SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 2 de junho de 2015

Complexo e Simplória

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Eu e o turno da manhã não nos damos bem. Naquele amanhecer eu estava com o pé virado. Sonolento, saí para tomar um café e tentar melhorar o humor. Na padaria, observava as mesas ao redor. Numa delas, oito pessoas bem vestidas discutiam alguma coisa. Não gostei. Quis largar fora. Quando ia pagar a conta, escutei uma parte do diálogo, proferida por uma moça:

- O Complexo vê comunismo em poste!

Resolvi ficar. Peguei um jornaleco qualquer, certifiquei-me de que dele não jorrava sangue e fingi que degustava o material.

- Sim, e tu, Simplória! Sempre quer complicar tudo! Acho que até comunista é...

Não acreditava no que ouvia. Tinha diante de mim um debate entre um homem chamado Complexo e uma mulher chamada Simplória. Um debate sobre comunismo! Senti que ficaria vermelho, mas tentei disfarçar, para que ninguém desconfiasse que eu guardava uma foice e um martelo na mochila.

- Ah, Complexo... vai te catar! Pô, todos os dias nessa mesa eu te mostro o que acontece no país. O Congresso acaba de colocar na Constituição o financiamento empresarial para as campanhas políticas. Tu trabalha num banco privado, que lucra bilhões! Teu salário é uma merreca! Teu patrão não tá nem aí pra ti, meu!

- E daí. Tô me referindo aos ideais. As ideias são todas comunistas aqui na Lulalândia! Só não vê quem é cego. Os caras tão fazendo a revolução cultural, quando tu menos esperar tu vai ser obrigada a pensar que nem os caras.

- Claro, Complexo. Afinal, todos os dias a gente vê uma campanha na mídia, nos outdoors, enfim, na cultura inclusive, pedindo a coletivização dos meios de produção... Vou te dizer, de complexo tu só tem o nome.

O clima era tenso. Lento, eu permanecia chocado com o embate entre duas pessoas cujos nomes eram tão característicos. Complexo e Simplória, diante das suas falas, não davam nenhum sentido aos seus nomes. De repente, todos se levantaram. Complexo e Simplória, num lindo gesto, saíram de mãos dadas. Surtei. Surtei duas vezes. Respirei fundo e sorri. Sorri pelo casal. Sentado, já sem o jornaleco por perto, finquei posição: Complexo era simplório, Simplória era complexa.

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