SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 30 de abril de 2014

A entrevista qualitativa no fazer sociológico: uma incursão reflexiva

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Questionar as pessoas, por intermédio de entrevistas de tipo qualitativo, caracteriza uma possibilidade bastante difundida no trabalho dos cientistas sociais. Tecendo variadas considerações, Jean Poupart discorre sobre a temática no seu texto “A entrevista de tipo qualitativo: considerações epistemológicas, teóricas e metodológicas[1]”.

A interrogação em forma de entrevista pode ser entendida de maneiras opostas no escopo da prática sociológica. Por um lado, pode-se pensar que ela traz uma das grandes vantagens das ciências sociais, pois capacita a compreensão acerca daquilo que os próprios objetos de pesquisa enunciam – visto que eles se tratam de seres humanos. De outro, há o sério risco de que se confundam as interpretações dadas pelos atores com a realidade social por ela mesma.

O artigo de Poupart foca nas reflexões sobre as entrevistas, instituídas enquanto instrumento metodológico. O autor analisa três diferentes enfoques: o primeiro, epistêmico e relacionado a uma espécie de ética política; depois, fala sobre um rol de princípios tidos como inerentes ao processo de utilização das entrevistas; e, por último, abordam-se os debates sobre os vieses tangentes às aplicações de entrevistas pelas ciências sociais.

Na tradição subjetivista e, sobretudo, interacionista, a perspectiva dos atores sobre as suas realidades é percebida como fundamento da compreensão da sociologia sobre eles. Assim, nos quesitos epistemológicos, está bem estabelecida a ideia de que as entrevistas constituem um dos mais eficientes meios para apreender o sentido atribuído pelos investigados às suas condutas, bem como as feições com as quais eles representam o mundo e vivem as situações cotidianas. Acrescentam-se os argumentos éticos e políticos, que indicam nas entrevistas “(...) um instrumento privilegiado para denunciar, de dentro, os preconceitos sociais, as práticas discriminatórias ou de exclusão” (POUPART, 2008, p. 220).

Derivando para a parte prática, nota-se que subsistem algumas convicções basilares que sugerem uma boa orientação para uma entrevista de tipo qualitativo. Os entrevistados devem ser instigados a se reportarem satisfatoriamente, sendo que suas falas precisam ser consideradas como válidas. Em suma, salienta-se que a experiência da entrevista visa a obter as melhores colaborações plausíveis aos sujeitos estudados, o que demanda deixá-los bastante à vontade, cativar a confiança deles e estimular que dissertem com espontaneidade e estejam envolvidos no acontecimento. Ações que invistam na empatia, na escuta atenta do pesquisador e na criação e fortalecimento de laços de reciprocidade ajudam na execução das tarefas propostas numa entrevista. Seguindo a fórmula de Erving Goffman, elementos de encenação também podem ser bem-vindos.

Há que se levar em conta, ainda, os vieses que tendem a influir nos estudos que se beneficiam das técnicas de entrevista qualitativa. Pelo menos três tipos podem estar em jogo: aqueles que se referem ao próprio dispositivo da pesquisa, os relativos às interações entre entrevistadores e entrevistados e os que se associam ao contexto investigativo.

Finalmente, Poupart parece ter cumprido com rigor a iniciativa que se propôs. Conseguiu erigir reflexões profundas acerca das inclinações epistemológicas, teóricas e metodológicas intrínsecas às técnicas de entrevista de tipo qualitativo. Nas tendências atuais sobre o tema, Poupart (2008, p. 247) explicita que “(...) os textos dos últimos anos enfatizam preferencialmente o papel dos pesquisadores na produção dos relatos”.

Noutro prisma, todos os debates que enveredam nos caminhos de que as pesquisas nas ciências sociais necessitam produzir conhecimentos polifônicos, que abarquem distintas interpretações de distintos atores, parecem galgar algum espaço também desde o uso das entrevistas de tipo qualitativo.


[1] POUPART, Jean. A pesquisa qualitativa: Enfoques epistemológicos e metodológicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

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terça-feira, 29 de abril de 2014

Visíveis e invisíveis

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Vivia numa terra em que algumas vidas valiam mais do que outras. É, pode parecer incrível, mas era assim mesmo. Dependendo de quem estivesse em pauta, as coisas tomavam rumos muito diferentes. Ser um Zé Ninguém ou um craque do futebol fazia toda a diferença.

Todos os dias, vivenciava situações de desigualdade. Toda uma gama de atitudes e discursos escrotos para com o outro na vida social fazia a festa. “Você sabe com quem está falando?”, ouvia-se pelas ruas. Repetia-se: “Pois não, doutor”.

Um dia, dois atletas começaram uma campanha. Todos disseram: “Ah, que vergonha desse mundo racista!”. “Somos todos macacos! Uma banana aos racistas!” Camisetas da campanha venderam muito. Os meios de comunicação de massa se locupletaram como nunca. Aquilo faria as coisas avançarem. Só que não?

Enquanto isso, milhões eram subjugados. Milhões sem glamour. Quase invisíveis para o mercado e para a mídia, pois não davam lucro. Eram Amarildos, DG’s, Paulos, Josés e Marias. Naturalizavam-se, assim, desigualdades nada naturais.

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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Entre ataques

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Atacado por todos os lados. Assim se sentia naquele momento. Todos que o interpelavam tinham a intenção de definir qual era a melhor maneira de ensinar. Todos tinham os seus princípios de como um professor deveria atuar, e os defendiam com unhas e dentes.

De um lado, uma menina chamava a si própria de libertária. Combatia toda e qualquer técnica ou instrumento pedagógico que não retirasse a condução tradicional do fazer docente. “Estudantes têm que se mexer, têm que sair da escola, fazer qualquer coisa que não seja continuar como estão”, sentenciava.

Do outro, um rapaz autointitulado crítico-transformador dizia com veemência: “Métodos e técnicas não importam, mas, sim, a construção da revolução social. Fora disso tudo é irrelevante”.

Um último falante, afirmando-se pragmático e conservador, dava risada daquilo que considerava um antro de asneiras. “Cálculo, leitura e interpretação. É isso que educa. Conteúdo e nada mais. Tem que ser tradicional”.

Pensava. Pediu a palavra. “Não carrego a verdade ou a razão. Todos nós temos um pouco delas nos argumentos. Gosto muito do diálogo simetrizante. Porém, creio que os estudantes de hoje precisam, também, da leitura, da escrita, do movimento, das saídas de campo, de uma visão crítica sobre o real, de vídeos, imagens e sons. De tudo um pouco”.

Sabendo que viriam mais ataques, finalizou: “Precisam mais de um equilíbrio didático-pedagógico do que de qualquer extremismo”.

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quarta-feira, 23 de abril de 2014

A observação como procedimento para as Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A variedade de métodos e de discussões metodológicas nas Ciências Sociais é um assunto bastante amplo. A tarefa de observar os fenômenos baseia, em alguma medida, o trabalho científico de todas as áreas do conhecimento. É sobre este possível enfoque de pesquisa que Jaccoud e Mayer tratam no texto “A observação direta e a pesquisa qualitativa”[1].

Para construir saberes, a observação surge como um dos primeiros passos a serem dados. A consequência dessa assertiva recai no fato de que a observação caracteriza-se tanto por uma relação quanto por um distanciamento entre sujeito e objeto de estudo, o que gera uma série de considerações teórico-metodológicas. Jaccoud e Mayer (2008, p. 255) definem a observação na linha de uma atividade na qual o investigador “observa pessoalmente e de maneira prolongada situações e comportamentos pelos quais se interessa, sem reduzir-se a conhecê-los somente por meio das categorias utilizadas por aqueles que vivem essas situações”.

Importa notar que os elementos que configuram a observação no escopo da ciência podem ser múltiplos. Os autores falam de uma técnica direta, concretizada no contato com os informantes; não-dirigida, em que a observação da realidade faz-se um objetivo terminal e o estudioso não interfere na situação em análise; e, também, qualitativa, com anotações e descrições que ampliam o entendimento de dada realidade.

O alcance obtido por este procedimento científico fomentou divergências, que debatem as relações do observador com o campo de investigação. Outros fatores, relacionados ao lugar ocupado pela observação no fazer de pesquisa, seus critérios de validação e confiança conquistada pelo estudo também são relevantes, além da seleção do local da incursão. Erigir as categorias de análise, em consonância com perspectivas teóricas, deriva na figura de um percalço a ser resolvido.

Pode-se dizer que, entre os séculos XVI e XVII, as delineações acerca dos atrelamentos entre sujeito e objeto referiam-se mais aos objetos e assentavam-se em torno do que seria observado. A partir daí, até o século XX, o cerne da questão difundia-se às voltas do sujeito, escapando do objeto de pesquisa e pensando, sobretudo, em como observar. No século XX, pautam-se reflexões que problematizam as formas de desvincular sujeitos e objetos, a fim de dar sentido aos trabalhos investigativos.

Agregaram-se à observação direta outras técnicas complementares, como o uso de documentos, entrevistas, questionários, etc. Tudo isso adicionou complexidade aos procedimentos, e a observação passou a ganhar significados de um tipo de coleta de dados e de um tipo de relação com os objetos-sujeitos pesquisados.

Não obstante, estão em jogo posturas epistemológicas. Jaccoud e Mayer (2008) dissertam sobre três modelos, o empírico-naturalista, o interpretativo-subjetivista e o construtivista. No primeiro, a observação é vista como uma abordagem, de caráter explicativo ou objetivo. Neste modelo o privilégio é da descrição da realidade, e não da sua explicação. Quando versam sobre o interpretativo-subjetivista, a ideia é captar significações emitidas pelas pessoas no decorrer dos seus atos, interpretando muito mais do que explicando e enfatizando uma dimensão subjetiva. Por último, o modelo construtivista revela-se um produto originado por um processo de construção, intrincando sujeito e objeto, as interações entre ambos.

Há de se ressaltar, ainda, toda a discussão referente aos aspectos éticos que perpassam a observação como procedimento, método ou abordagem científica. Uma inserção a campo de modo clandestino, por exemplo, é defendida por alguns teóricos e critica por outros, que elencam vantagens e desvantagens em não explicitar aos pesquisados o que está acontecendo naquelas interações. De fato, a criação de vínculos e compromissos entre os diversos envolvidos em pesquisas desse teor parece quase impossível de não ser concebida. Essa é uma polêmica veemente no que tange à observação para fins da ciência.

Fechando o texto, Jaccoud e Mayer (2008) fazem referência aos metodólogos, epistemólogos e pensadores que criticam as bases da ciência moderna e suas implicações sobre antagonismos como cultura e natureza, sujeito e objeto, afastamento e militância. Mostra-se legítimo incorporar essas considerações, na medida em que tais debates estão bastante em voga em algumas áreas do conhecimento. A antropologia simétrica de Bruno Latour[2] é um interessante exemplo dessa via de pensamento contemporâneo.


[1] JACCOUD, M.; MAYER, R.. A observação direta e a pesquisa qualitativa. In: POUPART, Jean et all. A pesquisa qualitativa; enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis: Vozes, 2008. pp. 254-294.

[2] Conferir a obra LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica. São Paulo: Editora 34, 2009. Nela, o autor defende um empreendimento metodológico que procure seguir nos atos, nos acontecimentos, os dizeres dos “nativos” sem percebê-los como “outros inferiorizados” no que concerne a uma cosmopolítica do conhecimento.

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terça-feira, 22 de abril de 2014

Complexas desigualdades

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Ora, pois. No dia 22 de abril de 1500 os portugueses aportavam pelas bandas tropicais. Alguém me questiona, do nada, enquanto tomo um café: “O que define o Brasil?”. Respondo: as desigualdades. Os seus efeitos estão no cotidiano. Resposta viciada de quem tem pensado e se debruçado sobre o conceito. Afinal, como entender com precisão os seus significados em tempos tão complexos?

As ideias acerca das desigualdades transitam entre outras categorias. Na tradição daqueles que se puseram a combatê-las, classes sociais e estratificação fundamentam as análises. Uns dizem que a renda define a vida social. Outros que a posição ocupada no mundo do trabalho, base da vida social, deve ser o alicerce de qualquer crítica. Sobra um embaralhamento compreensível, num cenário difícil de objetivar.

Uma visão relacional me parece mais lúcida para a atualidade. A renda, sobretudo, configura-se como um elemento central para pensar situações desiguais de sobrevivência. Isso é inegável. Sem ela, o consumo míngua. Mas ela não oferece tudo. Por si só, mostra-se restritiva demais, a ponto de obliterar a criação de indicadores fidedignos ao real. Mulheres, negros, homossexuais e os demais grupos minorizados em direitos podem ter grana. Mesmo assim, desigualdades podem persistir.

Resta muito a se dizer sobre classes sociais e estratificação, vale sublinhar. Isso fica para outra conversa. Agora, penso em direcionar os olhares para as desigualdades com o foco nas disparidades de capacidades básicas, responsáveis por fomentar o exercício de liberdades. Pensando relacionalmente contextos individuais e condições sociais. Sem, é claro, desintegrar diferenças ou homogeneizar quaisquer vidas humanas.

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

A triangulação metodológica como recurso do fazer sociológico

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

As Ciências Sociais se propõem a estudar profundamente as relações entre os seres humanos, a sua vida social. Para isso, discutir questões metodológicas acerca do fazer Sociológico é uma tarefa bastante interessante. Teresa Duarte, Doutoranda em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), de Lisboa, Portugal, desenvolve um bom debate no texto “A possibilidade da investigação a 3: reflexões sobre triangulação (metodológica)”[1].

Como fazer para incorporar diferentes métodos de investigação social no interior de um projeto de pesquisa? Como resolver os embates provenientes entre distintas abordagens relativas às práticas de pesquisa para as Ciências Sociais? Essas e outras indagações constituem, por si só, uma intervenção promissora do Sociólogo que se presta a pensar o real de modo a transitar nos caminhos do conhecimento científico. Sobretudo se for encaminhada uma reflexão sobre as dualidades que se colocam, num cenário restritivo, no qual prepondera a não aceitação da tentativa de uma compreensão de mais aspectos do objeto em estudo através de conexões metodológicas.

Na visão de Duarte (2009), perquirir a realidade social pode suscitar a combinação de metodologias orientadas por diferentes tradições competentes à ontologia, à epistemologia e à axiologia. A proposta oferece o conceito de “triangulação” como forma de tentar aproximar os polos entre, por exemplo, os modelos positivistas e construtivistas que indicam a melhor maneira de analisar as sociedades humanas.

Noutra face, estão em jogo as oposições entre os métodos quantitativos e os métodos qualitativos. Este é um ponto em que há um antagonismo considerado extremo, embora nada irreversível, que tende a deixar pouca margem de interlocução entre algo que teria possibilidade de ser visto como complementar.

Quando se fala na investigação quantitativa, o pesquisador apresenta o conhecimento teórico da sua área, apoiado pelos resultados empíricos que o precederam. A teoria está na frente do que vai ser analisado. Suas hipóteses dependem da teoria. São elaboradas com a maior independência à realidade concreta, sendo operacionalizadas e testadas nas suas relações com a empiria. As ferramentas de análise são previamente concebidas. Diz Duarte (2009, p. 6) que os fenômenos observados classificam-se “[...] em termos de frequência e distribuição; da análise de dados regressa-se às hipóteses procedendo-se à sua corroboração ou informação; um dos fins últimos consiste na generalização dos resultados para a população”. Há aqueles que decidem que o quantitativo descreve o positivismo, embora seja pouco acreditável tal reducionismo nas perspectivas atuais.

Por parte da abordagem qualitativa, ainda que a teoria seja fundamental no processo, cabe mais a afirmação que não a vê como um a priori sobre o real. Suas prerrogativas teóricas descobrem-se e formulam-se ao sabor das práticas de pesquisa, acompanhando as incursões a campo e construindo os dados a serem analisados. “Mais do que testar teorias, procura-se descobrir novas teorias empiricamente enraizadas; a selecção dos casos privilegia a sua importância para o tema em estudo ao invés da sua representatividade” (DUARTE, 2009, p. 7). A ideia é que a complexidade cresça à medida que a imersão do pesquisador se faça presente e intensa, captando sentidos e interpretando os significados sociais disponíveis para os seus objetivos. A escolha dos casos não deve ser planejada com demasiado rigor. O pesquisador configura o coração da pesquisa.

Duarte (2009) sugere a busca por práticas científicas que rompam com uma espécie de “guerra paradigmática”, por intermédio de categorias como “triangulação”, “métodos mistos”, “modelos mistos” ou “métodos múltiplos”. Foca-se, contudo, somente na triangulação desenhada pela “triangulação metodológica”, um pouco na linha de Denzin (1989), Cox e Hassard (2005). Métodos qualitativos e os quantitativos podem ser combinados de formas distintas numa mesma pesquisa.

Por fim, vale sublinhar que as possibilidades de uma triangulação metodológica de caráter pós-positivista, que não prescinda da abordagem qualitativa, tanto quanto da quantitativa, podem insinuar uma trajetória valiosa na busca pelas complexidades do real. Podem, portanto, ajudar a realizar aquilo que as Ciências Sociais se encarregam de fazer: investigar as profundezas das relações sociais, descobrindo as suas principais características e entrelaçamentos.


[1] CIES e-WORKING PAPER N. º 60/2009.

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terça-feira, 15 de abril de 2014

Não vai sobrar ninguém

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há algumas semanas, alguém me dizia com vigor: o ódio é transformador. Não gostei, não concordei, mas fiquei pensando nisso. Lá pelas tantas, ouvia um velho rap, daqueles das antigas mesmo.

- Quando o ódio dominar, não vai sobrar ninguém. O mal que você faz, reflete em mim também.

Respirava. Embora os conceitos de mal e bem demandassem substituição por outros mais precisos (opressões, dominações, etnocentrismo, desigualdades e por aí vai), a frase martelava insistentemente. Por causa das relações que propõe. Sobretudo por deixar evidente a evidência que remete ao fato de que eu e o mundo estamos numa íntima troca de experiências.

Há muito ódio nas quebradas, no asfalto, nos apartamentos. Há, também, ódios e ódios. Distingui-los parece uma tarefa importante. Ainda que eu não consiga vê-lo como um sentimento transformador. Por hora, outra canção tocava ao fundo, desta vez um samba clássico:

- O dia em que o morro descer e não for carnaval. Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final...

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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Não, comunista não

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Ventava. Esperando o ônibus, atentava para a conversa das duas pessoas ao meu redor:

- Tu é comunista?
- Não, e tu?
- Bem capaz, de jeito nenhum!
- Hmm...
- Tá louco, já basta esses petralhas e a ditadura comunista em curso no Brasil. Eu não compactuo! – exclamou cheio de razão o interlocutor da conversa.
- Irmão, tá disposto ao diálogo?
- Claro, manda...
- Primeiro, tu precisa definir melhor o conceito de comunismo.
- Como assim?
- Lendo o Marx tu vai ver que a etapa sugerida como ditadura dos trabalhadores é considerada como socialismo, e a ideia teórica é acabar progressivamente com essa dominação. Até que todos os indivíduos possam experimentar a liberdade real de trabalho, vida e lazer. Sem submissão ou exploração de classe.
- Hahahahahahaha!!!!
- Na prática, as nações que se julgaram comunistas no máximo chegaram perto da etapa socialista. Tenho uma baita crítica ao totalitarismo desses países. Agora, não tem absolutamente nenhum elemento no Brasil que possa corroborar a tese de que estamos caminhando para o comunismo, seja o teórico ou esse aplicado por alguns no século XX.
- Ah, tá...
- Não tem, irmão. Os bancos privados nunca lucraram tanto quanto nos governos do PT. As grandes empresas multinacionais estão aí, dando as cartas na economia nacional. Embora ainda restem alguns ranços autoritários em determinadas instituições, há possibilidade de reivindicação, mídia livre (até demais) e liberdade de expressão, sobretudo para a direita.
- Vendo por esse lado, faz sentido. Mas e o Estado gigante que os petralhas só fazem crescer? E as cotas?
- Bom, mas daí até alguns economistas liberais demonstram a necessidade da participação do Estado no rumo dos negócios da nação. Assim como de políticas sociais recompensatórias para as minorias estigmatizadas. É uma discussão, mas não é comunismo!

Perplexo, sorri. Uma aula de realismo em pleno vendaval. A demora do ônibus ficou em segundo plano.

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terça-feira, 8 de abril de 2014

Notas de uma vida barata

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Vivia uma vida barata. Num sentido mais amplo do que o econômico. De fato, uma vida distante de muitos luxos. Carros importados, hotéis e restaurantes requintados, baladas da moda ou apartamentos e casas gigantes estavam fora da rotina. Não tinha propriedades materiais significativas. Porém, não reclamava disso. Sempre teve oportunidades e as valorizava com vigor.

Na contramão das ideias dominantes, uma vida barata poderia ter as suas vantagens. Óbvio que não se tratava de uma vida miserável ou degradante. Dizia o poeta Belchior: “Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas”. Fazia isso mesmo. Lia muitos textos e livros. Alguns bons e ótimos. Outros não tanto. Dialogava com muitas pessoas. Experimentava sensações e sentimentos. Sempre que possível, relacionava-se com o sol. Quando eclodiam lindas chances, não vacilava e ia à praia. Interagia com o mar. Ah, o mar...

Trabalhava com vontade. Ainda bem. Num ofício que envolvia estudos, interação e muita reflexão. No auge daquela vida barata, direcionava-se à busca de alguma felicidade. Que não sabia definir. Mas que (sentia bater forte) objetivava-se nas pessoas, na Sociologia e na prática da escrita. Nesses meandros morava a alegria. Morada singela, tentava sempre adorná-la com equilíbrio e esperança. Seguia em frente.

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Experimentando simetrizações

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

É triste. Dá um baita desânimo. Ouvir as colocações das pessoas sobre a educação básica pública me deixa chateado. Sobretudo pelo fato de que quase todas têm razão. As críticas se traduzem em muitas das práticas nas escolas públicas. Há um cenário desolador.

Mas não quero me prender nas lamúrias. Quero pensar no que faço. No que tento fazer. Desanimado, não desisto – ainda. Aposto nos estudantes. Tento buscar nos seus contributos, naquilo que eles têm a dizer, um caminho para a troca de aprendizagens. Um pouco (bem pouco) na linha de algumas das características de uma simetrização proposta pela Antropologia de Bruno Latour*. A busca por seguir nos atos, nos acontecimentos, na sala de aula, os dizeres dos educandos sem entendê-los como “outros inferiorizados” no que tange a uma cosmopolítica do conhecimento.

Sigo, conforme Latour, para ali adiante abandoná-lo. Simetrizados os diálogos entre docente e discente, quando enuncio a partir de alguma Sociologia, trago ao acontecimento o acúmulo das Ciências Sociais. Experimento conceitos. Ainda tomando o cuidado de não fazer dos “outros” sujeitos inferiorizados. Mas, quem sabe, emaranhando saberes hierarquicamente considerados díspares. Para, quem sabe, afastar o desânimo que o contexto oferece.

* Para iniciar uma leitura do autor, sugiro a obra: LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica. São Paulo: Editoria 34, 2009.

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terça-feira, 1 de abril de 2014

Ditaduras, democracias e contradições


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Contradições incomodam e constituem a vida, ao mesmo tempo.

Ontem, problematizando ditaduras e democracias com os estudantes que comigo dividem seu tempo, alimentei um sopro de esperança. Além de facilmente distinguirem as formas de governo, rejeitarem modelos autoritários, repressivos e censuradores por excelência, ainda trouxeram contribuições aos dias atuais. Disseram: a democracia precisa se aprofundar, pois ainda há opressão.

Hoje, leio coisas por aí, na vastidão da internet. Deparo-me com uma série de “mas”, “porém” e “contudo”. Palavras interpostas em conversas sobre a Ditadura Militar. Vejo alguns falarem de DitaBranda. Vejo muitos reproduzirem a falácia rasteira de que se vivia às portas do comunismo em 1964. Vejo defesas de parlamentares que nem merecem ter os nomes citados, tacanhos e toscos que são. Tudo isso no emaranhado da grande mídia e das redes sociais.

Pelo menos hoje muitas vozes têm eco. Não só as vozes fardadas ou adeptas às fardas. Não só aquelas que teimam em tentar sepultar qualquer esperança de democracia profunda. Vozes dissonantes. Para que o silêncio não retorne traduzido numa voz única, opressiva ao extremo. Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

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