SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Em defesa do PIBID

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Durante as eleições presidenciais do ano passado, o debate político esteve ferrenho no país. A despeito de todo o ódio e ignorância, algumas pautas concretas estiveram em jogo. É o caso da educação. Muitos diziam que a vitória da continuidade governista deveria prosseguir e ampliar alguns avanços no âmbito educacional – inclusive eu.

De lá para cá, essa expectativa foi se transformando, passo a passo, numa triste ilusão. Dá para dizer que a primeira das cartadas mais do que lamentáveis originou-se na indicação de um Ministro da Fazenda cujos princípios econômicos remetem ao ideário badalado na campanha pela oposição. Agora, não bastasse o obscurantismo do Congresso Nacional e a inércia do governo, além dos sequentes tiros no pé, os projetos educacionais sob as rédeas da União parecem entrar numa rota bastante preocupante.

Noticia-se que os cortes de recursos, efeito do ajuste fiscal para o andar de baixo, atingem em cheio o Ministério da Educação. Informações de bastidores têm dado conta de que um dos programas mais relevantes da educação básica nacional dos últimos tempos, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), receberá um duro golpe das tesouras fazendárias. Mais do que o PIBID, se concretizado o contingenciamento de verbas, quem sofrerá as consequências será o setor mais vulnerável do sistema de ensino brasileiro: a educação pública de larga escala.

Atuei por dois anos como Professor Supervisor do PIBID na escola estadual em que trabalhava. O programa, feito para introduzir os estudantes das licenciaturas na escolarização, antes mesmo da realização dos seus estágios obrigatórios, deu uma nova cara às relações entre universidade e escola. A chegada dos licenciandos no ambiente escolar, no chão da sala de aula, tanto desestabilizou o lugar desconfortável das agruras do ensino público, quanto desestabilizou o pedestal ocupado pela universidade na formação de professores.

Quando uso o termo desestabilizou, refiro-me ao aspecto de ajudar a tirar o caráter imobilizado de ambos os locais. É óbvio que o PIBID tem muitas limitações e que não realizou e nem jamais realizará as mudanças que precisam ocorrer nas escolas e nas universidades. Só que o PIBID, dia após dia, começou a erigir pontes promissoras entre as instituições que podem ser consideradas como parentes próximos. Essas pontes, instáveis que ainda o são, ampliam o espectro de abrangência de uma das pontas fundamentais da aprendizagem, que é a formação de professores. Vão além e ampliam o espectro de possibilidades das próprias instituições de ensino básico, que passam a fomentar e a receber projetos interdisciplinares, interinstitucionais e com benefícios para os seus próprios cotidianos.

Eu desejo com todas as minhas forças que o PIBID, ao invés de minguar e perder importância, caminhando para a sua desintegração, seja tratado com a devida relevância e centralize ainda mais atenções, mais recursos, planos e atinja ainda mais escolas e universidades. Desejo que os estudantes e licenciandos tenham mais chances de se relacionar com o programa. O assalto ao seu funcionamento será uma perda incalculável para o desenvolvimento da formação docente brasileira. E o pior é que é mais fácil acreditar que isso ocorra do que o inverso.

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segunda-feira, 15 de junho de 2015

A vida é desafio

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Não esqueço aquele dia. Depois de muitas aulas, de intenso trabalho, eu estava desanimado. Na época, ia e voltava pedalando do trampo pra casa. O sinal fechou. Olhei para o lado e vi dois jovens, numa espécie de dueto-rap-poesia. Cada um completava a frase do outro.

- Eu vejo o rico que teme perder a fortuna.
- Enquanto o mano desempregado, viciado, se afunda.
- Falo do enfermo, irmão, falo do são, então...
- Falo da rua que pra esse louco mundão!
- Que o caminho da cura pode ser a doença.
- Que o caminho do perdão às vezes é a sentença.
- Desavença, treta e falsa união.
- A ambição como um véu que cega os irmãos.
- Que nem um carro guiado na estrada da vida.
- Sem farol, no deserto das trevas perdidas.
- Eu fui orgia, ego louco, mas hoje ando sóbrio.
- Guardo o revólver quando você me fala em ódio.
- Eu vejo o corpo, a mente, a alma, o espírito.
- Ouço o refém e o que diz lá no canto lírico.
- Falo do cérebro e do coração.
- Vejo egoísmo, preconceito de irmão pra irmão.
- A vida não é o problema, é batalha, é desafio.
- Cada obstáculo é uma lição, eu anuncio.

Eles me viram atento às suas falas. Segundos depois, completei:

- É isso aí, você não pode parar. Esperar o tempo ruim vir te abraçar. Acreditar que sonhar sempre é preciso... É o que mantém os irmãos vivos!

Sorrimos todos. Num encontro tão inusitado, uma velha letra dos Racionais MC’s uniu pessoas que sequer se conheciam. Ao menos por um instante. Na rua e para a rua.

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terça-feira, 2 de junho de 2015

Complexo e Simplória

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Eu e o turno da manhã não nos damos bem. Naquele amanhecer eu estava com o pé virado. Sonolento, saí para tomar um café e tentar melhorar o humor. Na padaria, observava as mesas ao redor. Numa delas, oito pessoas bem vestidas discutiam alguma coisa. Não gostei. Quis largar fora. Quando ia pagar a conta, escutei uma parte do diálogo, proferida por uma moça:

- O Complexo vê comunismo em poste!

Resolvi ficar. Peguei um jornaleco qualquer, certifiquei-me de que dele não jorrava sangue e fingi que degustava o material.

- Sim, e tu, Simplória! Sempre quer complicar tudo! Acho que até comunista é...

Não acreditava no que ouvia. Tinha diante de mim um debate entre um homem chamado Complexo e uma mulher chamada Simplória. Um debate sobre comunismo! Senti que ficaria vermelho, mas tentei disfarçar, para que ninguém desconfiasse que eu guardava uma foice e um martelo na mochila.

- Ah, Complexo... vai te catar! Pô, todos os dias nessa mesa eu te mostro o que acontece no país. O Congresso acaba de colocar na Constituição o financiamento empresarial para as campanhas políticas. Tu trabalha num banco privado, que lucra bilhões! Teu salário é uma merreca! Teu patrão não tá nem aí pra ti, meu!

- E daí. Tô me referindo aos ideais. As ideias são todas comunistas aqui na Lulalândia! Só não vê quem é cego. Os caras tão fazendo a revolução cultural, quando tu menos esperar tu vai ser obrigada a pensar que nem os caras.

- Claro, Complexo. Afinal, todos os dias a gente vê uma campanha na mídia, nos outdoors, enfim, na cultura inclusive, pedindo a coletivização dos meios de produção... Vou te dizer, de complexo tu só tem o nome.

O clima era tenso. Lento, eu permanecia chocado com o embate entre duas pessoas cujos nomes eram tão característicos. Complexo e Simplória, diante das suas falas, não davam nenhum sentido aos seus nomes. De repente, todos se levantaram. Complexo e Simplória, num lindo gesto, saíram de mãos dadas. Surtei. Surtei duas vezes. Respirei fundo e sorri. Sorri pelo casal. Sentado, já sem o jornaleco por perto, finquei posição: Complexo era simplório, Simplória era complexa.

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