SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 12 de julho de 2013

A liberdade atrás do medo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O medo é aliado da conservação. A falsa sensação de estabilidade que vivemos constantemente faz com que queiramos manter as nossas vidas do jeitinho que elas estão. A vida pode até não estar boa, maravilhosa ou cheia de comemorações. Para muita gente ela não está. Mas há uma tendência oculta de conservar as poucas alegrias do cotidiano. Tendência legítima. Só que a reflexão deve ir além.

Mario Quintana dizia que o fato é um aspecto secundário da realidade. Como podemos ler a vida humana sem perceber que a nossa experiência é uma sucessão de contingências, uma abrangente iminência na qual o sentimento de estabilidade é movediço e ilusório? A qualquer momento, algum acontecimento pode tirar toda e qualquer linearidade das nossas trajetórias. E isso estimula uma forma de medo.

Quando Mia Couto propõe murar o medo, ele nos coloca a incumbência de cercar aquilo que nos cerca de modo incessante. Sem nos darmos conta, todos os dias somos impelidos a gradear os nossos receios. Encaramos as ruas para ir trabalhar, mesmo com medo das violências, dos acidentes, das pessoas alheias ou do que for. Porém, quando rompemos outras amarras, quando nos juntamos às multidões que ocupam as ruas em marchas, protestos ou manifestações, aí o conjunto de contradições de uma ordem nada estável e deveras injusta, até então adormecido para determinadas parcelas da sociedade, bate em todas as portas e acentua os nossos medos. Compreensível.

Se deixarmos as ruas, o medo vencerá e trará de volta aquela falsa ordem emoldurada pela falsa sensação de estabilidade. Nós somos seres relacionais, não somos substâncias. Os acontecimentos aparentemente mais longínquos guardam alguma relação, seja ela sutil e escondida, seja ela evidente. Podemos perder para as estruturas, para as instituições, para os dominantes. Penso que não podemos, entretanto, perder para a nossa própria subjetivação, imiscuída em temores forjados por uma sociabilidade historicamente desigual e violenta.

Descolonizar os nossos desejos e a nossa subjetividade é uma imperativa tarefa árdua e complexa. Sentado no sofá, mexendo no PC ou no controle remoto, o caminho de conservar as coisas como elas estão seguirá o seu curso. Tudo parecerá um enorme simulacro. Um minuto nas ruas, coletivamente, e a liberdade indicará pulsar detrás dos medos.
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