SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Paris, 2015

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Paris, 2015. Duas matanças de caráter terrorista. Tristes. Injustificáveis. Se a ideia for entender os acontecimentos, acho que será preciso ir um pouco além do que oferece a cobertura minuto-a-minuto-por-uma-semana da grande mídia. A não ser que se tenha interesse num grau elevado de sensacionalismo e irreflexão. Mais do mesmo.

Acompanhe a entrevista completa do Professor de Relações Internacionais da Unisinos (RS), Bruno Lima Rocha, sobre a origem e as principais características do Estado Islâmico

Iraque, 2005. Seria possível e até necessário ir mais longe do que isso. Porém, seguir os passos das análises do jornalista Patrick Cockburn pode ajudar, através da obra "A origem do Estado Islâmico". Segundo ele, a consolidação do poder do Estado Islâmico (ISIS) está ligada às intervenções militares ocidentais, sobretudo estadunidenses, no Oriente Médio. Trata-se de uma fissura da Al Qaeda, cuja doutrina unifica religião, militarismo e política, numa abordagem semelhante ao que rege o governo da Arábia Saudita – aliado histórico dos Estados Unidos.

Parte da Síria e do Iraque, 2015. Dominadas pelo ISIS, tais regiões são convertidas ao Califado extremista na base da força, do aniquilamento de outras vertentes muçulmanas que não a sunita, da tributação e do ataque ao patrimônio histórico da região - que guardaria uma espécie de memória a ser rejeitada. Só que também se concretiza o poder do ISIS através da prestação de serviços públicos básicos à população, como água e eletricidade, deixando tudo mais complexo.

Mundo, daqui por diante. De maneira contundente, o ISIS ataca muito mais do que as inocentes pessoas mortas: ataca grande parte dos valores idealizados pelo ocidente. Para isso, a França é um alvo perfeito. Local histórico de lutas por direitos civis, políticos e sociais, de defesa do Estado laico. Mas, não nos esqueçamos, nem por isso menos colonialista; nem por isso menos repleto de contradições internas.

O ponto que me faz temer o futuro mais do que esse próprio preocupante presente gira na roda das contradições internas, tanto dos territórios islâmicos (nem todos nas mãos do ISIS), quanto do ocidente. Se o extremismo islâmico é um perigo evidente, não deixa de ser um perigo evidente a islamofobia ou o crescimento do fascismo do século XXI, na civilização ocidental.

Serão capazes de se reorganizar e ganhar força entre os islâmicos os grupos ponderados e que interpretam o profeta Maomé de modo humanista e conciliador, enfrentando a barbárie praticada pelo ISIS dentro e fora dos seus territórios? Seremos capazes de fazer frente aos nossos governos ocidentais e seus grupos de apoio, sempre buscando capitalizar seus interesses geopolíticos e econômicos em qualquer parte "explorável" do planeta, doa a quem doer? Conseguiremos fazer dos valores ocidentais mais reais do que ideais, ou mesmo mais universais e menos seletivos?

Não dá pra ter certezas. Dá pra imaginar, contudo, como vai ser se o baile seguir tocando a mesma música com os mesmos dançarinos em movimento. A Guerra ao Terror e a Guerra ao Ocidente com efeitos semelhantes, espalhando muito sangue, fortalecidas internamente pelo medo, fomentando mais e mais ódios e segregações.

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