fora uma raiva acumulada, um desprezo por aqueles que não sofrem o sofrimento cotidiano das periferias. Não tenho a intenção de justificar ou defender quaisquer ações. Tenho a obrigatoriedade profissional de entender (ou tentar, pelo menos) como as coisas estão ocorrendo. E eu compreendo (dentro do que a minha experiência cognitiva permite) o sangue nos olhos daquela gurizada. A vida não é bonita, nem por um segundo, para quem não tem ou teve saneamento básico, carinho e afeto, educação e saúde de qualidade, recursos materiais elementares, oportunidades promissoras de sucesso individual e social e todos os outros pressupostos não atendidos nas sociedades capitalistas contemporâneas.

Minuto após minuto, a Praça da Matriz perdia a aura cultural e política e ganhava os ares de uma batalha campal prestes a iniciar. Sabe-se lá por qual razão, ela chegou. A correria, a repressão do Estado e o esvaziamento do protesto vieram rapidamente. O Centro e a Cidade Baixa, bairros vizinhos, viraram uma grande trincheira, na qual ninguém sabia em quem confiar, pois a caminhada por ali estava em aberto, na literalidade total da expressão. Moradores e pequenos comerciantes posicionavam-se com ou como seguranças privados em frente aos seus estabelecimentos e residências, prontos para o confronto com as gangues dispostas a buscar lucros individuais numa situação coletiva, através de arrastões e saques (materializados aos meus olhos). A polícia não distinguia alhos de bugalhos (algum dia distinguiu?). Clima de Estado de Sítio.

Sei que não vou agradar as mentes da esquerda militante, movidas pela paixão e pelo ideário da revolução socialista. Sei, paradoxalmente, que tampouco agradarei as falácias da direita elitista que ambiciona mais autoridade, opressão e repressão para conter a maré popular que banha as ruas do país. Sei, ainda, que tudo indica estarmos caminhando, passo a passo, rumo a uma encruzilhada em que o novo vai ter que surgir, nem que seja goela abaixo. Caso contrário, corre-se o risco de um recrudescimento vigoroso dos alicerces conservadores. Não estou falando de golpes ou ditaduras cujos moldes mancham a história. Estou falando da capacidade dos setores conservadores se organizarem por dentro do poder, sustentados por intervenções autoritárias ratificadas pelo medo deflagrado na população em geral.

De tudo, ficam indagações. Elas são muito mais relevantes do que qualquer assertiva cunhada neste texto. Se não é possível frear a dinâmica dos levantes populares, e nem parece adequado, como dar voz ao povo massacrado século após século, sem que a criminalidade cresça geometricamente e incentive o endurecimento da máquina repressiva a serviço do Estado e da conservação? Como trazer essa juventude revoltada e que encontra sentido numa espécie de cultura do crime para um viés de politização das suas demandas? Como não confundir uma crítica política do status quo com uma crítica estéril à política? Como evitar o esvaziamento das ruas mediante o caos que tende a se instaurar? Como trabalhar, nesse contexto de acirramento, para uma proposta de refundação da esfera policial, a fim de reconstruí-la sob a égide da cidadania e dos direitos humanos? Como fazer brotar o novo, num oceano de doutrinas políticas restritas e ultrapassadas no seu âmago, geradoras de mecanismos organizacionais enterrados pelo passado? Como fugir da encruzilhada que se aproxima apontando para mais repressão, à medida que o instinto revoltoso volta-se contra tudo e contra todos?

São tempos de grandes desafios. Não canso de ressaltar isso. São tempos, com efeito, de não deixar em segundo plano os questionamentos que afloram do calor dos acontecimentos. São tempos de quentes ruas de política viva. São tempos de perguntas. Perguntas que podem valer mais do que uma dezena de respostas. Principalmente porque elas fazem pensar. Pensemos. Antes de agir. 
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terça-feira, 25 de junho de 2013

Protestos pelo Brasil (parte 1)


Seleção de textos que ajudam a compreender o atual momento de política viva
pelas ruas do Brasil (autoria de
Luiz Eduardo Soares, Raquel Weiss e Eliane Brum).
 

Neste mês de junho, uma infinidade de protestos vem sacudindo o Brasil. Desde o início da Copa das Confederações, o país do futebol não tem dado a mínima para o grande evento. Só se fala acerca de política, das possibilidades que este tempo de grandes desafios oferece. Só se fala do papel das polícias, das relações entre Estado e sociedade, das políticas públicas a serem aplicadas para melhorar a condição de vida da grande maioria da população. Também estão em pauta as disputas de cunho ideológico, manifestas direta ou indiretamente nas análises realizadas por todos os cantos da nação. Disponibilizamos abaixo alguns dos melhores textos que estudamos durante o calor dos acontecimentos, a fim de ajudar o leitor a construir as suas percepções e orientar os seus parâmetros discursivos desde argumentos reflexivos – para além das falácias sensacionalistas da grande mídia. Clique no título de cada texto para acessar a versão completa.

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(…) A força da multidão foi reencontrada pelos jovens e pelos cidadãos que passam perto e se deixam atrair pelo magnetismo de um pertencimento precário, provisório, sem rosto, mas com alma. Que alma tem o movimento? Sim, intuo, suponho, sinto que ele tem alma, isto é, uma unidade toda sua – nãoLuiz Eduardo Soares (Imagem reproduzida do sítio http://www.understudio.com.br/luizeduardosoares/wp-content/uploads/2013/03/video_les_gabi_04.jpg). verbalizada – e uma personalidade. Intuo que esta alma não seja aquela que se  derivaria – como o negativo ou o avesso – de uma comparação com o que sabemos: não sendo, o movimento, organizado ao modo antigo, deduzir-se-ia que seria inorgânico; não tendo uma plataforma clara e uma visão compartilhada que incorporasse as mediações, deduzir-se-ia que seria irracional, despolitizado, quando não selvagem. As visões negativas correspondem ao preenchimento das lacunas de nossa ignorância com as figuras do que já sabemos. Creio que nos conviria optar pela humildade, em vez de precipitarmo-nos em julgamentos e análises.

(…) E o futuro? O movimento tem diante de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Seu destino provavelmente dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à política, e de não confundir a rejeição ao atual sistema político-eleitoral, e partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Essas distinções provocarão divisões internas profundas e inconciliáveis, que já estão aflorando. Toda essa magnífica energia fluirá para o ralo do ceticismo, abrindo mais um ciclo de apatia? A indignação encontrará traduções autoritárias e ultraconservadoras? Múltiplos afluentes seguirão cursos inauditos, nos surpreendendo com sua criatividade e mudando o país, no âmbito da democracia? As respostas não dependem só do movimento, mas também dos que não têm participado e das lideranças governamentais e parlamentares.

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Diante da multidão que tomou as ruas em várias cidades de nosso país na última segunda-feira, dia 17 de Junho, o tema mais recorrente que se ouvia na imprensa era a indagação a respeito do que está acontecendo. Quem são? O que querem? De onde surgiram? Jornalistas, acadêmicos, políticos, por todo lado se ouvia esse tipo de pergunta. Responder a essas perguntas é algo bastante Raquel Weiss (Imagem reproduzida do sítio https://si0.twimg.com/profile_images/2620699815/263sgzftmfimkaqvfhgc.jpeg).complicado, e não creio que exista uma resposta única e definitiva, até porque  se trata de um movimento em curso. Mas isso não é desculpa para nos furtarmos a uma tentativa de compreensão, e o que proponho é ensaiar uma análise a partir do repertório teórico que considero adequado, no âmbito de uma abordagem propriamente sociológica, e a partir da consideração de eventos, ideias, declarações e ações com os quais tive contato, e que me levaram a construir esse diálogo conjuntural. Apresento, então, uma análise em três atos, que considera não as manifestações como fenômenos isolados, mas a situação na qual estão inseridas, que contempla os vários atores que agem e reagem aos protestos. Cada ato corresponde a diferentes momentos desse processo e coloca o foco em diferentes aspectos envolvidos.

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(…) É possível que seja de qualificação do desejo que esse movimento fale. Talvez seja esta a única coesão entre tantos anseios diferentes, organizados ou não. O sentimento de que essa vida é pouca, de que essa política pautada mais pela reprodução das relações de poder do que por ideias de um Brasil melhor já não motiva ninguém. Em São Paulo, mais do qualquer uma das outras capitais que também se levantaram e se levantam, a questão do transporte explicita todo esse desencanto. É muito simbólico que Alckmin e sua polícia tenham frisado tanto que defendiam “o direito de ir e vir” dos cidadãos, como se cidadãos também não fossem aqueles que se manifestavam. Mas o mais irônico dessa justificativa para a repressão é que “ir e vir” é o que não se consegue fazer em São Paulo, imobilizados em ônibus e carros no trânsito parado, uma oposição já cristalizada na linguagem. Talvez o que una os manifestantes tão diferentes de São Paulo seja o movimento – o ato mesmo de literalmente romper o imobilismo e se mover. A maior transgressão é andar – e por isso era também crucial andar na imensamente simbólica Avenida Paulista. Pessoas, não carros, não ônibus 20 centavos mais caros. Não mais como zumbis sustentando uma vida insustentável em passos claudicantes e limitados, mas como pessoas no movimento desejante em busca de uma vida que faça mais sentido.

(…) Vale a pena olhar esse discurso narrativo com mais atenção. Antes de continuar, é preciso deixar claro que sou contra depredações – foi duro assistir ao ataque contra o Itamaraty, o belo prédio de Oscar Niemeyer. Também é preciso dizer que aqueles que usam a violência contra prédios e pessoas constituem mesmo uma minoria. Feitas as ressalvas, é possível pensar que essa interpretação, que divide a população entre “manifestantes pacíficos” e “vândalos”, pode encobrir uma complexidade maior: a) Primeiro, ela isola os “vândalos” da massa de manifestantes, aceitando como unanimidade que a única forma legítima de se manifestar é não causando danos ao patrimônio, seja ele público ou privado. Logo, quem entende que atacar o patrimônio é também uma manifestação – como aconteceu muitas vezes ao longo da história do Brasil e do mundo, inclusive em acontecimentos hoje celebrados como heroicos – é automaticamente colocado fora da manifestação no discurso, como se nãoEliane Brum (Imagem reproduzida do sítio http://www.coletiva.net/upload/noticia/noticia43959.jpg). tivesse nada a dizer nem estivesse dizendo algo com seus atos. Me parece que, ainda que se discorde das depredações – e de novo, repito, eu discordo –, é perigoso deixar de reconhecê-la como uma forma de manifestação. É perigoso porque, ao fazê-lo, se promove um silenciamento: ao deixar de escutá-la em suas diferenças, fecha-se a porta para a compreensão de um aspecto que, querendo ou não, é uma face importante das muitas tensões produzidas pelo fenômeno. E é perigoso deixar de reconhecê-la como parte, ainda que indesejável, para todos os outros manifestantes, hoje protegidos no amplo guarda-chuva representado pela “maioria pacífica”; b) Ao dividir os manifestantes entre “pacíficos”, que seriam os legítimos, e “vândalos”, os “infiltrados”, na medida em que são aqueles que “quebram” não só a ordem e a paz, mas o patrimônio, estabeleceu-se que existe uma massa do bem, aclamada por todos, contra uma massa do mal, que deve ser isolada – ou os limpinhos contra os sujinhos. Como se sabe, os maniqueísmos nunca fazem bem para a compreensão histórica. E, afinal, quem seriam os “infiltrados”, numa manifestação de massa, heterogênea e contraditória, além de agentes do Estado (e talvez eventuais quadrilhas criminosas, presentes apenas para obter ganhos materiais?); c) Há vários riscos contidos na aceitação fácil desse discurso. Um deles é deixar de perceber que, mesmo entre os “vândalos”, há diferenças – e essas diferenças também contam desse fenômeno. Outro risco é que todo comportamento considerado indesejável poderá transformar aquele que até então era “manifestante” num “vândalo”, um conceito que tem se mostrado bastante mutável, elástico e flutuante.
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domingo, 23 de junho de 2013

A multidão é um monstro sem rosto e coração


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O que faz da vida um devir repleto de possibilidades alegres e bonitezas incríveis é a capacidade de afeto, carinho, comunicação convergente e aprendizado mútuo. Orgulho-me de possuir um círculo de amizades que arregimenta todas essas características. No calor dos acontecimentos que explodem as multidões pelo planeta, o ato de dialogar acerca dessas convulsões traz conhecimentos que desestabilizam nossas convicções e reengendram toda a gama de disposições epistêmicas que nos ajudam a perceber o cotidiano. Quero pensar sobre a subjetivação no capitalismo atual, a questão da violência nos protestos e esboçar alguns prognósticos futuros arriscados.

São verdadeiros os sentimentos e as análises que apontam para o capitalismo muito mais do que um modo de produção. No que concerne ao cenário econômico, o triunfo desta forma de organizar a produção e a circulação das mercadorias talvez não fosse imaginado sequer pelos primeiros burgueses que obtiveram estridentes sucessos financeiros. Não há nação neste século XXI que desconheça ou rejeite por completo os preceitos da doutrina do capital. Só que isso é uma face da moeda.

O lado mais obscuro e sujo deste níquel hegemônico nos tempos contemporâneos está talhado por uma espécie de filosofia social. Ela age nas profundezas da individuação subjetiva de cada ser humano. Não esqueçamos que o nosso percurso de socialização envolve necessariamente a coexistência com as tradições e com as demais pessoas. Marx estava inspirado nas primeiras páginas do célebre “18 Brumário de Louis Bonaparte”. Agimos em um mundo que está fora das nossas possibilidades, no que tange a sua criação e ao emparelhamento das suas bases primárias. Temos a nossa potencialidade de ação transformadora, no interior de estruturas estruturantes e estruturadas, se quisermos descrever conforme Bourdieu. O passado pode oprimir como um pesadelo as novas gerações.

A competição, o anseio por conservar uma vida e um estado de coisas deveras instável e movediço, além do individualismo egoísta e selvagem como regra de convivência na busca por um lugar ao sol, todos são elementos que configuram uma das chaves para entender o vir a ser no reino do capital. Extrapola-se a mera relação econômica. Paira sobre o capital a figura mascarada da naturalidade nas relações intrínsecas aos constitutivos sociais. O natural, diz-se, estaciona na vaga daqueles que fazem por si mesmos os seus caminhos. Sem precisarem de ninguém. Nadinha de nada dos outros. Uma espécie de faça por si mesmo a felicidade e a abundância.

Ledo e ingênuo engano. Se Hayek e Friedman conseguiram vencer a Guerra Fria com suas cláusulas de releitura do liberalismo clássico, adicionando um tempero alarmista voltado contra a cortina de ferro soviética, também é verossímil que a falência da modernidade enquanto projeto iluminista e a quebradeira cíclica do mercado desregulado deixaram claro que o caminho da servidão não será evitado pela liberdade de comprar e vender ou pelos direitos do indivíduo intocável. Até aqui se apostou na liberdade, por vezes. Noutras, na igualdade como fim, mas sem a equidade como meio. O leninismo e suas derivações trotskistas, incrustrados nas esquerdas, imobilizadas perante as diversas complexidades dos acontecimentos, época após época, de construtivo mantiveram o acúmulo de experiências das lutas de outrora. Pouco demais.

Impossível saber quais os caminhos que os levantes populares ou os eventos tecnológicos que invadem as ruas internacionais irão seguir. Não vale bola de cristal. Desde as munições da sociologia e das ciências sociais, cabe uma análise imbuída de reticências advindas da precipitação. Imperativo é discorrer sobre a totalidade do cenário brasileiro exposto na agudeza das suas entranhas, em praça pública e para todos os canais da mídia hegemônica – deliciada com as cenas de guerra que fomentam o seu sensacionalismo a procura de mais concentração de riquezas e poderes.

Um tópico decisivo resvala à compreensão da violência que perpassa quase todas as manifestações. Vigoram, pelo menos, quatro aspectos entrelaçados a ela. Durante algumas centenas de anos, determinados grupos sociais deste país foram interpelados por uma quantidade desenfreada de incidências violentas por parte do Estado. Nem Weber passaria em branco nesse ponto. A tal violência legítima exercida por quem detém o monopólio para fazê-lo desterra, na prática da história e da atualidade nacional, qualquer interstício que sugestione uma aplicação neutra, séria ou coerente. Pobres e negros são inseridos a força numa cultura da violência (que atravessa a linha mestra do tecido social do capitalismo contemporâneo) jamais vivenciada com tamanha veemência e intensidade por outras parcelas da população. Deixar para trás essa evidência é negligenciar o que não é negligenciável.

Dita essa banalidade, outro indício remete aos movimentos da extrema esquerda que vislumbram em certos símbolos do monstro capitalista o alvo para o que julgam uma violência política. Pouquíssimo estratégico na maioria dos casos, esse conceito existe e está nas ruas. Não domina o curso das violências e saques, como os grandes meios de comunicação tentam disseminar. Nota-se, inclusive, sua marginalidade frente às catalisações revoltosas das massas empoderadas pela efervescência das ações coletivas. Olha aí o velho Durkheim e a pertinente definição de efervescência, fervilhante em momentos históricos como o que vivemos neste inverno tropical. Uma efervescência que unifica. Que dá o tom de algo que vem de dentro, que faz as pessoas compartilharem uma forma de catarse coletiva. Todavia, ela é neutra no seu conteúdo.

Têm-se, ainda, duas táticas mais velhas do que a velhinha de Taubaté: a infiltração da polícia e o recrutamento de agitadores. Antes de o mundo ser mundo, ambas as táticas já faziam parte de qualquer movimentação política de larga escala. Sabe-se que o Estado, através do seu braço policialesco, insere-se nos movimentos de rua a fim de descobrir detalhes das agências individuais e coletivas. Alguém duvidaria que ultrapassasse essas incumbências, propondo o descontrole e justificando a sua própria força na ação repressiva? Alguém arriscaria uma postura meiga dessas?

Um amigo, morador de uma comunidade periférica, relatou sem rodeios que grupos de partidos conservadores estão prometendo variados benefícios aos jovens que aceitarem uns trocados para ir aos protestos e causar confusão. Para bater “nos PT” e na esquerda organizada (às quais devemos o início do despertar). Dois coelhos numa cajadada. Desopilar toda a sorte de violências sofridas por um universo de direitos individuais e sociais negados dia após dia e, pasmem incrédulos leitores, ganhar uns trocados para isso. Triste retrato de uma realidade que vai além de prefixos, ismos ou teorias.

Destituída a ambição de prever o futuro, pintar aquilo que insistimos em chamar de realidade, algo tão débil que não admite certezas, origina-se uma ousadia infantil de não ficar quieto neste recorte episódico da trajetória humana. O que se pode ver com alguma nitidez nos repetidos atos de rua é que emergem a heterogeneidade e a multiplicidade – valiosas, porém ameaçadoras. Vê-se uma pluralidade de expoentes ideológicos mergulhados em cabíveis belezas a serem conquistadas, tendo em vista que o movimento está, sim, em disputa. 

Por mais que a crise da relação entre Estado e sociedade (o primeiro, capitalista; o segundo, capitalista) vague no epicentro da ebulição das multidões, crise codificada erroneamente como moradora da representação em si, não parece adequado rejeitar tudo aquilo que se conquistou nas bravas lutas pretéritas. Partidos são essenciais. Podemos rever o jogo, mas não parar de jogá-lo. O cuidado mais sábio neste instante, que inventará, talvez, a estética, a semântica e a gramática do rumo dos acontecimentos, será conseguir separar a crítica política do status quo, da crítica generalizante e estéril à política. Dependeremos, destarte, daqueles contextos a inventar, daqueles 198 milhões de cidadãos que não saíram das suas casas para reivindicar isso ou aquilo e das respostas ou verborragias que as lideranças políticas estiverem aptas a desferir.

O quadro exibido nas ruas tem algumas feições que não são nada proeminentes. Quadro revestido de um semblante conservador, individualista e propenso a ser cooptado pela direita organizada que, está na história, sempre carrega uma iniciativa de reinvenção em favor dos seus interesses infinitamente maior do que as esquerdas. Ou mesmo do que o incerto que está por aí, se não quisermos rotular com insígnias do passado. Ressalto, à medida que ainda acredito que as ruas estejam em disputa, que vale pagar para ver e alimentar a fé nas multidões.

Dentro de mim se debate uma intuição que grita para estar errada. Uma intuição que enxerga as multidões orbitando inclinadas ao machismo, à homofobia, ao insulto ao diferente, à pregação da meritocracia sem critérios equânimes, à rejeição da política (isso é possível?!). Em outras palavras, inclinadas no sentido inverso ao pensamento e a reflexão. Malvada essa intuição que grita, com todas as suas forças, para estar equivocada no seu âmago. Contudo, eu vou para as ruas. Porque fora delas tudo é ilusão.
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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Socializar os sonhos democráticos


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Enquanto a bola começa a rolar na Copa das Confederações, o Brasil está em convulsão. Para falar a verdade, o mundo está em convulsão. Se durante muito tempo achamos que a inércia era uma característica que acompanhava o século XXI, hoje podemos visualizar que essa ideia estava equivocada. E, pasmem alguns, o futebol não está afastado disso tudo. Pelo contrário, sobretudo no caso brasileiro, ele é parte integrante de uma discussão fundamental sobre a vida humana em sociedade. Quero refletir acerca do esporte mais popular da Terra, os protestos e manifestações que se alastram entre variados povos e as perspectivas que estão em pauta na realidade contemporânea.

Onze atletas de cada lado do campo, correndo atrás de uma esfera, no intuito de chutá-la para dentro de uma goleira. Vendo dessa forma, quer coisa mais banal e alienante? Contudo, tem-se uma visão muito parcial adotando essa postura. O futebol sobrepõe o fato inerente de ser um esporte e um jogo. O que faz dele uma paixão mundial é a existência de uma infinidade de pessoas que o encaram como uma arte, como um sopro de alegria num furacão de possíveis tristezas. É a identificação de distintos seres humanos com uma cor, uma camisa, uma história clubística que constitui a força das grandes equipes espalhadas por aí. A sensação de compartilhar da efervescência intrínseca a uma arquibancada lotada, de coadunar energias para um fim comum, tudo isso concretizado de pé ou sentado, cantando, pulando e, enfim, torcendo. Pode ser no estádio, pode ser na rua, pode ser em casa, fazendo um churrasco ou sentado no sofá. Trata-se de um sentimento que ultrapassa a individualidade.

O genial escritor uruguaio Eduardo Galeano cunhou uma expressão aguçada para se referir ao futebol dos tempos atuais. A magia de jogar bola encontra-se à sombra. Seu período de iluminação absoluta já passou. Aquela irradiação maravilhosa de todas as suas belezas sucumbe cada vez mais ao padrão FIFA. Torcedores viram clientes, e é imperativo que paguem caro pelo produto. Estádios viram teatros, repletos de regras de conduta alienígenas. Arquibancadas são tomadas por poltronas, nas quais as bundas alheias se aconchegam e, se o evento estiver chato, fornecem todos os caminhos para um gostoso soninho. Se alguém tirar a camiseta, seguranças privados aceleram seus coturnos para manter a ordem e os bons costumes. Sem falar, é claro, dos milhões e milhões, que totalizam bilhões de reais do governo ou do BNDES destinados a edificar elefantes brancos disseminados pelo país. Dizem que na África do Sul certas arenas estão sendo derrubadas, visto que não possuem qualquer utilidade.

Não é à toa que o planeta está em convulsão. Há tantas e tantas coisas para dizer, entaladas na goela das multidões. São tantos os nós nas gargantas. Em Porto Alegre, no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Turquia, no Chile, na Grécia, na Espanha, nos países árabes ou nos Estados Unidos. O endereço é o que menos importa. Bastante gente não suporta mais as brutais desigualdades; a concentração de riquezas; o racismo; a homofobia; o machismo; os meios de comunicação hegemônicos ignorantes e corporativistas; a especulação imobiliária; o descaso na educação; o abandono na saúde; o medo generalizado para com o outro; o medo da polícia discriminadora; a corrupção em todas as esferas; o individualismo e o conservadorismo crescentes; enfim, motivos não faltam para tentar virar a mesa. A violência está no cotidiano. Seja física ou simbólica. Dia após dia. Não adianta fechar o vidro do carro que leva quase sempre somente um passageiro e que vale o preço de um apartamento ou de uma sonhada casa própria. Bertolt Brecht nos ensinou que o rio que tudo arrasta é, sim, recheado por violências. Mas as margens que o oprimem também.

Creio que todas as pessoas precisam sonhar. Precisam de um passado a se orgulhar, de um presente com oportunidades e um futuro de paz e alegria. Como está até aqui, o trajeto é o inverso. Só uns poucos desfrutam das bonitezas da vida. A rotina nos individualiza demais, amarra-nos ao trabalho incessante, violenta-nos ao permitir que nossos sonhos e utopias sejam freados por uma ordem demasiadamente injusta. Se não mudar, amanhã vai ser maior o coro a ser ouvido. Por variadas razões. E amanhã, e amanhã, e amanhã... Até que a esperança volte a ser mais importante do que o mercado, ou do que uma estabilidade (?) que só traz calmaria para determinados favorecidos. Até que uma vida volte a valer mais do que uma vidraça rachada ou do que o sucesso em transações financeiras com lucros estratosféricos.

Os dias que vêm por aí serão de grandes desafios. A parte mais relevante deles, acredito, está associada ao enorme ponto de interrogação que os cercam. As receitas das alternativas passadas engendraram válidas experiências, demonstraram erros e indicaram por quais rumos não marchar. As pessoas que arriscam sua integridade física, que se abrem às críticas ocupando as ruas e manifestando os seus descontentamentos podem ser vistas com inúmeras lentes. Não peço que cheguemos a um consenso. Pelo contrário, a estrada a percorrer é justamente talhada por dissenções, por argumentos antagônicos postos em cheque, discutidos à exaustão. Essa estrada não parece passar pela democracia representativa de viés tradicional. Parece, com efeito, enveredar na busca por outras formas democráticas de deliberar as questões relativas à cidade, ao Estado, à nação e à civilização humana.

Uma célebre frase do poeta Sérgio Vaz dá o tom daquilo que os anseios das heterogêneas reivindicações que incomodam os dominantes e seus adeptos carregam como potencial: “Enquanto eles capitalizam a realidade, nós socializamos nossos sonhos”. É hora de aderir ao porvir, de fazer, de experimentar, de errar e acertar para além de uma falsa harmonia que nos põe numa zona de conforto que pouquíssimo tem de confortável. Como diz a paradoxal propaganda de uma montadora de automóveis, repetida nos comerciais televisivos, está na hora de ir para as ruas, já que as ruas são as maiores arquibancadas do Brasil. Ocupar essas arquibancadas públicas. Com pessoas, com arte, com expressão, com cartazes, cânticos e disposição para pensar e concretizar outras vivências cheias de solidariedade e valores que nos complementem uns aos outros. Vivemos num tempo de enormes desafios, mas o mundo está em movimento e nada deve parecer impossível de mudar.
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sexta-feira, 14 de junho de 2013

O mundo está em convulsão

Bernardo Caprara
sociólogo e Professor

Tantas coisas para dizer. Tantos nós na garganta. Não é só por alguns centavos. Aqui, no Rio, em São Paulo, no Chile, na Turquia, na Grécia ou na Espanha. São as brutais desigualdades; a concentração de riquezas; o racismo; a homofobia; o machismo; uma mídia ignorante e despreparada; a especulação imobiliária; o descaso na educação; o abandono na saúde; o medo generalizado para com o outro; o medo da polícia discriminadora; a falta de perspectivas; a corrupção em todas as esferas; enfim, motivos não faltam. A violência está no cotidiano. Seja física ou simbólica. Dia após dia.

O mundo está em convulsão. Todas as pessoas precisam sonhar. Precisam de um passado a se orgulhar, de um presente com oportunidades e um futuro de paz e alegria. Como está hoje, o caminho é o inverso. Só uns poucos desfrutam das bonitezas da vida. Se não mudar, amanhã vai ser maior. Por variadas razões. E amanhã, e amanhã, e amanhã... Até que a esperança volte a ser mais importante do que o mercado, ou do que uma ordem que só traz tranquilidade para alguns favorecidos. Até que uma vida volte a valer mais do que uma vidraça. O mundo está em movimento e nada deve parecer impossível de mudar.
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