SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ciclista suspeito

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Em meio ao parcelamento dos salários dos servidores estaduais e ao crescimento da violência em Porto Alegre, voltava eu do Gigante da Beira-Rio. Pedalando, como faço há muitos anos. Com ou sem medo, não dá pra deixar de viver. Voltava para casa feliz com mais uma vitória sobre um adversário paulista e desejando que a minha cidade não sofresse as intensas agruras de São Paulo.

Já que a entrevista do meu treinador nunca é lá essas coisas, voltava ouvindo um Jorge Ben. No embalo do “Engenho de Dentro”, viajava num chope gelado, numa roda de samba carioca, feita daquele cheiro de mar. Sonhava acordado com menos sofrimento. Foi quando parei no sinal. Senti que no carro ao lado ocorria uma conversa meio exaltada. Parei no que imaginei ser o ponto cego deles. Os rapazes gesticulavam bastante, quase exasperados.

A música seguia quando escutei o teor do diálogo. Um dos rapazes defendia a necessidade de cagar a pau qualquer suspeito, meliante ou infrator, de preferência acabando com as suas vidas. Afinal, segundo ele, o Estado não seria capaz de fornecer segurança aos indivíduos. O outro ponderava, dizia que vingança não é justiça e que num contexto de olho por olho e dente por dente, todos acabaríamos cegos e banguelas. Além do que, o Estado deveria parar com o genocídio nas periferias. Tributar mais os bilionários e produzir políticas sociais. Concordei com a cabeça. Sorri com a sensatez do rapaz.

De imediato, o sambinha aos meus ouvidos ficou meio tenso. Falava que o Tiranossauro Rex mandara avisar alguma coisa. Que pra acabar com a malandragem, teríamos que prender e comer todos os otários. A minha espinha gelou. Olhei para os lados, desconfiado. Algumas pessoas na parada de ônibus me olhavam assustadas e cochichavam entre si. Planejavam algo. Devia ser pela minha calça larga. A beleza restrita, talvez. Tornei-me um ciclista suspeito.

Felizmente, os dinossauros não estão mais entre nós. Ou será que estão?

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