SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Dia de fúria

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Naquele dia Complexo acordou furioso. Sim, Complexo era o nome do rapaz. Naquele dia ele poderia mesmo se chamar “Fúria”, “Ódio” ou “Taurus Carregada e Coçando na Mão”. Faria mais sentido. Como um homem de bem, arrumou-se, tomou um café e foi trabalhar.

Bancário há anos, sentia a cidade ferver sem pudores no caminho para a agência. O Sol deitava em berço esplêndido, apenas para poucos. As buzinas produziam uma sinfonia desgrenhada. Milhares e milhares de pessoas suavam em busca de um lugar ao Sol, enquanto aspiravam densas fumaças industriais. E, claro, havia os ciclistas.

Complexo costumava incluir os ciclistas na categoria “esquerdistas-comunistas-vegetarianistas-cotistas”. Diga-se de passagem, sua categoria analítica predileta. Por vezes, acrescentava algo mais. Algo do tipo: “tudo puto-mulherzinha-arrombada”. Naquela manhã, Complexo não se aguentou. Ao se deparar com uma vida pedalante, fez menção de jogar o carro na direção daquele “barbudo-cabeludo-comunista-vagabundo-parasita-petista”. Realizou o que vinha sonhando há semanas.

Por sorte, o pedalador escapou. Não sem derrapar e cair, vendo suas coisas jogadas ao chão. Complexo seguiu satisfeito. Queria mesmo é sorrir. Só que o sinal vermelho (tudo era vermelho naquela porra!) e os rivais no famoso “Grande Prêmio Automobilístico Ida ao Trabalho na Metrópole dos Machos” não o deixavam em paz. Era gente com carro de pobre na sua frente; o “negão-motoboy-vagabundo-bandido” por entre os carros de verdade; aquela “mina-piranha-gostosa” que não sabia dirigir e atrapalhava tudo. Além do maldito sinal vermelho – porra de sinal vermelho!

Quando chegou ao banco, Complexo tinha redobrado a sua fúria. Odiava com todas as forças esse país de “comunistas-esquerdistas-feminazis-veadistas-vegetarianistas”. Nas horas do cigarro e do cafezinho, Complexo berrava sem parar. Cuspia profetizando que não poderia deixar sujeitos como aquele ciclista “maconheiro-comunista-veado” tomarem conta da sua pátria, outrora repleta de ordem e progresso.

Todos na agência davam de ombros. O que fazia Complexo triplicar a sua fúria. Eram todos “comunistas-sindicalistas-lulistas infiltrados”. Acreditava que planejavam derrubá-lo e, assim, destituir a última resistência ao bolivarianismo no sistema financeiro. Ele lutaria. Com ódio. Ah, com muito ódio e com o vigor típico dos machos sem frescura.

Tomado por uma enxaqueca lancinante, Complexo girou a chave da porta de casa. Havia sobrevivido a mais um dia de trabalho no que chamava de “Comuna dos Banqueiros”. Respirou fundo. Estava em casa. Estava na sua ilha da magia, o bastião do mundo livre, o refúgio que a escória humana não acessava, cujas grades e aparelhos de vigilância garantiam a recompensa pelos seus méritos de cidadão de bem.

Em casa, ligou a TV. Distraído, pensou na sua mulher. Chamava-se Simplória e estava visitando uma amiga distante. Pensou no segredo que escondia dela. Sempre pensava nele. Complexo tinha o hábito de pegar no sono com uma sentença da esposa na cabeça: “De Complexo tu só tem o nome, meu amor. Fica esperto, porque tu não tá entendendo nada de nada”. Era o seu mantra de ninar, aquilo o acalmava para dormir. Era, também, o seu maior segredo.

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