SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Em greve: quero ser mais cobrado!


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Estou em greve para ser mais cobrado. Essa sentença pode soar estranha. É isso mesmo. Logo você irá entendê-la. O fato é que o magistério estadual está sem trabalhar, de acordo com o direito exposto no artigo 9º da Constituição Federal. Poucos gostam de fazer greve. Corre-se o risco de ficar sem receber. As aulas serão recuperadas, talvez nos sábados, talvez no verão. Mas a greve permanece um importante instrumento de pressão política. Goste-se ou não.

O economista Amartya Sen é reconhecido pelo Nobel que recebeu. Em uma das suas instigantes obras, ele argumenta que a expansão das liberdades é o principal fim e o principal meio para o desenvolvimento. A ausência de educação e saúde de qualidade para todos restringe a expansão das liberdades. Nesse sentido, observei na minha dissertação de mestrado, entre outras coisas, que o efeito estatístico da escola no desempenho estudantil carrega um significado decisivo – resultado consoante com a literatura da sociologia da educação contemporânea.

Se já salientei a relevância da educação e do sistema escolar, do ponto de vista das ciências humanas e sociais, sob a ótica da política institucional tal relevância parece não sair do discurso. Há muito tempo. É inacreditável que o atual governo gaúcho, responsável pela criação de um vencimento básico mínimo para os professores, agora rejeite por completo a aplicação da sua cria. Cintila inacreditável a situação física da grande maioria das escolas, na medida em que, a cada eleição, a educação pública surge como um mantra na boca dos candidatos e na estratégia dos marqueteiros. Triste cenário.

Reuni-me com alguns dos meus estudantes, no intuito de escutar as suas demandas. Elas são múltiplas. Desde questões pontuais até elementos estruturais, passando por críticas, sim, ao modus operandi dos docentes. Dizem eles que os educadores faltam muito, são despreparados, não têm paciência, demonstram claros problemas pedagógicos e assim por diante. Relatam, ainda, que os colégios são desorganizados, não oferecem a possibilidade de protagonismo aos discentes, destilam autoritarismo e não os deixam bater as suas asas e voar rumo ao conhecimento. Reclamam da modificação do ensino médio, que retirou uma série de períodos de matemática, geografia, história e outras disciplinas. Sentem-se inferiorizados frente à rede privada em qualquer concurso que possam disputar. Eu assino embaixo e sublinho que tudo isso faz parte do ensino público cotidiano.

Na última avaliação publicada pelo PISA (Programme for International Student Assessment), o Brasil ficou em 57º num ranking de qualidade educacional composto por 65 países. Um péssimo resultado para uma das maiores economias do planeta. Com Pós-Doutorado na Université de Montreal e na Pennsylvania State Unversity, Bernardete Gatti coordenou um estudo da UNESCO em que demonstrou ser fundamental a valorização dos professores. Sem melhores remunerações, os melhores profissionais não se interessam ou logo abandonam a carreira. E a corda estoura por todos os lados.

Abri esta pequena reflexão propondo que estou em greve para ser mais cobrado. Desafio os governos a oferecer condições adequadas para que eu e meus colegas possamos exercer o nosso apaixonante ofício. Sem que, transcorridos alguns anos, estejamos todos doentes e desestimulados. Sem que alguém tenha pena de nós por atuarmos na educação básica. Que nos cobrem, então, muita qualidade e excelentes performances. Até que cheguem estes lindos dias, continuarei ensinando (e aprendendo) da melhor maneira que consigo. Dotado da máxima dedicação que me cabe. Não aceitarei, contudo, cobranças densas e profundas daqueles que mentem para o povo e não fazem da educação uma legítima prioridade.
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