SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Qual rolezinho?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Foi. Partiu. Bora dar uma banda no...

Parece possível elaborar mil e duzentas teorias, versões ou interpretações sobre o fenômeno dos rolezinhos. Várias facetas podem ser apontadas. Sem excluir os demais, acho mesmo que dois pontos são evidentes. Não consigo não pensar neles.

Primeiro, numa sociedade em que persiste a ideia do homem, pobre e negro como “bandido”, “marginal” ou “delinquente”, num julgamento prévio a qualquer conhecimento aprofundado da pessoa, a merda não desce mais pelo encanamento. Joga-se o estrume da opressão no ventilador. Há racismo e há preconceito de classe.

Depois, na mesma sociedade, prega-se a cultura do prazer através do consumo. Fácil de entender por quais razões os shoppings se tornam lugares de atração e visibilidade para diferentes parcelas da população. O templo do mercado não era pra ser democrático?

Sei não. Bora dar uma banda no Marinha, pisar na grama e curtir o anoitecer.
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tempo pode ser vida

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O tempo passa. O meu, o teu, o nosso, o deles. Inapelavelmente. Diz-se por aí, nas cartilhas da atualidade: tempo é dinheiro. Será?

Sem hipocrisia, dinheiro é importante. A ausência dele, sobretudo, é bastante cruel. Oportunizar a todos os habitantes do planeta o acesso razoável a ele mostra-se uma tarefa para ontem. Inadiável.

Noutro lado, quando o meu tempo passar e os meus olhos se fecharem de uma vezpor todas, o que terei deixado ao mundo dos vivos? Admitidos todos os meus incalculáveis defeitos, levarei e deixarei quais sentimentos e emoções?

Não dá para saber. Dá para fazer – ainda. Fazer profundas relações. Fazer e consolidar amizades. Compartilhar ideias e ideais. Fazer vínculos com amor. Assim, tempo pode ser vida.

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

As flores na aridez

Bernardo Caprara
Sociólogo e Jornalista

O calor predominava. Pela janela do quarto, observava algumas plantas dispostas na área de serviço. Vivas, expostas ao sol. Pensava na vida.

Uma delas chamou a atenção. Árida, seca, espinhosa e quase autossuficiente, ela pouco se fazia aparecer perante as demais. Estava ali, viva e imperceptível. Sobrevivendo aos movimentos do tempo e do espaço.

Naquele dia, uma baita flor branca saía das suas entranhas. Uma boniteza só. Dentre os habituais espinhos, era quase um sopro de esperança. Porém, em poucos dias a flor não mais estaria ali.

Como a vida da maioria nos dias de hoje. Muita aridez e espinhos. Poucas flores.

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Escrevendo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Pensava. Por que escrever? O que isso pode significar?

O potencial de espalhar a própria percepção sobre os acontecimentos carrega um paradoxo consigo. Por um lado, libertamo-nos um pouco das amarras da triagem feita pelos grandes meios de comunicação. Por outro, às vezes, perdemos a noção do universo que envolve proferir palavras, frases e parágrafos mundo afora.

No mínimo, as ideias articuladas em texto, quaisquer delas, trazem uma parcela de imprevisibilidade quanto ao sentido que os leitores darão às mensagens oferecidas. As consequências individuais ou coletivas das nossas atitudes linguísticas parecem ultrapassar, nessa imensidão simbólica da realidade atual, qualquer capacidade que temos para mensurá-las. Isso não significa apenas que a repercussão vai ser grande ou pequena, mas que ela pode ser múltipla, variada e indesejável.

Eu sei. No afã de verbalizar as coisas, os anseios e seja lá o que for, há momentos em que subtraímos em nós mesmos a capacidade de silenciar, refletir e reestruturar os pensamentos. E se for para escrever, libertar um mundo de imaginação sobre o real, qual será o risco? Uma pergunta que responde as duas primeiras.

Não sei. Quero saber fazendo. Errando e acertando. Escrevendo.

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Neurocientista psicopata

Por Vladimir Safatle
Filósofo e Professor*

James Fallon era um neurocientista norte-americano envolvido em pesquisas sobre as relações entre padrões anatômicos do cérebro de psicopatas e comportamento criminoso. Sua hipótese era a de que existiam distinções anatômicas sensíveis entre criminosos violentos e pessoas "normais". Imbuído da certeza de que a anatomia é o destino, lá foi Fallon tentar mostrar que a baixa atividade em certas áreas do lobo frontal e temporal, responsáveis pela empatia e compaixão, poderia nos auxiliar a identificar um psicopata.

Mas eis que o inimaginável ocorre. A fim de construir um quadro comparativo, o neurocientista resolveu servir-se de tomografias de si mesmo e de membros de sua própria família. Aterrorizado, Fallon descobriu que seu próprio cérebro tinha similitudes fundamentais com a anatomia cerebral dos psicopatas. Sim, ele mesmo era um psicopata potencial, um "protopsicopata".

"Eu sempre soube", disse sua mulher. Afinal, anos a fio esquecendo o dia do rodízio do carro e não se comovendo com relatos das desfortunas do câncer do seu tio-avô só podiam significar uma indiferença fria e tendencialmente psicopata. "É verdade, eu sempre fui insensível", responde o neurocientista. Mesmo suas ações de caridade, ele agora reconhece, eram feitas sem empatia e sem "real envolvimento", ou seja, sem aquela lágrima no canto dos olhos que escorre furtivamente, como Hollywood nos ensinou.

Mas havia um problema: Fallon não matou ninguém, ninguém reclamou de ter sido estuprada por ele. Por que então o protopsicopata não passou ao ato? "O amor da família me salvou. Ele conseguiu neutralizar o pior". Ao que só podemos responder: "Aleluia, aleluia".

Esta história real demonstra a inanidade especulativa primária de certos setores das neurociências. Pois o que Fallon descobriu não foi sua "protopsicopatia" nem a força redentora do amor familiar, mas a simples ausência de relações diretas entre estados cerebrais e "comportamento criminoso".

A neurologia conseguiu identificar áreas do cérebro, como o giro supramarginal, cujas atividades são fundamentais para a empatia e a compaixão. Mas se eu fosse kantiano, lembraria que a apatia e a desconfiança em relação à compaixão são condições, não apenas para a psicopatia e para o comportamento antissocial, mas para todo comportamento moral, já que a universalidade do julgamento moral exige o não envolvimento especial com sujeitos particulares determinados.

Ou seja, o mesmo estado cerebral pode estar na base de dois comportamentos sociais divergentes, o que demonstra que não há causalidade direta alguma entre estado cerebral e comportamento social. Mas admitir tal evidência deixaria muita gente sem emprego.

* Vladimir Safatle é Filósofo, Professor da Universidade de São Paulo.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

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