SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Insistentes paradoxos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Pode ser aqui. Pode ser longe daqui. Paradoxos. Quebram-se bancos, mercadinhos, museus, grandes e pequenas lojas. Qualquer coisa. Nada representa ninguém. Para alguns, tudo representa a opressão. Governos mandam bater em professores, reprimem manifestações públicas, forjam provas, criam bodes expiatórios e agem com violência contra as populações mais pobres. É o padrão de atuação do Estado desde quase sempre. Cada vez mais evidente aos olhos de todos. As elites aplaudem. Milhões de cidadãos, passageiros da versão oficial, aplaudem também.

As pessoas se organizam e intensificam os protestos. Com muita razão. Querem outras sociabilidades, querem outras relações, querem direitos e a partilha dos benefícios e oportunidades que repousam nas mãos de poucos. Querem muitas coisas, inclusive que o Estado pare de agir como uma máquina seletiva de exclusão. O mundo pega fogo. A terra dos paradoxos está em convulsão. As multidões saem às ruas, a violência se generaliza. Quebradeiras, revoltas, expressões guardadas nas gargantas por muito tempo.

Os dias passam. Vários fatores contribuem para que as mobilizações fiquem numericamente menores. A violência generalizada está entre eles. As pessoas têm medo. Elas sempre têm algo a perder. Muitas querem outro mundo, e encontram nessa utopia a via estratégica de não usar da violência banalizada. Sem julgamentos morais. Apenas a compreendem como uma estratégia que afasta o povo das ruas.

Esvazia o movimento. A violência persiste nas “ações transformadoras”. O Estado aproveita e vai com tudo. Apreende livros, age com arbitrariedade, relembra tempos ainda mais sombrios. E os paradoxos se debatem entre violências, protestos e pressões políticas. A espontaneidade domina os corações. A estratégia parece cada vez mais distante. Insistentes paradoxos.
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