SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Desigualdades, escola e sociologia

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Acabaram as férias e o carnaval. Mais um ano letivo está para começar. Como amante da sala de aula, todo ano eu tento iniciar os trabalhos com os estudantes refletindo sobre dois pontos específicos, ainda que, de certa forma, entrelaçados: um científico/sociológico e outro pedagógico.

Desde que me tornei professor, os temas das desigualdades e das relações entre as classes sociais e a educação têm me tomado as atenções. Virei professor com a esperança de ajudar a construir um mundo mais justo e fraterno, com mais oportunidades para todos. Tanto na escola como na universidade, essa esperança não se confirmou automaticamente. Pelo contrário, as instituições educacionais que vivenciei e vivencio de perto me mostram que a educação não é uma panaceia, não é um remédio para todos os males.

Da intensa vida de docente do ensino fundamental, médio, EJA e ProEJA, técnico integrado ao médio e, hoje, do ensino superior, posso dizer que brotam muitas das minhas inquietações sociológicas. Agora, na UFFS, venho tentando tornar real um projeto de pesquisa mais amplo, cujo propósito sintetiza algumas preocupações: qual é o papel dos sistemas de ensino, no Brasil, quanto à gênese e a legitimação das desigualdades? O que é preciso para ter êxito na educação formal? Como aqueles que o alcançam incorporam as disposições necessárias para o sucesso? Qual a hierarquia valorativa, uma espécie de gramática moral, presente e difundida nos nossos estabelecimentos de ensino?

Com essas e outras indagações, sigo dentro da sala de aula. Não quero sair dela. Na educação formal, é lá que a esperança tem lugar, mesmo que cheia de obstáculos. É lá que a voz dos estudantes precisa ganhar força. Sobretudo é lá, para mim, que pode existir um espaço privilegiado para o conhecimento se fazer prática, o que exige de nós criatividade e dedicação. Sigo tentando. Sigamos juntos.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Tragédias naturais, Estado e mercado livre


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Depois que voltou a energia elétrica, 46 horas depois de uma das tempestades mais violentas que presenciei, os comentários nas redes sociais ainda estavam fervendo. Das duas, uma: um grupo lembrava que na periferia da capital a ausência de água e luz é cotidiana; outro grupo apontava os defeitos do poder público em remediar a situação.

Por aqui, estive refletindo sobre como ocorrências trágicas tipo a de sexta-feira podem nos tentar a encontrar a origem dos nossos problemas sociais somente em um lado da moeda. No nosso caso, tendo o Estado como alvo. Não que eu veja no Estado o baluarte das virtudes brasileiras. Longe disso, afinal, o Estado, em grande parte das vezes, ratifica privilégios e se mostra uma instituição que auxilia a reprodução das estruturas de desigualdade de oportunidades.

Ora, é verdade que o poder público é (i)responsável pela estrutura precária dos nossos centros urbanos. Também parece ser verídico o fato de que, quando problemas de abastecimento de água e luz afetam as classes médias e altas, o Estado se dedica mais para resolvê-los, na comparação com problemas semelhantes nos bairros de classes populares. Disso alguns retiram a posição extrema de que seria, portanto, um passo em busca de soluções reduzir o Estado ao mínimo, privatizar o que for possível e fomentar uma sociedade em que o mercado livre organize as relações sociais de maneira voluntária e, assim, eficaz.

Demonizar o Estado e vangloriar o mercado, “eficiente por natureza”, acaba parecendo um argumento irresistível. Será? Tudo isso me faz lembrar uma história contada pelo filósofo Michael Sandel numa de suas interessantes obras*. Sandel provoca os defensores do mercado absoluto e das pretensas trocas livres retomando os efeitos de um tornado no sul dos EUA. Uma semana após a devastação da região, comerciantes da vizinhança migraram provisoriamente para o local devastado, oferecendo os seus serviços. Só que, defensores da “livre troca”, passaram a cobrar preços exorbitantes. Oferta e demanda. A lei invisível. Pague quem quiser/puder.

É isso, então? Cobrar de pessoas que estão sem energia quatro ou cinco vezes mais pelos sacos de gelo é o caminho para uma sociedade próspera? Isso significa liberdade? Alguns podem até achar que sim. Creio, no entanto, que alguma instância institucional de regulação é indispensável. Não o Leviatã hobbesiano. Nem um Frankstein de competência duvidosa, vestindo a camisa verde e amarela. A arquitetura prática dessa instituição é um dos desafios do nosso século, do qual depende a sobrevivência das democracias.

* "Justiça: o que é fazer a coisa certa?", publicado no Brasil pela Civilização Brasileira.

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