SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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domingo, 23 de junho de 2013

A multidão é um monstro sem rosto e coração


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O que faz da vida um devir repleto de possibilidades alegres e bonitezas incríveis é a capacidade de afeto, carinho, comunicação convergente e aprendizado mútuo. Orgulho-me de possuir um círculo de amizades que arregimenta todas essas características. No calor dos acontecimentos que explodem as multidões pelo planeta, o ato de dialogar acerca dessas convulsões traz conhecimentos que desestabilizam nossas convicções e reengendram toda a gama de disposições epistêmicas que nos ajudam a perceber o cotidiano. Quero pensar sobre a subjetivação no capitalismo atual, a questão da violência nos protestos e esboçar alguns prognósticos futuros arriscados.

São verdadeiros os sentimentos e as análises que apontam para o capitalismo muito mais do que um modo de produção. No que concerne ao cenário econômico, o triunfo desta forma de organizar a produção e a circulação das mercadorias talvez não fosse imaginado sequer pelos primeiros burgueses que obtiveram estridentes sucessos financeiros. Não há nação neste século XXI que desconheça ou rejeite por completo os preceitos da doutrina do capital. Só que isso é uma face da moeda.

O lado mais obscuro e sujo deste níquel hegemônico nos tempos contemporâneos está talhado por uma espécie de filosofia social. Ela age nas profundezas da individuação subjetiva de cada ser humano. Não esqueçamos que o nosso percurso de socialização envolve necessariamente a coexistência com as tradições e com as demais pessoas. Marx estava inspirado nas primeiras páginas do célebre “18 Brumário de Louis Bonaparte”. Agimos em um mundo que está fora das nossas possibilidades, no que tange a sua criação e ao emparelhamento das suas bases primárias. Temos a nossa potencialidade de ação transformadora, no interior de estruturas estruturantes e estruturadas, se quisermos descrever conforme Bourdieu. O passado pode oprimir como um pesadelo as novas gerações.

A competição, o anseio por conservar uma vida e um estado de coisas deveras instável e movediço, além do individualismo egoísta e selvagem como regra de convivência na busca por um lugar ao sol, todos são elementos que configuram uma das chaves para entender o vir a ser no reino do capital. Extrapola-se a mera relação econômica. Paira sobre o capital a figura mascarada da naturalidade nas relações intrínsecas aos constitutivos sociais. O natural, diz-se, estaciona na vaga daqueles que fazem por si mesmos os seus caminhos. Sem precisarem de ninguém. Nadinha de nada dos outros. Uma espécie de faça por si mesmo a felicidade e a abundância.

Ledo e ingênuo engano. Se Hayek e Friedman conseguiram vencer a Guerra Fria com suas cláusulas de releitura do liberalismo clássico, adicionando um tempero alarmista voltado contra a cortina de ferro soviética, também é verossímil que a falência da modernidade enquanto projeto iluminista e a quebradeira cíclica do mercado desregulado deixaram claro que o caminho da servidão não será evitado pela liberdade de comprar e vender ou pelos direitos do indivíduo intocável. Até aqui se apostou na liberdade, por vezes. Noutras, na igualdade como fim, mas sem a equidade como meio. O leninismo e suas derivações trotskistas, incrustrados nas esquerdas, imobilizadas perante as diversas complexidades dos acontecimentos, época após época, de construtivo mantiveram o acúmulo de experiências das lutas de outrora. Pouco demais.

Impossível saber quais os caminhos que os levantes populares ou os eventos tecnológicos que invadem as ruas internacionais irão seguir. Não vale bola de cristal. Desde as munições da sociologia e das ciências sociais, cabe uma análise imbuída de reticências advindas da precipitação. Imperativo é discorrer sobre a totalidade do cenário brasileiro exposto na agudeza das suas entranhas, em praça pública e para todos os canais da mídia hegemônica – deliciada com as cenas de guerra que fomentam o seu sensacionalismo a procura de mais concentração de riquezas e poderes.

Um tópico decisivo resvala à compreensão da violência que perpassa quase todas as manifestações. Vigoram, pelo menos, quatro aspectos entrelaçados a ela. Durante algumas centenas de anos, determinados grupos sociais deste país foram interpelados por uma quantidade desenfreada de incidências violentas por parte do Estado. Nem Weber passaria em branco nesse ponto. A tal violência legítima exercida por quem detém o monopólio para fazê-lo desterra, na prática da história e da atualidade nacional, qualquer interstício que sugestione uma aplicação neutra, séria ou coerente. Pobres e negros são inseridos a força numa cultura da violência (que atravessa a linha mestra do tecido social do capitalismo contemporâneo) jamais vivenciada com tamanha veemência e intensidade por outras parcelas da população. Deixar para trás essa evidência é negligenciar o que não é negligenciável.

Dita essa banalidade, outro indício remete aos movimentos da extrema esquerda que vislumbram em certos símbolos do monstro capitalista o alvo para o que julgam uma violência política. Pouquíssimo estratégico na maioria dos casos, esse conceito existe e está nas ruas. Não domina o curso das violências e saques, como os grandes meios de comunicação tentam disseminar. Nota-se, inclusive, sua marginalidade frente às catalisações revoltosas das massas empoderadas pela efervescência das ações coletivas. Olha aí o velho Durkheim e a pertinente definição de efervescência, fervilhante em momentos históricos como o que vivemos neste inverno tropical. Uma efervescência que unifica. Que dá o tom de algo que vem de dentro, que faz as pessoas compartilharem uma forma de catarse coletiva. Todavia, ela é neutra no seu conteúdo.

Têm-se, ainda, duas táticas mais velhas do que a velhinha de Taubaté: a infiltração da polícia e o recrutamento de agitadores. Antes de o mundo ser mundo, ambas as táticas já faziam parte de qualquer movimentação política de larga escala. Sabe-se que o Estado, através do seu braço policialesco, insere-se nos movimentos de rua a fim de descobrir detalhes das agências individuais e coletivas. Alguém duvidaria que ultrapassasse essas incumbências, propondo o descontrole e justificando a sua própria força na ação repressiva? Alguém arriscaria uma postura meiga dessas?

Um amigo, morador de uma comunidade periférica, relatou sem rodeios que grupos de partidos conservadores estão prometendo variados benefícios aos jovens que aceitarem uns trocados para ir aos protestos e causar confusão. Para bater “nos PT” e na esquerda organizada (às quais devemos o início do despertar). Dois coelhos numa cajadada. Desopilar toda a sorte de violências sofridas por um universo de direitos individuais e sociais negados dia após dia e, pasmem incrédulos leitores, ganhar uns trocados para isso. Triste retrato de uma realidade que vai além de prefixos, ismos ou teorias.

Destituída a ambição de prever o futuro, pintar aquilo que insistimos em chamar de realidade, algo tão débil que não admite certezas, origina-se uma ousadia infantil de não ficar quieto neste recorte episódico da trajetória humana. O que se pode ver com alguma nitidez nos repetidos atos de rua é que emergem a heterogeneidade e a multiplicidade – valiosas, porém ameaçadoras. Vê-se uma pluralidade de expoentes ideológicos mergulhados em cabíveis belezas a serem conquistadas, tendo em vista que o movimento está, sim, em disputa. 

Por mais que a crise da relação entre Estado e sociedade (o primeiro, capitalista; o segundo, capitalista) vague no epicentro da ebulição das multidões, crise codificada erroneamente como moradora da representação em si, não parece adequado rejeitar tudo aquilo que se conquistou nas bravas lutas pretéritas. Partidos são essenciais. Podemos rever o jogo, mas não parar de jogá-lo. O cuidado mais sábio neste instante, que inventará, talvez, a estética, a semântica e a gramática do rumo dos acontecimentos, será conseguir separar a crítica política do status quo, da crítica generalizante e estéril à política. Dependeremos, destarte, daqueles contextos a inventar, daqueles 198 milhões de cidadãos que não saíram das suas casas para reivindicar isso ou aquilo e das respostas ou verborragias que as lideranças políticas estiverem aptas a desferir.

O quadro exibido nas ruas tem algumas feições que não são nada proeminentes. Quadro revestido de um semblante conservador, individualista e propenso a ser cooptado pela direita organizada que, está na história, sempre carrega uma iniciativa de reinvenção em favor dos seus interesses infinitamente maior do que as esquerdas. Ou mesmo do que o incerto que está por aí, se não quisermos rotular com insígnias do passado. Ressalto, à medida que ainda acredito que as ruas estejam em disputa, que vale pagar para ver e alimentar a fé nas multidões.

Dentro de mim se debate uma intuição que grita para estar errada. Uma intuição que enxerga as multidões orbitando inclinadas ao machismo, à homofobia, ao insulto ao diferente, à pregação da meritocracia sem critérios equânimes, à rejeição da política (isso é possível?!). Em outras palavras, inclinadas no sentido inverso ao pensamento e a reflexão. Malvada essa intuição que grita, com todas as suas forças, para estar equivocada no seu âmago. Contudo, eu vou para as ruas. Porque fora delas tudo é ilusão.
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