SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Notas midiáticas da semana

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Foi uma semana cheia de acontecimentos propícios para serem pensados, problematizados e interpretados. Os grandes meios de comunicação, por sua vez, deixaram para trás essas possibilidades. Vejamos alguns pontos:

- A cobertura que a grande mídia está fazendo do frio é tão bizarramente mercadológica e vazia que chega a apavorar até a quem já é crítico.

- A cobertura que a grande mídia está fazendo do autoritarismo no RJ é tão bizarramente elitista e vazia que chega a apavorar até a quem se diz democrata nos moldes atuais.

- A cobertura que a grande mídia está fazendo da vinda do papa é tão bizarramente doutrinária e vazia que chega a apavorar até a quem entende a importância das religiões para determinados grupos sociais.

- A cobertura que a grande mídia fez do bebê real britânico foi tão bizarramente esquizofrênica e vazia que apavorou até aos amantes dos assuntos infantis.

Viva a grande mídia! Só que não. Olhos abertos.
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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Repensar em busca do híbrido

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

De férias do trabalho, o trabalho insiste em não dar férias. Tudo normal. Resolvo, então, repensar uma sociologia da minha própria sociologia. Tematizar o núcleo básico do meu fazer profissional e as consequências que pretendo que ele alcance. Seja entre os estudantes com os quais trabalho, seja com os leitores dos meus textos.

Tenho defendido que é importante acionar uma imaginação sociológica. Construir dia após dia, num artesanato intelectual, conjuntos de perguntas que enfrentem a hegemonia do saber e do poder colonizados. Indagações que orientem a atuação em sala de aula ou a pesquisa acadêmica. Que potencializem os horizontes dos espaços de inserção fora dos ambientes restritivos, bem como para além dos padrões epistêmicos eurocentrados. Na figura de professor-pesquisador, posso procurar nas perturbações de cada discente os tentáculos que as estruturas e instituições da modernidade depositam sobre ele, a fim não de retirar-lhe a sua responsabilidade, mas de compreender os caminhos das relações que ele estabeleceu nas suas experiências até ali – para, quem sabe, suscitar alternativas híbridas e hibridizantes de (re)significação das experiências.

Se hoje as perturbações nos sistemas de ensino são vistas como generalizadas, por exemplo, não consigo tratá-las desde as características individuais dos envolvidos. Tampouco à feição dura da estrutura sem a agência humana. A imaginação sociológica precisa ver numa pessoa a sociedade, e na sociedade cada uma das pessoas. Precisa apostar mais na semântica dos conceitos e na sintaxe das teorias, ou seja, apostar na elucidação dos significados e nas ligações que formam os conjuntos de argumentos e significados. Não pode, a despeito da obliteração intencional espalhada por aí, ocultar o viés das estruturas econômicas e políticas. Não pode ter medo das ruas, ou daquilo que apreendemos enquanto realidade nessa vida louca e efêmera.
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domingo, 21 de julho de 2013

Duas médicas, dois livros de Neruda


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Que dureza! Não queria comentar a questão, mas não tem jeito. Não depois de hoje. O cara chega para realizar uma consulta médica, pelo convênio, num estabelecimento de pequeno porte. Na região central da capital gaúcha, longe do interior. Gripão pegando, receio da tal H1N1. O cenário é tomado por umas 100 pessoas para serem atendidas. Duas dedicadas e atenciosas médicas. Após uma hora e trinta minutos, chamam meu nome:

- Fulano de tal!

Alegre, quer dizer, meia boca, eu comemoro sentindo o febrão dominante:

- Bingo!

Deveria ter levado um livro, dois, na verdade. Como a menina sentada ao meu lado. Ela lia dois exemplares em idioma original dos poemas de Pablo Neruda. Quis pedir um emprestado, só que a vergonha não permitiu. Sábia jovem que acrescentava bonitezas na sua longa e doentia espera. Nas próximas vezes, farei igual a ela. Levarei duas boas obras. Uma para emprestar voluntariamente.

Embora as médicas estivessem fazendo milagre por ali, os problemas da saúde no Brasil ficaram evidentes. Eles são institucionais, por vezes individuais, sim. Sobretudo, a lógica do sistema é que precisa mudar. Óbvio que necessitamos de mais estrutura. Enquanto isso, por dez mil reais, vamos botar a mão na massa, queridos “doutores”! Parece que precisamos de menos remediação e mais estratégias preventivas. Mais humanidade e menos mercado. Profissionais que se insiram nas comunidades, criando uma nova cultura holística de saúde. 

Uma outra medicina tem que passar a vigorar. Com urgência.
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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Epistemologias do sul


O número 80 da Revista Crítica de Ciências Sociais, editado em 2008, disponibiliza uma série de artigos problematizando as questões relativas à colonialidade do poder e do saber. Desde os anos 1960, alguns teóricos e pesquisadores vêm refletindo acerca da possibilidade de outros paradigmas para a produção do conhecimento, distantes de uma matriz eurocentrada. Essas possibilidades podem ser incluídas no escopo dos estudos pós e descoloniais. Abaixo está o link pararccs80capa-small325 esta proeminente edição da revista, junto com um trecho da introdução escrita pela antropóloga moçambicana Maria Paula Meneses.

A procura especulativa do conhecimento é uma componente central da cultura humana. Mas o vasto campo das interrogações abrangidas pela reflexão filosófica excede em muito a racionalidade moderna, com as suas zonas de luz e sombra, as suas forças e fraquezas. Foi a partir desta constatação que, em 1995, Boaventura de Sousa Santos propôs o conceito de “epistemologia do Sul”, o qual veio a suscitar vários debates. Este número da Revista Crítica de Ciências Sociais ambiciona alargar a discussão sobre a diversidade epistemológica do mundo, apresentando algumas das controvérsias que o tema tem gerado.

A constituição mútua do Norte e do Sul e a natureza hierárquica das relações Norte‑Sul permanecem cativas da persistência das relações capitalistas e imperiais. No Norte global, os “outros” saberes, para além da ciência e da técnica, têm sido produzidos como não existentes e, por isso, radicalmente excluídos da racionalidade moderna. A relação colonial de exploração e dominação persiste nos dias de hoje, sendo talvez o eixo da colonização epistémica o mais difícil de criticar abertamente. A relação global etno-racial do projecto imperial do Norte Global vis à vis o Sul Global – metáfora da exploração e exclusão social – é parte da relação global capitalista. Esta hierarquização de saberes, juntamente com a hierarquia de sistemas económicos e políticos, assim como com a predominância de culturas de raiz eurocêntrica, tem sido apelidada por vários investigadores de “colonialidade do poder”. Uma dasexpressões mais claras da colonialidade das relações de poder acontece com a persistência da colonização epistémica, da reprodução de estereótipos e formas de discriminação (…).


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sexta-feira, 12 de julho de 2013

A liberdade atrás do medo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O medo é aliado da conservação. A falsa sensação de estabilidade que vivemos constantemente faz com que queiramos manter as nossas vidas do jeitinho que elas estão. A vida pode até não estar boa, maravilhosa ou cheia de comemorações. Para muita gente ela não está. Mas há uma tendência oculta de conservar as poucas alegrias do cotidiano. Tendência legítima. Só que a reflexão deve ir além.

Mario Quintana dizia que o fato é um aspecto secundário da realidade. Como podemos ler a vida humana sem perceber que a nossa experiência é uma sucessão de contingências, uma abrangente iminência na qual o sentimento de estabilidade é movediço e ilusório? A qualquer momento, algum acontecimento pode tirar toda e qualquer linearidade das nossas trajetórias. E isso estimula uma forma de medo.

Quando Mia Couto propõe murar o medo, ele nos coloca a incumbência de cercar aquilo que nos cerca de modo incessante. Sem nos darmos conta, todos os dias somos impelidos a gradear os nossos receios. Encaramos as ruas para ir trabalhar, mesmo com medo das violências, dos acidentes, das pessoas alheias ou do que for. Porém, quando rompemos outras amarras, quando nos juntamos às multidões que ocupam as ruas em marchas, protestos ou manifestações, aí o conjunto de contradições de uma ordem nada estável e deveras injusta, até então adormecido para determinadas parcelas da sociedade, bate em todas as portas e acentua os nossos medos. Compreensível.

Se deixarmos as ruas, o medo vencerá e trará de volta aquela falsa ordem emoldurada pela falsa sensação de estabilidade. Nós somos seres relacionais, não somos substâncias. Os acontecimentos aparentemente mais longínquos guardam alguma relação, seja ela sutil e escondida, seja ela evidente. Podemos perder para as estruturas, para as instituições, para os dominantes. Penso que não podemos, entretanto, perder para a nossa própria subjetivação, imiscuída em temores forjados por uma sociabilidade historicamente desigual e violenta.

Descolonizar os nossos desejos e a nossa subjetividade é uma imperativa tarefa árdua e complexa. Sentado no sofá, mexendo no PC ou no controle remoto, o caminho de conservar as coisas como elas estão seguirá o seu curso. Tudo parecerá um enorme simulacro. Um minuto nas ruas, coletivamente, e a liberdade indicará pulsar detrás dos medos.
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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Os conflitos de classes na Suécia atual


Há uns dois anos, o depoimento de um uruguaio, radicado desde a infância em Estocolmo, trouxe a demonstração de que as coisas não estavam tão calmas na Suécia como todos parecem acreditar. O estudante de Ciência Política, que passava um tempo no Brasil investigando nosso sistema representativo, afirmou com todas as letras que os sucessivos governos de extrema direita estavam desconstruindo a história de pouca desigualdade no país europeu. O textoImagem reproduzida do sítio http://www.outraspalavras.net/files/2013/05/130526-Su%C3%A9cia.jpg disponibilizado abaixo faz refletir sobre a situação, além de trazer muitas informações sobre os conflitos entre as classes sociais na Suécia. A publicação original remete ao Outras Palavras, e tem a autoria de Tom Peck.

(…) em Husby, subúrbio no norte da cidade de Estocolmo, distante do centro, região superpopulosa onde vivem imigrantes, começava uma conflagração, em tudo diferente do que se via entre os suecos brancos ricos. Um shopping center foi vandalizado e uma garagem incendiada, o que causou a evacuação dos moradores de um bloco de apartamentos. Quando a polícia chegou, foi recebida a pedradas por mascarados; dois policiais foram feridos. Num vídeo que chocou o país, um terceiro policial caído aparece sendo espancado e chutado; os agressores chutaram também a pistola que se vê no coldre do policial.

Quando o dia clareou, havia mais de cem carros incendiados; e quando os jogadores campeões erguiam a taça, em confraternização com o rei Carl XVI Gustaf no Kungsträdgården, à vista de 20 mil fãs, a Suécia já entrara na primeira manhã dos piores tumultos urbanos de toda a moderna história do país, que continuam.

Centenas de carros e dúzias de prédios foram incendiados, e há mais de 100 presos. Imagens dos policiais feridos e prédios em chamas, na rica, pacífica e igualitária Suécia, surpreenderam o mundo. Mas, para outros muitos, não foi surpresa. Há anos os sindicatos, trabalhadores dos serviços sociais, cientistas políticos, rappers, em confronto com número um crescente de extremistas de direita, já contam o Conto das Duas Estocolmos – duas sociedades que coexistem numa mesma cidade dividida e não integrada. Mas nunca se vira oposição e contraste tão declarados quanto naquela primeira noite de fogo nas periferias, que sitiaram a festa do hóquei-sobre-o-gelo do centro.

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terça-feira, 9 de julho de 2013

Belluzzo: Foucault e o neoliberalismo


A releitura do liberalismo econômico clássico, proferida pelos pensamentos de Friedrich Hayek e Milton Friedman, após a Segunda Guerra Mundial espalhou-se ao redor do planeta como uma fórmula mágica das elites do poder. Mais do que uma doutrina relativa ao campo da economia, o neoliberalismo carrega uma espécie de filosofia social embutida. Luiz Gonzaga Belluzzo (saiba mais), economista Michel Foucault (Imagem reproduzida do sítio http://lh3.ggpht.com/-ka8dkI1-sHk/UWqyxLlwc0I/AAAAAAAACl4/R8-9DTdt5eE/foucault%25255B12%25255D.jpg?imgmax=800).consultor  da Revista Carta Capital, disserta sobre como o intelectual francês Michel Foucault (saiba mais) soube compreender com profundidade o alcance do espectro neoliberal, para além dos quesitos tradicionais.

O mundo se abriu para o novo milênio dominado por certezas que hoje se desmancham sob a ação demolidora da crise financeira. A ideologia neoliberal, quase sem resistências, tentou demonstrar que, com a queda do Muro de Berlim, o espaço político e econômico tornou-se mais homogêneo, menos conflitivo, com a concordância a respeito das tendências da economia e das sociedades. Não há mais razão, diziam, para se colocar em discussão questões anacrônicas, como a reprodução das desigualdades ou as tendências dos mercados a sair dos trilhos, frequentemente destrambelhados pelos excessos nascidos de suas engrenagens.

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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Žižek e o rumos dos protestos mundiais


O filósofo esloveno Slavoj Žižek (saiba mais), protagonista intelectual de todos os acontecimentos que sacodem o planeta nos últimos anos, apresenta alguns argumentos sobre a ebulição vigente. A partir das suas reflexões, torna-se possível elaborar perspectivas mais aprofundadas acerca dos fenômenos, fugindoImagem reproduzida do sítio http://virusplanetario.files.wordpress.com/2010/03/s_zizek1.jpg das percepções maniqueístas ou implicadas por uma visão rasteira da realidade. O link para o texto completo econtra-se abaixo.

Em que ponto estamos hoje, quanto a essa diferença? Os problemas e protestos dos últimos anos são sinais de que se aproxima uma crise global, ou não passam de pequenos obstáculos que pode enfrentar mediante intervenções locais? O mais notável nas erupções é que estão acontecendo não apenas, nem basicamente, nos pontos fracos do sistema, mas em pontos que, até aqui, eram percebidos como histórias de sucesso. Sabemos por que as pessoas protestam na Grécia ou na Espanha; mas por que há confusão em países prósperos e em rápido desenvolvimento como Turquia, Suécia ou Brasil?

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Protestos pelo Brasil (parte 2)


Por Luiz Eduardo Soares
Antropólogo, Escritor e Professor da UERJ

A sociedade brasileira tomou as ruas e sequestrou para si o título que lhe custara bilhões de reais e, por decisões autocráticas, a excluíra: o grande evento. Centenas de milhares de pessoas deslocaram o campo de futebol para o meio da rua e vestiram a camisa do país, assumindo inaudito protagonismo histórico. Resta ao intérprete calçar as sandálias da humildade e admitir sua ignorância e perplexidade ante o fenômeno radicalmente novo. O interesse público fora confiscado pela tecnocracia, aliada a empreiteiras e subserviente à tutela arrogante (e voraz) da Fifa. Os chamados “grandes eventos” serviram de justificativa para lucros extraordinários e para a festa da especulação imobiliária, sob a retórica do legado social, enquanto a mobilidade urbana tornava-se, crescentemente, uma contradição em termos. A massa rompeu expectativas e a tradição de apatia, inventando um movimento que será, por suas lições e efeitos, o verdadeiro legado às gerações futuras. A narrativa passou a ser escrita, nas ruas e nas redes virtuais, por milhões de mãos e vozes, desejos e protestos, inscrevendo seus autores na cena global, em diálogo com outras praças, outras multidões, outras lutas. A sociedade virou o jogo.

Aplicar velhos esquemas cognitivos serve apenas para exorcizar o novo, domesticar a diferença e mascarar a insegurança intelectual, confirmando velhas crenças e categorias. O momento exige humildade do intérprete e o reconhecimento de que também as categorias tradicionais com que opera estão em xeque, desestabilizadas pela potência disruptiva e criadora do movimento social. Além disso, é necessário reconhecer que a disputa central agora é pelos significados do que está acontecendo, porque do consenso que se construir sobre o sentido dependerá o desdobramento do processo político. Projetando-se os modelos cognitivos convencionais sobre o que é radicalmente diferente, só se vê o que o movimento não é: “não organizado, sem liderança ou centro, desprovido de ideologia e de objetivos, irracional etc.” Entretanto, ele existe. Como descrever sua positividade? Comecemos por ecoar sua polifonia.

A terra treme porque o país avançou, e as desigualdades, embora ainda imensas, reduziram-se significativamente. As manifestações não são sintoma de declínio, mas afirmação de força e fé no futuro, ainda que pelo avesso, isto é, sob a forma de protesto indignado contra o que, contrastando com os avanços – e mesmo tendo sido por décadas naturalizado – agora tornou-se inaceitável. O pensador francês do século 19 Tocqueville nos ensinou que a miséria e a vulnerabilidade social só conduzem à reiteração da impotência. Rebelam-se os que têm a perder, conquistaram avanços, sentem-se potentes e sob ameaça. A sociedade brasileira aprendeu a valorizar a cidadania e despertou da inércia.

Os atores reunidos nas ruas, na maioria jovens, são os mais diversos, têm diferentes origens sociais, falam todas as línguas ideológicas e vocalizam as mais variadas denúncias e reivindicações. Seria artificial e contrário ao espírito das manifestações submeter o coro de contrários a uma univocidade ortopédica. Entretanto, uma certeza é consensual: a representação política ruiu. Não é de hoje, mas somente agora o escárnio das esquinas, a repulsa ao mundo político que se limitava às conversas cotidianas ganhou corpo e visibilidade, tanto quanto ganharam visibilidade e reconhecimento milhões de cidadãos antes unidos pelo ressentimento, sentindo-se diariamente desrespeitados pelas autoridades, pelas instituições, pelo transporte público, pelas condições da saúde e da educação. O colapso da representação vinha sendo coberto pela competência do executivo federal, por políticas públicas exitosas, pelo carisma de Lula. Na atual conjuntura, o executivo não é mais escudo protetor para a ilegitimidade do Parlamento, em razão de inúmeros tropeços: repique inflacionário, retrocesso na proteção ao meio ambiente, passividade ante assassinato de indígenas, alianças com impostores venais que tornaram “governabilidade” sinônimo de vale tudo, passividade ante chantagens obscurantistas e regressivas de religiosos fundamentalistas, e tantas hesitações e contradições de um governo claudicante, que recorre ao BNDES para selecionar vencedores, não tem capacidade de investimento, convive com uma infraestrutura sucateada, é insensível ao desafio da competitividade industrial e mantém-se fiel a um modelo econômico insustentável, voltado para o consumo e a proliferação epidêmica de automóveis. Observe-se que nesta lista de problemas há munição ampla o suficiente para atingir a todos, à direita e à esquerda. O colapso da representação política significa o divórcio entre o Estado e a sociedade.

Um fator determinante foi a cooptação do PT e de um grande número de sindicatos e movimentos sociais por parte do governo federal. A história é pródiga em exemplos de desastres provocados pela superposição entre Estado, governo e partido. Resultado: o PT perdeu a rua, e a UNE, devorada pelo aparelhismo do PCdoB, foi a grande ausente. Erro dramático do PT e do governo federal: no começo, um mar de rosas, ruas vazias, aplausos das categorias, paz para governar. Agora, o vazio, a impotência, a impossibilidade para liderar, dirigir e até mesmo disputar. E o país diante da necessidade de reinventar a política.

E a violência nas ruas?

Imaginemos a seguinte descrição do despertar da sociedade brasileira:

O paciente coletivo respirava por instrumentos na UTI. Graças às melhorias socioeconômicas das últimas duas décadas, recuperou a consciência e os movimentos do corpo, ergueu-se, descobriu que sua casa fora ocupada por políticos venais interessados na reprodução de seus mandatos, cúmplices de empreiteiras e do capital financeiro vinculado à especulação imobiliária, vândalos oficiais a serviço do modelo automotivo de desenvolvimento insustentável, arruaceiros do interesse público, baderneiros bem-comportados de paletó e gravata, desordeiros de colarinho branco. Furioso, o paciente, agora impaciente, espana os parasitas com o vigor redescoberto.

Creio que esse relato traduza o sentimento que flui nas manifestações. O que parecia ser ordem, antes da onda de protestos, correspondia a transgressões continuadas à Constituição e aos princípios mais elementares da moralidade pública.

Consultemos, agora, imaginariamente, os sentimentos e as percepções difusas dos jovens mais pobres que têm convivido, diariamente, com a brutalidade policial. Tomo como exemplo acontecimentos desta semana, no complexo de favelas cariocas da Maré: policiais do Bope invadiram residências (derrubando portas e sem mandado judicial), quebraram utensílios domésticos, humilharam, agrediram e ameaçaram moradores dentro de suas casas. Na operação, morreram 10 pessoas: um policial, sete considerados suspeitos de participação no tráfico de drogas e dois oficialmente tidos por inocentes. Contemplemos por um instante outros fatos recorrentes no Rio e em vários outros Estados: chacinas são perpetradas por policiais, milicianos tiranizam comunidades, armas e drogas são apreendidas a ferro e fogo, em incursões bélicas que ferem e matam inocentes, mas são devolvidas em seguida, mediante negociações com traficantes locais ou facções rivais, à luz do dia, diante da comunidade. As autoridades prometem investigar com rigor – e não alteram os protocolos da ação policial. O Ministério Público é responsável pelo controle externo da atividade policial, mas tem sido omisso, com plena anuência da Justiça – ressalvadas as honrosas exceções, entre elas a saudosa juíza Patrícia Acioli, assassinada com 21 tiros por policiais. Quantos profissionais das polícias, envolvidos em chacinas, no rastro dos ataques do PCC em São Paulo, em 2006, foram punidos? Quantos foram investigados e punidos no Rio, onde 9.231 mortes foram provocadas por ações policiais entre 2003 e 2012? Esses dados deveriam levar-nos a compreender a fonte da indignação furiosa de quem depreda – deixo de lado, evidentemente, os criminosos que se aproveitam da situação. Não se trata de justificar a violência, mas de entender suas raízes e, sobretudo, de explicar por que a massa considera hipócrita o foco da mídia na ação dos assim chamados “vândalos”. Antes das manifestações, não havia ordem e normalidade, mas vandalismo continuado, praticado por aparelhos do Estado contra muitos, nas periferias, Brasil afora. Falta equidade no tratamento por parte do Estado e da mídia. A ordem tida como natural antes da eclosão das manifestações não era menos destrutiva do que a desordem promovida por alguns manifestantes. Esse é o ponto – o qual, insisto, não justifica a violência, mas a torna inteligível.

A violência cometida nas ruas por grupos sempre atuantes, embora francamente minoritários, têm sido o maior obstáculo ao sucesso do movimento. Quem pratica saques e quebra-quebras põe-se como inimigo da massa que se manifesta nas ruas e contribui para a estigmatização do movimento e seu esvaziamento. Essa prática coloca para qualquer polícia, mesmo a melhor do mundo e a mais democrática, um desafio trágico, um problema insolúvel. Uma polícia para a democracia tem o dever de garantir direitos. É este seu mandato constitucional. Há os direitos dos cidadãos à livre manifestação e também aqueles que estão sendo violados por quem age com violência destrutiva. Está em jogo o interesse público seja na plena liberdade do movimento, seja na proteção ao patrimônio público. Quando manifestantes depredam, criam um dilema incontornável para o poder público e a polícia – e por isso o fazem: projetam seu ódio e buscam um cadáver, geram as condições para o surgimento do mártir, diante do qual as manifestações seriam empurradas para o abismo das retaliações recíprocas intermináveis. O que deve fazer uma polícia comprometida com a legalidade constitucional? Reduzir danos, atuar no limite superior da tolerância e inferior do uso da força, buscar o diálogo, apostar na compreensão da imensa maioria sobre os impasses. O que uma polícia que serve à cidadania, cumprindo o mandato constitucional democrático, não deve fazer? Aquilo que tem sido a rotina no Rio e tem ocorrido em outras cidades e Estados: investir na vingança, provocar manifestantes, prender discricionariamente, agredir indivíduos desarmados e isolados, acuar grupos em vez de suscitar condições para que dispersem, atacar arbitrariamente, ostentar o sorriso de escárnio como bandeira de seu ressentimento, reafirmando pela prepotência a profundidade de sua própria insegurança e de seu descompromisso com a legalidade. Tampouco deve usar armas menos letais como se fossem não letais. Pior: como se fossem brinquedos inofensivos de uso ilimitado. De sua parte, cabe ao movimento, mesmo mantendo-se descentralizado e apartidário, organizar-se minimamente para inibir as práticas que, de fato, tentam desqualificá-lo, politicamente.

Duas questões me parecem decisivas:

(1) A classe média descobriu a brutalidade policial, que os pobres e negros nunca ignoraram. Polícia tornou-se um dos temas chave, nas ruas. Por que a presidente omitiu o debate em torno da mudança do modelo policial, que envolve a desmilitarização, e que vem sendo adiada desde a transição democrática? É urgente estender a transição à segurança pública. O silêncio oficial tem sido cúmplice de milhares de execuções extrajudiciais, de torturas, violações cotidianas, inclusive contra os próprios policiais. Até quando reinará a negligência? Nada mais desconectado das ruas e da realidade do que a proposta patética das oposições: “mais verbas para a segurança pública”. Como alimentar essa máquina de morte, essa fonte de violações? Nenhum centavo deveria ser concedido antes que se refundassem as polícias.

(2) A proposta presidencial sobre reforma política sem dúvida dialoga com o eixo dos protestos, isto é, focaliza o colapso da representação. Entretanto, só fará sentido se mostrar-se capaz de quebrar os mecanismos em curso. Isso não guarda relação clara para a maioria dos manifestantes com sistema eleitoral – distrital, simples ou misto, ou proporcional –, voto em lista, financiamento de campanha etc. O que poderia conversar com as ruas seria uma proposição radical, que sepultasse a representação política como carreira e negócio. Eis um exemplo: para o parlamento, eleições a cada dois anos com apenas uma reeleição, candidaturas avulsas da sociedade seriam possíveis, salários dos deputados seriam iguais aos dos professores, cada um teria três assessores, nada de carro oficial, verba de gabinete ou aposentadoria por oito anos de trabalho, dinheiro para campanha apenas aquele doado por cidadãos (tendo 500 reais como teto – sobre os recursos deveria haver plena transparência com informação em tempo real via internet), nada de tempo na TV, que virou moeda (utilize a internet quem quiser e puder mobilizar sua rede). Eleitos seriam os mais votados, sem os coeficientes partidários e as coligações. Para o Senado, não haveria suplente, os mandatos seriam de quatro anos sem reeleição e as condições seriam as mesmas dos deputados. Para o executivo, apenas um mandato de cinco anos e regras específicas. Enfim, uma transformação realmente profunda poderia sensibilizar a maioria da sociedade e reconectá-la à representação.
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