SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Parcelamento seletivo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Quando se trabalha o mês inteiro e se recebe apenas uma parte do salário, a coisa fica feia. Não que a coisa, de modo geral, esteja uma maravilha – longe disso. Mas trabalhar e não receber apresenta pelo menos dois caminhos: o da revolta e da mobilização coletiva e o da reflexão e debate sobre os motivos das coisas acontecerem como acontecem.

Para que o primeiro caminho não se torne uma obrigação, uma via de mão única, visto que as contas dos trabalhadores não esperam sem cobrar juros, o governo gaúcho poderia expor todo o quadro orçamentário do estado, conclamando a população para conhecer a realidade da arrecadação de impostos, quem paga mais e de qual tipo se paga mais tributos. Discutir os mecanismos de combate à sonegação e etc.

Seria pouco. Precisaria parcelar também os altos salários do legislativo e do judiciário, mesmo que ambos representem, na totalidade das finanças públicas, uma parte numericamente pequena. Sem que isso deixe de ser verdade, o lado mais relevante da verdade é o que repousa na capacidade de compra que esses altos salários possuem, mesmo sendo minoria. Os que mais ganham, os poucos afortunados, recebem integralmente e nunca com sustos. Não precisam atrasar contas ou ficar com a geladeira vazia.

É fato: os maiores salários do setor público do Rio Grande do Sul são do legislativo e do judiciário. O grosso da grana, o executivo, comporta uma miríade de funções passíveis de oferecimento pelo ente público. Porém, basicamente, professores e agentes da segurança pública engrossam o caldo. Aposentados e servidores da saúde também somam ao grupo daqueles que são considerados adequados para não receber os seus vencimentos integrais nas datas regulares. São aquelas pessoas que atuam nas funções mais práticas das nossas vidas. São nossos professores. Nossos enfermeiros. Nossos avós, pais e parentes em geral. Os que fazem o cotidiano das ruas.

A empresa de comunicação hegemônica nestas bandas – há de se dizer, investigada pela Polícia Federal (Operação Zelotes, alguém lembra?!) – divulga a cartilha do governo. Critica os antecessores e repete o mantra: acabou o dinheiro. Dá aval para o processo de privatização de fundações e encerramento de autarquias estaduais. Autoriza a ideia de radicalização da crise, para ajudar a diminuir o papel do Estado. Em nenhum momento indaga às autoridades: por que professores, aposentados, enfermeiros e policiais podem ficar sem os seus vencimentos? Por que vocês, que andam de terno e têm mandatos temporários, escolhidos por todos nós, não entram nessa de parcelamento? Por que o sacrifício deve ser feito sempre pelos mesmos?

Lidar com a crise parece uma questão mais de política do que de números. Questão de prioridades. Questão de vergonha na cara.

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