SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Desigualdade, violência e uma falsa rinha


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Seria engraçado, não fosse uma tragédia anunciada.

Na mesma semana em que o relatório da Oxfam (1) sobre o crescimento das desigualdades econômicas ganhou repercussão mundial, ocorre o grande evento dos ricaços do planeta, o Fórum em Davos. Deve estar uma delícia por lá. Por aqui, só a delícia do pau comendo e da labuta de sol a sol.

Na mesma semana, uma pá de gente aqui no Brasil baba por pena de morte, porrada e mais porrada, olho por olho e dente por dente. Pelo visto, o negócio é todo mundo acabar cego e sem dente. Quando é preto e pobre, tem que matar! Quando é branco e médico, mesmo envolvido na máfia das próteses ou entrando de costas nos hospitais públicos, reina o silêncio ensurdecedor. Dois pesos, duas medidas. Bonito.

O pessoal da sanha vingativa esquece algumas questões. Quem produz as armas? Quem produz as drogas? Quem comercializa as armas e as faz chegar nas mãos da população, em geral dos mais vulneráveis socialmente? Quem? Quem? Tem fábrica de armas na favela? Tem plantação de coca ou maconha em larga escala na periferia? Isso para listar só algumas inquietudes.

Ah, não adianta fugir. No fim, o debate (de ideias, por favor) termina onde começa, na velha e falsa rinha sociológica: o que move, no limite, a realidade social? A ação de cada um de nós ou as estruturas e os condicionamentos coletivos? O sujeito não produziu a arma, mas poderia escolher por não atirar. Verdade. Sem a arma, entretanto, ele não teria como atirar. É mesmo. E assim a roda gira e a falsa rinha subjaz – escondida – as rotinas alheias.

Resposta, prontinha e acabada, parece não existir. Mas pensar sobre pode ser interessante. O livre arbítrio pode não ser tão livre assim. Outros arbítrios podem influenciá-lo. Os de hoje. Os de ontem. A coerção coletiva, as instituições e as estruturas podem não ser tão pesadas. As de hoje. As de ontem.

Seria bom apenas pensar, não fosse o cotidiano marcado por tragédias anunciadas.

Notas

(1) O relatório da Oxfam está disponível em português. Vale a pena uma lida com atenção. Os seus dados e conclusões podem ser questionados, visto que, do ponto de vista metodológico, investigar a riqueza e a renda (aspectos econômicos) não é nada fácil e não se dá num contexto de consenso. De todo modo, o relatório vale a leitura.

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