SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 17 de março de 2016

Mais democracia e menos ódio


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Nosso país está em chamas. Eu achei um escárnio, uma vergonha a manobra política do Governo Federal, colocando Lula como ministro. Eu não sei se ele é corrupto ou não. Sou um crítico dos governos petistas por vários motivos, mas não posso dizer se Lula é ladrão, porque não tenho conhecimento para isso – pelo menos até agora. Assim como nos casos de Aécio, Cunha, Dilma e etc. Investigar de maneira transparente e com amplo direito a defesa é o mais democrático a fazer. A corrupção tem que ser combatida.

É muito preocupante a paixão e o ódio ao PT. Paixão e ódio são sentimentos explosivos, nada racionais. Política tem um pouco disso, sim. Mas precisa ter a razão como principal ferramenta dos debates. A gente não pode sair pela rua cuspindo ódio para as outras pessoas, só porque elas parecem petistas, tucanas ou qualquer outra coisa. Isso não tá certo. Isso é loucura. Até porque a grande maioria de nós, que vive o Brasil, sofre com problemas cotidianos semelhantes.

Acho importante protestar, sempre achei, lembram? E protestar, inclusive, contra coisas que eu não protestaria. Todos podemos e devemos. Mas intimidar as pessoas que não concordam com o seu protesto não tá certo. Bater em alguém que usa barba, camiseta vermelha ou cabelo comprido é tão errado quando bater em alguém que não tem barba, usa camisa engomada e cabelo feito em cabeleireiro caro. Isso é loucura.

Cada um de nós, numa democracia, por mínima que ela seja, tem o direito de ter uma posição política. O que a gente não deve é botar todos os opositores no mesmo saco, quando nos convém. Eu, como um cara de esquerda, preocupado em diminuir as desigualdades sociais e aumentar as oportunidades para todos, não posso dizer que todas as pessoas de direita são corruptas, fascistas, imundas e que merecem morrer. Isso não leva a lugar nenhum. Interdita a democracia e a própria vida social. Não faz sentido que alguém me chame de petista, comunista ou qualquer outro ista e me associe diretamente à corrupção, roubalheira ou autoritarismo de esquerda.

Acho que a gente precisa conhecer melhor as coisas. Saber bem o que é ser de direita, o que é ser liberal, quais são as ideias desse campo político. Saber bem o que é ser de esquerda, comunista, socialista ou social-democrata. Mas, mais do que isso, saber que entre as duas pontas há um universo. Há muita coisa a se pensar, a construir, a articular e propor. Nenhum extremismo é democrático. Precisamos ultrapassar a taxa de 8% de pessoas que leem e entendem bem o que leram, fazendo relações e analisando criticamente as coisas. Dependemos disso.

Todos nós queremos justiça e que a Justiça, uma instituição do Estado, funcione bem. Só que a gente sabe que ela não funciona bem há tempos. A Justiça é um dos nossos grandes problemas. Vocês lembram o Amarildo? A Cláudia, arrastada pela PM no RJ? As invasões em sedes de movimentos políticos nas jornadas de 2013? As prisões arbitrárias de ativistas? Os milhares de casos de pessoas, em geral pobres e negras, que não conseguem se defender de acusações e estão presas nas masmorras brasileiras mesmo sem a condenação oficial efetivada?

Por essas e outras, assim como o poder político das sociedades modernas (Executivo e Legislativo) deve ser fiscalizado com verdadeiro controle social, a Justiça também. Longe de mim questionar, sem provas, a legitimidade ou não dos julgamentos dos magistrados. Mas controle social e fiscalização, para servidores públicos extremamente bem remunerados, é uma obrigação na democracia. Não podemos endeusar servidores do Estado. Eles são pessoas. Têm preferências políticas, no entanto não deveriam mostrar as suas preferências aos quatro ventos. Justiça combina com discrição. A ética tem que ser a ética da responsabilidade, e não a ética da convicção, para lembrar de Max Weber.

Por fim, faço um apelo. Tenho visto um número crescente de ex-alunos que começam a acreditar em discursos autoritários como solução para o país. “Pega, mata e come” pra todo lado, como se isso resolvesse algo, sendo que isso, na verdade, é um baita tiro no pé. Lembrem que vocês podem não ser pegos hoje, mas amanhã a tirania pode se virar contra vocês. Só com o aprofundamento da democracia, com participação popular, controle social do orçamento público, com racionalidade no debate político, informação e conhecimento, é que alguma coisa melhor pode surgir. Aumentando a repressão e o autoritarismo, soltando as bestas que habitam a nós todos, nós estaremos na merda de vez. Bater e cuspir nos outros é ignorância fascista, não é ser politizado.

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terça-feira, 15 de março de 2016

O abandono da razão no debate político


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A vida inteira eu escutei: “Política, religião e futebol não se discute”. Isso sempre me incomodou. O argumento dizia que não deveríamos conversar sobre esses temas porque eles seriam de foro íntimo, as escolhas nessas áreas seriam “gostos pessoais”. Isso também sempre me incomodou.

Ok, eu posso aceitar que futebol e religião são assuntos espinhosos, que contam com a fé e a torcida como combustível. Porém, a política não. Da política dependem os rumos da vida de todos nós. Da política depende se nós vamos ser mais ou menos livres, teremos oportunidades mais ou menos desiguais ou estaremos mais ou menos seguros. Da política depende se poderemos falar sobre o que quisermos, criticar, amar quem quisermos, ficar pela rua até altas horas, ganhar um salário justo, buscar a oportunidade de economizar e empreender ou usar a roupa que bem entendermos. E essas são apenas algumas questões.

É, portanto, mais do que necessário discutir, conversar e debater sobre política. Ponto para o Brasil atual? Sem chance. O que nós estamos fazendo não é debater, discutir ou conversar sobre política. Nós estamos fazendo exatamente como fazemos nos estádios de futebol ou nas igrejas. Nós estamos tomados pela fé, pela torcida ou pelo emocional. É óbvio que todas as coisas da vida batem em nós também pelo lado emocional. Faz parte. O problema parece ser o completo abandono da razão como ferramenta no debate político. Sem adicionarmos às nossas opiniões políticas fatos, estudos, informações e, assim, nos tornarmos mais conhecedores dos acontecimentos, sem sequer tentarmos isso, aí mover-se na política tende a ficar, enfim, impraticável.

Quando eu participava de torcidas de futebol, me dei conta de que ali não havia nenhuma racionalidade. Havia fé, torcida, emoção, disposição, qualquer coisa, menos racionalidade. Uma pequena faísca poderia virar grave violência, entre si ou contra o rival. Insisto que, se continuarmos confundindo uma crítica política da situação histórica brasileira, com uma crítica à política de modo geral, estaremos cavando um buraco muito profundo. Nele, o fascismo costuma fazer a festa.

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sexta-feira, 4 de março de 2016

Uma democracia de baixa intensidade


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia de hoje, três das instituições mais relevantes das sociedades modernas mostraram bem a sua cara no Brasil. E é uma cara preocupante, a cara do que Boaventura de Sousa Santos chamou de “democracia de baixa intensidade”.

Na política, um ex-presidente com forte apelo popular é ouvido pela Polícia Federal. Até aí, faz parte. Ninguém deve estar acima da lei. Se há indícios e suspeitas, como existem, há de se investigar e, depois de garantidos os procedimentos legais de defesa, atribuir as devidas responsabilidades. Mas o que se viu foi a polarização tomar conta. O ódio visceral ao PT babando e mordendo; o amor visceral ao PT babando e mordendo. Nas ruas, a pancadaria prestes a explodir. Em Brasília, a briga oligárquica sangrenta pelo Poder Executivo fervilhando.

Na imprensa, um verdadeiro espetáculo desvairado, repleto de adjetivos, opiniões e pouquíssima informação. Colunistas acusando como juízes. Jornalistas parecendo crianças que ganharam um brinquedo novo. Anúncios de editores de grandes veículos, ainda na madrugada, de que o dia seria belo e divertido. Capas de revistas semanais com verdadeiras sentenças expostas. Um festival ávido pelo sensacionalismo, ávido por fazer aquilo que não é da alçada jornalística: julgar e condenar as pessoas. Informar com rigor, nada.

No Judiciário, muita confusão. Ministros do STF condenando a forma coercitiva de chamar um ex-presidente para depor. Um juiz e seus parceiros, com operações que, curiosamente, sempre vazam para a grande imprensa momentos antes de acontecerem, colocando as vestes de justiceiros e ganhando ares de autoridades máximas da nação. A seletividade imperando, pois o “Merendão”, o “Trensalão”, o “Mensalão Tucano”, a “Lista de Furnas” e tantos outros escândalos não se movem. O braço direito do Estado, como diria Pierre Bourdieu. Aqueles que recebem salários extravagantes (acima do teto do serviço federal). Aqueles que recebem auxílio-moradia com valores quatro vezes maiores do que o salário médio do brasileiro.

Não parece haver mais espaço para golpes militares. No século XXI, o sequestro da democracia liberal – que já tem problemas diversos – tem tudo para ser orquestrado por dentro das próprias estruturas democráticas. Vamos construindo um cenário ainda mais autoritário, cuja democracia perde, passo a passo, em intensidade. Direitos civis e sociais perdem ainda mais força. Sangram os de sempre.

No fim, o perigo mais preocupante pode advir de algo que vem sendo engendrado há anos. No desespero, ao invés da crítica política, da busca por soluções e novas feições para a política, pode tomar conta a crítica à política. E a crítica à política é sinônimo de pensamento único, de salvacionismo autoritário. Aí ferrou de vez.

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terça-feira, 1 de março de 2016

Mais fatos e menos boatos

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma das coisas mais constrangedoras das redes sociais é a quantidade absurda de boatos e mentiras deslavadas compartilhadas pelos nossos contatos - inclusive por pessoas que gostamos e admiramos. Essa tendência é realmente preocupante. Parece demonstrar, em alguma medida, o desinteresse completo por uma informação precisa, que seja condizente com a realidade. O que as pessoas parecem querer é apenas afirmar as suas ideias com chamadinhas bonitinhas e polêmicas.

O saudoso escritor italiano Umberto Eco e o reconhecido escritor espanhol Javier Marías foram mais longe na crítica: disseram, em entrevistas, que a internet deu voz e organizou a imbecilidade. São afirmações fortes, mas que, para a tristeza geral, fazem sentido. Uma tarefa urgente para aqueles que gostariam de ver a internet repleta de informação de qualidade e redes de conhecimento é insistir sempre na busca pela informação precisa e contra a disseminação da boataria e da mentira.

Tarefinha inglória, ainda que fundamental: separar o joio do trigo. Buscar mais fontes. Procurar no Google. Investigar. Comparar notícias. Comparar a credibilidade de quem publica. Enfim, aprender a pesquisar na internet, de modo a acrescentar algo ao mundo virtual, e não rebaixá-lo ao universo da desinformação autoproclamada. Que dureza!

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