SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Pobreza é uma questão coletiva


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

“Pobre é pobre porque quer”. A frase me corroía por dentro. Não saía da cabeça a polêmica afirmação (?!) de um jovem conhecido. Num boteco da rodoviária, observava o real em volta de mim. Os funcionários combinavam as escalas do fim de ano. Queriam uma chance para visitar os familiares. Torci para que eles conseguissem. Diziam que o patrão era duro na queda. Voltei àquela frase tão difícil de digerir.

Viajei. De repente, organizei alguns dados do PNUD, vinculado à ONU. Cerca de 1,57 bilhão de pessoas vivem em estado de “pobreza multidimensional”. Além de possuírem renda baixíssima (R$ 2,50 por dia, em média), não têm acesso à saúde e educação. Não têm perspectivas de qualidade de vida. Filosofei, na linha do politicamente incorreto, na moda hoje em dia: “É muita gente querendo ser pobre!”. Por outro lado, um banco suíço diz que os milionários representam 0,6% da população adulta do planeta. Cuspi: “É muito pouca gente querendo ganhar milhões!”.

Sobressaltado, brilhou-me uma recente lição. Temos a tendência a enxergar o mundo a partir das nossas sociabilidades. A transformar casos minoritários, excepcionais, em regras infalíveis – desde as nossas interações com a parte do mundo que nos cabe. Tendemos ao equívoco. Isso pode nos levar a desferir frases aparentemente certeiras. Mas que, na verdade, não passam de pré-noções cheias de irreflexão.

O balanço do ônibus fez pensar no movimento da vida. Na sua complexidade. Nas oportunidades que se distribuem por aí, de modo desigual. Bastante desigual. Sempre tive oportunidades na vida. A melhor maneira de agradecer a isso parece ser aproveitar as chances que a vida me deu, tentando construir oportunidades para mais pessoas. Num mundo em que competir e vencer é a lei maior, as evidências apontam que a pobreza é uma questão coletiva. Não é puramente individual.

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