SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Relativizar, eis a questão


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma cena inusitada. É o que se tornou ver alguém cantando na rua, nessa vida caótica e estressante das grandes metrópoles. Por incrível que possa parecer, um rapaz passou cantando um sertanejo universitário ou algo do gênero. Havia um casal observando o ocorrido. O alegre cantor se foi e o casal iniciou um diálogo:

- Bah, mas se é pra cantar aquilo, fica quieto!
- Não viaja, deixa de querer achar que os teus gostos, a tua cultura e tudo aquilo que é teu é melhor do que as coisas dos outros...
- Tá falando sério?!
- Certo, meu! O cara tava feliz, deixa ele cantar o que ele quiser e gostar.
- Qualidade zero no que ele cantava. Convenhamos, aquela música foi feita apenas pra vender, sem nenhuma contribuição pra humanidade.
- Sim, também acho. Mas o cara tava feliz, pelo menos.

O casal seguiu seu rumo. De tudo, as tentativas paradoxais de quebrar o etnocentrismo presente no cotidiano e problematizar a indústria cultural contemporânea chamaram a atenção. Ficou um impasse: relativizar tudo ou não? Seria possível refletir mais a fundo sobre a diversidade cultural, as origens dos gostos e das identificações. Quem sabe até esboçar um caminho. Mas aí seria assunto para outra reflexão.

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sobre os gaúchos e o 20 de setembro


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O dia 20 de setembro é lembrado, no Rio Grande do Sul, como uma homenagem à Revolução Farroupilha. Particularmente, considero uma data para pensar, muito mais do que para comemorar. Vou tentar fazer isso a partir de uma pequena história.

Aconteceu comigo na semana passada. Estive em outro estado, para um evento profissional. Logo que cheguei, fui recepcionado por um casal de amigos das amigas que me hospedaram. Naquele dia, foram as duas primeiras pessoas que sorriram para mim. Trataram-me muito bem. Chegamos à casa das minhas hospedeiras. Um churrasco em andamento nos esperava. Logo passamos a dialogar sobre vários assuntos. Protestos, docência, relações de trabalho, enfim, só temáticas interessantes. De repente, sei lá por qual razão, estávamos falando acerca das identidades de cada região do país.

Todos foram unânimes em dizer que mantinham um pé atrás com gaúchos e paulistas. Relataram que todas as experiências que tiveram com gaúchos foram difíceis. Eram pessoas frias, arrogantes, metidas, muitas vezes preconceituosas e, inclusive, racistas. Bah... Senti-me muito envergonhado. Não por estar ouvindo aquilo tudo. Mas por ter a convicção de que eles estavam certos – pelo menos no que tange ao nosso estereótipo. Argumentei um pouco, no sentido de desconstruir certas imagens reproduzidas por muitos dos meus conterrâneos. Eles ficaram espantados (perplexos até) ao notarem um gaúcho disposto a se chamar de brasileiro e a rejeitar o mito Farroupilha.

Não digo para não termos orgulho das nossas tradições. Chimarrão, churrasco, Grêmio e Inter. Eu gosto do Rio Grande do Sul. Porém, creio ser necessário manter uma consciência ativa sobre a nossa história. Chega de vangloriar um levante de estancieiros racistas. Chega de bradar pela falácia de que aqui somos mais educados, politizados ou coisas do gênero. Nada disso faz sentido. Somos brasileiros. Gaúchos e brasileiros. Quero chegar a qualquer parte do país e não precisar desconstruir a mentira de que somos a Europa do Brasil. Quero receber os irmãos de outras regiões com um sorriso no rosto, como fizeram os irmãos nordestinos assim que cheguei às bonitezas da Bahia.

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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Bauman, identidades e o fim da greve


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Nas últimas semanas, estive pensando bastante nas identificações que as pessoas adotam para si. Na própria ação de identificar-se com isso ou com aquilo. Pensei muito a respeito, durante a greve e a minha estadia em Salvador. Isso tudo na constante tentativa de pensar quem sou eu, quem são os outros.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman* diz que a identidade pessoal dá significado ao “eu”. Uma espécie de identidade social, por sua vez, reforça esse significado. Faz com que seja possível falar de um “nós”, em que o “eu”, instável e inseguro, descansa na segurança do “nós” para livrar-se das suas ansiedades. Na greve, esse “nós” flertou com um aglomerado de “eus”, para aqueles que enfraqueceram o movimento por dentro. “O meu salário vai ser cortado, as minhas férias vão ser perdidas, eu isso, eu aquilo...”. Parece preocupante quando a covardia vigia os portões do nosso lado de dentro, e a estupidez está em guarda no nosso lado de fora.

* BAUMAN, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

XVI Congresso Brasileiro de Sociologia


Do dia 10 até o dia 13 de setembro de 2013, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, ocorre o XVI Congresso Brasileiro de Sociologia. Estaremos lá apresentando o paper “A influência do capital cultural no desempenho estudantil: reflexões a partir do SAEB 2003”. Abaixo consta a apresentação do evento, organizado pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).

XVI Congresso Brasileiro de Sociologia
O XVI Congresso Brasileiro de Sociologia tem como tema A Sociologia como Artesanato Intelectual, expressão cunhada por Charles Wright Mills em fins dos anos 50, em seu famoso e clássico livro A Imaginação Sociológica.

A reflexão de Mills continua atual, mantido integralmente seu forte apelo heurístico: convida-nos a (re) pensar a Sociologia em muitas direções. Crítico de um certo "empirismo abstrato" que permeava sobretudo a sociologia de matriz parsoniana e também de um pragmatismo vulgar que parecia querer nivelar o pensamento sociológico a parâmetros burocráticos da pesquisa, Wright Mills opôs ao formalismo instrumental, um ethos profissional pautado na própria experiência do pesquisador como um artesão do conhecimento. O Artesanato Intelectual implicaria, portanto, em duas importantes características para pensarmos hoje, no Brasil, a formação e atuação profissional do Sociólogo: primeiro, o Artesanato Intelectual exige uma formação curricular densa, plural, madura e contínua. Segundo, não pode prescindir das referências clássicas.

Embora a referência para pensar o artesanato intelectual seja mais amplamente difundida através de Wright Mills, podemos citar aqui no Brasil tanto a obra de Gilberto Freyre quanto a do grupo de Florestan Fernandes como exemplos do trabalho cuidadoso de investigação artesanal.

Em tempos de frenéticas buscas por um currículo "competitivo" e de uma rápida ascensão profissional - aspecto que parece ser uma característica inescapável da atual expansão das universidades brasileiras - , nada mais saudável do que refletir sobre o real significado de ser "produtivo" na academia de hoje. Longe daquele acúmulo desenfreado de papers e títulos, o intelectual-artesão busca lapidar ideias e conceitos que venham a contribuir de fato com a produção renovada do conhecimento.

O artesão intelectual não se apressa, mas caminha íntegro e ininterrupto. Sabe que o esmero e a originalidade do seu trabalho exigem maturidade e muito conhecimento. Supõe tempo! Mais do que isso: reclama uma criatividade que somente a imaginação sociológica, desvinculada do excesso de formalismos e imediatismos, pode prover o intelectual das capacidades necessárias ao exercício inovador da análise sociológica. Não se trata, pois, de acumular mais-valia intelectual (na forma inflacionada de papers e congêneres), mas de produzir algo substantivo que de fato contribua para a ampliação renovada de um conhecimento por si dinâmico e subjetivo.

Uma outra característica do Artesanato Intelectual de Mills é a referência permanente aos clássicos. Em outras palavras: o respeito à melhor tradição do pensamento acumulado e ao saber-fazer daqueles que, na prática artesanal da vida acadêmica, souberam ser mestres do ofício para os aprendizes do saber. Infelizmente, tanto na sociologia quanto na prática profissional, essas dimensões parecem estar francamente em declínio. O Congresso pretende refletir sobre as possibilidades de praticar uma sociologia verdadeiramente densa no sentido artesanal, em meio aos apelos imediatistas de uma corrida profissional muitas vezes equivocada porque referenciada em parâmetros mais quantitativos do que podemos realmente oferecer.

Por tudo isso a reflexão de Wright Mills parece-nos oportuna e atual em dois sentidos: pelo que ela pode nos fazer (reflexivamente) pensar sobre as condições do exercício profissional da sociologia; e sobre nosso próprio desempenho e contribuição que estamos a dar para o fortalecimento ético e crítico do nosso campo de atuação no mundo contemporâneo.

O XVI Congresso Brasileiro de Sociologia coloca-se, assim, como um fórum criativo e critico dos processos contemporâneos de produção do conhecimento, voltados à construção de uma sociedade mais justa, inovadora e inclusiva.

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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A Cidade da Bahia e as duas sociologias


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Depois de chegar à Salvador para o Congresso Brasileiro de Sociologia, queria ressaltar só as belezas da Cidade da Bahia. A reggaera no Pelourinho, gratuita. O banho de mar revigorante. A terra de todas as cores e belezas. A literatura de Jorge Amado.

Mas não dá. No primeiro ônibus que peguei por aqui, algumas pessoas dialogavam. Criticavam o atual estado de coisas, comentavam que só alguma mobilização pode mudar o que não está bom. Junho ainda pulsa.

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A Bahia é muito sedutora. Seduz-me sempre que me acolhe. Com o fim do Congresso Brasileiro de Sociologia, logo deixarei o nordeste. De um lado, ficou em mim uma espécie de olhar sociológico, marcado pelo calor das ruas, das pessoas, a boniteza da negritude das gentes, o sacolejar dos ônibus, o ofegar nas ladeiras que tomam conta da cidade. Ficou essa sociologia popular, na qual o sociólogo não sepretende afastado da realidade que investiga. Pelo contrário, afunda-se nela. Joga-se nela com paixão. Seduz-se por ela. Pensa. Pergunta. Participa.

Por outro lado, também deixaram marcas os interessantes diálogos que acompanhei no evento da Sociedade Brasileira de Sociologia. Agregou muito para um aventureiro inexperiente nas ciências sociais, como eu, toda a gama de discussões de alto nível que pude acompanhar. Tem a contribuir a sociologia feita na intelectualidade, de terno e gravata, em hotéis de luxo e coisas do gênero, embora a realidade se mostre – na prática – muito mais complexa e desafiadora do que a academia consegue perceber. Mais uma vez, a Bahia vai deixar saudades.

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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sem questão

Por Marina Silva*
Publicado no jornal
Folha de São Paulo

Quase sempre focados na política institucional e no debate de interesses setoriais, esquecemos de ver as causas profundas dos fenômenos sociais, da luta entre mudança e estagnação que às vezes toma a cena e nos surpreende.

Um estudo da pesquisadora Joana Monteiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, nos faz contemplar o abismo. "Os Nem-Nem-Nem: Exploração Inicial Sobre um Fenômeno Pouco Estudado" mostra que um milhão e meio de brasileiros entre 19 e 24 anos, nas faixas mais pobres da população nem trabalham nem estudam nem procuram emprego. Um contingente numeroso e crescente, capaz de impactar a economia e o ambiente cultural nas próximas décadas.

Embora de modo quase invisível, esses jovens já impactam o Brasil. Seu desalento alimenta tendências sociais desagregadoras. Certamente, têm expressiva participação nas altas taxas de evasão escolar, mortalidade juvenil por acidentes, suicídio e violência.

O que faz com que esses jovens tenham perdido o desejo de investir em si mesmos? Sua pobreza de esperanças não nos deve restringir à falta de oportunidade material como causa única, ainda que esta seja muito relevante. Talvez nossa sociedade esteja sendo acometida de um adoecimento ainda mais grave, que se caracteriza pela ausência da capacidade de acreditar "em", da capacidade de desejar.

Claude Le Guen, em seu "Édipo Originário", diz que é impossível amar a si mesmo sem antes ter amado ao outro. Talvez seja também impossível investir em si mesmo sem antes ter investido no outro. Isso pode ocorrer quando somos privados do investimento do outro, sejam eles cuidadores próximos, pais, avós, professores e amigos, mas também cuidadores distantes, associados às instituições civis ou religiosas. Sem a inscrição de seus ideais identificatórios em nós não há como elaborarmos uma promessa de existência significativa, digna de auto-investimento relevante.

Os antigos gregos falavam de uma paidéia, um grande ideal identificatório que balizava sua educação e cidadania. Nossa sociedade parece subtrair-se a esse investimento em ideal, utopia e valores. É como se a economia fosse só consumo; a política, apenas disputa de poder; a cultura, só espetáculo. Como se a democracia pudesse ser mera forma, vazia de conteúdo.

Se os ideais não ocorrem nem na família nem na escola nem na sociedade não há como ter projeto de vida e resta o deserto. Nele brotam os nem-nem-nem, que, pela privação sócio-afetiva são esvaziados do desejo, imprescindível para se viver. Ser ou não ser, tanto faz, não há questão.

Sem teto, sem terra, sem emprego, sem educação, abram alas para a tragédia maior dos sem-desejo.

* Marina Silva (saiba mais) é Historiadora. Foi Ministra do Meio Ambiente e Senadora.
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