SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ser ou não ser Charlie não é a questão


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Ser ou não ser Charlie Hebdo, eis a questão?

Seria pouco. Seria reduzir demais um debate muito complexo e cheio de paradoxos.

Primeiro paradoxo: muitos defendem a liberdade de expressão como um bem supremo. Importante. Deve ou não deve ter limites? Na França, a legislação coíbe a injúria, a difamação, a incitação ao ódio, à violência e à discriminação. Há limites. Charlie Hebdo não pode ser enquadrada nesses pontos? Apenas o humorista francês Dieudonné M’Bala, detido ontem, pode ser enquadrado nesses pontos? E os fascistas que podem ganhar as próximas eleições por lá, não podem ser enquadrados nesses pontos? Se a liberdade é irrestrita, que seja para todos. Se há limites, que valham para todos. Não?

Segundo paradoxo: por aqui, o que mais se vê são as justas condolências pelos mortos franceses. Justas condolências. O terrorismo é injustificável. Indefensável. Em geral, associa-se ao terrorismo o Hamas, o Estado Islâmico, a Al Qaeda. Ok. Suas variantes ocidentais, entretanto, são esquecidas. As ações militares do Estado de Israel e dos Estados Unidos são justificáveis? Os extermínios dos palestinos, dos iraquianos, dos jovens negros e pobres brasileiros, dos estudantes mexicanos, dos nigerianos e de tantos outros civis são justificáveis? Se o combate ao terrorismo e à violência é prioridade, que seja para todos. Inclusive no ocidente. Não?

Por fim, do ponto de vista teórico, além de ser impossível deixar de falar no colonialismo, tão recente e com profundas feridas ainda abertas nos povos saqueados, um debate em especial parece decisivo na atualidade. A discussão sociológica e antropológica entre o relativismo cultural extremo e o etnocentrismo pode estar na ordem do dia. Num contexto de valorização de determinados elementos culturais e de rejeição ao diferente, cabe apenas aderir ao polo oposto? Relativizar tudo? Que se respeite cada tradição cultural e que não haja limites para elas? Onde está o caminho?

Vale pensar.

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