SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Não, comunista não

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Ventava. Esperando o ônibus, atentava para a conversa das duas pessoas ao meu redor:

- Tu é comunista?
- Não, e tu?
- Bem capaz, de jeito nenhum!
- Hmm...
- Tá louco, já basta esses petralhas e a ditadura comunista em curso no Brasil. Eu não compactuo! – exclamou cheio de razão o interlocutor da conversa.
- Irmão, tá disposto ao diálogo?
- Claro, manda...
- Primeiro, tu precisa definir melhor o conceito de comunismo.
- Como assim?
- Lendo o Marx tu vai ver que a etapa sugerida como ditadura dos trabalhadores é considerada como socialismo, e a ideia teórica é acabar progressivamente com essa dominação. Até que todos os indivíduos possam experimentar a liberdade real de trabalho, vida e lazer. Sem submissão ou exploração de classe.
- Hahahahahahaha!!!!
- Na prática, as nações que se julgaram comunistas no máximo chegaram perto da etapa socialista. Tenho uma baita crítica ao totalitarismo desses países. Agora, não tem absolutamente nenhum elemento no Brasil que possa corroborar a tese de que estamos caminhando para o comunismo, seja o teórico ou esse aplicado por alguns no século XX.
- Ah, tá...
- Não tem, irmão. Os bancos privados nunca lucraram tanto quanto nos governos do PT. As grandes empresas multinacionais estão aí, dando as cartas na economia nacional. Embora ainda restem alguns ranços autoritários em determinadas instituições, há possibilidade de reivindicação, mídia livre (até demais) e liberdade de expressão, sobretudo para a direita.
- Vendo por esse lado, faz sentido. Mas e o Estado gigante que os petralhas só fazem crescer? E as cotas?
- Bom, mas daí até alguns economistas liberais demonstram a necessidade da participação do Estado no rumo dos negócios da nação. Assim como de políticas sociais recompensatórias para as minorias estigmatizadas. É uma discussão, mas não é comunismo!

Perplexo, sorri. Uma aula de realismo em pleno vendaval. A demora do ônibus ficou em segundo plano.

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