SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mais flores, menos espinhos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Outro ano se vai.

O tempo é implacável.

É caminho sem volta.

Por vezes voa. Por vezes parece estagnar.

Mas é caminho.

Árido e espinhoso, pra maioria.

Como caminho, tá em aberto. Pode ser mudado.

É o que desejo pra 2015: mais e mais pessoas ajudando a mudar caminhos.

Mais flores e menos espinhos por aí.

Sigamos!

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sábado, 20 de dezembro de 2014

Muda, vai

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um dia ele foi parado na rua por um estranho.

- Muda, vai.

Aquilo ficou na cabeça. Mudar?

O tempo passou. E essa ideia também.

Porém, a ideia estava por aí.

Para ele, enfim, pouco mudava.

Então, um dia, um sonho virou realidade.

Com ele, uma mudança. Radical. Forte.

Aí ele entendeu. Mudar não é um problema. O problema é o que fica pra trás.

Sozinho, entendeu. Só entendeu.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Paradoxo viajante

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sempre que venho ao nordeste, um paradoxo me consome.

Salta aos olhos a boniteza das gentes, dos lugares, do clima, das culturas, da diversidade e da própria vivência.

Amarga muito, a despeito das mudanças da última década, a miséria humana, as desigualdades e as opressões.

O nordeste é, para mim, a expressão profunda do Brasil. Quente, envolvente, alegre, bonito, desigual e contraditório.

Um lugar irresistível. Um lugar de vidas vivas e em movimento.

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Aquele abraço, Escola Técnica Estadual Senador Ernesto Dornelles

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Querida Escola Técnica Ernesto Dornelles; queridos colegas de trabalho; querido PIBID e queridos Pibidianos; queridos e inesquecíveis estudantes:

Não sei o que me fez chegar à educação. Sei que sempre tive muitas oportunidades na vida. Nas Ciências Sociais, porém, as coisas nunca foram tão fáceis. Sei que não faço o estilo dos dominantes no campo científico da minha área. Calças largas, dificuldade de distanciamento das ruas, uma certa desconfiança do ascetismo acadêmico. Até o boné que usei durante um tempo incomodava os meus pares. A minha fala, inundada pela fala cotidiana, ainda incomoda. Enfim, acho que cheguei à educação para não ficar preso num conto de fadas.

1 QUERIDA ESCOLA TÉCNICA ERNESTO DORNELLES

Era uma manhã de calor. Parei em frente à escola, lá em 2012, e fiquei paralisado. Fui consumido pelo medo, pela ansiedade. Não sabia como seria mais uma inserção num novo local de trabalho, com novas relações e novos desafios. Demorei a entrar.

De lá para cá, o Ernesto se tornou um lugar inesquecível na minha trajetória. Ali, nas salas de aula, nos corredores, em todos os locais do prédio centenário, fiz muitos amigos e cresci demais como professor. Se na Barra do Ribeiro eu me tornei professor, no Ernesto eu aprendi muito sobre a docência e ganhei a certeza momentânea de que este é o meu ofício.

Em todos os lugares que passo, com todas as pessoas que falo, nunca deixo de ressaltar a qualidade das atividades que se desenvolvem na escola. Isso não significa ignorar ou minimizar os problemas. Isso não significa tapar o sol com a peneira. Significa, somente, dar os créditos e valorizar uma coisa que sinto no fundo mais profundo das minhas ideias e sentidos.

O Ernesto é, sim, uma grande escola. E nele está a demonstração de que a escola pública pode ser de qualidade. Que a escola pública pode ter grandes profissionais, grandes projetos, enfrentar as dificuldades estruturais com força e determinação. Tenho muito orgulho desses dois anos que tanto me marcaram nas bandas da Praça da Bronze.

O Centro Histórico de Porto Alegre, minha querida cidade, aquela que jamais experimentei ficar longe, nunca mais será o mesmo para os meus olhos. Sempre que eu sentir a brisa do Guaíba ou tomar um mate no Gasômetro, o Ernesto surgirá na memória e me deixará arrepiado, trazendo lembranças intensas que guardo no peito com muito carinho.

2 QUERIDOS COLEGAS DE TRABALHO

Uma escola é feita de pessoas. Muitas vezes nos esquecemos disso. Mas isso não pode ser esquecido. É verdade que o rodo cotidiano, o peso das estruturas sociais injustas e desiguais, tudo isso acaba soterrando a humanidade dos professores e dos funcionários de escola. É verdade, também, que mesmo assim essa humanidade sempre vem à tona.

Não vou nomear a todos, mas gostaria de agradecer profundamente a todos os colegas de trabalho. Professores e funcionários, sem vocês a minha passagem pelo Ernesto não teria nenhuma parte do brilho que tem para mim. Esse brilho que sinto não é meu. Ele foi construído com vocês, com divergências, sinergias, erros, acertos, amizades e coexistências. Muito obrigado pela parceria.

Preciso e quero falar de algumas pessoas especiais. Como não nomear as meninas-mulheres espetaculares que me aguentaram nesses dois anos na divisão do ensino de sociologia? Impossível! Cris, Ivete e Nina: vocês são foda! Desculpem a linguagem, mas vocês são especiais, vocês foram a melhor parceria que já tive nessa minha pequena experiência docente envolvendo a sociologia. Que orgulho e que saudade eu já tenho de vocês. Não vai ser fácil deixar de trocar uma ideia, dar risadas e pensar trabalhos e atividades em conjunto com vocês. Sentirei muitas saudades. Muitas mesmo.

Raquel, Davi, Neto, Milton, Margareth e todos os demais: muito obrigado pelo aprendizado que me proporcionaram. Deixo as minhas sinceras desculpas pelos fracassos, pelas insuficiências, pelos insucessos, pelas minhas falhas, defeitos e por tudo aquilo que não consegui aprender e pôr em prática com vocês. Um beijo grande no coração, de um ex-colega que tanto vos admira.

3 QUERIDO PIBID E QUERIDOS PIBIDIANOS

Nesses dois anos de Ernesto, tive a maravilhosa oportunidade de supervisionar um dos projetos mais valiosos da educação básica brasileira na atualidade. Supervisionar o PIBID Ciências Sociais UFRGS no Ernesto não foi uma tarefa, foi um orgulho, uma alegria, um baú de amizades, experiências e aprendizados.

De tudo, as pessoas são sempre o mais importante. Quando cheguei, num turbilhão de acontecimentos, não previ que tais pessoas seriam tão importantes para mim. Rafael Barros, Marcela, Bruna, Gui Maltez, Gui Soares, Gui Rodrigues, Marco Plá, Juan, Juliano, Adriana e Cássio: vocês são lindos, vocês são pessoas incríveis, profissionais (sim, profissionais!) da educação que fazem e farão toda a diferença nesse mundo cruel. Pra cima deles, gurizada! Tô com vocês sempre, pro que der e vier, longe ou perto. Obrigado por tudo. Desculpem, vocês também, todas as minhas incapacidades e as diversas aulas lamentáveis que vocês tiveram que participar.

Deixo um beijo e um agradecimento especial ao Gui Rodrigues e ao Juliano: irmãos, obrigado pela fidelidade. Não vem ao caso detalhar o que sinto, mas muito obrigado pela fidelidade. Vocês sabem do que estou falando. Nunca vou me esquecer disso.

Obrigado ao PIBID Ciências Sociais UFRGS, pela oportunidade de supervisão nesses dois anos, pelo aprendizado, pelas oficinas, por tudo. Obrigado a todos os Pibidianos que comigo dividiram o seu tempo. Vocês me fizeram uma pessoa melhor. Vocês me fizeram um professor melhor. Meu carinho por vocês não cabe em palavras.

4 QUERIDOS E INESQUECÍVEIS ESTUDANTES

Pois é. Não existe escola sem estudantes. E mesmo assim muita gente esquece disso! Porra, gurizada... não deixem que a galera esqueça disso! Vocês, queridos e inesquecíveis estudantes, todos vocês que compartilharam seu tempo e sua vida comigo nesses dois anos, são e sempre serão o coração da escola. Enquanto vocês estiverem na escola, vocês continuarão sendo os protagonistas.

Nesses dois anos, vocês me ensinaram muito. Vocês trouxeram experiências, vivências, alegrias, tristezas e muitas emoções para a sala de aula. E era isso mesmo que eu queria, isso que eu sempre desejo que esteja presente na sala de aula. Saio do Ernesto apaixonado por vocês, levando um pouco de vocês comigo para qualquer lugar.

Vocês, queridos e queridas, renovaram a minha fé na educação. Renovaram a minha fé na espécie humana, cheia de inacabamentos e inconsistências, mas cheia de bonitezas e sentimentos. Vocês, inclusive aqueles que pouco gostaram de mim, que pouco se envolveram na sociologia que propus, deixaram um tantinho das vossas personalidades incrustrado nesse aventureiro professor.

Desejo e torço para que vocês sigam a melhor caminhada possível. Desejo e torço para que os seus sonhos se realizem, para que vocês tenham forças para lutar por eles. Torço para que vocês não abaixem a cabeça, enfrentem as desigualdades, lutem pelas oportunidades que vocês merecem, sim! Busquem as oportunidades e, se conseguirem, não esqueçam aqueles que não as têm. Sejam agentes ativos das suas próprias oportunidades e dos seus próprios sonhos, mas sejam agentes ativos da construção de oportunidades e realização de sonhos para todos.

Tentei deixar com vocês a melhor parte de mim. Sei que isso não é muito, mas espero que tenha sido, pelo menos, intenso e alegre. Hoje, eu só sou quem eu sou também por causa de vocês. Obrigado por brilharem tanto na minha estrada. Muito obrigado. Tâmo junto!

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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Um bocadinho de tristeza

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A vida é uma loucura. Diz o poeta: “Fazer o quê, se é assim, vida louca, cabulosa!”.

Ontem e hoje. Hoje e amanhã. Idas e vindas. Encontros e despedidas. Convicções e arrependimentos. Sucessos e fracassos. Erros e acertos. Pessoas do agora. Pessoas do sempre. Isso pra falar só dos detalhes.

Tem também uma pá de outras coisas muito mais loucas, muito mais complexas. A gente planeja, sonha, bota o coração e, olha aí, acontece. Por completo. Pela metade. Com mais sacrifícios ali na frente. Ou nunca acontece mesmo. A vida pode ser dura. É. Bate na gente. Nos outros. Bate na trave. Bate na trave e entra. Vai vendo...

No fim, há vários fins. O fim é um baita desafio. Se o caminho teve alegria, se foi intenso, inevitavelmente caberá um bocado de saudade e tristeza. Difícil, mas que fique uma saudosa lembrança e só um bocadinho de tristeza.

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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Natureza e cultura: os “genes da violência”


Por Fernando de Gonçalves
Sociólogo pela UFRGS
Do blog
Sociedade dos Indivíduos

Nos últimos dias, a divulgação de uma pesquisa sobre a descoberta de genes que poderiam estar associados com a violência despertou uma série de temores, que iam desde a eugenia à volta das teorias lombrosianas, passando pelas acusações de darwinismo social. Minha ideia nesta breve postagem é mostrar que esses temores não deveriam se sustentar.

Não devemos pensar no comportamento violento como algo recente, fruto do capitalismo, do Estado ou da modernidade, muito menos como um padrão patológico. A evolução biológica selecionou não aqueles organismos mais violentos e fortes, como uma leitura superficial da teoria da evolução poderia levar a crer, mas sim aqueles que conseguiam equilibrar padrões de violência e de não violência. Como Dawkins nos mostra em O Gene Egoísta, animais fazem uso da violência para uma série de coisas vitais que proporcionam sua perpetuação, desde conseguir alimento, se defender para não virar alimento e disputar parceiros sexuais. Ocorre, porém, que ao contrário de pedras e da maioria das plantas, o animal é um ser que vai revidar à violência quando atacado. Assim, um organismo “programado” para atacar sob quaisquer circunstância, acabaria sendo eliminado pela seleção natural, visto que se colocaria em subsequentes situações de confronto. Dawkins cita uma série de experimentos com modelos computacionais – com o auxílio da teoria dos jogos – que descreviam diferentes organismos com diferentes estratégias em reação à violência, desde organismos pacifistas, que nunca atacavam  e sempre buscavam a cooperação (mesmo depois de atacados) a organismos beligerantes, que atacavam sob qualquer circunstância. Em praticamente todos os modelos, os organismos “vencedores” eram aqueles com estratégias do tipo “olho por olho, dente por dente”: nunca ataque primeiro, seja forte o suficiente para resistir a um primeiro ataque, ataque quem lhe atacou antes e coopere com quem cooperou com você na rodada anterior. No mundo real, isso pode significar que tanto organismos ingênuos (que sempre escolheriam a cooperação) e organismos beligerantes (que sempre atacariam) não conseguiram passar seus genes adiante e, portanto, foram eliminados pelo processo de seleção natural. Esse fluxo pode dar pistas sobre como o padrão de violência em animais pode ter evoluído até nossos ancestrais primatas e desvendar as “causas profundas” das propensões à violência que fariam parte do genoma de todos os seres humanos.


Continuar leitura…

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A disputa pela verdade nacional

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Passadas as eleições, a política ficou. Cheia de ódio, mas ficou. Há, pelo menos, quatro tipos-ideais de discursos que tentam dizer qual é a verdade sobre a sociedade brasileira. Primeiro, os mais radicais.

1) O Brasil é uma ditadura comunista em curso, metendo a mão na liberdade das pessoas. Vai virar Cuba e não podemos deixar isso acontecer. Os militares precisam agir. As políticas sociais do governo demonstram isso e a corrupção também. Fomentam a alegria dos vagabundos, das putas e dos gays. A democracia é uma farsa. Lobão é o líder redentor e a revista Veja o bastião da liberdade de imprensa. Ordem já!

2) As políticas sociais do governo são assistencialistas e não mudam a estrutura política e econômica do país. Há um crescimento do consumo das classes populares, mas não uma diminuição das desigualdades, pois os ricos estão cada vez mais ricos. O Estado brasileiro é autoritário e o governo reeleito não tocou na fonte desse autoritarismo em 12 anos. Pelo contrário, aprofundou esse cenário, como junho de 2013 demonstrou. Não há avanços significativos. A democracia é uma farsa. É preciso derrubar ou reconstruir o sistema.

Ambos os discursos batem no PT, de maneiras muito distintas, é óbvio. O PT é o epicentro da disputa pela verdade nacional. Vamos aos moderados.

3) O PT está desorganizando a economia e incentivando mecanismos institucionais autoritários. Não consegue pensar na combinação entre livre mercado e políticas sociais, porque está mergulhado em ideologias ultrapassadas. Está aparelhando o Estado e minando a democracia. A alternância do poder é necessária, mas não se deve pensar em golpe. A via da política institucional deve ser mantida e fortalecida, o que não impede denúncias e críticas ao PT. O PT é o alvo, pois os radicais pró-militares são minorias ridicularizadas pela nação. Prega-se um Estado mínimo e eficiente, com políticas sociais.

4) O Estado brasileiro vem sendo saqueado há séculos. O PT não modificou o modus operandi da política brasileira, apenas criou e fortaleceu políticas sociais importantes, que fizeram as classes populares darem um salto no que tange às oportunidades de ascensão social. É preciso pressionar o PT para que essas conquistas sejam aprofundadas, para que a democracia seja aprofundada. É preciso rejeitar os vícios autoritários do PT e estimular uma maior participação popular, consolidando as vias institucionais. É preciso combater os golpistas e sustentar os procedimentos democráticos como ponto de partida para um aprofundamento do combate às desigualdades e em prol dos direitos humanos. Essas pressões têm mais chances de ocorrer com o PT no governo do que com os demais partidos da ordem.

A coisa é mais complexa, eu sei. Mas esses argumentos estão por aí. Entrelaçados ou separados. E então, como pensar a realidade brasileira? Há mais perigo com o PT instrumentalizando o Estado com seu viés dito estalinista? Há mais perigo no saudosismo das ditaduras militares, cada vez mais presente? Não há perigo, há de se disputar os rumos numa democracia que já está consolidada?

As hipóteses de resposta, de minha parte, ficam para outra ocasião.

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O fantasma de Zenão: Brasil ou Eléia?


Gabriel Torelly
Professor e Historiador

Sobre o voto nulo ou a abstenção, meu ponto seria o seguinte: não se trata de compreender a abstenção como terceirização de responsabilidades, mas como fonte de um enigma irredutível ao conflito entre dois termos (A x B). A abstenção seria um terceiro termo compreendido em si mesmo, no próprio interior da sua diferença. O Terceiro (a abstenção) seria senhor (a) da sua própria efetuação. Partindo dessa leitura, prefiro pensar o Terceiro como o espaço ideal ocupado por um numeral obscuro, ou como imagem plural que perde toda potência quando reduzida aos efeitos provocados no interior do jogo entre o Primeiro e o Segundo. Duas reduções comuns do Terceiro: esterilidade indiferente (Terceiro = Nada); figura desqualificada ou, no caso específico das eleições, “despolitizada”, que provoca efeitos diversos na relação entre o Primeiro e o Segundo (Terceiro = coisa qualificada negativamente).

Por outro lado, encarado enquanto numeral obscuro, o Terceiro pode ser entendido como espaço ideal de uma alteridade enigmática. Por que reduzir esse aspecto incerto e múltiplo da alteridade a uma interpretação que lhe retira/recusa toda dimensão qualitativa? No meu modo de ver, parece que perdemos possibilidades aí, limitando, ao invés de alargar, a perspectiva de análise. Enfim, a interpretação é livre; incontornáveis talvez sejam os golpes de linguagem totalizadores sobre os quais ela se constrói; o significado está em constante disputa. Mas também seria justo dizer que cada um é livre pra construir a moralidade do seu voto/conduta e preencher-lhes o significado de maneiras diferentes e nuançadas. São as nuances multiformes da abstenção o que se perde quando se faz delas um pálido reflexo da relação entre A e B.

O vocábulo abstenção pode ser sinônimo da ousadia sintática que procura deslizar para fora ou derivar até um espaço que se descole do paradigma agonizante (aparadigmático/neoparadigmático). Nesse caso, extrair o sentido do Terceiro do conflito ou da relação entre A e B pode ser um engodo intelectual e, mais profundamente, uma versão política da famosa batida de carteira epistemológica do outro. Na melhor das hipóteses, dizer que o voto nulo influi negativamente no cálculo das probabilidades duais é não dizer nada a seu respeito; na pior delas, significa ignorar um coeficiente diferencial, silenciando e anulando toda potência de significação situada fora de uma gramática política atualizada. Em todos os casos, policiar o sentido da abstenção é jogar o jogo do Estado, fazendo por ele o trabalho sujo de enquadramento e categorização – violento, injusto, indelicado. Mais inquietante do que se ver obrigado a escolher entre A e B é atualizar constantemente o espaço retórico no qual se move esse combate, simplesmente fácil demais para ser interessante.

A x B é a armadilha da soberania política contra a independência do bando. A x B funciona como uma moral que a um só tempo interioriza e infantiliza a expressão do Terceiro. Nesse jogo, o Terceiro é desde sempre o ingênuo, aquele que não sabe o que se passa ou não reconhece as consequências evidentes daquilo que faz. Exteriorizado em relação à razão eleitoral, internalizado como um pobre diabo carente de orientação e de consciência. O sanatório das abstenções é povoado por um conjunto de débeis com fraqueza de juízo. É preciso que alguém lhes corrija e lhes traga novamente para dentro da zona de comunicação ideosférica. O sentido precisa estar amarrado entre A e B, do contrário, o que vai ser? O que vai servir? Como antever o horizonte do desejo da persona votante?

Drogado pelos efeitos alucinógenos da democracia representativa, ele não pode conceber nenhum tipo de presença que esteja fora do seu estado. O crítico da abstenção pode parecer por vezes um estranho democrata às avessas. Forçando o jogo do sentido para o interior do campo que lhe favorece, para dentro da gramática política na qual ele encontra-se mergulhado, acaba por enfiar as pernas no autoritarismo. Pouco importa se ele foi drogado por Collor, Aécio, Dilma ou Itamar (ok, talvez importe, mas isso não é o essencial). O fato é que ele está drogado e os efeitos se manifestam no sistema de linguagem com o qual opera. O despotismo do Significante pode ser uma enfermidade mais severa do que uma opção eventual entre A e B. Não se trata de argumentar que a abstenção seja de alguma maneira revolucionária ou conservadora, mas de reconhecer-lhe o direito à sua própria discursividade.

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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Numa sala de aula qualquer

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia do professor, vem Mia Couto à cabeça: “No mundo que combato morro. No mundo por que luto nasço”.

Foi a Raquel Braun, linda professora aniversariante, quem deu a barbada há alguns dias, ao término de mais uma jornada de trabalho.

Ser professor é morrer todos os dias num mundo a ser combatido, individualista, desigual e opressivo. Árduo e pesado. Opressivo.

Também é nascer, um pouquinho que seja, em alguma fala ou olhar repentino, numa sala de aula qualquer. Na busca por uma educação de qualidade, pelos direitos humanos e por justiça social.

Sigamos!

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Em qual mentira vou acreditar?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um doido varrido passa gritando na rua:

- Como pode tanta gente apoiar a fala escrota do pastor homofóbico?
- Como pode alguém achar que o racismo tem que ser equilibrado para os dois lados?
- O sequestrador do hotel de Brasília era do PP, mas não era o PT que era terrorista?
- Cadê o programa de governo do PT?
- Quem o PSDB acha que engana com tantas retóricas que incluem “trabalhadores” nas falas dos seus candidatos?
- Precisa de um tsunami (sacanagem!) em São Paulo para o PSDB cair fora?
- Quando vai acabar a “série lamentos” de Marina Silva, esse mimimi é eterno?
- Auxílio-moradia pra juiz endinheirado pode, mas Bolsa Família pra quem sempre esteve na merda não?
- Auxílio-moradia pra juiz endinheirado pode, mas pagar o piso salarial dos professores não?
- Quem vai lembrar em quem votou daqui a três meses?
- Tem que saber curtir, tem que saber lidar... em qual mentira vou acreditar?

Atordoado, o doidão dá um intervalo e sentencia:

- Vamos fugir? Quem empresta um trocado pra fiança?

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Vamos falar sério sobre educação?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Caros candidatos à presidência da República, vamos falar sério sobre a educação? Deixar a superfície e tentar buscar algum aprofundamento?

Que tal começar pelo Projeto de Lei 6.840/2013, que tramita na Câmara dos Deputados e ambiciona modificar o ensino médio? O referido PL indica, entre outros aspectos, os seis que estão listados abaixo, considerados por este plebeu que vos escreve como o coração da proposta:

1) Implantação do tempo integral no ensino médio, espalhado em, no mínimo, sete horas diárias.

2) Segmentação do currículo em quatro áreas de conhecimento, quais sejam: Matemática, Linguagens, Ciências da Natureza e Ciências Humanas.

3) Adoção de metodologias que evidenciem a contextualização, a interdisciplinaridade e a transversalidade.

4) Inclusão de alguns temas transversais ao currículo, como empreendedorismo, educação para o trânsito, educação ambiental e etc.

5) Possibilidade de escolha no último ano do ensino médio de uma formação específica, cuja ênfase pode ser escolhida entre qualquer uma das quatro áreas do currículo e uma formação profissionalizante – com a possibilidade de retorno, depois de terminado o curso, para fazer uma outra habilitação.

6) Reorganização dos cursos de licenciatura a fim de que os mesmos sejam formulados de acordo com as quatro áreas do currículo.

O teor do PL gera polêmica. Uma vasta gama de entidades de diferentes áreas científicas e educacionais emitiram notas contrárias ao projeto. Criou-se, inclusive, o Movimento Nacional em Defesa do Ensino Médio, dotado do dever de organizar uma oposição veemente ao que se considera um grande retrocesso.

Alguns pontos são, realmente, muito relevantes para o debate. Deixam uma série de inquietações. Por exemplo, seriam os estudantes decididos o suficiente para optar por uma formação específica no terceiro ano do ensino médio? Não poderia haver um esvaziamento de determinadas áreas e uma lacuna ainda maior nesses âmbitos, numa espécie de direcionamento dos discentes das classes populares ao médio profissionalizante, de modo a facilitar o acesso a trabalhos nem sempre de qualidade? Deslocar as licenciaturas específicas para grandes guarda-chuvas como “Licenciatura em Linguagens” ou “Licenciatura em Ciências Humanas” não deixa de lado uma série de diferenças epistemológicas sérias e, portanto, não prejudicaria a formação dos professores (já precarizada)? Um projeto tão sucinto e com pouca densidade explicativa não dá margem para um ainda maior sucateamento da formação de professores e da educação básica?

Há de se falar sobre as ideias da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) e do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que andam dizendo que o caminho para o ensino superior é adotar contratações de professores “mais livremente”. Trata-se do velho eufemismo para desregulamentação do trabalho, no velho ímpeto por um gerencialismo tacanho abocanhador da academia. Isso significa eliminar os concursos públicos, sob a alegação de ineficiência e corporativismo nesses processos. Entretanto, tudo indica, isso é bastante claro, um corporativismo ainda maior em processos de contratação ainda mais arbitrários regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e não por um regime jurídico próprio. Evidencia-se um viés de terceirização da escolha dos docentes na educação superior. Tira-se a autonomia das Instituições de Ensino Superior Federais (IFES) para selecionar os seus quadros. Que tal solicitar um sepultamento para essa abominável ideia, presidenciáveis? Ou, pelo menos, clarear as suas posições sobre isso na véspera das eleições?

Caros candidatos, para falar sério mesmo, precisamos falar sobre as condições das escolas, do exercício da docência e das condições de vida dos estudantes. Vamos falar sobre os dois primeiros fatores? É verdade que o montante de investimentos na educação tem crescido, mas um salário médio de 1.500 reais para os professores divididos em mais de uma escola, trabalhando 40 horas, chega a ser um desrespeito a esses profissionais, vocês não acham? Que tal uma negociação séria com os estados que não pagam esse famigerado piso salarial, auxiliando-os para que o direito seja cumprido? Que tal, numa utopia ousada, usar uma carga forte de recursos para pagar, no mínimo, 2.500 reais para 40 horas trabalhadas pelos docentes, em apenas uma escola, cumprindo a lei de um terço de trabalho fora da sala de aula? Que tal fomentarmos escolas mais abertas, menos panópticas, que atraiam mais os estudantes inclusive pela sua arquitetura?

Por fim, vamos falar sério mesmo? A lógica da escola e a mediação pedagógica são elementos fundamentais a serem discutidos. A mediação pedagógica não terá sucesso somente com a inclusão de uma frase que remeta a contextualização e outras palavras bonitas. A lógica da educação bancária (reparem, não falei banqueira!), como dizia Paulo Freire, ainda existe e está aí com vigor. A escola segue sendo pensada como uma instituição que transmite informações, alheia ao século XXI. Pode isso?

Que tal uma escola orientada sob uma lógica de estímulo ao pensamento e à prática, às artes, às ciências, aos esportes, mas conectada com o mundo real e repleta de problematizações? Que tal uma escola que associe a leitura do mundo com a leitura da palavra? Que tal uma escola que fomente uma espécie de ecologia de saberes, como diria Boaventura de Sousa Santos, na qual os conhecimentos sejam horizontalizados e as aptidões dos educandos possam ser potencializadas, e não tolhidas como vemos acontecer hoje? Que sonho...

Caros candidatos à presidência da República, este simples plebeu, Professor Concursado de Sociologia na rede pública, gostaria muito de vê-los debater com seriedade algumas alternativas para a educação do nosso maravilhoso e desigual país. Algumas querelas foram citadas acima. Vamos falar sério sobre a educação?

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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Uma banana para as Ciências Humanas


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A recente fala da presidente Dilma, sugerindo que as disciplinas de Sociologia e Filosofia estão sobrando no ensino médio, causa um enorme espanto e uma boa dose de indignação. Faz coro ao que tem de mais retrógrado na sociedade brasileira.

Sobram, isso sim, as perguntas. Se a arguição foi sobre índices de analfabetismo, por que acusar as duas matérias? Não há incongruência evidente, sendo que a grande conquista da presença obrigatória dos conteúdos no currículo escolar ocorreu no governo Lula?

Pois é. Observemos no chão da escola quais são as demandas. Claro, numa amostra não probabilística e carregada de emoções, nada neutra. No local de trabalho. A fala dos estudantes deixa pensativo quanto à lógica da escola e à mediação pedagógica. A escola é uma jaula para as ideias, disse uma aluna, pouco tempo atrás. O contexto é excessivamente opressor e transmissor de informações, afirmam. Não há leitura de mundo, somente de palavras. Um mato sem cachorro.

A Sociologia, essa Geni rejeitada pelos tecnocratas, em algumas falas dos educandos aparece como uma coisa estranha a esse mundo arbitrário da escolarização. Uma coisa cheia de debates, que pensa o real, desafia o cotidiano, mexe com as práticas do dia a dia. Mostra-se uma espécie de janela localizada entre grades tradicionais. Por óbvio, se feita de qualquer jeito, pode virar uma janela fechada, que logo deixa de ser o que era para tornar-se mais uma tranca.

Tirar a Sociologia e a Filosofia da escola mais demonstra a face tacanha do desenvolvimentismo do governo do que uma incursão rumo a um ensino médio de qualidade. O fato de que a política econômica do governo, mesmo servindo ao capital, mostra-se menos deteriorante se comparada aos projetos da oposição, não significa que as críticas ao modelo de desenvolvimento focado no consumo percam o seu espaço. O telhado é frágil nesse quesito, convenhamos.

Dilma apontou, atirou e errou feio com a desconexa sentença. Acabou pregando uma ode aos engenheiros, que, em tese, não precisariam pensar fora da técnica (não vivem em sociedade os arautos da pureza?). Bons técnicos pensam sobre o papel que a técnica ocupa no mundo. Existem vários assim.

Pareceu restar, na fala de Dilma, uma banana para as Ciências Humanas. Cabe resistir.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Por um Banco Central republicano


Guilherme Lacerda, Diretor do BNDES
Antonio José Alves Jr., Professor da UFRRJ
Reproduzido do site Brasil Debate

As ideias que se seguem são motivadas pela perplexidade frente ao ataque agressivo, na forma e no conteúdo, desferido contra o Banco Central do Brasil. Por sua história e pela seriedade de sua missão, essa instituição do Estado brasileiro jamais poderia ter sua administração adjetivada levianamente como temerária (uma conduta tipificada no código penal brasileiro).

Tais ataques não têm legitimidade política para sancionar a terceirização da gestão econômica do Brasil e muito menos encontram amparo técnico que as qualifique; são apenas expressão do apego a concepções anacrônicas, elaboradas quando o Brasil ainda engatinhava em termos de estabilidade monetária.

Desde a virada do século, economistas e dirigentes de bancos centrais em todo o mundo tem debatido o poder conferido às autoridades monetárias e sua missão. Esse debate se acentuou com o complexo quadro econômico mundial pós-crise. E são muitas as manifestações nesse sentido.

Em março deste ano, o Presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, admitiu que a busca exclusiva da estabilidade de preços, típica de um Banco Central Independente, “…tornou-se uma distração perigosa para a economia”.

Na mesma linha, Christine Lagarde, diretora-chefe do FMI, afirmou ter chegado a hora de se ajustar o controle dos governos sobre os Bancos Centrais; eles não podem ficar presos só ao objetivo da estabilidade de preços. E ela acrescenta que, como a crise ensinou, “a estabilidade de preços não necessariamente leva à estabilidade macroeconômica”. Ademais, as evidências revelam: os países que não têm meta de inflação ou Banco Central independente se saíram tão bem ou foram melhores que aqueles adeptos desse arcabouço na condução da política econômica.

Continuar leitura…

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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Três críticas aos governos do PT

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Sou daqueles que dificilmente veem seu candidato à presidência vencer o pleito maior da República. Vi uma vez, nesses quase 30 anos. Baita decepção. O tempo passou. Tenho criticado a ilusória nova política que se abre diariamente na candidatura de Marina Silva. Porém, para me manter fiel comigo mesmo, não posso deixar de criticar os governos do PT, visto que venho fazendo isso há anos e ainda vejo motivos para fazê-lo. Dirijo minhas divergências à estratégia de alianças políticas, às relações indígenas-campo-agronegócio e aos apoios declarados ao modelo de segurança das UPP’s no Rio de Janeiro.

Antes de tudo, se é verdade que o presidencialismo de coalização fomenta alianças pragmáticas, por vezes pouco programáticas, uma retórica de oposição levantada por Marina Silva, ainda assim eu não consigo (não adianta) atribuir um sentido valoroso para as conexões estabelecidas pelo PT no governo [1]. Pode ser falha minha, mas Lula e Maluf não combinam na minha gramática imaginativa das coisas políticas, intrincada com leituras e análises da realidade. O PP não faz sentido em conexão com o PT. Collor e tantos outros, tampouco. Pelo menos, não deveriam ter nada a ver com o PT. Michel Temer e o PMDB...

Isso me leva a uma figura como Kátia Abreu. Leva a sua defesa intransigente do agronegócio, fração ascendente no bloco no poder levemente redesenhado a partir da metade do segundo governo Lula, quase sempre associada aos mais nefastos valores sociais (racismo, homofobia, etnocentrismo, etc.). Leva ao fato de que ela e os barões dessa fração do poder econômico brasileiro travam muitos avanços na pertinente orientação heterodoxa residente desde a crise de 2008 na economia nacional. Pertinente e paradoxal. A exportação de commodities (soja, carne, grãos) como carro-chefe do superávit primário, sejam os números maquiados ou não, parece-me um desígnio do forte e devastador impacto numa série de vidas brasileiras que se relacionam com o mundo real fora dos grandes centros urbanos.

Um modelo de país desenvolvido precisa atentar para os graves problemas originados de empreendimentos como a hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo. Um atropelo quanto aos mecanismos de remediação das mazelas locais, sociais e ambientais, como o que está acontecendo, manifesta-se muito prejudicial ao Brasil [2]. O Brasil é um país heterogêneo, repleto de “mundos” diferentes, cujas cosmologias e interpretações da realidade agregam uma pluralidade impagável às gentes destas terras. Quando leio as tristes denúncias de antropólogos como Eduardo Viveiros de Castro [3], reconhecidos internacionalmente, não devo evitar o pronunciamento destas palavras críticas. Se o “mundo” dos povos indígenas já não existe mais, foi dizimado pelo colonialismo, a tarefa ética contemporânea é garantir o cumprimento da Constituição de 1988 e demarcar as terras indígenas sem relativizar a lei.

Por outro lado, tão entristecedor quanto o primeiro, se a política econômica voltada para a fração do agronegócio no bloco no poder ganha a relevância que ganhou, é uma obviedade que os indicadores da concentração da terra serão terrivelmente elevados, à medida que os relativos à reforma agrária flertarão com o ostracismo. E é isso mesmo que os dados revelam [5]. O compartilhamento das terras improdutivas e uma política potente e volumosa de recursos, ensino técnico e superior para a produção da agricultura familiar e/ou agroecológica, nesse cenário vira uma piada de mau gosto. Sei de iniciativas dos governos do PT em prol da agricultura familiar aqui e ali. Contudo, refiro-me a concretude de um projeto ambicioso a nível federal, que não parece compatível com o modelo econômico de exportação de commodities. Os dados abaixo são do Dataluta, da Unesp e do INCRA.

Número de famílias assentadas (1985-2011)

Evolução da concentração de terra no Brasil (2003-2010)

O último aspecto refere-se à violência nos centros urbanos. Nas grandes cidades, sobretudo no Rio de Janeiro, os modelos de segurança pública criminalizam as populações de baixa renda e os moradores de comunidades pobres. Negros e pobres são assassinados a varrer neste país, seja de que lado a bala venha [4]. E as UPP’s reproduzem esse genocídio em alguma escala, numa forte escala, diga-se de passagem [6]. Isso remete ao necessário enfrentamento ao conservadorismo das instituições de segurança nacional (polícias e exército). A Comissão da Verdade é um magnífico avanço, mas precisa prosperar [7]. A PEC 51, que problematiza o caráter das polícias no Brasil, outro avanço que precisa de espaço na agenda pública. Enquanto nada disso prospera, quando Dilma Rousseff aparece entusiasmada com o candidato da situação no Rio de Janeiro [8], torna-se imperativa uma crítica ao modelo repressivo segregador e atrasado vigente por aqui.

As considerações expostas acima me deixam um pouco mais coerente com as minhas próprias convicções acerca das forças políticas que disputam supremacia na democracia representativa brasileira. Aqueles que possam ter me visto como um petista, eu espero que agora não vejam mais. Tenho outras incontáveis críticas aos governos do PT no âmbito federal – e, nesse momento, estadual: e o piso salarial governador? Entretanto, volto a ressaltar, sublinhar e deixar bem claro: a candidatura de Marina Silva me parece ainda pior.

Referências

[1] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1476940-para-fortalecer-dilma-pt-fecha-aliancas-polemicas-e-faz-intervencoes.shtml

[2] http://www.osimpactosdebelomonte.com.br/sobre-o-projeto/

[3] http://www.ihu.unisinos.br/noticias/533867-indigenas-vivem-em-faixa-de-gaza-brasileira-diz-eduardo-viveiros-de-castro-

[4] http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2013/10/18/indice-de-assassinato-de-negros-o-problema-e-social-e-nao-racial/

[5] http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=2866:catid=28&Itemid=23 / http://www.brasildefato.com.br/node/11534

[6] http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/03/upp-ja-nasceu-como-um-modelo-fracassado/

[7] http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-12-26/comissao-da-verdade-tera-ate-dezembro-de-2014-para-concluir-trabalhos

[8] http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-09-12/dilma-lamenta-morte-de-comandante-de-upp-e-elogia-alinhamento-de-governos.html

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Só que não, tchê!

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Dois rapazes espreitam o rio. O primeiro desanda a trovar:

- Mas bah! Nós somos um povo muito politizado. Eles que sigam as nossas façanhas, de modelo a toda Terra. Nós não estamos próximos de eleger os paus mandados da maior rede de televisão destas bandas, como dominados. Nós não ateamos fogo em algum lugar, porque vai ter casório entre um baita grupo de gente, até com duas prendas que se gostam. Nós não chamamos as mulheres de china véia ou nenhum apelido pejorativo. Um dos nossos maiores clubes de futebol não tem cânticos que chamam pessoas de macacos. O outro dos nossos times bagualíssimos não tem cânticos que ofendem os outros por gostarem de quem quer que seja. Aqui nós somos todos politizados. Nem de perto passa o preconceito e a opressão. Aqui jamais defendemos uma guerra que perdemos, contando ao mundo que não nos entregamos na peleia, que eles que abandonaram os pagos. Aqui não!

O outro, ainda a espreita do rio, balançou a cabeça. Num gesto espontâneo, decepcionado. Então, do nada, uma sentença trovejou no silêncio das águas:

- Só que não, tchê! Não generaliza!

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Oito anos de PSDB, 12 de PT: considerações sobre indicadores econômicos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

INTRODUÇÃO

Um homem observa, do lado de fora da loja, os funcionários prepararem o lanche do cliente. Seu semblante é de fome, suas vestes são, em verdade, trapos sujos e rasgados. Atônito, ele ali permanece, sem que a sua fome vá embora. Ah! É uma lei econômica: não existe almoço grátis, diz o racionalista.

Entre outros fatores, as questões econômicas estão sempre em pauta na vida coletiva. O modo como são conduzidas afeta as possibilidades de milhões de brasileiros. No capitalismo contemporâneo, os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento gerem as relações entre o capital e o trabalho, relações que configuram conflito e algum grau de complementaridade. Ainda que o contexto atual ofereça poucas alternativas no sentido de minar a hegemonia do capital financeiro no globo, vale pensar e aprofundar alguns conhecimentos sobre os rumos adotados pelos diferentes governos na administração da economia capitalista.

Neste ensaio, traça-se um quadro comparativo entre os dois governos do PSDB e os três governos do PT no comando da República, através de indicadores relativos ao setor bancário-financeiro, à taxa de juros medida pela Selic, à dívida pública, ao desemprego, aos gastos sociais e à desigualdade de renda. São indicadores que variaram com relevância durante os diferentes governos, por isso a sua escolha. A inflação, por exemplo, está estabilizada desde parte do primeiro governo do PSDB, por isso ficou de fora, dada a sua pouca variação. Ela encontra-se sempre dentro do regime de metas, estabelecido em 1999. Acerca do crescimento do PIB nacional, cabe observar o gráfico abaixo, exposto por Mendes (2013).

PIB per capita brasileiro (1985-2012)

As interpretações obtidas a partir destes indicadores são inundadas por categorias que respondem ao conjunto teórico das ciências sociais, sobretudo da sociologia. Portanto, a ideia não é fazer previsões ao estilo daquelas proferidas por especialistas em teoria econômica strictu senso, aqueles que consideram proferir prescrições tecnicamente neutras acerca da realidade. Pelo contrário, na busca pela objetividade, não da neutralidade, as conclusões desse trabalho recam sob a égide de uma sociologia atenta para as nuances do mundo globalizado contemporâneo, que remonta a alguns vestígios de uma economia política. O enredo empírico do capitalismo contemporâneo acontece num palco de intensas desigualdades multidimensionais (Therborn, 2006), que configuram o contexto de globalização aprofundada e impelem o investigador a problematizar os aspectos econômicos.

1 ORTODOXOS E HETERODOXOS

No âmbito das produções acadêmicas e da atuação dos profissionais que proclamam os saberes da teoria econômica, há uma espécie de divisão de ideias cujos pressupostos divergem e promovem a disseminação de correntes de pensamento. A divisão se dá entre ortodoxos e heterodoxos.

Os ortodoxos são hegemônicos no campo científico da economia. Alcunham-se mainstream economics ou liberais – de distintos matizes. A teoria econômica ortodoxa tem suas variações, mas, em geral, atribui um caráter técnico ao seu ofício, capaz de engendrar prescrições interessadas apenas na eficiência real da economia. Ora, essa pretensão, por si só, insere uma discussão vasta acerca da sua própria possibilidade de existência. No entanto, os ortodoxos baseiam-se no individualismo metodológico e na separação artificial entre economia e política (Teixeira & Pinto, 2012). Suas principais influências advêm das escolas clássicas e neoclássicas da economia, e a condução da política econômica tende a privilegiar juros altos e contenção de gastos correntes. A inflação deve ser controlada por meio de políticas fiscais e monetárias conservadoras, sendo que o governo deve reduzir os gastos para controlar a demanda global. Costuma incentivar mercados financeiros livres e Bancos Centrais independentes como mecanismos mais eficientes a fim de concretizar o bem-estar da população. A prerrogativa é a do livre funcionamento do mercado e da flexibilidade de preços e de fatores de produção enquanto geradores de eficiência máxima. O Estado precisa deixar o ambiente competitivo para o mercado e somente cuidar de setores estratégicos (Coelho, 2008).

No grupo dos heterodoxos, também cabe muita coisa. Em suma, defende-se que a economia não tende ao equilíbrio de modo espontâneo. Alguns autores chegam a negar certos pilares teóricos dos neoclássicos, outros ainda tentam formular proposições com a incidência de determinadas categorias ortodoxas. As instituições e o Estado são vistos como agentes reguladores que devem impulsionar o crescimento econômico. Se a preocupação do Estado focar o crescimento da economia, a inflação deverá ser controlada. Medidas de controle da inflação podem derivar em regulação de preços, salários, contratos e câmbio. O governo pode estimular o crescimento por intermédio do aumento dos gastos públicos. Nesse ramo, os desenvolvimentistas sustentam que o Estado deve providenciar os investimentos públicos em infraestrutura. O governo deve, ainda, manejar as taxas de câmbio no intuito de corrigir as imperfeições dos mercados, que favorecem sobrevalorizações em diversas ocasiões. A austeridade, portanto, nos padrões heterodoxos fica em segundo plano, sendo que pode ser tratada mais como metas de poupança pública do que como superávit primário (Oreiro, 2014). Os keynesianos estão neste grupo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Não é novo o programa econômico da candidatura de Marina Silva

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na semana passada, acenei com a afirmativa de que a candidatura de Marina Silva não tem nada de “nova política”. Disse as razões daquele pensamento. São várias. Agora, quero focar nas questões econômicas, com um viés sociológico. Pensar algumas relações e refletir os motivos que fortalecem a preocupação com esse tema num possível governo da candidata do PSB/Rede.

Não defendo a economia como o determinante da vida social, ainda que, confesso, ter emprego e comida na mesa me pareça o alicerce de algum bem-estar. Corroboro a tese de que os conflitos entre capital e trabalho, no capitalismo globalizado, permanecem decisivos e influenciam diretamente na vida das pessoas. No entanto, uma ruptura com o sistema acarretaria, tudo indica, uma elevação exponencial da violência que é difícil justificar e propor como programa político viável. No dia a dia, o real é a condução da economia capitalista, numa relação constante entre sociedade, Estado e mercado. Daí vem os objetos com os quais interagimos ou consumimos, os serviços e direitos que utilizamos. Gostemos ou não.

Desde a crise do final da década passada, o receituário dos economistas do establishment – em geral liberais de diferentes gradações – sustenta a austeridade fiscal a todo custo. Na Europa, o discurso implica em facilitações para os mercados, que devem ser incentivados a todo custo. Esse “a todo custo”, significa, na prática, a implosão maciça da estrutura de direitos sociais construída durante o século vinte naquele continente. Taxas gigantescas de desemprego, demissões em muitos setores do Estado, maior liberalização das transações financeiras e outros “detalhes” colocam o cidadão médio, trabalhador, numa situação de instabilidade e subserviência ao conservar o pouco que tem e, ao mesmo tempo, os protestos estão frequentes e incisivos (1).

Aqui no Brasil, o governo do PT manteve-se firme na defesa do emprego e do protagonismo do Estado (2). Um Estado com um sem-número de problemas, que vão dos desrespeitos flagrantes aos direitos humanos, passam pela degradação consolidada dos recursos naturais e chegam a múltiplos outros pontos. Um Estado conservador e excludente, reprodutor das desigualdades multidimensionais. Ocorre que esse Estado tem raízes longas e entrecruzadas, fortalecidas num terreno originado da exploração colonial e do escravismo. Não começou ontem. Hoje, com esse universo comunicativo infindável, essas raízes parecem de ponta a cabeça, expostas numa inversão que traz à tona opressões e lamúrias pesadas e que tem o mérito de levar essas pautas ao debate público. Resta qualificá-lo.

Desse Estado banguela, projetos entusiasmados como os de Marina Silva, na área da economia política, querem fazer um cenário de distanciamento do Banco Central. Com rapidez, diz o programa de governo, a autoridade monetária deve ser regida diretamente por operadores do mercado financeiro (3). Aqueles que possuem os principais privilégios na sociedade brasileira estarão ainda mais liberados para concretizar as suas políticas, o que me faz pensar que os seus interesses econômicos, ao divergirem dos interesses das classes populares, podem e irão, se necessário, subverter a lógica do emprego e renda existente na atualidade. Em outras palavras, demitir pode voltar a ser uma pauta legítima e justificada pela autoridade monetária alheia aos interesses do Estado que é, em parte, escolhido nos processos eleitorais.

Teria que avançar mais para analisar o pessimismo sobre a economia neste momento. De passagem, cito economistas experientes que afirmam que a aposta numa recuperação não é absurda no médio prazo, sobretudo a partir dos investimentos em infraestrutura – muitos já licitados. Sempre com emprego e renda. Os desafios são grandes, mas Paul Krugman (4), Maria da Conceição Tavares (5), Marcio Pochmann (6) e, inclusive, Delfim Netto (que arrolo meio a contragosto) sugerem que é possível (7). São economistas que, na administração do mundo capitalista, se aproximam mais daquilo que acredito, agora, representar algum enfrentamento pró-trabalho na relação com o capital. Eles podem até negar isso, mas eu os vejo assim. Distantes do espectro que ronda a equipe de Marina Silva. Nessa relação o consenso é utopia.

As desigualdades diminuíram no Brasil. Os índices de bem-estar só aumentam. No mundo, Thomas Piketty sentencia que a taxa de rendimento do capital é alarmantemente maior do que o crescimento econômico (8). Exacerbam-se as desigualdades com o aval dos mercados. Os dados brasileiros contradizem o arcabouço da política econômica proposta pela equipe de Marina Silva que, além de insistir em fórmulas semelhantes a períodos anteriores, mais sofridos, aponta para uma reorientação também da economia nas relações internacionais. Mais enfoque nos Estados Unidos e nos países desenvolvidos. O Banco dos BRICS, pelo contrário, dá sinal de que o tratamento do FMI e do Banco Mundial aos países em desenvolvimento não mais nos contempla, e o protagonismo das potências emergentes pede iluminação (9). O debate sobre os padrões democráticos de países como China e Rússia é fundamental e imperativo, mas não menos do que os mesmos debates em países como os Estados Unidos ou blocos como a União Europeia, bem como o próprio Brasil. Não há santos nesse altar, mas a política de cooperação sul-sul e entre emergentes me parece equilibrar melhor o quadro geopolítico.

O cidadão médio brasileiro, eu, tu ou o vizinho, que sai pra trabalhar todos os dias, que anda de ônibus, de bicicleta ou a pé e enfrenta as tretas impiedosas das ruas, sente que ter emprego é um pontapé de partida. Emprego e alguma renda, com inflação nada absurda e oferta de crédito razoável, em conjunto com as políticas sociais, deriva em comida na mesa e perspectivas para as classes populares. Não são as perspectivas perfeitas e estão muito longe disso. Muito longe. Mas são perspectivas. Não me venham partilhar os seus sonhos à custa daqueles que mais precisam. A não ser que se entenda que o desemprego faz bem para a competição entre humanos, tais perspectivas são perspectivas melhores do que a inexistência ou o recrudescimento delas. Delfim Netto lembra, com propriedade, que estar perto do pleno emprego é algo fantástico que estamos deixando de levar em consideração, é uma vantagem extraordinária: temos emprego para a nossa gente (10).

É preciso enfrentar o fato de que o avanço da indústria naval e automobilística, em paralelo a outros setores, traz prejuízos graves e sérios a grupos étnicos e ao meio ambiente. Deve-se fazer a crítica veemente e propor alternativas sustentáveis, que incluem matrizes energéticas alternativas. Concordo com Marina nesse ponto. Porém, a política econômica não pode se jogar para o mercado financeiro com ainda mais baixas restrições achando que ele cuidará da natureza e proverá a sustentabilidade (definição em aberto) simplesmente porque a candidata da vez tem um histórico (questionado por alguns devido a sua ligação com grandes ONG’s ambientais) de protagonismo nesse campo (11). Os sedimentos da política econômica me parecem anteceder as prerrogativas teóricas voláteis como às da sustentabilidade. A moral dos mercados e do Estado no capitalismo não é verde.

Por fim, à medida que não ofereço ou prego uma ruptura violenta, das maneiras de administrar o capital e suas relações com o Estado e a sociedade, não surgem e não surgirão novas políticas. Simplesmente. Dessas aí, que pouco me contemplam, uma que entregava ao setor financeiro o equivalente a 14,2% do PIB (2002, estilo Giannetti e Lara Resende) e outra que, no ano passado, repassou 5,7% do PIB para os mais dominantes (12), tendo a optar pela segunda. Sem nenhuma grande satisfação, ressalto. Mas sem retrocesso. Só a história mostrará o caminho certeiro. Ou nem ela.

Referências:

(1) http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,desigualdade-social-avanca-na-europa-e-austeridade-fiscal-pode-elevar-pobreza-imp-,1031940

(2) http://www.cartacapital.com.br/revista/806/vantagem-extraordinaria-6124.html

(3) http://marinasilva.org.br/programa/

(4) http://oglobo.globo.com/economia/brasil-ja-nao-tao-vulneravel-como-no-passado-afirma-paul-krugman-11910607

(5) http://oglobo.globo.com/economia/maria-da-conceicao-tavares-ninguem-come-pib-come-alimentos-11973782

(6) http://www.brasil247.com/pt/247/economia/131886/Pochmann-Brasil-est%C3%A1-em-rota-de-ascens%C3%A3o.htm

(7) http://www.cartacapital.com.br/revista/806/vantagem-extraordinaria-6124.html

(8) http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534767-a-dinamica-implacavel-da-desigualdade

(9) http://www.cartacapital.com.br/revista/808/o-banco-dos-brics-2173.html

(10) http://www.cartacapital.com.br/revista/811/disparates-e-eleicao-3110.html

(11) http://g1.globo.com/ac/acre/eleicoes/2014/noticia/2014/08/sindicato-rebate-declaracoes-de-marina-silva-sobre-chico-mendes.html

(12) http://www.redebrasilatual.com.br/eleicoes-2014/pochmann-diz-que-proposta-de-marina-e-aecio-para-banco-central-prejudica-democracia-5845.html

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domingo, 31 de agosto de 2014

O intrigante apoio à Marina Silva

Por Gregório Grisa*
Pedagogo e Professor

Intelectuais que respeito e admiro profundamente me intrigam ao apoiar Marina para presidência. Eles formam um coletivo próximo, ligados aos direitos humanos, com visão progressista sobre costumes, economia, papel do Estado e democracia. Me intriga no sentido de que o diagnóstico que fazem do governo petista, que é preciso e com o qual tenho grandes concordâncias, não combina com aceitar honestamente Marina como uma alternativa mais progressista ou de esquerda.

Me intriga porque a capacidade ímpar que esses intelectuais tem de fazer a acurada análise do atual governo, não é a mesma usada para explicar sua "crença" em Marina como possibilidade. O que esse coletivo tem em comum, me parece, é que encontrou em Marina a chance de promover dois movimentos:

1- O primeiro é fazer o debate com a esquerda de oposição sem estar dentro dela, esses intelectuais admiram o PSOL, em alguma medida o PSTU e quadros do PCB, mas não vislumbram nesses partidos possibilidade de vitória eleitoral e não são adeptos a "radicalidade" e estrutura desses partidos. Encontram na personalidade e biografia de Marina uma pseudoneutralidade, lugar para falar com autoridade. Pessoalmente a pureza de Marina é usada como qualidade do projeto que ela representa, é claro que esses intelectuais, muito mais capazes que eu, sabem que a atual composição da candidatura de Marina não representa melhoria, pelo contrário, abre precedente para um governo de coalizão mais conservador com forte participação da direita e manutenção do "pemedebismo" (conceito cunhado por Marcos Nobre) como modus operandi na relação com o congresso.

2 - o segundo movimento, em alguma medida, explica a posição desses intelectuais. Esse grupo tem uma relação íntima de repulsa freudiana com o PT, fizeram parte do partido, do poder, da gestão em alguns casos e, em função das disputas internas, não conseguiram levar adiante seus projetos pessoais e de sociedade que são de vanguarda e relevantes. Então, legitimamente, buscam alternativas para voltar a dar sua contribuição na esfera estatal como promotor de políticas públicas e encontraram na relação pessoal com Marina uma via para efetivar esse objetivo.

Com um discurso muito bem costurado, esse grupo de intelectuais progressistas rebate as críticas à complicada filiação religiosa de Marina, com um malabarismo libertário e não questiona a gravidade das lacunas contidas em Marina quando do debate sobre a descriminalização do aborto, da regulamentação das drogas, a legalização do casamento homoafetivo que inclusive são bandeiras centrais desses intelectuais.

No que tange o debate econômico Marina também não se posiciona, como ficou claro no debate da Bandeirantes, sua tentativa de reconhecer medidas de governos neoliberais e petistas se configura em uma estratégia de marketing mais do que uma convicção. Há uma clara tentativa de construir um discurso conciliador genérico em busca de votos dos "equilibrados".

Visando passar uma imagem de futura estadista ponderada, roupagem palatável para a mídia, empresários e banqueiros, Marina fala em independência do Banco Central e governo dos bons, dos de bem, sem realmente romper com nenhum interesse dos setores hegemônicos. Essa não ruptura que é fortemente criticada por esses intelectuais, com razão, quando se trata do governo do PT.

Se Marcos Rolim, Luis Eduardo Soares, exemplos de intelectuais que estou me referindo, realmente vislumbram em Marina uma alternativa progressista para o Brasil, tenho bem mais divergências políticas com eles do que imaginava, isso me intriga porque os tenho como referência intelectual.

Com esse breve texto não pretendo fazer uma defesa do governo do PT, pelo contrário, penso que muito mais poderia ser feito, e que esses avanços não passam por Marina, o projeto que ela ora protagoniza representa um dificultador para essas conquistas.

As alternativas eleitoras são condicionadas pelas máquinas de financiamento privado de campanha, pelo desigual tempo de Tv, pela indústria das pesquisas, os candidatos que eu escolheria não estão na disputa. Entretanto, em um possível segundo turno, tenho clareza que a vitória de Dilma, dentro das possibilidades, é o melhor cenário.

* Reproduzido do blog Augere:  http://lounge.obviousmag.org/augere/2014/08/o-intrigante-apoio-a-marina.html.

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lançamento do livro “A formação docente em Ciências Sociais”


Em meio ao IX Seminário Institucional do PIBID UFRGS, no dia 22 de agosto de 2014, ocorreu o lançamento do livro A formação docente em Cîências Sociais: as experiências do PIBID e do Estágio de Docência, organizado pelas Professoras Doutoras Maria Lúcia Moritz e Roseli Inês Hickmann. O material, editado pela Oikos, congrega textos dasImagem reproduzida do site http://oikoseditora.com.br/new/obra/index/id/500 então coordenadoras do PIBID Ciências Sociais UFRGS (em 2013), das coordenadoras dos Estágios de Docência em Ciências Sociais da UFRGS, dos supervisores do PIBID na Escola Técnica Estadual Ernesto Dornelles e no Colégio Estadual Padre Réus, além de escritos dos bolsistas do PIBID das duas escolas e dos estagiários da UFRGS. O livro pode ser adquiro pelo site da editora. Abaixo consta o sumário da publicação.

Parte I – Pibid-Ciências Sociais e seu mosaico de experiências

A produção da docência em Sociologia no Ensino Médio: sobre a experiência do PIBID (Roseli Inês Hickmann e Maria Lúcia Moritz)

Qual Sociologia construir no Ensino Médio? Pensando o fazer prático numa perspectiva aberta, múltipla e diversa (Bernardo Caprara, Marco Plá e Guilherme Rodrigues)

Democratizando as formas de conhecer o mundo (Bruna Molina Leal, Guilherme Soares e Marcela Donini de Lemos)

Políticas de Educação, Sociologia no Ensino Médio e Avaliação (Gabriel Arnt, Gustavo Silveira e Murilo Gelain Gonçalves)

Oficina Interdisciplinar: “Antes que a Zona Sul Acabe” (Marcos Machado Duarte)

Parte II – As experiências dos estagiários na Escola

O ofício de professor de Sociologia e as experiências de estagiários na escola (Rosimeri Aquino da Silva e Célia Elizabete Caregnato)

Números sobre a desigualdade educacional brasileira (Alan da Rosa)

A Leitura no processo de aprendizagem em Sociologia (Felipe Madeira)

Prática pedagógica em Direitos Humanos na formação de professores/as (Lúcia Flesch)

Pensando o ensino de Sociologia a partir do estágio docente em Ciências Sociais (Stefan Hubert)

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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Marina Silva: nova política?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma pergunta sacode as eleições que vêm aí: Marina Silva representa uma alternativa real de transformação? Um novo jeito de fazer política? Não tenho respostas, mas vou arriscar algumas considerações, com base em aspectos relacionados à política econômica e a alguns temas existenciais polêmicos.

Sob o prisma da política econômica, Marina pouco se pronunciou até o momento. Porém, é sabido que a respeitável candidata mantém fortes relações intelectuais com Eduardo Giannetti da Fonseca, economista e cientista social de orientação liberal. Ele tem proferido teses que apontam para um enxugamento do Estado e para a manutenção ferrenha do “tripé” superávit primário, câmbio flutuante e regime de metas de inflação. Nessa linha, prega um governo menos estatista e mais suscetível aos mercados, através de uma contundente austeridade fiscal, mesmo que isso acarrete aumento do desemprego e diminuição do consumo das classes populares (1). Sabe-se, também, que Marina tem em Maria Alice Setúbal, herdeira do Banco Itaú, uma articuladora central do seu partido (Rede Sustentabilidade) e das suas concepções em economia (2).

No que tange aos tópicos existenciais polêmicos, como casamento homoafetivo, aborto, drogas ou pesquisas com células-tronco, Marina não se distingue em nada da política tradicional. Não se posiciona efusivamente de maneira distinta aos demais participantes, ou seja, reluta em avançar nessas pautas (3). Deve-se dizer, contudo, que a candidata do PSB tem uma visão muito interessante sobre meio ambiente e minorias no campo. Nesse ponto, Marina tinha tudo para se mostrar uma alternativa, uma novidade política. Porém, quando avalizou Beto Albuquerque como seu possível vice, avalizou a presença de um dos grandes conectores do agronegócio no parlamento nacional (4). Do ponto de vista pragmático, para vencer o pleito, parece uma boa cartada. Só que retira qualquer elemento de novidade no espectro ambiental.

Em termos estritamente políticos, não menos importantes, se Marina se propõe a porta-voz de uma nova política, por que aderiu ao PSB, um partido que de novo nada exibe? Uma nova política é necessariamente imediatista e institucional? Não poderia ser constituída nas ruas, pelas ruas, até que, enfim, galgasse postos institucionais?

A partir dos motivos acima, não vejo Marina Silva como uma alternativa real de transformação, tampouco de fomento a uma nova política. Suas cartas estão no jogo há muito tempo. Posso estar equivocado. Só o futuro poderá dizer.

Notas:

(1) http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1359699-marina-silva-faria-governo-menos-estatizante-que-dilma-diz-eduardo-giannetti.shtml.
(2)
http://oglobo.globo.com/brasil/a-fada-madrinha-de-marina-silva-8631231.
(3)
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/eleicoes-2014/noticia/2014/08/da-religiao-a-politica-economica-o-que-pensa-marina-silva-4578448.html.
(4)
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/quem-e-beto-albuquerque-o-vice-de-marina-silva.

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terça-feira, 19 de agosto de 2014

A escola dos meus sonhos

Por Frei Betto
Teólogo e Escritor

Na escola de meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, conhecer mecânica de automóvel e de geladeira, e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra.

Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim, aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões subterrâneas que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.

Não há temas tabus. Todas as situações-limites da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a física, nas corridas da Fórmula 1 e pesquisas do supertelescópio Hubble; a química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a história, na violência de policiais a cidadãos, para mostrar os antecedentes na relação colonizadores-índios, senhores-escravos, Exército-Canudos etc.

Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de biologia e de educação física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a história do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e de dança, e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas.

Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo; o pai-de-santo do candomblé; o padre do catolicismo; o médium do espiritismo; o pastor do protestantismo; o guru do budismo etc. Se for católica, promove retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja.

Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazerem periódicos treinamentos e cursos de capacitação, e só são admitidos se, além da competência, comungam com os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido sobre o que são democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.

Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto, adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente; a visão de felicidade; a relação animador-platéia; os tabus e preconceitos reforçados etc. Em suma, não se fecha os olhos à realidade; muda-se a ótica de encará-la.

Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e um mês por ano setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.

Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil os alunos traziam à classe toda a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar.

Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e recursos.

É mais importante educar que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que a ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito, e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.

Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para poderem se manter. Pois é a escola de uma sociedade onde educação não é privilégio, mas direito universal e, o acesso a ela, dever obrigatório.

Texto reproduzido do site do autor, onde podem ser encontrados outros artigos: http://www.freibetto.org/index.php/artigos/14-artigos/25-a-escola-dos-meus-sonhos.

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Duas pessoas, duas verdades

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Duas pessoas.

- Bah, hoje começa o horário eleitoral. Que bosta. Que chatice...
- Nada a ver, meu. Eu vou tentar ver todos que puder. Quero informação.
- Ah, por favor.
- Qual foi?
- As eleições são um jogo de cartas marcadas. Todos os candidatos que podem ganhar são financiados pelas mesmas grandes corporações. Além disso, o fato é que o poder econômico concentrado é o substrato da sociedade capitalista. Temos alguns direitos políticos, alguns direitos civis e religiosos até. Mas a civilização ocidental, com essa ideia de produzir mais e mais, já destruiu vários mundos com a colonização e não acabou com a exploração do trabalho. Agora tá destruindo a si mesma, à custa de quem põe a mão na massa.
- Pois é. Não discordo. Só que a eleição tá aí, batendo na porta. Sei que fazemos micropolíticas no cotidiano, mas a política institucional tem alguns efeitos na vida das pessoas. Alguns efeitos ela tem. Quero saber como se posicionam os candidatos em polêmicas como a taxação das grandes fortunas, o aborto, as drogas, a desmilitarização das polícias, os médicos estrangeiros, as ações afirmativas, o casamento homossexual, a regulação das mídias e etc. Além dos projetos sobre política econômica, saúde e educação. A vida de muitas pessoas está em jogo.

Duas verdades.

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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ontologias, epistemologias e metodologias nas Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A professora de Sociologia Política da European University Institute, Donatella Della Porta, em conjunto com Michael Keating, professor de Ciência Política da University of Aberdeen, apresenta duas tabelas que tentam congregar uma tipologia acerca das possibilidades ontológicas, epistemológicas e metodológicas nas Ciências Sociais. Ainda que a tentativa gere muitas controvérsias, vale analisar e problematizar o material, que ajuda a pensar questões subjacentes ao fazer científico.

How many ontologies and epistemologies?

How many methodologies in the social sciences?

Tabelas disponíveis em: DELLA PORTA, Donatella; KEATING, Michael. Approaches and Methodologies in the Social Sciences: A pluralist perspective. New York: Cambridge, 2008. Páginas 23 e 32.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Mapa das desigualdades de renda no mundo globalizado

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A desigualdade de renda ou de rendimentos, indicador bastante conhecido das desigualdades econômicas, pode ser medida pelo Coeficiente de Gini. Com base nessas evidências, o mapa abaixo demonstra a incidência das desigualdades de renda no mundo globalizado. Os países com maior desigualdade estão marcados nas cores escuras (preto, vermelho escuro e vermelho). Localizam-se, de modo geral, na América Latina e na África. O mapa está contido no CIA World Factbook 2009.

Imagem reproduzida de http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/32/Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg/1280px-Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg.png

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Saudosa maloca

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Fazia tempo que não rolava um samba por lá. Naquela noite, a lua cheia clareava as ruas da cidade. Três amigos observavam atônitos os escombros que tomavam conta da quebrada. De repente, dois levantaram, resmungando e entrebatendo-se.

- Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí, a procurar. Rir pra não chorar.

- Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.

O terceiro, extenuado na sarjeta, sentenciou baixinho, quase calado, num misto de desolação e nostalgia:

- Saudosa maloca... Maloca querida! Din Din Donde nóis passemo os dias feliz de nossas vida.

Nas camisas que vestiam, produzidas com esperança, uma verdade gritava em silêncio, impressa em letras tristes nos tecidos desgastados: “Quando morar é um privilégio, ocupar é um dever”.

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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Do desânimo à reflexão

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na volta às aulas, em meio ao desânimo quase geral, uma conversa ganha relevo:

- Acho que o melhor a fazer é largar tudo, juntar o que sobrar de dinheiro e fundar ou se mudar para uma comunidade alternativa. Integrar a natureza e esquecer todas as tretas da cidade grande. Deixar de consumir o que nos consome.

- Pois é. Até entendo essa postura, ela se associa bem ao nosso tempo. Algo como “procure fazer a sua felicidade que o resto todo será feliz”. Uma filosofia que beira o utilitarismo, sem nomeá-lo. Também tenho a vontade de baixar o ritmo, ficar mais perto do mar, botar o pé na grama e respirar um ar mais puro.

- Então, é disso que eu tô falando!

- É, mas a minha vontade é a minha vontade. Que pode até se consolidar, numa cidade em que essas características existam. Não posso e não quero, entretanto, eximir-me da minha parcela de responsabilidade para com os grandes problemas do mundo. O destino dos outros cruza o meu e o teu destino. Não consigo isolar-me e satisfazer-me com a minha felicidade somente. Por isso escolhi ser professor. Para construir saberes coletivos sobre o mundo, sobre a vida dos seres humanos e, assim, tentar contribuir com um mundo menos desigual, injusto e opressivo. Para que todos nós possamos sonhar.

Do desânimo à reflexão. Da reflexão ao retorno às atividades profissionais.

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

XVIII ISA World Congress of Sociology


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na semana de 13 a 19 de julho, em Yokohama, no Japão, ocorreu o XVIII Congresso Mundial de Sociologia da Associação Internacional de Sociologia (ISA). Esteve presente um paper relacionado à minha dissertação de Mestrado Acadêmico, apresentado pela minha orientadora, agora de Doutorado, a Professora Drª Marília Patta Ramos, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS. O trabalho, intitulado The Impact Of Cultural Capital On Students’ Performances In Brazil, fez parteXVIII ISA World Congress of Sociology do Research Committee on Sociology of Education (RC04). Segue abaixo o resumo da apresentação, que também pode ser visualizado no documento Book of Abstracts, na página 795.

The main goal of this study is to verify the effect of cultural capital on students’ performances through an official test applied by the Brazilian government (Prova Brasil), the students are part of the Brazilian Elementary to High School Evaluation System (SAEB). The data set used is from the year of 2003 and involves 52.434 students. The standard test is applied every other year in the fields of mathematics and Portuguese. Along with the test a questionnaire is applied to identify students’ demographic characteristics as well as their families’ profile. The research question is: what is the impact of cultural capital on students’ performances in the SAEB test controlling for their demographic characteristics and relations with other students and their teachers? The theoretical background is based on James Coleman (1997), Pierre Bourdieu (1982, 1998) and Basil Bernstein (1997). Among Brazilian scholars the study includes the ideas of Nelson Silva and Carlos Hasenbalg (2000) and Maria Ligia Barbosa (2009). The study model has as the dependent variable the students’ grades in the SAEB test and the cultural capital as the main independent variable along with the control variables. Descriptive analyses are used as well as regression models to obtain the effect of the independent variables on the dependent variable. The preliminary and main results show that there is significant association between levels of cultural capital and students’ performances in the SAEB test. Specifically, there is a significant and positive correlation between parents’ education, ownership of computer, access to the internet and newspaper reading with the performances in the SAEB test.

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