SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Analfabetismo político

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Trabalho em sala de aula, na rede pública, desde o dia quatro de maio de 2009. Não é muito tempo, sei bem. Mas já se passaram quatro escolas e alguns milhares de estudantes. Do maloqueiro ao CDF. A intensidade da experiência que tive e tenho é tanta, tão incrível, que essas pessoas me fazem acreditar que a educação formal tem um papel importante nas sociedades humanas.

Porém, definitivamente ela não é a solução para todos os males. Não é panaceia. Basta atentar para o nível de escolaridade das pessoas que ocuparam a Avenida Paulista no último domingo, em protesto contra o governo. A imensa maioria possui curso superior completo (1). O que não encobre uma retumbante evidência oriunda das suas próprias bocas e dos seus próprios cartazes: lá estavam muitos analfabetos políticos.

Não, não estou dizendo que para manjar de política é preciso aderir à doutrina esquerdista, centrista e/ou direitista. Nada disso. Para não ser um analfabeto político, é preciso buscar informações, sistematizá-las, pensar, refletir e confrontá-las com a realidade. Apurá-las. Desconfiar. Encarar o poder da dúvida, da incerteza e da pluralidade. Ler, minimamente, as referências da área, aquelas pessoas que, independente do lado que defendem, dedicam-se ou dedicaram-se a estudar os fenômenos sociais e políticos. Pelo menos isso.

A imensa maioria dos manifestantes em São Paulo cuspia as suas certezas bizarras, desconectadas com o mundo objetivo. Defesas da sonegação de impostos; odes a linchamentos; confiança em figuras políticas autoritárias, em jornalistas rasteiros e a mais absurda das crenças, a de que o PT está trazendo o comunismo para o Brasil; todas essas alucinantes ideias estavam nas ruas e vêm ganhando terreno no espaço público, com contornos de sabedoria e ativismo. Nesse discurso não há lacuna, não há dúvida, não há a vida e a perspectiva do outro. Há cegueira, brutalidade, violência e uma genuína ignorância.

O futuro é incerto. Eu sigo acreditando na importância da educação formal. Levanto a cabeça todos os dias com essa fé e encaro a labuta. Ao Sol e à sombra, saudoso Galeano. Só que a coisa complica quando alguém sentencia, sob aplausos da massa, que o PCC é um braço armado do PT e que o mesmo PT trouxe 50 mil haitianos para votar no partido. Aí eu me recordo que finalizar um curso superior pode não ajudar a driblar o analfabetismo político. E eu me recordo de algo que venho pesquisando e argumentando: as condições e as vivências fora da escola podem ser tão ou mais condicionantes para a aprendizagem do que a própria escolarização.

Referência

(1) Vale conferir a pesquisa feita por professores da USP e da UNIFESP entre os manifestantes do dia 12 de abril, na capital paulista. Ainda que se possa questionar a metodologia da investigação, os dados são interessantes e ajudam a problematizar os interesses e pensamentos dos participantes. Os dados estão publicados no seguinte endereço: http://www.lage.ib.usp.br/manif/.

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