SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 28 de junho de 2013

A hora da encruzilhada?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Cheguei à Praça da Matriz perto das 17 horas. A cultura do medo que se espalha pela cidade fez com que as atividades do turno da tarde fossem suspensas na escola em que trabalho. O Centro de Porto Alegre estava sitiado pelas forças policiais. Até aí, tudo normal. Inclusive o clima de tensão predominante. Mas a praça estava “tranquila”. A narrativa a seguir propõe o entendimento dos fatos do dia 27 de junho de 2013, de modo reflexivo, além de problematizar uma intuição proveniente deles.

Caminhei um pouco em busca de algum amigo. Encontrei. Conversamos sem ver o tempo passar. Outros amigos foram se juntando. Quando a noite chegou, o movimento começou a tomar a forma da encruzilhada que está pulsando diante dos olhos atentos aos quentes dias de inverno do hemisfério sul. Um carro de som anunciava as bandas que iriam tocar na sequência, ao mesmo tempo em que propagava pautas prontas, palavras de ordem caracterizadas quase como um palanque eleitoral. Confesso que todas as pautas desferidas pelas grandes caixas de som constituíam uma linha política razoável para o meu gosto. Só que o buraco é mais embaixo.

Desde o primeiro passo que dei na praça, atentei ao meu redor. Tentei agir enquanto partícipe e pesquisador, numa esquizofrenia básica que as ciências sociais entregam como cartão de visitas aos seus praticantes. O que vi é o que me leva a despertar para um sentimento de encruzilhada muito próxima de virar realidade. Vi, com satisfação, variados movimentos sociais, pessoas que estão na luta há bastante tempo, reivindicações das minorias e grupos organizados em favor da igualdade e das conhecidas insígnias da esquerda política. Um avanço na consciência coletiva – pensei de imediato. Os atos aqui pelos pampas estão em disputa e a tentativa de politização está presente.

Contudo, vi também que a multidão é, sim, um monstro sem rosto e coração. A célebre rima dos Racionais MC’s fez todo sentido nas últimas manifestações. Dentre os ativistas supracitados, os independentes e espontâneos, lá estavam jovens mascarados e tapados dos pés à cabeça. Não tem como fugir de uma reflexão acerca disso. Sobretudo pelo fato de que, mergulhados na heterogeneidade exposta entre as árvores e cartazes, a parte da juventude que não se sente integrante de uma cidade que a exclui sistematicamente demonstrava um sangue nos olhos e uma ansiedade por qualquer tipo de enfrentamento.

Os mascarados, apenas com os olhos de fora, não generalizando, mas já tipificando, pareciam esperar o instante de botar para fora uma raiva acumulada, um desprezo por aqueles que não sofrem o sofrimento cotidiano das periferias. Não tenho a intenção de justificar ou defender quaisquer ações. Tenho a obrigatoriedade profissional de entender (ou tentar, pelo menos) como as coisas estão ocorrendo. E eu compreendo (dentro do que a minha experiência cognitiva permite) o sangue nos olhos daquela gurizada. A vida não é bonita, nem por um segundo, para quem não tem ou teve saneamento básico, carinho e afeto, educação e saúde de qualidade, recursos materiais elementares, oportunidades promissoras de sucesso individual e social e todos os outros pressupostos não atendidos nas sociedades capitalistas contemporâneas.

Minuto após minuto, a Praça da Matriz perdia a aura cultural e política e ganhava os ares de uma batalha campal prestes a iniciar. Sabe-se lá por qual razão, ela chegou. A correria, a repressão do Estado e o esvaziamento do protesto vieram rapidamente. O Centro e a Cidade Baixa, bairros vizinhos, viraram uma grande trincheira, na qual ninguém sabia em quem confiar, pois a caminhada por ali estava em aberto, na literalidade total da expressão. Moradores e pequenos comerciantes posicionavam-se com ou como seguranças privados em frente aos seus estabelecimentos e residências, prontos para o confronto com as gangues dispostas a buscar lucros individuais numa situação coletiva, através de arrastões e saques (materializados aos meus olhos). A polícia não distinguia alhos de bugalhos (algum dia distinguiu?). Clima de Estado de Sítio.

Sei que não vou agradar as mentes da esquerda militante, movidas pela paixão e pelo ideário da revolução socialista. Sei, paradoxalmente, que tampouco agradarei as falácias da direita elitista que ambiciona mais autoridade, opressão e repressão para conter a maré popular que banha as ruas do país. Sei, ainda, que tudo indica estarmos caminhando, passo a passo, rumo a uma encruzilhada em que o novo vai ter que surgir, nem que seja goela abaixo. Caso contrário, corre-se o risco de um recrudescimento vigoroso dos alicerces conservadores. Não estou falando de golpes ou ditaduras cujos moldes mancham a história. Estou falando da capacidade dos setores conservadores se organizarem por dentro do poder, sustentados por intervenções autoritárias ratificadas pelo medo deflagrado na população em geral.

De tudo, ficam indagações. Elas são muito mais relevantes do que qualquer assertiva cunhada neste texto. Se não é possível frear a dinâmica dos levantes populares, e nem parece adequado, como dar voz ao povo massacrado século após século, sem que a criminalidade cresça geometricamente e incentive o endurecimento da máquina repressiva a serviço do Estado e da conservação? Como trazer essa juventude revoltada e que encontra sentido numa espécie de cultura do crime para um viés de politização das suas demandas? Como não confundir uma crítica política do status quo com uma crítica estéril à política? Como evitar o esvaziamento das ruas mediante o caos que tende a se instaurar? Como trabalhar, nesse contexto de acirramento, para uma proposta de refundação da esfera policial, a fim de reconstruí-la sob a égide da cidadania e dos direitos humanos? Como fazer brotar o novo, num oceano de doutrinas políticas restritas e ultrapassadas no seu âmago, geradoras de mecanismos organizacionais enterrados pelo passado? Como fugir da encruzilhada que se aproxima apontando para mais repressão, à medida que o instinto revoltoso volta-se contra tudo e contra todos?

São tempos de grandes desafios. Não canso de ressaltar isso. São tempos, com efeito, de não deixar em segundo plano os questionamentos que afloram do calor dos acontecimentos. São tempos de quentes ruas de política viva. São tempos de perguntas. Perguntas que podem valer mais do que uma dezena de respostas. Principalmente porque elas fazem pensar. Pensemos. Antes de agir. 
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