SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Rapaz ao telefone

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há pouco mais de seis meses, pego a estrada para ir e voltar do trabalho. Na rodoviária da capital, uma história se repete todas as semanas. Esperando para embarcar, vejo o mesmo rapaz chegar de mansinho falando ao telefone. Sempre ele. Sempre falando ao celular. Por vezes sério, por vezes sorridente, por vezes nervoso.

Todas as semanas, entramos os dois no ônibus. E a conversa do sujeito costuma se estender bastante. Chega a avermelhar os ouvidos alheios. Eu, criativo, ainda que não enxerido, fico fabulando o que se passa naqueles diálogos. Listo algumas hipóteses.

a) Trata-se de um funcionário do Presidente da Câmara dos Deputados, pau pra toda obra, disponível a todos os momentos. Afinal, vai que tenha uma votação para ser refeita de uma hora para outra, um regimento para driblar e etc.

b) Eis um agente da oposição, em constante diálogo com os aliados do governo para derrubar o próprio governo.

c) Pode ser um interessado no destino da Grécia, tentando convencer alguém de que a austeridade só não leva os ricos para o buraco.

d) Talvez, quem sabe, seja apenas alguém que tenha medo de estrada e precise de alguém que o ajude a buscar serenidade.

De todas as imaginações esquisitas que já me surgiram, a mais simples deve ser a verdadeira. O rapaz deve estar apaixonado. Paixão arrebatadora. Porém, dadas as obstinadas conversas, sobra tempo para questionar: será mesmo paixão, ou será uma obsessão? Amor ou perseguição? Afeto ou vigilância?

Eu é que não vou me meter. Nem investigar. Torço para que sejam telefonemas amorosos e para que as orelhas do rapaz não se deformem em função do bendito aparelho. Só que, em tempos de confusão de ideias e conceitos, todo cuidado é pouco.

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