SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O fantasma de Zenão: Brasil ou Eléia?


Gabriel Torelly
Professor e Historiador

Sobre o voto nulo ou a abstenção, meu ponto seria o seguinte: não se trata de compreender a abstenção como terceirização de responsabilidades, mas como fonte de um enigma irredutível ao conflito entre dois termos (A x B). A abstenção seria um terceiro termo compreendido em si mesmo, no próprio interior da sua diferença. O Terceiro (a abstenção) seria senhor (a) da sua própria efetuação. Partindo dessa leitura, prefiro pensar o Terceiro como o espaço ideal ocupado por um numeral obscuro, ou como imagem plural que perde toda potência quando reduzida aos efeitos provocados no interior do jogo entre o Primeiro e o Segundo. Duas reduções comuns do Terceiro: esterilidade indiferente (Terceiro = Nada); figura desqualificada ou, no caso específico das eleições, “despolitizada”, que provoca efeitos diversos na relação entre o Primeiro e o Segundo (Terceiro = coisa qualificada negativamente).

Por outro lado, encarado enquanto numeral obscuro, o Terceiro pode ser entendido como espaço ideal de uma alteridade enigmática. Por que reduzir esse aspecto incerto e múltiplo da alteridade a uma interpretação que lhe retira/recusa toda dimensão qualitativa? No meu modo de ver, parece que perdemos possibilidades aí, limitando, ao invés de alargar, a perspectiva de análise. Enfim, a interpretação é livre; incontornáveis talvez sejam os golpes de linguagem totalizadores sobre os quais ela se constrói; o significado está em constante disputa. Mas também seria justo dizer que cada um é livre pra construir a moralidade do seu voto/conduta e preencher-lhes o significado de maneiras diferentes e nuançadas. São as nuances multiformes da abstenção o que se perde quando se faz delas um pálido reflexo da relação entre A e B.

O vocábulo abstenção pode ser sinônimo da ousadia sintática que procura deslizar para fora ou derivar até um espaço que se descole do paradigma agonizante (aparadigmático/neoparadigmático). Nesse caso, extrair o sentido do Terceiro do conflito ou da relação entre A e B pode ser um engodo intelectual e, mais profundamente, uma versão política da famosa batida de carteira epistemológica do outro. Na melhor das hipóteses, dizer que o voto nulo influi negativamente no cálculo das probabilidades duais é não dizer nada a seu respeito; na pior delas, significa ignorar um coeficiente diferencial, silenciando e anulando toda potência de significação situada fora de uma gramática política atualizada. Em todos os casos, policiar o sentido da abstenção é jogar o jogo do Estado, fazendo por ele o trabalho sujo de enquadramento e categorização – violento, injusto, indelicado. Mais inquietante do que se ver obrigado a escolher entre A e B é atualizar constantemente o espaço retórico no qual se move esse combate, simplesmente fácil demais para ser interessante.

A x B é a armadilha da soberania política contra a independência do bando. A x B funciona como uma moral que a um só tempo interioriza e infantiliza a expressão do Terceiro. Nesse jogo, o Terceiro é desde sempre o ingênuo, aquele que não sabe o que se passa ou não reconhece as consequências evidentes daquilo que faz. Exteriorizado em relação à razão eleitoral, internalizado como um pobre diabo carente de orientação e de consciência. O sanatório das abstenções é povoado por um conjunto de débeis com fraqueza de juízo. É preciso que alguém lhes corrija e lhes traga novamente para dentro da zona de comunicação ideosférica. O sentido precisa estar amarrado entre A e B, do contrário, o que vai ser? O que vai servir? Como antever o horizonte do desejo da persona votante?

Drogado pelos efeitos alucinógenos da democracia representativa, ele não pode conceber nenhum tipo de presença que esteja fora do seu estado. O crítico da abstenção pode parecer por vezes um estranho democrata às avessas. Forçando o jogo do sentido para o interior do campo que lhe favorece, para dentro da gramática política na qual ele encontra-se mergulhado, acaba por enfiar as pernas no autoritarismo. Pouco importa se ele foi drogado por Collor, Aécio, Dilma ou Itamar (ok, talvez importe, mas isso não é o essencial). O fato é que ele está drogado e os efeitos se manifestam no sistema de linguagem com o qual opera. O despotismo do Significante pode ser uma enfermidade mais severa do que uma opção eventual entre A e B. Não se trata de argumentar que a abstenção seja de alguma maneira revolucionária ou conservadora, mas de reconhecer-lhe o direito à sua própria discursividade.

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