SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lançamento do livro “A formação docente em Ciências Sociais”


Em meio ao IX Seminário Institucional do PIBID UFRGS, no dia 22 de agosto de 2014, ocorreu o lançamento do livro A formação docente em Cîências Sociais: as experiências do PIBID e do Estágio de Docência, organizado pelas Professoras Doutoras Maria Lúcia Moritz e Roseli Inês Hickmann. O material, editado pela Oikos, congrega textos dasImagem reproduzida do site http://oikoseditora.com.br/new/obra/index/id/500 então coordenadoras do PIBID Ciências Sociais UFRGS (em 2013), das coordenadoras dos Estágios de Docência em Ciências Sociais da UFRGS, dos supervisores do PIBID na Escola Técnica Estadual Ernesto Dornelles e no Colégio Estadual Padre Réus, além de escritos dos bolsistas do PIBID das duas escolas e dos estagiários da UFRGS. O livro pode ser adquiro pelo site da editora. Abaixo consta o sumário da publicação.

Parte I – Pibid-Ciências Sociais e seu mosaico de experiências

A produção da docência em Sociologia no Ensino Médio: sobre a experiência do PIBID (Roseli Inês Hickmann e Maria Lúcia Moritz)

Qual Sociologia construir no Ensino Médio? Pensando o fazer prático numa perspectiva aberta, múltipla e diversa (Bernardo Caprara, Marco Plá e Guilherme Rodrigues)

Democratizando as formas de conhecer o mundo (Bruna Molina Leal, Guilherme Soares e Marcela Donini de Lemos)

Políticas de Educação, Sociologia no Ensino Médio e Avaliação (Gabriel Arnt, Gustavo Silveira e Murilo Gelain Gonçalves)

Oficina Interdisciplinar: “Antes que a Zona Sul Acabe” (Marcos Machado Duarte)

Parte II – As experiências dos estagiários na Escola

O ofício de professor de Sociologia e as experiências de estagiários na escola (Rosimeri Aquino da Silva e Célia Elizabete Caregnato)

Números sobre a desigualdade educacional brasileira (Alan da Rosa)

A Leitura no processo de aprendizagem em Sociologia (Felipe Madeira)

Prática pedagógica em Direitos Humanos na formação de professores/as (Lúcia Flesch)

Pensando o ensino de Sociologia a partir do estágio docente em Ciências Sociais (Stefan Hubert)

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terça-feira, 19 de agosto de 2014

A escola dos meus sonhos

Por Frei Betto
Teólogo e Escritor

Na escola de meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, conhecer mecânica de automóvel e de geladeira, e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra.

Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim, aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões subterrâneas que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.

Não há temas tabus. Todas as situações-limites da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a física, nas corridas da Fórmula 1 e pesquisas do supertelescópio Hubble; a química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a história, na violência de policiais a cidadãos, para mostrar os antecedentes na relação colonizadores-índios, senhores-escravos, Exército-Canudos etc.

Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de biologia e de educação física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a história do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e de dança, e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas.

Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo; o pai-de-santo do candomblé; o padre do catolicismo; o médium do espiritismo; o pastor do protestantismo; o guru do budismo etc. Se for católica, promove retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja.

Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazerem periódicos treinamentos e cursos de capacitação, e só são admitidos se, além da competência, comungam com os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido sobre o que são democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.

Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto, adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente; a visão de felicidade; a relação animador-platéia; os tabus e preconceitos reforçados etc. Em suma, não se fecha os olhos à realidade; muda-se a ótica de encará-la.

Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e um mês por ano setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.

Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil os alunos traziam à classe toda a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar.

Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e recursos.

É mais importante educar que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que a ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito, e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.

Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para poderem se manter. Pois é a escola de uma sociedade onde educação não é privilégio, mas direito universal e, o acesso a ela, dever obrigatório.

Texto reproduzido do site do autor, onde podem ser encontrados outros artigos: http://www.freibetto.org/index.php/artigos/14-artigos/25-a-escola-dos-meus-sonhos.

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Duas pessoas, duas verdades

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Duas pessoas.

- Bah, hoje começa o horário eleitoral. Que bosta. Que chatice...
- Nada a ver, meu. Eu vou tentar ver todos que puder. Quero informação.
- Ah, por favor.
- Qual foi?
- As eleições são um jogo de cartas marcadas. Todos os candidatos que podem ganhar são financiados pelas mesmas grandes corporações. Além disso, o fato é que o poder econômico concentrado é o substrato da sociedade capitalista. Temos alguns direitos políticos, alguns direitos civis e religiosos até. Mas a civilização ocidental, com essa ideia de produzir mais e mais, já destruiu vários mundos com a colonização e não acabou com a exploração do trabalho. Agora tá destruindo a si mesma, à custa de quem põe a mão na massa.
- Pois é. Não discordo. Só que a eleição tá aí, batendo na porta. Sei que fazemos micropolíticas no cotidiano, mas a política institucional tem alguns efeitos na vida das pessoas. Alguns efeitos ela tem. Quero saber como se posicionam os candidatos em polêmicas como a taxação das grandes fortunas, o aborto, as drogas, a desmilitarização das polícias, os médicos estrangeiros, as ações afirmativas, o casamento homossexual, a regulação das mídias e etc. Além dos projetos sobre política econômica, saúde e educação. A vida de muitas pessoas está em jogo.

Duas verdades.

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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ontologias, epistemologias e metodologias nas Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A professora de Sociologia Política da European University Institute, Donatella Della Porta, em conjunto com Michael Keating, professor de Ciência Política da University of Aberdeen, apresenta duas tabelas que tentam congregar uma tipologia acerca das possibilidades ontológicas, epistemológicas e metodológicas nas Ciências Sociais. Ainda que a tentativa gere muitas controvérsias, vale analisar e problematizar o material, que ajuda a pensar questões subjacentes ao fazer científico.

How many ontologies and epistemologies?

How many methodologies in the social sciences?

Tabelas disponíveis em: DELLA PORTA, Donatella; KEATING, Michael. Approaches and Methodologies in the Social Sciences: A pluralist perspective. New York: Cambridge, 2008. Páginas 23 e 32.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Mapa das desigualdades de renda no mundo globalizado

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A desigualdade de renda ou de rendimentos, indicador bastante conhecido das desigualdades econômicas, pode ser medida pelo Coeficiente de Gini. Com base nessas evidências, o mapa abaixo demonstra a incidência das desigualdades de renda no mundo globalizado. Os países com maior desigualdade estão marcados nas cores escuras (preto, vermelho escuro e vermelho). Localizam-se, de modo geral, na América Latina e na África. O mapa está contido no CIA World Factbook 2009.

Imagem reproduzida de http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/32/Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg/1280px-Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg.png

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Saudosa maloca

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Fazia tempo que não rolava um samba por lá. Naquela noite, a lua cheia clareava as ruas da cidade. Três amigos observavam atônitos os escombros que tomavam conta da quebrada. De repente, dois levantaram, resmungando e entrebatendo-se.

- Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí, a procurar. Rir pra não chorar.

- Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.

O terceiro, extenuado na sarjeta, sentenciou baixinho, quase calado, num misto de desolação e nostalgia:

- Saudosa maloca... Maloca querida! Din Din Donde nóis passemo os dias feliz de nossas vida.

Nas camisas que vestiam, produzidas com esperança, uma verdade gritava em silêncio, impressa em letras tristes nos tecidos desgastados: “Quando morar é um privilégio, ocupar é um dever”.

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