SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Na Lagoinha, sem medos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O saudoso Eduardo Galeano dizia que somos feitos de histórias. Gosto de histórias. Também gosto de acampar. Nem sempre foi assim. Afinal, a ordem hegemônica é buscar o conforto com todas as forças. Ora, foi na primeira vez que acampei que vivi uma das histórias que nunca foge da minha memória.

Tinha 17 anos, pouca grana e muita alegria pra viajar cheio de amigos, sobretudo após ter finalizado o colégio. O último paradeiro da viagem era um paraíso. É um paraíso. Depois de atravessar os morros que levam à Lagoinha do Leste, aquela imensidão de beleza cobriu os nossos olhos. Que lugar. A natureza sabe das coisas, escondeu da humanidade uma obra de arte viva e pulsante.

Só que os humanos somos teimosos. Chegando à Lagoinha, caminhamos até a beira, que se confunde com o oceano majestoso. Avistamos um lugar na areia e pensamos em montar o acampamento. Quanto amadorismo. Não sabíamos, mas nossa escolha era um péssimo local. Havia outros muito mais adequados.

Ao agilizarmos as barracas, uma doce jovem se aproximou, tão bela e sensual quanto misteriosa, trazendo seu gato num dos ombros. Espantados, calamos receosos. Ela não.

- Meninos, nossos amigos acabaram de largar. Vocês não querem parar ali do lado da nossa casa? Eu sou a Daniela.

Casa? Não havia casas na Lagoinha, isso nós sabíamos. Havia e há muito mato e beleza, mas casas não. Desconfiados, com medo, tomados pela sensação de que aquela moça nos traria perigo ou problemas, relutamos. Aquilo só poderia ser treta das mais graves.

Não lembro a razão, mas seguimos a dica. Chegamos ao acampamento sugerido e encontramos uma verdadeira casa feita de lonas, taquaras e pequenas pedras. Alexandre chegou e se apresentou. Fomos tratados pelo casal, dali até o fim da nossa estadia, como bons amigos. Feijão, café, fogo a qualquer momento, histórias, cachacinhas e a viola rolando no entorno da fogueira. Muitos aprendizados. Pura alegria.

O dinheiro e o poder perderam espaço naquele improvável encontro. Quando estou de saco cheio, desanimado, sem acreditar que um mundo com menos ódio e violência é possível, costumo recordar daqueles dias. Lindos dias. Alexandre ou Daniela parecem me dizer: senta aí, toma um café, tenho uma história pra te contar. Então sou tomado por saudades daquelas pessoas que pouco conheci, mas que me fazem não perder a esperança. Sim, Galeano: há de se viver sem medos.

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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eduardo Galeano: presente!

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Eduardo Galeano. O gênio. A grande inspiração. Há de se viver sem medos. Há de se bradar que somos latino-americanos, somos do sul da Terra. Somos a mistura, o caldo da colonização, o coração ameríndio que sofre, mas não desiste.

Galeano viveu e sofreu os horrores das ditaduras militares. Não apenas embelezou o mundo com palavras, ações e sentimentos, como também mexeu nele procurando afastar opressões, desigualdades e violências contra os de sempre. Os de baixo.

Vai, Galeano. Leva a tua arte e a tua luta para outros pampas. Tristes nós, que ficamos sem a tua presença inspiradora. Tristes, mas de cabeça erguida. Em tempos de retrocesso, só nos cabe evocar a tua presença. E nós o faremos. Sempre. Com emoção e carinho, eterno poeta.

- Eduardo Galeano: presente! América Latina: presente!

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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Terceirizações e o precariado brasileiro


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 4330/2004 (1), que pretende autorizar a terceirização indiscriminada no Brasil. Se aprovado, significa que Universidades privadas e públicas poderão terceirizar não mais apenas serviços de limpeza ou vigilância, mas também a contratação dos seus professores ou técnicos educacionais. No limite, os tribunais poderão terceirizar juízes e assim por diante. Um passa. Outro repassa.

Leia também: SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. PL 4330/2004: maldade explícita e ilusão

Desde a década de 1970, com a intensificação da globalização econômica e o fim do socialismo real, a desregulamentação das movimentações de capital, a sua concentração e a supressão de direitos trabalhistas estão na ordem do dia. Os direitos vão sumindo e o tão esperado desenvolvimento, o progresso, nunca chega para todos. Só para alguns. A desigualdade aumenta (2). Cresce o contingente de pessoas que vive com baixa remuneração, nenhum estímulo à qualificação e precárias redes de proteção social (3).

O sociólogo britânico Guy Standing, da Universidade de Londres, aponta nas suas recentes pesquisas a existência de uma nova classe social derivada do capitalismo contemporâneo: o precariado (4). Os indivíduos que se enquadram nessa categoria prestam serviços em situações de contratos sempre temporários, com remunerações abaixo da média do mercado, possuem qualificações mínimas e não encontram sentido nas suas atividades laborais. Não se identificam com elas. Como se fossem levados pela maré da sobrevivência, suando por migalhas que apenas os deixam vivos. Não há estabilidade. Nem segurança. Quiçá perspectiva futura.

O Brasil se notabiliza historicamente por um numeroso mercado de trabalho informal. Os dados do IBGE (PNAD 2014) mostram que a informalidade ainda é grande. Joga-se sempre a culpa no Estado e nos impostos, mas poucos lembram de olhar para os países do centro do capitalismo, com as suas altas taxas tributárias e os seus altos índices de formalização do trabalho. Sem dúvidas, é oneroso ser micro ou pequeno empreendedor por aqui. Só que as costas dos trabalhadores não são tão largas para dar conta de todos os reclames do empresariado.

A provável aprovação do PL 4330/2004 oferecerá suporte jurídico a um processo de aprofundamento da exploração dos trabalhadores e promete engordar o caldo do precariado brasileiro, para usar a expressão de Standing. Dezenove dos 26 ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST) declararam-se veementemente contrários ao PL que dizem acarretar “gravíssima lesão social de direitos sociais trabalhistas e previdenciários no País” (5). Saliente-se, ainda, que o serviço prestado por empresas terceirizadas costuma ser de baixa qualidade e imbricar consequências nefastas inclusive para os consumidores.

A advertência de Guy Standing quanto ao provável verniz ideológico do precariado requer um tratamento cuidadoso. O autor constrói a imagem de uma classe social perigosa, filo-fascista, cuja alienação se acentua e os valores da democracia não colam, não surtem muito efeito. É essa classe que o fomento das terceirizações indiscriminadas poderá fazer crescer. É de se pensar, investigar e procurar alternativas. E de se preocupar.

Referências

(1) http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=267841.
(2) https://publications.credit-suisse.com/tasks/render/file/?fileID=BCDB1364-A105-0560-1332EC9100FF5C83.
(3) http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/employment/pub/economia_informal_241.pdf.
(4) http://blogdaboitempo.com.br/2014/02/14/nova-classe-perigosa/.
(5) http://s.conjur.com.br/dl/oficio-tst-terceirizacao.pdf.

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que é etnocentrismo?


(…) Ter uma visão de mundo, avaliar determinado assunto sob certa ótica, nascer e conviver em uma classe social, pertencer a uma etnia, ser homem ou mulher são algumas das condições que nos levam a pensar na diversidade humana, cultural e ideológica, e, consequentemente, na alteridade, isto é, no outro ser humano, que é igual a cada um de nós e, ao mesmo tempo, diferente.

Observa-se, no entanto, grande dificuldade na aceitação das diversidades em uma sociedade ou entre sociedades diferentes, pois os seres humanos tendem a tomar seu grupo ou sociedade como medida para avaliar os demais. Em outras palavras, cada grupo ou sociedade considera-se superior e olha com desprezo e desdém os outros, tidos como estranhos ou estrangeiros. Para designar essa tendência, o sociólogo estadunidense Willian G. Summer (1840 – 1910) criou em 1906 o termo etnocentrismo.

Manifestações de etnocentrismo podem ser facilmente observadas em nosso cotidiano. Quando lemos notícias sobre crises enfrentadas por povos de outros países, por exemplo, com frequência estabelecemos comparações entre a cultura deles e a nossa, considerando a nossa superior, principalmente se as diferenças forem muito grandes. Os romanos consideravam todos os povos que não eram romanos “bárbaros”. Após a expansão marítima os europeus passaram a chamar os povos americanos de “selvagens”.

O etnocentrismo foi um dos responsáveis pela geração de intolerância e preconceito cultural, religioso, étnico e político, assumindo diferentes expressões no decorrer da história. Em nossos dias ele se manifesta, por exemplo, na ideologia racista da supremacia do branco sobre o negro ou de uma etnia sobre as outras. Manifesta-se, também, num mundo que é globalizado, na ideia de que a cultura ocidental é superior e os povos de culturas diferentes devem assumi-la, modificando suas crenças, normas e valores. Essa forma de etnocentrismo pode levar a consequências sérias em nossa convivência com os que aparentam diferentes de nós (os outros) e nas relações entre os povos.

Referência

TOMAZI, Nelson. Sociologia para o ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2010.

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