SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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domingo, 31 de agosto de 2014

O intrigante apoio à Marina Silva

Por Gregório Grisa*
Pedagogo e Professor

Intelectuais que respeito e admiro profundamente me intrigam ao apoiar Marina para presidência. Eles formam um coletivo próximo, ligados aos direitos humanos, com visão progressista sobre costumes, economia, papel do Estado e democracia. Me intriga no sentido de que o diagnóstico que fazem do governo petista, que é preciso e com o qual tenho grandes concordâncias, não combina com aceitar honestamente Marina como uma alternativa mais progressista ou de esquerda.

Me intriga porque a capacidade ímpar que esses intelectuais tem de fazer a acurada análise do atual governo, não é a mesma usada para explicar sua "crença" em Marina como possibilidade. O que esse coletivo tem em comum, me parece, é que encontrou em Marina a chance de promover dois movimentos:

1- O primeiro é fazer o debate com a esquerda de oposição sem estar dentro dela, esses intelectuais admiram o PSOL, em alguma medida o PSTU e quadros do PCB, mas não vislumbram nesses partidos possibilidade de vitória eleitoral e não são adeptos a "radicalidade" e estrutura desses partidos. Encontram na personalidade e biografia de Marina uma pseudoneutralidade, lugar para falar com autoridade. Pessoalmente a pureza de Marina é usada como qualidade do projeto que ela representa, é claro que esses intelectuais, muito mais capazes que eu, sabem que a atual composição da candidatura de Marina não representa melhoria, pelo contrário, abre precedente para um governo de coalizão mais conservador com forte participação da direita e manutenção do "pemedebismo" (conceito cunhado por Marcos Nobre) como modus operandi na relação com o congresso.

2 - o segundo movimento, em alguma medida, explica a posição desses intelectuais. Esse grupo tem uma relação íntima de repulsa freudiana com o PT, fizeram parte do partido, do poder, da gestão em alguns casos e, em função das disputas internas, não conseguiram levar adiante seus projetos pessoais e de sociedade que são de vanguarda e relevantes. Então, legitimamente, buscam alternativas para voltar a dar sua contribuição na esfera estatal como promotor de políticas públicas e encontraram na relação pessoal com Marina uma via para efetivar esse objetivo.

Com um discurso muito bem costurado, esse grupo de intelectuais progressistas rebate as críticas à complicada filiação religiosa de Marina, com um malabarismo libertário e não questiona a gravidade das lacunas contidas em Marina quando do debate sobre a descriminalização do aborto, da regulamentação das drogas, a legalização do casamento homoafetivo que inclusive são bandeiras centrais desses intelectuais.

No que tange o debate econômico Marina também não se posiciona, como ficou claro no debate da Bandeirantes, sua tentativa de reconhecer medidas de governos neoliberais e petistas se configura em uma estratégia de marketing mais do que uma convicção. Há uma clara tentativa de construir um discurso conciliador genérico em busca de votos dos "equilibrados".

Visando passar uma imagem de futura estadista ponderada, roupagem palatável para a mídia, empresários e banqueiros, Marina fala em independência do Banco Central e governo dos bons, dos de bem, sem realmente romper com nenhum interesse dos setores hegemônicos. Essa não ruptura que é fortemente criticada por esses intelectuais, com razão, quando se trata do governo do PT.

Se Marcos Rolim, Luis Eduardo Soares, exemplos de intelectuais que estou me referindo, realmente vislumbram em Marina uma alternativa progressista para o Brasil, tenho bem mais divergências políticas com eles do que imaginava, isso me intriga porque os tenho como referência intelectual.

Com esse breve texto não pretendo fazer uma defesa do governo do PT, pelo contrário, penso que muito mais poderia ser feito, e que esses avanços não passam por Marina, o projeto que ela ora protagoniza representa um dificultador para essas conquistas.

As alternativas eleitoras são condicionadas pelas máquinas de financiamento privado de campanha, pelo desigual tempo de Tv, pela indústria das pesquisas, os candidatos que eu escolheria não estão na disputa. Entretanto, em um possível segundo turno, tenho clareza que a vitória de Dilma, dentro das possibilidades, é o melhor cenário.

* Reproduzido do blog Augere:  http://lounge.obviousmag.org/augere/2014/08/o-intrigante-apoio-a-marina.html.

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lançamento do livro “A formação docente em Ciências Sociais”


Em meio ao IX Seminário Institucional do PIBID UFRGS, no dia 22 de agosto de 2014, ocorreu o lançamento do livro A formação docente em Cîências Sociais: as experiências do PIBID e do Estágio de Docência, organizado pelas Professoras Doutoras Maria Lúcia Moritz e Roseli Inês Hickmann. O material, editado pela Oikos, congrega textos dasImagem reproduzida do site http://oikoseditora.com.br/new/obra/index/id/500 então coordenadoras do PIBID Ciências Sociais UFRGS (em 2013), das coordenadoras dos Estágios de Docência em Ciências Sociais da UFRGS, dos supervisores do PIBID na Escola Técnica Estadual Ernesto Dornelles e no Colégio Estadual Padre Réus, além de escritos dos bolsistas do PIBID das duas escolas e dos estagiários da UFRGS. O livro pode ser adquiro pelo site da editora. Abaixo consta o sumário da publicação.

Parte I – Pibid-Ciências Sociais e seu mosaico de experiências

A produção da docência em Sociologia no Ensino Médio: sobre a experiência do PIBID (Roseli Inês Hickmann e Maria Lúcia Moritz)

Qual Sociologia construir no Ensino Médio? Pensando o fazer prático numa perspectiva aberta, múltipla e diversa (Bernardo Caprara, Marco Plá e Guilherme Rodrigues)

Democratizando as formas de conhecer o mundo (Bruna Molina Leal, Guilherme Soares e Marcela Donini de Lemos)

Políticas de Educação, Sociologia no Ensino Médio e Avaliação (Gabriel Arnt, Gustavo Silveira e Murilo Gelain Gonçalves)

Oficina Interdisciplinar: “Antes que a Zona Sul Acabe” (Marcos Machado Duarte)

Parte II – As experiências dos estagiários na Escola

O ofício de professor de Sociologia e as experiências de estagiários na escola (Rosimeri Aquino da Silva e Célia Elizabete Caregnato)

Números sobre a desigualdade educacional brasileira (Alan da Rosa)

A Leitura no processo de aprendizagem em Sociologia (Felipe Madeira)

Prática pedagógica em Direitos Humanos na formação de professores/as (Lúcia Flesch)

Pensando o ensino de Sociologia a partir do estágio docente em Ciências Sociais (Stefan Hubert)

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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Marina Silva: nova política?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma pergunta sacode as eleições que vêm aí: Marina Silva representa uma alternativa real de transformação? Um novo jeito de fazer política? Não tenho respostas, mas vou arriscar algumas considerações, com base em aspectos relacionados à política econômica e a alguns temas existenciais polêmicos.

Sob o prisma da política econômica, Marina pouco se pronunciou até o momento. Porém, é sabido que a respeitável candidata mantém fortes relações intelectuais com Eduardo Giannetti da Fonseca, economista e cientista social de orientação liberal. Ele tem proferido teses que apontam para um enxugamento do Estado e para a manutenção ferrenha do “tripé” superávit primário, câmbio flutuante e regime de metas de inflação. Nessa linha, prega um governo menos estatista e mais suscetível aos mercados, através de uma contundente austeridade fiscal, mesmo que isso acarrete aumento do desemprego e diminuição do consumo das classes populares (1). Sabe-se, também, que Marina tem em Maria Alice Setúbal, herdeira do Banco Itaú, uma articuladora central do seu partido (Rede Sustentabilidade) e das suas concepções em economia (2).

No que tange aos tópicos existenciais polêmicos, como casamento homoafetivo, aborto, drogas ou pesquisas com células-tronco, Marina não se distingue em nada da política tradicional. Não se posiciona efusivamente de maneira distinta aos demais participantes, ou seja, reluta em avançar nessas pautas (3). Deve-se dizer, contudo, que a candidata do PSB tem uma visão muito interessante sobre meio ambiente e minorias no campo. Nesse ponto, Marina tinha tudo para se mostrar uma alternativa, uma novidade política. Porém, quando avalizou Beto Albuquerque como seu possível vice, avalizou a presença de um dos grandes conectores do agronegócio no parlamento nacional (4). Do ponto de vista pragmático, para vencer o pleito, parece uma boa cartada. Só que retira qualquer elemento de novidade no espectro ambiental.

Em termos estritamente políticos, não menos importantes, se Marina se propõe a porta-voz de uma nova política, por que aderiu ao PSB, um partido que de novo nada exibe? Uma nova política é necessariamente imediatista e institucional? Não poderia ser constituída nas ruas, pelas ruas, até que, enfim, galgasse postos institucionais?

A partir dos motivos acima, não vejo Marina Silva como uma alternativa real de transformação, tampouco de fomento a uma nova política. Suas cartas estão no jogo há muito tempo. Posso estar equivocado. Só o futuro poderá dizer.

Notas:

(1) http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1359699-marina-silva-faria-governo-menos-estatizante-que-dilma-diz-eduardo-giannetti.shtml.
(2)
http://oglobo.globo.com/brasil/a-fada-madrinha-de-marina-silva-8631231.
(3)
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/eleicoes-2014/noticia/2014/08/da-religiao-a-politica-economica-o-que-pensa-marina-silva-4578448.html.
(4)
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/quem-e-beto-albuquerque-o-vice-de-marina-silva.

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terça-feira, 19 de agosto de 2014

A escola dos meus sonhos

Por Frei Betto
Teólogo e Escritor

Na escola de meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, conhecer mecânica de automóvel e de geladeira, e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra.

Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim, aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões subterrâneas que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.

Não há temas tabus. Todas as situações-limites da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a física, nas corridas da Fórmula 1 e pesquisas do supertelescópio Hubble; a química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a história, na violência de policiais a cidadãos, para mostrar os antecedentes na relação colonizadores-índios, senhores-escravos, Exército-Canudos etc.

Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de biologia e de educação física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a história do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e de dança, e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas.

Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo; o pai-de-santo do candomblé; o padre do catolicismo; o médium do espiritismo; o pastor do protestantismo; o guru do budismo etc. Se for católica, promove retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja.

Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazerem periódicos treinamentos e cursos de capacitação, e só são admitidos se, além da competência, comungam com os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido sobre o que são democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.

Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto, adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente; a visão de felicidade; a relação animador-platéia; os tabus e preconceitos reforçados etc. Em suma, não se fecha os olhos à realidade; muda-se a ótica de encará-la.

Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e um mês por ano setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.

Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil os alunos traziam à classe toda a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar.

Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e recursos.

É mais importante educar que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que a ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito, e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.

Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para poderem se manter. Pois é a escola de uma sociedade onde educação não é privilégio, mas direito universal e, o acesso a ela, dever obrigatório.

Texto reproduzido do site do autor, onde podem ser encontrados outros artigos: http://www.freibetto.org/index.php/artigos/14-artigos/25-a-escola-dos-meus-sonhos.

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Duas pessoas, duas verdades

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Duas pessoas.

- Bah, hoje começa o horário eleitoral. Que bosta. Que chatice...
- Nada a ver, meu. Eu vou tentar ver todos que puder. Quero informação.
- Ah, por favor.
- Qual foi?
- As eleições são um jogo de cartas marcadas. Todos os candidatos que podem ganhar são financiados pelas mesmas grandes corporações. Além disso, o fato é que o poder econômico concentrado é o substrato da sociedade capitalista. Temos alguns direitos políticos, alguns direitos civis e religiosos até. Mas a civilização ocidental, com essa ideia de produzir mais e mais, já destruiu vários mundos com a colonização e não acabou com a exploração do trabalho. Agora tá destruindo a si mesma, à custa de quem põe a mão na massa.
- Pois é. Não discordo. Só que a eleição tá aí, batendo na porta. Sei que fazemos micropolíticas no cotidiano, mas a política institucional tem alguns efeitos na vida das pessoas. Alguns efeitos ela tem. Quero saber como se posicionam os candidatos em polêmicas como a taxação das grandes fortunas, o aborto, as drogas, a desmilitarização das polícias, os médicos estrangeiros, as ações afirmativas, o casamento homossexual, a regulação das mídias e etc. Além dos projetos sobre política econômica, saúde e educação. A vida de muitas pessoas está em jogo.

Duas verdades.

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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ontologias, epistemologias e metodologias nas Ciências Sociais

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A professora de Sociologia Política da European University Institute, Donatella Della Porta, em conjunto com Michael Keating, professor de Ciência Política da University of Aberdeen, apresenta duas tabelas que tentam congregar uma tipologia acerca das possibilidades ontológicas, epistemológicas e metodológicas nas Ciências Sociais. Ainda que a tentativa gere muitas controvérsias, vale analisar e problematizar o material, que ajuda a pensar questões subjacentes ao fazer científico.

How many ontologies and epistemologies?

How many methodologies in the social sciences?

Tabelas disponíveis em: DELLA PORTA, Donatella; KEATING, Michael. Approaches and Methodologies in the Social Sciences: A pluralist perspective. New York: Cambridge, 2008. Páginas 23 e 32.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Mapa das desigualdades de renda no mundo globalizado

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A desigualdade de renda ou de rendimentos, indicador bastante conhecido das desigualdades econômicas, pode ser medida pelo Coeficiente de Gini. Com base nessas evidências, o mapa abaixo demonstra a incidência das desigualdades de renda no mundo globalizado. Os países com maior desigualdade estão marcados nas cores escuras (preto, vermelho escuro e vermelho). Localizam-se, de modo geral, na América Latina e na África. O mapa está contido no CIA World Factbook 2009.

Imagem reproduzida de http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/32/Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg/1280px-Gini_Coefficient_World_CIA_Report_2009.svg.png

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Saudosa maloca

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Fazia tempo que não rolava um samba por lá. Naquela noite, a lua cheia clareava as ruas da cidade. Três amigos observavam atônitos os escombros que tomavam conta da quebrada. De repente, dois levantaram, resmungando e entrebatendo-se.

- Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí, a procurar. Rir pra não chorar.

- Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.

O terceiro, extenuado na sarjeta, sentenciou baixinho, quase calado, num misto de desolação e nostalgia:

- Saudosa maloca... Maloca querida! Din Din Donde nóis passemo os dias feliz de nossas vida.

Nas camisas que vestiam, produzidas com esperança, uma verdade gritava em silêncio, impressa em letras tristes nos tecidos desgastados: “Quando morar é um privilégio, ocupar é um dever”.

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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Do desânimo à reflexão

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Na volta às aulas, em meio ao desânimo quase geral, uma conversa ganha relevo:

- Acho que o melhor a fazer é largar tudo, juntar o que sobrar de dinheiro e fundar ou se mudar para uma comunidade alternativa. Integrar a natureza e esquecer todas as tretas da cidade grande. Deixar de consumir o que nos consome.

- Pois é. Até entendo essa postura, ela se associa bem ao nosso tempo. Algo como “procure fazer a sua felicidade que o resto todo será feliz”. Uma filosofia que beira o utilitarismo, sem nomeá-lo. Também tenho a vontade de baixar o ritmo, ficar mais perto do mar, botar o pé na grama e respirar um ar mais puro.

- Então, é disso que eu tô falando!

- É, mas a minha vontade é a minha vontade. Que pode até se consolidar, numa cidade em que essas características existam. Não posso e não quero, entretanto, eximir-me da minha parcela de responsabilidade para com os grandes problemas do mundo. O destino dos outros cruza o meu e o teu destino. Não consigo isolar-me e satisfazer-me com a minha felicidade somente. Por isso escolhi ser professor. Para construir saberes coletivos sobre o mundo, sobre a vida dos seres humanos e, assim, tentar contribuir com um mundo menos desigual, injusto e opressivo. Para que todos nós possamos sonhar.

Do desânimo à reflexão. Da reflexão ao retorno às atividades profissionais.

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